segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Cruz do Diabo (La Cruz del Diablo / Cross of the Devil, Espanha, 1975)


Lançado em VHS no Brasil pela “Omni Vídeo”, “A Cruz do Diabo” (La Cruz del Diablo, 1975) é mais uma pérola do cinema bagaceiro espanhol da década de 70 do século passado. Foi dirigido pelo inglês John Gilling (1912 / 1984), o último filme de sua carreira significativa para o gênero, que inclui várias outras preciosidades. Como algumas produções da “Hammer”, “A Sombra do Gato” (1961), “A Serpente” (1966), “Epidemia de Zumbis” (1966) e “A Mortalha da Múmia” (também conhecido por aqui como “O Sarcófago Maldito”, 1967), além de “O Monstro do Raio Gama” (1956) e “A Carne e o Diabo” (ou “O Monstro da Morgue Sinistra”, 1960), este com Peter Cushing e Donad Pleasence. Aliás, conforme informado no site “IMDB” (Internet Movie Database), curiosamente John Gilling não tinha a intenção de dirigir “A Cruz do Diabo”, e quando estava de férias na Espanha foi convencido a assumir o projeto num convite do também cineasta Paul Naschy, um dos grandes nomes do gênero e com vasta filmografia e contribuição para a história do cinema de horror.
Um escritor e jornalista, Alfred Dawson (Ramiro Oliveros), vive na Inglaterra com sua namorada Maria (Carmen Sevilla). Fumante inveterado, viciado em ópio, ele tem pesadelos e alucinações constantes onde vê uma mulher sendo torturada por antigos templários da Idade Média. Ele viaja para Madri, Espanha, depois de receber uma carta de sua irmã Justine Carrillo (Monica Randall), que vive naquele país, casada com o Sr. Enrique (Eduardo Fajardo), um homem rico e bem mais velho que ela, pedindo a visita urgente do irmão por estar se sentindo ameaçada após o aborto do filho. Lá chegando, recepcionado pelo misterioso e suspeito Cesar del Rio (Adolfo Marsillach), secretário do Sr. Enrique, o escritor encontra a irmã morta e é informado que foi assassinada por um ladrão comum.
Porém, Alfred desconfia dos fatos e sente uma estranha atmosfera sobrenatural envolvendo a morte da irmã, decidindo investigar um lugar que abriga a “Cruz do Diabo” (do título do filme), localizado no “Monte das Almas”, onde ainda existem ruínas de um mosteiro que foi utilizado pelos templários. Segundo uma lenda a tal cruz foi forjada com o ferro da armadura do próprio diabo. Um território sinistro, temido por todos, e envolto em superstições que diziam que os cavaleiros medievais saíam de seus túmulos para praticar rituais de magia negra no “Dia de Todos os Santos”, numa vingança sangrenta contra quem invadia seus domínios.
Os templários, membros de uma ordem militar da Idade Média. A missão da ordem era proteger os peregrinos que iam para a Terra Santa. Com o tempo, acumularam riquezas e poder, um poder maligno. Renunciaram ao catolicismo e se dedicaram aos rituais sombrios. Adoravam um ídolo chamado Baphomet. Espalharam-se pela Europa inteira e pela Espanha em particular. Porém, em 1312 a Ordem foi aniquilada.” – trecho de um livro sobre a história sangrenta dos templários.
Temos que agradecer o multifuncional espanhol Paul Naschy (também conhecido como Jacinto Molina) por ter convencido John Gilling a dirigir “A Cruz do Diabo”, tornando-se o último registro de sua carreira. Não que seja uma obra prima, pois é apenas mais um filme com elementos góticos que tem seu pequeno lugar na história do cinema de horror. Mas, porque foi uma oportunidade de Gilling encerrar suas atividades com um filme trazendo aquelas tradicionais características de horror sobrenatural onde não faltam ruínas macabras, uma floresta sombria envolta em neblina, carruagens como meios de transporte, candelabros e tochas para iluminação, mortos que deixam suas sepulturas para aterrorizar os vivos, e cenas de pesadelos perturbadores.
É verdade que temos alguns momentos com uma narrativa lenta que contribui para afastar o espectador da história. Mas, o desfecho com a dúvida sobre as ações do protagonista Alfred na busca pela verdade sobre o assassinato misterioso da irmã, numa confusão entre a realidade e as alucinações causadas pelo consumo de ópio, e os elementos góticos com a exploração do sempre macabro tema dos antigos cavaleiros templários em sua vingança sangrenta, desperta aquele esperado interesse nos apreciadores do estilo.
(Juvenatrix – 30/01/17)

