terça-feira, 25 de julho de 2017

Brasil, Potência Interplanetária: As Crônicas das Viagens, de L. Sprangue de Camp

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

As Crônicas das Viagens é um universo ficcional criado pelo escritor norte-americano Lyon Sprague de Camp (1907-2000). Nesse universo ficcional, o Brazil (grafado com Z) é a potência dominante na Terra, inclusive é a nação que controla a corporação semiestatal Viagens Interplanetárias, única empresa terrestre que tem tecnologia para fazer viagens entre os diversos mundos habitados nesse universo ficcional.
L. Sprague de Camp utiliza diversas palavras em português em seus contos de As Crônicas das Viagens para dar o ar de dominação cultural do Brasil, como ocorre atualmente com relação aos EUA, que, por ser a potência dominante, impõe o inglês como língua “universal”. Esse recurso estilístico dá maior realismo ao cenário desenvolvido. Na tradução brasileira, as palavras que originalmente estavam em português são marcadas com asterisco.

L. Sprague de Camp 


Neste texto resenharemos os dois livros publicados em português que reúnem as Crônicas das Viagens: “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, ambos traduzidos por Cézar Tozzi e publicados pela Francisco Alves em 1976 e 1977, respectivamente, na coleção Mundo Fantástico (ressaltamos que esse é o material disponível no Brasil, sendo que o autor escreveu outras obras nesse mesmo cenário). “Os Dentes do Inspetor” corresponde ao segundo volume da coleção, e “Construtores de Continentes” ao quarto volume, sendo que o volume três da coleção é a coletânea “Contos da Taberna”, de Arthur C. Clarke. Ambas as coletâneas contam com a mesma introdução, escrita por Isaac Asimov.
Nessa introdução, Asimov relata seu primeiro encontro com L. Sprague de Camp, sendo Asimov um escritor iniciante, e Sprague de Camp um escritor já reconhecido. Asimov descreve Sprague como dotado de uma “erudição exótica e heterogênea”... “um historiador de quase tudo”... “capaz de escrever com graça e competência tanto sobre o mito de Atlântida, magia ou feitiçaria, a malograda era industrial dos tempos helênicos ou a Itália ostrogoda, armamento naval ou falsificações, sob a forma de história aprazível ou romances históricos com excelente base de pesquisa”.
Asimov chama a atenção também para o fato de Sprague ser linguista e foneticista, tendo publicado artigos nessa especialidade científica, além de ter escrito sobre outros temas, como dinossauros e lei de patentes (nos contos “Moto-contínuo”, “Acabou” e “Vam’bora!”, aqui resenhados, Sprague faz uso de seu domínio sobre leis de patentes).
No decorrer da II Guerra Mundial, juntamente com os também escritores de ficção científica Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, Sprangue de Camp trabalhou como pesquisador para Philadelphia Naval Yard, já que era engenheiro aeronáutico, enquanto Heinlein era formado na Academia Naval, e Asimov também era cientista. Essa concentração de três grandes escritores de ficção científica no mesmo lugar de trabalho no decorrer da Guerra gerou diversas histórias sobre trabalhos com “armas secretas”, que sempre eram desmentidas pelos autores — que estavam envolvidos em atividades bem mais corriqueiras (Ver: https://www.kirkusreviews.com/features/asimov-de-camp-and-heinlein-naval-aviation-experim/. Acesso em 14/12/2014).



Robert A. Heinlein, L. Sprague de Camp e Isaac Asimov, numa base da US Navy1944.


