domingo, 19 de fevereiro de 2017

Demônio, O Rei das Trevas (Prime Evil, EUA, 1988)


Tranqueira americana que recebeu o manjado e totalmente sem criatividade título nacional “Demônio, O Rei das Trevas” (Prime Evil, 1988), esse filme obscuro dirigido por Roberta Findlay foi lançado no Brasil em VHS pela “Alvorada”, numa época que nossas locadoras de vídeo eram infestadas de inúmeras bagaceiras descartáveis realizadas por desconhecidos e com elencos inexpressivos.
Durante a peste negra que arrasou a humanidade no século XIV, uma ordem medieval de monges renegados da Igreja Católica, uma vez revoltados contra Deus, criou uma seita satânica que realizava rituais de sacrifícios humanos de parentes de sangue em troca de longevidade e bens materiais. O culto demoníaco se manteve por séculos e as ações se voltam para o tempo presente (final da década de 80, época de produção do filme) na cidade de Nova York, liderado pelo sinistro padre Thomas Seaton (William Beckwith).
Um dos membros da seita é George Parkman (Max Jacobs), que precisa manter seu pacto com o diabo de longevidade e riquezas, além de interesses pessoais no controle do poder no culto. Ele planeja oferecer em sacrifício sua neta Alexandra (Christine Moore), que trabalha num abrigo para jovens delinquentes. Porém, mortes violentas de pessoas próximas dela despertam a atenção da polícia, sob a investigação do detetive Dann Carr (Gary Warner), e também de seu noivo Bill King (Tim Gail), que tenta protegê-la da conspiração demoníaca. Em paralelo, uma jovem freira, Irmã Angela (Mavis Harris), se oferece para ajudar a igreja se infiltrando na seita para tentar destruí-la.
O filme é uma tranqueira produzida diretamente para o limbo dos esquecidos. O roteiro é ruim, com uma história óbvia de seita satânica e sacrifícios humanos, apostando unicamente em velhos clichês do gênero. Como todo filme de horror bagaceiro, temos elementos que merecem citação como a presença de belas mulheres nuas oferecidas ao “rei das trevas” (do patético título nacional), algumas mortes com discretas doses de sangue (numa época sem os efeitos vagabundos de computação gráfica dos tempos modernos), e ainda a aparição rápida do próprio demônio em efeitos extremamente toscos, e por isso garantindo algum divertimento rápido. Tem também aquela atmosfera característica dos saudosos anos 80 que inevitavelmente torna o filme datado. De resto, o excesso de clichês, os atores medíocres e a história desinteressante fazem de “Demônio, O Rei das Trevas” apenas mais um filme descartável, que curiosamente foi lançado por aqui na saudosa época do mercado de home vídeo.
(Juvenatrix – 19/02/17)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Espíritos do Demônio (Evil Spirits, EUA, 1990)