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Akai (São Paulo, Brasil, curta metragem, 2006)


Akai” é um curta-metragem de vampirismo de 21 minutos, dirigido, escrito e produzido por Carlos G. Gananian, que tem em seu currículo outros trabalhos igualmente ótimos como “Behemoth” (2003, 6 minutos) e “Coagula” (2005, 3 minutos).
Foi lançado em DVD numa edição caprichada com belíssimas ilustrações na capa e contra capa reproduzindo cenas do filme, enfatizando o vermelho do sangue, e que traz o seguinte texto de divulgação: “Sangue tinge os corredores de uma casa. Um homem sofre de estranhas alucinações. Sozinho e debilitado, suas memória são imagens fragmentadas de um passado recorrente. A dor da culpa e o remorso assombram sua existência cada vez mais distorcida. A sede é quase insuportável. No mar encontra-se a redenção.”
O filme praticamente não tem falas, com uma narrativa lenta e atmosférica, se sustentando em imagens sombrias de uma casa sinistra e nas expressões faciais que representam o sofrimento de um vampiro (interpretado pelo ator Gustavo Arantes), em constante conflito interno entre a necessidade de se alimentar de sangue humano e o tormento pela culpa de sua existência. Os destaques são todas as cenas onde o vampiro seduz e ataca suas vítimas (todas interpretadas por Roberta Youssef), acompanhantes e garotas de programa recrutadas em anúncios de jornal, sempre de forma discreta, sem alardes ou ações exageradas, num exercício de horror sutil e poético. A produção também é caprichada, num ótimo trabalho de sonoplastia, iluminação e edição.
Já fomos presenteados com um ritual demoníaco (“Behemoth”), as ações de um psicopata mascarado (“Coagula”), e o tormento de um vampiro (“Akai”). Vale a pena ficar atento aos projetos do cineasta independente Carlos G. Gananian.
(Juvenatrix - 27/09/10)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Fantasmas Que Ainda Vagam (Ghosts That Still Walk, EUA, 1977)


Curiosamente, o mercado brasileiro de vídeo VHS, que iniciou seus lançamentos principalmente a partir de meados dos anos 1980, distribuiu por aqui vários filmes obscuros que normalmente apostaríamos que jamais fossem comercializados. É o caso da produção americana “Fantasmas Que Ainda Vagam” (1977), lançado pela D.I.V (Distribuidora Internacional de Vídeo), com direção e roteiro do desconhecido James T. Flocker.
Um adolescente de quinze anos, Mark Douglas (Matt Boston), está com fortes dores de cabeça e sua avó religiosa Alice (Ann Nelson) está tentando ajudá-lo a descobrir as causas. Depois de consultar um médico, ela é orientada a falar com a psiquiatra Dra. Sills (Rita Crafts), que estuda o caso e descobre uma série de incidentes estranhos com a família do garoto. Uma vez utilizando-se de hipnose descobre detalhes sobre um misterioso acidente com Alice e o avô do jovem doente, Harold (Jerry Jensen), que sofreu um ataque cardíaco depois de serem atacados por uma força sobrenatural enquanto viajavam pelo deserto num motorhome.
A psiquiatra se interessa mais pelo caso e descobre que a mãe do menino, Ruth (Caroline Howe), é uma escritora que estava trabalhando num livro sobre a história de uma antiga tribo indígena de mais de 500 anos. E que depois de resgatar uma misteriosa múmia índia de uma caverna, sofreu um colapso nervoso, intrigando a Dra. Sills e complicando progressivamente a solução da crise do garoto, que está piorando e se comportando estranhamente. 
“Fantasmas Que Ainda Vagam” certamente é um filme obscuro, pouco conhecido e que jamais imaginaríamos que fosse lançado em VHS no Brasil. A história até possui algum interesse, mesmo sendo um clichê já muito explorado, sobre um fantasma atormentado que aterroriza os vivos e está em busca de sua paz espiritual. Porém, a narrativa é bem arrastada na maior parte do tempo, num convite ao sono, apesar de algumas boas sequências de tensão como a cena do motorhome desgovernado em alta velocidade pelo deserto, controlado pelo fantasma. E o incrível ataque das pedras rolantes que se locomovem de forma ameaçadora pelas areias em direção ao motorhome das vítimas, numa longa sequência bem produzida, com efeitos convincentes numa época sem as facilidades da computação gráfica. Vale conhecer apenas pela curiosidade de um filme obscuro.
(Juvenatrix – 22/01/17)


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sol (São Paulo, Brasil, 2017, curta-metragem)