Acredito que esse tipo de história de envolvimento de escritores de ficção científica com o aparato técnico-militar foi aproveitado no romance Invasão, de Larry Niven e Jerry Pournelle (Francisco Alves, 1989), em que, perante uma invasão extraterrestre, o governo americano utiliza escritores de ficção científica como consultores. Futuramente resenharemos esse romance nesta coluna.
L. Sprague de Camp também escreveu biografias, dentre as quais se destacam Lovecraft: a Biography (1975) e Dark Valley Destiny: the Life of Robert E. Howard (1983). Em conjunto com Lin Carter, Camp deu continuidade ao legado de Robert E. Howard, criador do personagem Conan, o Bárbaro; seja publicando as histórias originais de Howard ou completando histórias inacabadas. No Brasil, as histórias de Conan, com introdução e notas explicativas realizadas por L. Sprangue de Camp, foram publicadas pela editora Mercuryo (selo Unicórnio Azul) na coleção de livros de bolso Conan, Espada e Magia em 1995.
Os dois livros que resenhamos neste texto, “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, reúnem sete contos e uma novela no universo ficcional das Crônicas das Viagens. Os dois são a tradução da edição americana “The Continent Makers and Other Tales of the Viagens”, de 1953, publicado pela Twayne Publishers.
Na resenha a seguir, após o título de cada conto, consta a data fictícia em que se desenvolve a história. Entre parênteses consta o título original, a data de publicação nos Estados Unidos e o planeta em que se desenvolve a trama principal. Dividiremos o texto a seguir em duas partes, de acordo com o material publicado em cada livro, sendo que a introdução de Isaac Asimov se repete em ambos os livros.




L. Sprangue de Camp. Os Dentes do Inspetor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Constam desse volume seis contos, que resenhamos a seguir:

Os dentes do inspetor – 2054-2088 D.C. (The Inspector's Teeth – 1950 – Planeta Terra): inicia-se com uma reunião que pretende criar um Conselho Interplanetário entre as espécies alienígenas; o objetivo é impedir guerras interplanetárias. Para tanto, a Terra, cuja potência dominante é o Brasil, pretende inicialmente estabelecer um tratado com os osirianos, espécie inteligente do planeta Osíris, que tem domínio tecnológico semelhante ao terrestre. Os osirianos são descritos como pequenos dinossauros. A trama se desenvolve em torno de Hithafea, embaixador sha’akhfiano (como os osirianos se autodenominam), cuja experiência de estudante universitário na Terra será decisiva para a criação do Conselho Interplanetário. Um bom conto, mas não o melhor do livro. Acredito que a escolha desse conto para dar título ao livro tenha sido muito mais por ter o melhor título da coletânea.

Traje de verão – 2114-2140 D.C. (Summer Wear – 1950 – Planeta Osíris): é uma história muito divertida, com um final muito interessante, ao tratar da questão de como trocas culturais ocorrem em mão dupla. A história é centrada na disputa entre dois comerciantes terrestres que apelam a todo tipo de trapaça para atingir seu objetivo: criar uma demanda artificial para um produto totalmente inútil aos osirianos. Qualquer relação com as campanhas de marketing que incentivam o gosto com bugigangas inúteis não é mera coincidência.

Acabou – 2114-2140 D.C. (Finished – 1949 – Planeta Krishna): ocorre em uma época em que o Conselho Interplanetário está solidamente constituído. O Conselho mantém um forte bloqueio tecnológico ao planeta Krishna, que apresenta desenvolvimento social e tecnológico comprável ao da Europa Medieval. Uma vez que os krishnianos são extremamente belicosos, o Conselho Interplanetário pretende impedir uma revolução industrial nesse mundo que possa levar krishnianos a terem armamentos capazes de ameaçar a paz na Galáxia. Assim, a corporação Viagens Interplanetárias desenvolve uma estratégia minuciosa para impedir a contaminação tecnológica em Krishna, que envolve não apenas impedir a importação de produtos industrializados, como também de literatura técnica. Na história acompanhamos as peripécias do príncipe Ferreian, de uma das várias nações de Krishna, para obter acesso à tecnologia terrestre. Outro conto que apresenta um final bastante interessante, que mais uma vez remete à importância que mudanças culturais podem ter no desenvolvimento social, econômico e tecnológico de um povo. Talvez o melhor conto da coletânea, com direito a uma empolgante descrição de batalha naval. Aqui temos também uma cidade terrestre em Khishna, de nome Novarecife, e uma espaçonave chamada Maranhão, mais uma vez demostrando o domínio do Brasil.