Lançado no Brasil em VHS pela “NCA”, “Espíritos do Demônio” (Evil Spirits, 1990) é um típico filme do saudoso período entre as décadas de 80 e 90 do século passado, uma época infestada de produções situadas no sub-gênero “slasher”, com mortes violentas creditadas às ações de um assassino misterioso.
Com direção de Gary Graver, é apenas mais um filme mediano perdido numa imensidão de similares e esquecido no limbo, mas que tem uma vantagem significativa através de uma homenagem ao gênero na escolha de um elenco repleto de nomes nostálgicos como Karen Black, Michael Berryman, Virginia Mayo, Martine Beswick, Robert Quarry e Yvette Vickers, entre outros, que foram rostos conhecidos em diversas pérolas do cinema fantástico bagaceiro.
A misteriosa Sra. Ella Purdy (Karen Black, de “A Mansão Macabra”, 1976), é proprietária de uma pensão onde vivem beneficiários da Previdência Social, cujos cheques pagos pelo governo americano são depositados mensalmente em sua conta bancária. Entre os pensionistas estranhos, temos o escritor Sr. Balzac (Michael Berryman, de “Quadrilha de Sádicos”, 1977), um homem bizarro que gosta de observar os quartos vizinhos por orifícios secretos nas paredes; a sensitiva Vanya (Martine Beswick, de “Mulheres Pré-Históricas”, 1967), que gosta de realizar sessões espíritas; e o bêbado inveterado Willie (Mikel Angel, que também é o roteirista do filme), que é o responsável por algumas situações cômicas por causa do excesso de consumo de álcool. Temos ainda a bela jovem Tina (Debra Lamb), que é muda e fica dançando o tempo todo mostrando seu corpo escultural, e o casal de idosos recém chegados, John e Janet Wilson (Bert Remsen e Virginia Mayo, respectivamente), que logo se sentem desconfortáveis na nova moradia.
Os problemas se iniciam na ocorrência de assassinatos sangrentos na pensão, com os cadáveres sendo enterrados no quintal, exalando um odor pútrido que desperta a atenção de uma vizinha interpretada pela veterana Yvette Vickers (de bagaceiras divertidas dos anos 50 como “A Mulher de 15 Metros” e “O Ataque das Sanguessugas Gigantes”). O desaparecimento dos pensionistas também intriga o fiscal da previdência social Lester Potts (Arte Johnson), que decide fazer uma investigação particular.
“Espíritos do Demônio” é somente outro filme comum com mortes misteriosas e razoáveis doses de sangue com olhos perfurados, gargantas dilaceradas e golpes de machado na cabeça. A história não tem novidades e pelo contrário, está repleta de clichês e previsibilidade, características que inevitavelmente condenam o filme ao esquecimento. Porém, existe um diferencial que é o elenco de veteranos, pois além dos já citados na sinopse, ainda conta com nomes como Robert Quarry, que esteve em vários filmes preciosos como “Conde Yorga, Vampiro” (1970), “A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes” (1972) e “A Casa do Terror” (1974). E Anthony Eisley, que fez apenas uma ponta como um detetive da polícia, e esteve nas divertidas tranqueiras “A Mulher Vespa” (1959), “Os Monstros da Noite” (1966), “Jornada ao Centro do Tempo” (1967) e “Dracula vs. Frankenstein” (1971).
(Juvenatrix – 18/02/17)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Diário da Guerra de São Paulo

Diário da guerra de São Paulo, Fernando Bonassi. Fotos de João Wainer. 104 páginas. São Paulo: Publifolha. Lançado em 2007.

De forma involuntária e inesperada tive a fortuna de achar este Diário da Guerra de São Paulo, na livraria Temos Livros, ponto tradicional dos antigos fãs de ficção científica, no Centro da capital paulista, em 2007. E só lá, não vi em mais nenhum outro ponto de venda.
Logo no início o autor alerta: “Aviso aos chatos. Livros como este são escritos para que histórias como estas não aconteçam.” É um tipo de desculpa aos seus leitores e convivas pela ousadia de escrever uma história de ficção científica? Seja como for, anuncia sua premissa de como encara o gênero, numa linha que segue os passos de Ray Bradbury, para quem cabe ao gênero evitar os nossos possíveis erros no futuro.
Como anuncia o título a novela trata de São Paulo, aqui chamada de “ex-cidade”. Num futuro incerto, mas não muito distante lemos o diário de um adolescente, um “neutro” que ainda não tomou partido entre os adultos ou as crianças, a grande clivagem social deste mundo. É que em uma cidade sitiada e em ruínas, existem várias guerrilhas de crianças abandonadas, fortemente armadas e com um apetite voraz em matar – e eventualmente também comer – os adultos, a quem culpam por abortarem os seus futuros.
São Paulo, metrópole que virou uma “ex-cidade” nas palavras do nosso confessor sem nome, é um caos completo, sem sistema de transporte, com boa parte de suas ruas e pontes destruídas e com comunicações apenas clandestinas feitas por grupos particulares. Há extrema falta de alimentos, roupas e remédios. E talvez o mais dramático seja as variações de temperatura, que se situam entre 72o C de dia a -112o C à noite. Uma amplitude térmica semelhante à encontrada em Marte. Chove frequentemente também, mas cai mais ácido do que água. E quando há um tempo aberto, o perigo é a da radiação solar. Colocar os pés na rua é um risco de morte iminente, em meio a tiroteios inesperados, assaltos, sequestros e  balas perdidas.
Nos arredores do que sobrou de São Paulo, existem cidades que ainda são minimamente viáveis. Só que elas construíram barreiras para impedir o acesso dos refugiados. Muitos tentam entrar e são rechaçados ou então se alojam em barracas em suas cercanias. Para entrar numa dessas cidades e ser aceito é preciso que seja convidado por alguém que já mora em uma delas. Os pais do narrador temtam, desesperadamente, contactar um parente para poder sair do inferno paulistano.
É curioso que também os nomes dos bairros, avenidas, praças etc de São Paulo não são nomeados, mas apenas como uma referência indireta é que se sabe que o “Centro Exato” é a Praça da Sé e o “Planalto” é a região da Avenida Paulista, por exemplo. No fim do livro, inclusive, há uma mapa em duas páginas que dão uma idéia do que como foi renomeada a “ex-cidade”.
Um trecho do clima angustiante da história e a citação de uma das partes conhecidas da cidade é ilustrado neste trecho:

“Na região dos túneis soterrados sob a grande artéria oeste-centro, o asfalto derretido avança sobre as calçadas esburacadas, formando esculturas de ondas secas. Entulho e sucata cobrem o passeio, bloqueando a passagem pelo meio dele, me obrigando a abandonar as marquises, ziguezagueando pelas carcaças dos veículos abandonados amontoados, me expondo às ‘brincadeiras’ dos atiradores drogados ou apenas malucos nas janelas dos edifícios.
“Rajadas de balas me seguiram a maior parte do tempo.
“Pausa para descanso. Dois tabletes químicos de leite e meio litro de água filtrada.” (página 69).

A esta altura o adolescente está à procura de Ana C. uma garota por que está apaixonado. Ela é de fato a única luz que brilha em sua vida e por meio da união dos dois irá frutificar uma esperança ao final da história.
É uma história interessante e que vale ser conhecida pelos leitores de ficção científica. Claro que para quem está acostumado com o tema, talvez não acrescente muito. Mas o que importa é a perspectiva de acompanhar uma São Paulo devastada que, ao que parece, caiu sozinha numa espécie de guerra civil. Não fica claro, pois Bonassi não revela o que teria acontecido, o que faz sentido se pensarmos que quem narra os acontecimentos é, afinal, alguém que está imerso neste mundo e, só conheceu ele, já que quando nasceu o mundo já era deste jeito.
Este é mais um exemplo de uma ficção científica com pendor de crítica social. Parte de um viés infanto-juvenil, ilustrado pelo discurso final em que o adolescente justifica aos pais porque não quer ir morar com eles e deseja ficar com sua garota. Mas este aspecto é secundário, vale é o desenvolvimento do tema e a reflexão sobre as mazelas que vivemos nos dias de hoje e que pode, eventualmente, nos levar a uma situação no mínimo próxima ao relatado pelo diário. Para dar uma carga realista ainda maior o texto é ilustrado com excelentes fotos de página inteira em preto e branco, de João Wainer. Algumas se encaixam bem, inclusive, com os trechos da narrativa, trazendo mais impacto ao drama relatado.
Fernando Bonassi, um conhecido e prestigioso escritor de prosas urbanas, na literatura, no teatro e também no cinema, escreve com desenvoltura, com estilo ora seco, ora com floreios poéticos. Não há espaço para um tom dramático, num ritmo veloz e objetivo, como num relato mesmo de um diário. Algumas opções me estranharam, como escrever “um” como “1”, com o número mesmo. O que é isso? Uma referência a um jeito adolescente de escrever nestes tempos de internet? Se em termos de ficção científica o melhor que podemos dizer é que a opção pela forma é a sua maior virtude, a história não desagrada e ainda provoca a reflexão sobre o que pode vir a acontecer mas, mais importante, sobre problemas que vivemos já, nos dias de hoje, como a desigualdade social e a inviabilidade estrutural de uma metrópole.
– Marcello Simão Branco

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Solarium 3

Solarium 3, Frodo Oliveira, org. 220 páginas, capa de Natalia Caruso. Editora Multifoco, selo Anthology, Rio de Janeiro, 2014.