O diretor e roteirista Carlos G. Gananian já nos presenteou com excelentes e muito bem produzidos curtas de horror como “Behemoth” (2003, sobre a evocação de uma entidade maligna), “Coagula” (2005, sobre as ações de um psicopata mascarado), e “Akai” (2006, sobre o tormento existencial de um vampiro), todos com produções caprichadas. Também faz parte de sua filmografia o curta de ficção científica “AM / FM” (2014).
Agora é a vez de “Sol” (2017), uma interessante história de possessão numa produção profissional, com grande quantidade de pessoas envolvidas no projeto.
Uma senhora religiosa, Solange (Thaia Perez), está sofrendo muito ao enfrentar uma situação bizarra que está acontecendo com seu marido Aristides (Ivan Giaquinto), encarcerado num quarto, ajoelhado num círculo desenhado no chão, as mãos amarradas, uma máscara cobrindo o rosto, agitado e balbuciando palavras estranhas. Sem se alimentar e com o corpo definhando perigosamente, ele é monitorado por dois padres. Um mais jovem, Dario (Lui Seixas), que está filmando o exorcismo, e outro mais experiente, Lucio (Plínio Soares), que tenta inutilmente expulsar o espírito maligno de sua vítima. Enquanto isso, para piorar ainda mais o cenário depressivo, vozes sinistras atormentam a Sra. Solange.
  Em apenas 14 minutos, Carlos G. Gananian e equipe conseguiram apresentar uma história perturbadora de horror sugerido, com uma atmosfera sombria explorando com maestria o velho clichê de possessão demoníaca. Sem gritarias, sangue em profusão ou violência exagerada, e apenas com eficientes efeitos sonoros e sugestões que evidenciam o poder avassalador do Mal. Altamente recomendável, tanto pela qualidade da produção como pela sutileza do roteiro.
(Juvenatrix – 20/01/17)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

As Bonecas da Morte (The Psychopath, Inglaterra, 1966)


A produtora inglesa “Amicus” foi uma valiosa rival da mais cultuada “Hammer”, e sua lista de filmes do gênero fantástico têm quase três dezenas, presenteando os apreciadores do estilo com preciosidades como “As Profecias do Dr. Terror” (1965), “A Maldição da Caveira” (1965), “As Torturas do Dr. Diabolo” (1967), “A Casa Que Pingava Sangue” (1971), “Contos do Além” (1972), “A Casa do Terror” (1974), entre vários outros. E atores consagrados como Christopher Lee, Peter Cushing e Vincent Price fizeram parte de vários filmes da “Amicus”.
As Bonecas da Morte” (1966) tem direção de Freddie Francis (1917 / 2007), um nome conhecido principalmente no cinema de horror das décadas de 1960 e 70, e o roteiro é de autoria de Robert Bloch (1917 / 1994), autor do livro que inspirou o clássico “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock.
Um grupo de músicos ingleses enfrenta a ira de um assassino brutal que tem a característica bizarra de deixar sempre uma boneca com a aparência da vítima nas cenas dos crimes, intrigando a polícia. Eles faziam parte de uma comissão aliada que julgava criminosos de guerra alemães após a Segunda Guerra Mundial, e escondia um segredo misterioso do passado.
O grupo era formado por Reinhardt Klermer (John Harvey), pelo aposentado Frank Saville (Alexander Knox), pelo escultor Victor Ledoux (Robert Crewdson) e pelo funcionário da embaixada holandesa Martin Roth (Thorley Walters). As mortes eram investigadas pelo Detetive Inspetor Holloway (Patrick Wymark), auxiliado pelo Sargento Morgan (Tim Barrett). E as suspeitas recaíram para a idosa cadeirante Ilsa Von Sturm (Margaret Johnston), colecionadora de bonecas, e seu filho Mark (John Standing). Eles tinham fortes motivos para vingança por causa do suicídio do patriarca da família, um industrial que foi preso por crimes de guerra julgados pela comissão formada pelos músicos, que alegavam que ele utilizava trabalho escravo em suas fábricas.
Outros suspeitos investigados pela polícia eram o casal formado por Louise Saville (Judy Huxtable), desenhista de bonecas e filha de um dos violinistas assassinados, e seu noivo Donald Loftis (Don Borisenko), um estudante de medicina.
O filme é uma tradicional história de detetive com elementos de horror em mortes “off screen”, com uma ideia central sobre assassinatos misteriosos cometidos por um psicopata (do título original), e uma árdua investigação policial analisando os suspeitos. Apesar da previsibilidade dos eventos, dos inevitáveis clichês e da narrativa lenta em alguns momentos, ainda temos uma atmosfera de mistério interessante com um clima sinistro envolvendo os assassinatos, além de desfecho memorável e perturbador. Indicado para os fãs dos antigos filmes ingleses da “Amicus” e “Hammer”.
(Juvenatrix – 16/01/17)

sábado, 14 de janeiro de 2017

Páginas de Sombra Contos Fantásticos Brasileiros

Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros. Edição e apresentação de Braulio Tavares, 167 páginas. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, 2003.