O apito de Galton – 2117 D.C. (The Galton Whistle – 1951 – Planeta Vishnu): em um mundo com duas espécies inteligentes, os dzlierianos, descritos como centauros, e os romelianos, espécie de gorila de seis membros, ambas as espécies se encontram ainda, comparadas à cultura terrestre, na idade pré-histórica, vivendo em tribos. O contato com os terrestres é feito sem que se permita contaminação tecnológica, até que o terrestre Sirat Mongkut, um siamês, é tomado por um deus pelos nativos dzlierianos e elabora um esquema para armar a tribo que o venera e se tornar líder de todo um planeta. Tudo envolvendo um simples apito. A cidade humana neste mundo se chama Bembom.

A fábrica dos biscoitos em feitio de animais – 2120 D.C. (The Animal-Cracker Plot – 1949 – Planeta Vishnu): estamos novamente em Vishnu, um mundo em que duas espécies, os dzlierianos e os romelianos, vivem em guerra pelo seu controle. Tudo tende a piorar quando o trambiqueiro terrestre Darius Koshay abre uma fáabrica de biscoitos e incentiva o início de uma guerra mágica entre os nativos. Caberá ao xenólogo (um antropólogo de alienígenas) Luther Beck resolver a questão e, para tanto, entender a cultura dos nativos.

Vam’bora! – 2135-2148 D.C. (Git Along! – 1950 – Planeta Osíris): dois trapaceiros terrestres tentam introduzir um parque temático ao estilo faroeste entre os osirianos, mas, como sociedade entre trapaceiros não tem vida longa, o empreendimento se transforma em disputa, e tudo se complica quando os nativos começam a tomar as narrativas ficcionais sobre o Velho Oeste como modelo de legislação penal. Um ótimo conto que também trabalha muito bem com a apreensão de sistemas culturais. Com esse trabalho se encerra a primeira parte das Crônicas das Viagens.



L. Sprangue de Camp. Construtores de Continentes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Nesse volume temos a segunda parte das Crônicas das Viagens – um conto e uma noveleta.

Moto-contínuo – 2137 D.C. (Perpetual Motion – 1950 – Planeta Krishna): outro conto que se passa no mundo medieval de Krishna, em que o bloqueio tecnológico atraiu os mais diversos tipos de espertalhões terrestres que pretendem quebrar o bloqueio e obter lucro. Aqui acompanhamos o trambiqueiro profissional Felix Borel tentando introduzir a loteria em uma comunidade krishniana governada por uma ordem religiosa de cavalaria (ao estilo Ordem dos Templários). Mas, como os nativos estão interessados mesmo em tecnologia, Felix Borel arma todo um esquema, se utilizando da famosa lenda tecnológica terrestre da máquina de moto-contínuo, para arrancar algum dinheiro dos nativos. Um conto muito bom, no qual vale destacar a excelente narrativa do autor dos duelos de cavalaria.

Construtores de Continentes – 2153 D.C. (The Continent Makers – 1951 – Planeta Terra): imagine uma Terra superpopulosa, se é que precisamos imaginar, em que se torna possível erguer um continente no meio do oceano Atlântico Sul, entre Brasil e África. Parece uma boa ideia, principalmente se a humanidade já dispõe de conhecimento tecnológico para realizar tal proeza sem maiores riscos. Acontece que tudo poderia se resumir a um pacato empreendimento científico, se não fosse uma conspiração envolvendo extraterrestres para dar um novo rumo ao megaprojeto de engenharia.
Aqui temos uma novela, portanto com muito mais páginas, em que o autor descreve com maiores detalhes a geopolítica terrestre, tendo o Brasil como superpotência, em meio a uma história de espionagem e intrigas interplanetárias e com direito a um romance entre uma alienígena e um cientista terrestre.
Além dos osirianos, nesse texto são apresentados os seres de Thot, descritos como sendo uma espécie de “macaco-rato” de “pouco mais de um metro”, o que lembra o fiel amigo de Perry Rhodan, Gucky.
A ação se desenvolve em três diferentes cenários, sendo um deles a cidade do Rio de Janeiro, descrita como a “mais bela metrópole do mundo”; entretanto, L. Sprangue de Camp não deixa de fazer críticas a um elemento sensível da cultura institucional brasileira, a burocracia. Em certo momento da trama, as personagens precisam fazer uma via sacra entre diversas instituições policiais brasileiras para conseguir ajuda. É difícil para os personagens entender a existência de tantas forças policiais em um único país, sendo que todas evitam tomar providências, por julgar que a área de atuação seria de outra força policial, e não dela mesmo. A mais longa e também melhor história dos dois livros.