Em 2009, Frodo Oliveira organizou para a Editora Multifoco o primeiro volume da coleção Solarium, uma antologia de contos de ficção científica com textos de autores novos e algumas boas revelações. A parceria já rendeu três sequências, a mais recente delas é o volume quatro, publicada em 2016. O objeto desta resenha é o volume três, de 2014.
Solarium 3 manteve a proposta de apresentar autores novos no panorama da fc brasileira. O próprio organizador assina um dos 29 textos da edição, que também tem Aldo Costas, Anderson Dias Cardoso, Andrei Miterhofer Cutini, Bruno Eleres, Cesar Bravo, Cristiano Gonçalves, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, David Machado Santos Filho, Demetrios Miculis, Edgard Santos, Eduardo Alvares, Emerson D. E. Pimenta, Fabiana Guaranho, Fabio Baptista, Fernando Aires, Giovane Santos, Gutemberg Fernandes, Helil Neves, Ítalo Poscai, Jowilton Amaral da Costa, Lucas Félix, Marcelo Sant'Anna, B. B. Jenitez, Patrick Brock, Ricardo Guilherme dos Santos, Sheila Schildt e Thiago Lucarini.
Não seria produtivo comentar conto a conto aqui, pois a maior parte é amadora e carece de um desenvolvimento mais apurado mas, como sempre acontece em antologias, alguns textos se destacam e merecem ser observados mais detidamente.
"Olhos de Cronos", de Andrei Miterhofer Cutini, é uma ucronia sobre um homem ferido e sem memória que desperta nos arredores de um povoado arruinado pela guerra e habitado por aleijados e moribundos assolados por ladrões de órgãos. Em seus bolsos, alguns itens estranhos que vão se revelar as chaves da salvação do seu mundo. Fica patente a influência da obra de Philip K. Dick, especialmente do conto "O pagamento" (em Realidades adaptadas, Philip K. Dick, Aleph, 2012), mas Cutini demonstra habilidade na condução do enredo, sem replicar os maneirismos do autor americano.
"Contato secreto: Operação Forget", de Cristiano Gonçalves, é uma bem elaborada ficção ufológica na linha do seriado de televisão Arquivo X. Militar desmemoriado desperta no hospital depois de participar de uma ação secreta que o deixou em coma por alguns dias. Disposto a entender o que se passou, inicia uma investigação que irá levá-lo a uma evidente conspiração governamental.
"O agricultor", de David Machado Campos Filho, vai a um futuro no qual comer carne se tornou um crime. A engenharia genética desenvolveu, então, uma nova espécie de vegetais híbridos que replicam tecidos comestíveis para substituir a proteína animal na mesa dos consumidores. Entre simulacros de aves, boi, porco e até mesmo leite e ovos, a próxima aposta do agricultor é um novo tipo de carne que pode se tornar um grande negócio no futuro. Humor negro absurdista apresentado em detalhes instigantes e um desfecho surpresa bem construído – coisa rara –, este bom texto critica os extremos da moda do veganismo.
"Ogum S. A.", de Patrick Brock, é uma divertida space opera apresentada em forma de diário de um pouco honesto empreendedor do ramo dos transportes interplanetários, que relata os dramas e alegrias, sucessos e fracassos de sua vida atribulada. Um dos melhores textos do volume que, junto ao conto comentado no parágrafo anterior, usa de um protagonista sem caráter, típico da literatura brasileira, para especular sobre a nossa cultura e atitudes frente a vida.
"Só", de Ricardo Guilherme dos Santos – autor cujos préstimos me fez chegar às mãos este volume – também investe numa space opera na qual a inteligência artificial de uma espaçonave de gerações relata a história dramática do povo que a construiu e usou através dos séculos, em sua viagem em direção à eternidade. A personalização de espaçonaves e computadores, que é um dos temas recorrentes da ficção científica, tem aqui um exemplo de contornos poéticos que obteria resultados mais expressivos se o autor tivesse elaborado uma voz própria para a sua I.A., uma linguagem de máquina, digamos assim – perseguida por William Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial, totalmente perdida na tradução brasileira, diga-se de passagem –, que daria ao texto um aspecto literário mais expressivo. Exemplo de construção de vozes próprias bem sucedidas na fc&f brasileira estão no conto "Meu nome é Go", de André Carneiro, publicado na coletânea A máquina de Hyerônimus e outras histórias (UFSCar, 1997), e nos textos da série A saga de Tajarê, de Roberto de Sousa Causo, vistos em A sombra dos homens (Devir, 2004), mas como não são especificamente vozes de máquinas, este é aparentemente um desafio ainda por realizar na fc brasileira.
Há potencial nos demais textos apresentados na antologia, que renderiam ótimas peças se tivessem uma orientação técnica especializada, mas é preciso ter em mente que, tal como suas edições anteriores, Solarium 3 é uma antologia de autores novos, muitos deles estreantes. A proposta da seleção não é publicar o melhor da fc nacional, mas abrir espaço ao exercício do gênero no país, uma missão legítima e digna geralmente feita por revistas e fanzines, pouco publicados neste momento. Encarado como um periódico literário, Solarium 3 não decepciona e, como tal, é uma iniciativa que deve ser valorizada.
Solarim 3 – bem como os demais volumes da série – pode ser encontrado no saite da Editora Multifoco, aqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, EUA, 1942)