Esta foi a primeira das seis antologias que Braulio Tavares organizou para a editora carioca Casa da Palavra até 2015. E é, ao lado de Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica (2011), a mais significativa para a FC&F brasileira, pois se trata de obra de referência e formação de opinião, tanto para especialistas, como para fãs e leitores.
Ao pegar o volume já se percebe que o livro é especial. Não só pelos escritores selecionados, mas também pelo projeto gráfico bonito e arejado, enriquecido por ótimas ilustrações internas para cada história por Romero Cavalcanti.
O livro começa com um ensaio crítico chamado “Nas periferias do real ou o fantástico e seus arredores”, didático e ao mesmo tempo pessoal, apresentando alguns dos elementos centrais da chamada literatura fantástica, enriquecidas com uma interpretação própria do aqui crítico Braulio Tavares. Busca uma definição básica do fantástico, narra um pouco da trajetória e de algumas características do fantástico brasileiro, relacionando em seguida com o Horror e seus próprios pilares, como os fantasmas e o gótico. Para concluir com uma breve, mas instigante reflexão sobre a ausência de florescimento de uma literatura fantástica no Brasil, embora ela seja bem mais praticada em comparação com a ficção científica, por exemplo.
Ele argumenta que talvez seja porque a literatura brasileira ainda seja jovem – como o próprio país, aliás –, e que ela ainda está mais afeita por explicações calcadas no realismo, do que no fantástico, dada a urgência de problemas a serem resolvidos em nossa sociedade. É uma explicação pertinente mas que talvez seja insuficiente, especialmente se considerarmos como o Brasil vem mudando nestes últimos 25 anos, com uma profunda mudança em sua estrutura industrial e socioeconômica sem, contudo, alterar seu quadro de desigualdade social. E isto trouxe, será por coincidência?, em seu rastro, uma Segunda Onda da ficção científica, que tem sido a mais militante, produtiva e de melhor qualidade em comparação com qualquer outro momento histórico em nossa literatura, ainda que de alcance restrito no conjunto das letras nacionais.
De qualquer forma, uma antologia como esta ajuda a contextualizar o cenário histórico e recuperar algumas joias esquecidas (ou pior) não conhecidas pelos fãs mais jovens de ficção científica e literatura fantástica.
Assim, este livro traz 16 histórias que vão de 1884 a 1995, cobrindo praticamente um século de produção. Obviamente, toda escolha é arbitrária mas o organizador Braulio Tavares procurou, até onde foi possível, equilibrar o gosto pessoal com a representatividade de uma história ou de seu autor. E estas duas características ficam explícitas na pequena introdução a cada história, onde o organizador já apresenta o autor e sua relação com o fantástico, bem como em que a sua literatura em geral dá mostra, ainda que implicitamente, de insights e especulações nada realistas.
O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade abre a antologia com a despretensiosa “Flor, Telefone, Moça”, de 1951. Tem uma narrativa bela, melancólica e surpreendentemente sobrenatural, no relato de uma moça que retira uma flor de um jazigo e passa a receber estranhos telefonemas. O produtor e antologista da TV americana Rod Serling (1925-1975) certamente ficaria interessado em filmar o conto para uma de suas séries – Além da Imaginação ou Galeria do Terror – caso viesse a ler a história.