Se existe uma moral nos trabalhos de L. Sprague de Camp reunidos nesses dois livros, é que não importa a boa vontade dos governos em tentar não contaminar tecnológica e culturalmente espécies alienígenas com a cultura terrestre, pois os próprios terrestres serão os primeiros a tentar quebrar esse tipo de bloqueio para obter algum lucro exportando suas tecnologias e cultura.
Apesar de serem encontradas apenas em sebos, vale muito a pena ler essas duas seleções de trabalhos de Sprague de Camp.


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Publicado anteriormente na revista Perry Rhodan, da SSPG. 

domingo, 23 de julho de 2017

Maciste no Inferno (Maciste all´inferno, Itália, 1962)


Uma mistura de horror gótico com herói justiceiro, numa aventura literalmente pelo inferno para salvar um vilarejo da maldição de uma bruxa

Maciste é um herói justiceiro similar ao popular Hércules, que defende os pobres, fracos e oprimidos contra as forças do mal. Extremamente forte e musculoso, ele é interpretado pelo ator italiano Adriano Bellini (creditado com o manjado pseudônimo americano Kirk Morris) em vários filmes com o mesmo personagem. Em “Maciste no Inferno” (Maciste all´inferno), produção italiana de 1962, sua aventura para salvar os aldeões de um pequeno vilarejo, livrando-os de uma maldição lançada por uma bruxa executada na fogueira, o leva literalmente para um passeio no inferno. Combatendo animais violentos como um leão, uma cobra enorme, uma águia carniceira e uma manada de bois ferozes, além de um homem gigante, em efeitos extremamente toscos e bizarros.
Com direção de Riccardo Freda (com o pseudônimo Robert Hampton), a história mistura elementos de horror gótico com filmes épicos de fantasia. Um jovem casal formado por Charley Law (Angelo Zanolli) e Martha Gaunt (Vira Silenti) muda-se para um castelo sinistro na Escócia, e são mal recebidos pelos aldeões do vilarejo próximo, que decidem hostilizá-la com tochas e ferramentas cortantes acusando-na de ser uma descendente de uma bruxa queimada na fogueira da inquisição em 1515, e que havia prometido vingança e maldição aos seus executores, sob o comando do juiz Edgar Parris (Andrea Bosic).  
Maciste aparece do nada e salva a mulher do linchamento, mas não consegue impedir que ela seja julgada por um tribunal inquisidor e condenada à morte na fogueira por suposta bruxaria. Para tentar impedir a execução, Maciste vai para o inferno em busca da bruxa. No caminho, enfrenta animais ferozes, encontra pessoas sofrendo torturas infindáveis de monstros e demônios, remove pedras gigantescas com as mãos, nunca usa armas e ao atravessar uma porta de fogo encontra uma bela e misteriosa mulher, Fania (Hélène Chanel), que tenta ajudá-lo em sua missão.
O filme desperta algum interesse em seu primeiro ato, ao explorar elementos sempre atraentes do horror gótico, com um castelo sombrio repleto de morcegos, aldeões supersticiosos e uma bruxa queimada na fogueira, amaldiçoando seus executores. Depois, quando surge o herói justiceiro sem camisa, com suas boas intenções de mocinho, numa improvável viagem ao inferno, a história mudou de rumo e inevitavelmente seguiu em direção ao tédio. Nem os efeitos toscos de um filme bagaceiro, nas lutas com animais falsos (ou grandes bichos de pelúcia), ou as pedras de isopor do inferno, conseguiram minimizar a sensação de sonolência no espectador. Seguem as palavras do próprio Maciste, que fala pouco e fica o tempo todo demonstrando ações de força bruta: “Meu destino é ajudar as pessoas que sofrem pela opressão e crueldade ao redor do mundo”. Dessa forma, os elementos de horror gótico do início do filme deram lugar para uma aventura simples e patética de um herói fazedor de justiça.
Entre as curiosidades, vale citar:
* enquanto Maciste está no inferno, temos várias cenas simulando imagens do passado, reproduzindo suas aventuras anteriores como uma luta contra um ciclope e contra um exército tirano chinês.
* Nos Estados Unidos o filme recebeu o título “The Witch´s Curse”.
* As cenas ambientadas no inferno foram filmadas numa região de cavernas na cidade italiana de Bari, e são bem interessantes, independente da história trivial do filme.
* Em 1961 teve outro filme italiano similar, “Hércules no Centro da Terra” (Hercules in the Haunted World), dirigido por Mario Bava e com Christopher Lee, sobre a aventura do fortão Hércules no submundo, um lugar que podemos chamar de inferno.
* Outros filmes do ator Kirk Morris creditado como Maciste: “O Triunfo de Maciste” (1961), “Hercules in the Valley of Woe” (1961), “Colossus and the Headhunters” (1963), “Atlas Against the Czar” (1964) e “Hércules, o Invencível” (1964).
(Juvenatrix – 23/07/17)