A produtora americana “Universal”, assim como toda empresa que precisa lucrar para manter e continuar suas atividades, aproveitou a boa receptividade do público com a história do monstro de Frankenstein (criado pela escritora Mary Shelley em 1818) e explorou a ideia o máximo possível. “O Fantasma de Frankenstein” (1942) é o quarto filme da série, após “Frankenstein” (1931), “A Noiva de Frankenstein” (1935) e “O Filho de Frankenstein” (1939), sendo que nestes três filmes a criatura foi interpretada pelo lendário Boris Karloff (1887 / 1968), que não repetiu mais o papel. Em seu lugar foi escalado então outro ícone do cinema de horror, Lon Chaney Jr. (1906 / 1973), mais conhecido como o “lobisomem” no clássico de 1941.
Em “O Fantasma de Frankenstein”, dirigido por Erle C. Keaton, a história segue a partir dos acontecimentos do filme anterior, e o monstro estaria supostamente destruído, soterrado numa mina de enxofre debaixo da torre do cientista Frankenstein, e o ajudante Ygor, interpretado pelo húngaro Bela Lugosi (1886 / 1956), o eterno “Drácula” depois de surgir no filme homônimo de 1931, havia sido cravejado de balas. Porém, os aldeões do vilarejo estão descontentes com o declínio da região, alegando influência da maldição de Frankenstein. Nada prospera no local e então eles conseguem autorização das autoridades para explodir o castelo do “cientista louco”. Para a surpresa geral, encontram o manco Ygor ainda vivo e ele, depois da destruição do imenso casarão de pedras, localiza o monstro no subsolo, preservado pelo enxofre.
Ygor consegue resgatar seu companheiro e juntos fogem para a cidade de Visaria para procurar o outro filho de Frankenstein, o médico Ludwig (Cedric Hardwicke), especialista em doenças mentais. Após uma série de incidentes entre a criatura e os moradores da cidade, envolvendo também o promotor Erick Ernst (Ralph Bellamy), namorado de Elsa (Evelyn Ankers, filha de Ludwig Frankenstein), Ygor consegue convencer o também cientista e seu assistente ressentido Dr. Theodore Bohmer (Lionel Atwill), a realizarem novas experiências com o monstro, tentando trocar seu cérebro maligno. O Dr. Ludwig recebe também a influência de uma aparição do fantasma de seu pai, que aconselha não destruir a criatura feita de restos de cadáveres humanos. 
      
No entanto, quase resolvi um problema que tem confundido o ser humano desde tempos imemoriais: o segredo da vida criada artificialmente” – fantasma do Barão Henry Frankenstein

Com fotografia em preto e branco e duração de apenas 67 minutos (era comum naquela época os filmes serem curtos), “O Fantasma de Frankenstein” desperta interesse quase que exclusivamente pela atmosfera gótica e pelos atores (Lon Chaney Jr. e Bela Lugosi sempre tiveram grande relação com o Horror). Enquanto Chaney continua fazendo do monstro de Frankenstein uma aberração assustadora, numa decisão acertada em manter os mesmos aspectos visuais da criatura dos filmes anteriores interpretada por Karloff, o sinistro Ygor de Bela Lugosi também continua convincente e de extrema importância para os rumos da história.
Por outro lado, o roteiro pouco contribuiu para esse universo ficcional já bastante explorado, mesmo em 1942. A necessidade de obtenção de lucros pelos realizadores pressionou os roteiristas, que por sua vez enfrentaram uma escassez de criação. Eles reciclavam as mesmas ideias, contando histórias similares com os descendentes do cientista, ressuscitando o monstro e outros personagens, e utilizando as mesmas motivações e elementos que caracterizaram os filmes anteriores. O ápice dessa falta de originalidade resultou em vários filmes “crossover” produzidos em seguida, misturando os monstros “Drácula”, “Lobisomem” e “Criatura de Frankenstein” numa mesma história, abandonando ainda mais qualquer regra de coerência. 
Por curiosidade, o filme recebeu primeiramente o título nacional “A Alma de Frankenstein” e depois também ganhou o mais apropriado “O Fantasma de Frankenstein”. Foi lançado em DVD tanto pela “Universal” quanto “Dark Side” num programa duplo com o filme anterior da série, “O Filho de Frankenstein”. E também sozinho, pela “Continental”.
(Juvenatrix – 05/02/17)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Criatura da Mão Azul (Creature With the Blue Hand / Die blaue Hand, Alemanha Ocidental, 1967)