O conto a seguir é “A Podridão Viva”, de autoria de Amândio Sobral, um dos escritores esquecidos que são recuperados neste livro. A história, publicada originalmente em 1934, tem um clima bem construído, situando a ação no interior profundo de uma inexplorada e distante floresta africana. Uma das regiões mais exóticas do planeta – naquela época – e ainda hoje. O impacto dos detalhes da expedição e da aparição são muito reforçados pela adjetivação e pelo choque emocional sofrido pelo protagonista.
“Teleco, o Coelhinho” é o conto seguinte, assinado por um dos grandes fantasistas brasileiros, Murilo Rubião. Nesta história de 1965, uma fantasia em estilo clássico, muito bem narrada, com vívida imaginação e sentido alegórico. A situação absurda que se insere no cotidiano e passa a com ele conviver tem aqui um relato dramático e triste, mostrando personagens solitários em busca de compreensão e amizade.
Já o conto seguinte é de Berilo Neves, um escritor best-seller da literatura brasileira dos anos 1930, hoje também relegado ao pó das estantes e à leitura eventual de um pesquisador mais dedicado. Um deles, o escritor Roberto de Sousa Causo contribuiu para dirimir um pouco este ocaso, publicando uma edição temática sobre ele no seu fanzine Papêra Uirandê, há alguns anos. Em todo caso, “A Última Eva” é mais um esforço de recuperação de um autor realmente curioso. Sua ficção científica não é mais do que sátiras relativamente superficiais sobre casais apaixonados em suas andanças pelos planetas do Sistema Solar.
Porém a esta aparente ingenuidade se insere uma temática extremamente machista e misógina, tal como mostrado neste conto, onde uma misteriosa epidemia varre as mulheres do mundo, num tema relativamente frequente na ficção científica como, por exemplo, no instigante e irregular romance O Planeta Esparta, do americano A. Bertram Chandler, publicado no Brasil nos anos 1970, pela editora Nosso Tempo. No fim das contas, a presença de Berilo Neves se justifica mais por sua representatividade histórica do que por sua qualidade temática ou literária, exemplificado neste conto com um enredo forçado tanto no humor, quanto no desdobramento das situações.
Lília Aparecida Pereira da Silva é outra autora relativamente esquecida que dá as caras no livro com o curtíssimo “A Máquina de Ler Pensamentos”. Não muito mais do que uma espécie de variação feminina para o monstro de Frankenstein, com semelhantes descrições do que Braulio Tavares chama de ‘ciência gótica’ para textos deste tipo. Bizarro e com boa ambientação, não vai além da intenção de ser uma história efetiva, sendo verdadeiramente nada mais do que uma vinheta.
O que não é o caso, absolutamente, da história a seguir. Simplesmente “A Escuridão”, o maior clássico da ficção científica brasileira. André Carneiro consegue, com este texto de 1963, se ombrear com o que de melhor já se fez neste gênero em um nível internacional – tanto que é o seu texto mais publicado mundo afora.
Repentinamente as luzes desaparecem e a civilização mergulha nas trevas. Wladas procura primeiro entender o absurdo, para aos poucos lutar desesperadamente para superá-lo. Como aponta Braulio Tavares, o estilo distanciado e atemporal só acentua a estranheza da narrativa, bem como sua intensidade humana e dramática. A história tem uma fluidez demorada, outra peculiaridade que transmite uma sensação de angústia não só aos personagens, mas também ao próprio leitor. Um texto realmente bem escrito, em seus detalhes, primoroso no tratamento dos personagens e com um final inesquecível. Disparada a melhor história deste volume.

O maranhense Coelho Neto foi colocado depois da obra-prima de Carneiro, o que dificulta uma boa avaliação de sua história – aliás, como seria com qualquer outra das histórias desta antologia. Em todo caso, Coelho Neto é um dos mais notórios esquecidos da literatura brasileira, extremamente influente entre seus pares, e prolixo em seu tempo, da segunda metade do século XIX até as três primeiras décadas do século passado.
Seu romance A Esfinge (em 1908 foi lançada a primeira edição. A edição que eu tenho é da editora Lello & Irmão, Porto, 1925), deveria ser procurado e lido, pois é uma história forte e interessante, sobre um homem que recebe o transplante da cabeça de uma mulher, numa variação curiosa da chamada ‘ciência gótica’ à lá Frankenstein. Para esta antologia, Braulio selecionou o conto “A Casa ‘Sem Sono”, uma narrativa bem escrita e de tema misterioso, numa especulação diferente ao tema da casa assombrada. Poderia render mais, se tivesse explorado mais as situações apresentadas.
"A Gargalhada", de Orígenes Lessa, mostra como uma situação banal se transforma de forma inexplicável e surpreendente em fantástica. Uma risada generalizada, ininterrupta e coletiva acaba por se transformar num inusitado horror. Vale conhecer, ainda que como referência para a ficção científica, sua novela A Desintegração da Morte (1948, publicado, entre outras edições, pela Futurâmica, número 568), seja o seu texto principal e conhecido.
Adelpho Monjardim, outro autor pouco lembrado nos dias que correm, é ‘redescoberto’ neste livro com “O Satanás de Iglawaburg”, um conto que lembra bem o estilo das weird fictions publicadas nas pulp magazines norte-americanas dos anos 1930 e 1940. O conto tem um estrutura gótica assumida, com resquícios reconhecíveis de Edgar Allan Poe e seu clássico “A Queda da Casa de Usher”. Obviamente, a qualidade literária do autor capixaba fica a anos-luz do norte-americano de Boston, mas o mais importante neste caso, é que a narrativa tem um bom nível de entretenimento, envolvendo o leitor e mostrando um horror que se assume muito mais no plano psicológico do que no sobrenatural.
Uma situação semelhante ocorre no conto seguinte, “As Academias de Sião”, de Machado de Assis. Só que aqui o fantástico explícito se traveste de situações alegóricas, um recurso muito usado pelo autor em suas intermitentes incursões ao fantástico. A intenção inicial, no caso, é satirizar as acadêmicas literárias e científicas, tão em voga em fins do século XIX, mas o conto acaba tendo mais efetividade na situação prática vivida pelos dois personagens principais. Pois eles resolvem ‘trocar’ se sexo: um rei passa a ser mulher e uma rainha assume o papel masculino dentro da trama. Contudo, ainda que seja interessante pelo fato de ser de Machado de Assis, a história não consegue ser nada além de chata e mal concatenada em seus objetivos temáticos.
O que não é o caso do texto de Rubens Figueiredo, a noveleta “O Caminho do Poço Verde”. Partindo de uma premissa simples, temos o choque civilizatório do ‘interior profundo’, na experiência de uma mochileira. A história é rica em seus detalhes, como a descrição da natureza, das pessoas do meio rural e seus costumes rudes, sua linguagem peculiar – que por vezes, beira a dialetos nesse ‘brazilsão' interminável e desconhecido –, sua interação quase mágica com crenças oriundas do imaginário da natureza. É interessante também o fato de que todos os personagens ativos são mulheres: da viajante Diana às ‘bruxas’ do mato. E o tal do Aruê, é um mal que não se anuncia, mas se pressente, em meio a uma atmosfera sobrenatural que se acentua paulatinamente. E para fechar, temos o tal do ‘poço verde, como um lugar mítico, onde o mal pode ser derrotado.
Publicado originalmente em 1994 na coletânea O Livro dos Lobos – conforme é informado na introdução da história –, poderia ter disputado fortemente o então Prêmio Nova. Dado o desconhecimento do fandom, a história só agora nos chega e se coloca como uma das melhores histórias curtas do gênero fantástico publicadas no Brasil em 2003.
Depois de uma travessia intensa e surpreendente com a noveleta de Figueiredo, a próxima história – como já havia ocorrido com o conto que sucedeu a obra-prima de André Carneiro –, de saída sai prejudicada. Mas desconfio que neste caso nada poderia ajudar a melhorar a condição de “Íblis”, de Heloísa Seixas. Contando basicamente a história de uma pesquisadora vítima de uma maldição, o texto peca por ser muito empolado. Seixas sabe escrever, mas transmite um pedantismo e uma futilidade à flor da pele, de tal forma que passei a torcer pelo destino funesto da personagem. A história mais fraca de todo o livro.
Justamente (quase) o oposto do conto de Lygia Fagundes Telles, “As Formigas”. Um conto muito bem construído em sua trama e desenvolvimento, bem como na ambiguidade entre o real e o irreal que transmite, gerando uma situação de indeterminação, tanto no leitor, como nos próprios personagens. O mistério propriamente dito está por se insinuar – e recuar –, para depois se insinuar de novo, de forma mais sutil e efetiva, especialmente no trecho final da história. Competente.
Já a palavra para definir de saída o conto seguinte é sofisticação. Num texto muito bem trabalhado, tanto na forma, como nas imagens que transmite o “Luvibórix”, de Carlos Emílio Corrêa Lima, tem uma narrativa que provoca estranhamento não apenas pelo tema em si, mas pela prosa intrincada e caprichada que estrutura a história. Mesmo assim, do ponto de vista de uma narrativa mais fluente e que pede certa linearidade causal, o texto não consegue se completar, ficando a sensação conclusiva de uma prosa sofisticada sim, mas sem um objetivo temático claro.