A Criatura da Mão Azul” é mais um filme que surpreendentemente foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS, distribuído pela obscura “MBA Home Vídeo”. Trata-se de uma produção da Alemanha Ocidental (na época conturbada dos anos 60 a Alemanha era dividida por questões políticas e a unificação somente ocorreu em 1990), com uma típica história de detetive com sutis elementos de horror nas ações de um assassino misterioso usando uma luva de ferro com dedos pontudos em lâminas afiadas para penetrar na carne de suas vítimas. Na Alemanha, esse sub-gênero de suspense policial é conhecido como “krimi”, equivalente aos “giallos” italianos”.
Essa arma conhecida como “mão azul” (do título), fazia parte de uma armadura medieval de guerra.  Curiosamente, podemos considerar essa ideia como precursora ou inspiração para a luva de facas do popular psicopata Freddy Krueger, criado pelo cineasta Wes Craven para a cultuada franquia “A Hora do Pesadelo”.
Com direção de Alfred Vohrer e Samuel M. Sherman (este não creditado), o roteiro foi baseado em história do escritor inglês Edgar Wallace (1875 / 1932), especialista em argumentos policiais e de mistério, e conhecido pela ideia conceitual do popular “King Kong”, o macaco gigantesco que apareceu em inúmeros filmes. Em “A Criatura da Mão Azul”, ambientado em Londres, Inglaterra, temos um homem condenado à prisão por assassinato, David Donald Emerson (Klaus Kinski), que alega inocência. Misteriosamente, ele é ajudado a fugir do manicômio judiciário dirigido pelo suspeito Dr. Albert Mangrove (Carl Lange), e retorna para a mansão sinistra de sua família rica, que fica nas proximidades do presídio.
Lá chegando, ele encontra seu irmão gêmeo Richard, que desaparece, assumindo seu lugar. Paralelamente, começa a ocorrer mortes misteriosas no interior do imenso casarão com estilo gótico, que é repleto de portas escondidas e passagens secretas para ambientes ocultos, com a identidade do assassino escondida por debaixo de um manto preto e utilizando a luva de pontas. Assustando seus moradores, como o aristocrático e igualmente enigmático mordomo Anthony (Albert Bessler) e os membros da família como a matriarca Lady Emerson (Ilse Steppat), e os irmãos do presidiário fugitivo, Robert e Charles (Peter Parten e Thomas Danneberg, respectivamente), além da jovem irmã Myrna (Diana Korner). As mortes em série despertam a atenção da polícia, sob a liderança das investigações pelo Inspetor Craig (Harald Leipnitz), da Scotland Yard, que recebe o auxílio esporádico de Sir John (Siegfried Schurenberg).
O filme tem um ritmo bastante ágil, com ações praticamente ininterruptas alternando momentos entre os ataques do maníaco e os assassinatos, com a condução das investigações da polícia, especulando a ideia de uma conspiração com vários suspeitos e a tentativa de surpresa na revelação da identidade da “criatura da mão azul”. Mas, tem algumas tentativas de humor que poderiam ser evitadas e a trilha sonora escolhida nas cenas de perseguição é muita estranha, minimizando a atmosfera de tensão. O grande nome do elenco, o polonês Klaus Kinski (1926 / 1991) poderia ser mais aproveitado, com maior presença apenas na primeira metade do filme.  
Curiosamente, recebeu outro nome alternativo, “The Bloody Dead”, que é um título exagerado e que seria mais apropriado para um filme de horror sangrento, que não é o caso aqui. Esse outro nome foi escolhido para o mercado americano de vídeo, numa versão com diferenças como cortes e também acréscimos de cenas adicionais, com redução na metragem final passando de 87 para 74 minutos (P.S.: aliás, essa versão reduzida é a que eu assisti).
(Juvenatrix – 02/02/17)