Humberto de Campos é outro autor recuperado pelo organizador da antologia, e que era, em seu tempo, possivelmente o mais popular e produtivo escritor brasileiro. Em “Os Olhos que Comiam Carne”, estamos diante de um tema muito bem explorado por um cineasta igualmente produtivo, o americano Roger Corman que produziu e dirigiu em 1963, o clássico B, O Homem dos Olhos de Raio X, numa interpretação classe A de Ray Milland. Se você já viu este filme, poderá esperar do conto de Campos uma temática e – principalmente –, um desfecho parecido. Mesmo sendo um motivo a menos para se surpreender, o texto vale uma lida pela maneira própria e singular que o autor brasileiro concebe uma interpretação para a história.
E fecha a antologia um clássico do horror brasileiro, “Demônios”, de Aluísio Azevedo. De um escritor que é considerado um dos principais expoentes do Naturalismo li, nos tempos do então Segundo Grau – atualmente Ensino Médio –, dois de seus principais livros dentro desta vertente, O Mulato (1881) e O Cortiço (1890). E depois de tantos anos, me recordo do quanto fiquei impressionado especialmente d’O Cortiço, pela verossimilhança dos personagens e pelo esforço bem-sucedido de ambientação social realizada pelo autor.
Já neste conto, temos a inversão desta lógica naturalista. Os caminhos aqui se esvaem de explicações cartesianas, vislumbrando um ambiente sombrio, nada aprazível. Numa narrativa carregada fortemente de dramaticidade, temos a construção de um complexo e profundo pesadelo, com a inevitável – porém descartável –, ‘pegadinha’ no fim. De novo, aqui – e bem antes do ponto de vista histórico, diga-se –, temos mais uma variação do ‘mundo da escuridão’, onde se dá total e inexplicável ausência de luz. E há momentos marcantes, como a sequência das transformações físicas, impressionando e causando um eficaz sense of horror.
Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros é uma antologia da melhor qualidade em seu conjunto, fazendo frente a uma dos mais difíceis desafios a toda antologia: equilibrar a qualidade média das histórias. Goste-se mais ou menos de um texto, mais ou menos de um autor, a concepção da obra atinge seus objetivos de passar uma idéia geral da história e das principais características do chamado ‘fantástico’ feito no Brasil.
Contudo, dois tipos de ausência chamam a atenção. Embora a seleção dos autores tenha sido, em geral, bastante criteriosa, causa espanto que dois autores maiúsculos da literatura brasileira não apareçam: José J. Veiga e Guimarães Rosa. Quero crer que Braulio Tavares os selecionou, o problema deve ter sido com os direitos autorais. Veiga é um prosador e contista do mais alto nível – e diretamente voltado ao fantástico – e Rosa, além de ser um dos grandes nomes da literatura brasileira de qualquer época, também se exprimiu em histórias fantásticas a certa altura de sua carreira. Aliás, o próprio Braulio tem se encarregado de divulgar esta temática do autor, publicando ensaios em jornais e fanzines sobre o assunto.
A outra ausência é a de nenhum escritor do chamado fandom literário de ficção científica destes últimos 20 anos. Braulio Tavares até justificou, dizendo que inicialmente havia pensado em incluir um ou outro autor. Poderia, até para evitar o equívoco de incluir um conto ruim como “Íblis”, por exemplo. Duas boas histórias fantásticas que não fariam feio neste livro: “Aprendizado” (1993), de Carlos Orsi Martinho e “A Nuvem” (1993), de Ricardo Teixeira. Isso para não recomendar histórias do próprio Braulio, que ele já publicou ou poderia escrever. Fica para outra oportunidade uma nova versão desta antologia, que inclua os autores brasileiros contemporâneos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os cavalinhos do Platiplanto

Os cavalinho do Platiplanto, José J. Veiga. Edição original de 1959. Edição avaliada: Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015.

Aprendi a admirar a literatura de José J. Veiga (1915-1999) quando era ainda adolescente. Incentivado por uma mãe bibliotecária, li muita ficção fantástica desde a infância e logo escrevi meus próprios contos. Alguns desses primeiros textos foram parar nas mãos do Dr. Miller, então Secretário de Cultura de Santo André, e foi este senhor que, ao me receber em sua casa, recomendou a leitura do autor. Os primeiros livros de Veiga que li  foram o romance A hora dos ruminantes (1966) e a coletânea Os cavalinhos do Platiplanto (1959), que a Editora Companha das Letras está oportunamente republicando em uma coleção caprichada em comemoração ao centenário de nascimento deste autor goiano (veja post aqui).
A nova edição de Os cavalinhos do Platiplanto – prefaciada por um excelente ensaio crítico de Silviano Santiago – reúne os primeiros contos escritos por Veiga, que estreou tardiamente na literatura, aos 44 anos de idade. São doze contos ao todo, que relatam situações ligadas a vida em pequenas comunidades do interior brasileiro, nas quais a fantasia e o inusitado de imiscui de forma natural e harmônica.
O primeiro conto, "A ilha dos gatos pingados", relata um momento na infância de três garotos que, para fugir da violência doméstica, constroem um refúgio secreto num banco de areia no meio do rio. Apesar do romantismo, o relato da violência pelo qual passa um dos personagens é de cortar o coração.
O segundo texto, "A usina atrás do morro", é uma história icônica na obra de Veiga, em muito similar a seu texto mais conhecido, o já citado A hora dos ruminantes. Conta a reação que a chegada de uma grande e misteriosa indústria causa numa pequena comunidade rural, relatada por um dos moradores, um jovem que tenta entender por quê a promessa de desenvolvimento teve de vir acompanhada de uma violência que beira à insanidade. Contudo, diferente da conclusão redentora do romance, o conto é muito mais duro e distópico.
O texto que empresta o nome ao livro também tem uma criança como narradora, que conta como a promessa frustrada de ganhar um cavalo do avô o leva a sonhar com uma fazenda mágica na qual os cavalos mais lindos do mundo são todos seus. O estilo de Veiga já se manifesta aqui, sem definir as fronteiras entre sonho e realidade, na forma como as crianças enxergam o mundo.
"Era só brincadeira" é o que poderíamos chamar de um texto absurdista. Durante uma pescaria, um homem resgata do rio um velho cano de espingarda que vai se transformar num bizarro caso de polícia com um final trágico. Ainda bem que era tudo brincadeira. Ou não?
"Os do outro lado" é uma história de fantasmas na tradição das casas mal assombradas. Mas, sendo Veiga, nada é exatamente o que parece.
"Fronteira" é o menor texto do livro, mas não menos potente. Conta como um menino, que tem a missão de conduzir os viajantes por caminhos nos quais só os meninos sabem andar, deixa de ser menino.
"Tia Zi rezando" fala de um menino que vive um mistério doméstico. Criado pelos tios, ele passa por diversas situações inexplicáveis, sempre ligadas a um segredo que ninguém tem coragem de contar.
"Professor Pulquério" conta a transformação de intelectual obcecado pela lenda de um tesouro enterrado em algum lugar nos arredores da pequena cidade onde mora. O final desconcertante é um dos raríssimos casos de final surpresa que não estraga o conto em si, antes pelo contrário, emprestando a ele uma leitura absolutamente diversa.
Em "A Invernada do Sossego" dois meninos irmãos esperam ansiosamente pela volta do cavalo de estimação que fugiu da fazenda. Mas o cavalo não volta nunca e eles terão de ir encontrá-lo na tal Invernada do Sossego, um lugar que talvez só exista na imaginação das crianças.
"Roupa no coradouro" é, de longe, a história mais melancólica da seleta e conta como a culpa pode se instalar para sempre no coração de uma criança inocente.
"Entre irmãos" relata o incômodo encontro de dois irmãos que não se conhecem, enquanto a mãe deles agoniza no quarto ao lado.
Em "A espingarda do rei da Síria", outra história de laivos absurdistas, um caçador que perdeu a espingarda encontra a redenção de sua tragédia pessoal numa realidade mágica.
Apesar de um predomínio de personagens juvenis e da narrativa singela, as histórias de Veiga não se limitam a esse público de forma alguma: todas tratam de temas complexos e espinhosos. Paralelos entre a fantasia e a violência, o sonho e a frustração, estão presentes em diversos textos do volume, sendo de fato uma assinatura estilística do autor.
Além de Os cavalinhos do Platiplanto e A hora dos ruminantes, A Companhia das Letras promete republicar toda a obra de Veiga, que inclui peças de horror, fantasia, ficção científica e até de história alternativa: A máquina extraviada (coletâna, 1967), Sombras de reis barbudos (romance, 1972), Os pecados da tribo (romance, 1976), O Professor Burim e as quatro calamidades (romance, 1978), De jogos e festas (coletânea, 1980), Aquele mundo de Vasabarros (romance, 1982), Torvelinho dia e noite (romance, 1985), A casca da serpente (romance, 1989), O risonho cavalo do príncipe (romance, 1993), O relógio Belizário (romance, 1995), Tajá e sua gente (romance, 1997) e Objetos turbulentos (coletânea, 1997). O que é uma bênção para os fãs de Veiga, pois as edições são luxuosas, impressas em papel pólem de alta gramatura, encadernadas em capas duras com ilustrações de Deco Farkas, além de trazerem valiosos ensaios discutindo a obra em questão e uma grande lista de leituras complementares. Sem dúvida, uma publicação importante que trata o autor e a obra com respeito e consideração que merecem.
Cesar Silva