sábado, 22 de julho de 2017

A Luz e as Trevas

A Luz e a Trevas (Lest Darkness Fall), L. Sprague de Camp. Capa: A. Pedro. Tradução: Eurico Fonseca. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 361. 195 páginas, 1987.


L(yon) Sprague de Camp (1907-2000) é mais conhecido no Brasil por imaginar o nosso país como a principal potência espacial no futuro, na série Crônicas das Viagens, com dois livros publicados aqui que englobam todos os oito contos da série: Os Dentes do Inspetor (The Continent Makers Other Tales of the Viagens) e Construtores de Continentes (The Continent Makers Other Tales of the Viagens). São os números 2 e 4 da Coleção Fantástica, da Francisco Alves Editora, lançados nos anos de 1976 e 1977 respectivamente, sob a edição de José Sanz.
Mas sua obra mais conhecida é Lest Darkness Fall. Publicada originalmente como uma noveleta na revista Unknown em dezembro de 1939, ganhou forma definitiva em 1941 quando foi expandido para um pequeno romance. Causou grande impacto nos anos 1940, e mesmo com o autor tendo uma carreira posterior longa e prolífica é a sua obra mais celebrada e republicada. Em 1989, por exemplo, apareceu na prestigiosa série “The Masterpieces of Science Fiction”, da The Easton Press.
Isso apesar de Lest Darkness Fall não ser uma história propriamente identificada com os temas mais comuns da época - a Golden Age -, como os impérios interestelares, contatos com alienígenas, robôs e cientistas loucos, pois trata, de um modo bem particular, do impacto do uso dos avanços tecnológicos nos valores e costumes de uma sociedade.
Estamos na Roma do século VI, ano de 535, pouco tempo depois do Império do Ocidente ter caído e estar sob a posse dos godos – um dos povos identificados com os alemães contemporâneos. L. Sprague de Camp traça um amplo painel da vida desta época, mas a narrativa está longe de ser um relato mais calcado numa historiografia tradicional. Vejamos porque.
Martin Padway é um arqueólogo norte-americano em viagem de trabalho a Roma que, sob uma tempestade, de forma inexplicável recua 14 séculos no tempo. Seu amigo Tancredi há pouco lhe explicara uma teoria de que seria possível escorregar aos eventos passados, pois a História seria uma teia em quatro dimensões e que, em pontos fracos poderia haver uma conexão involuntária com outras épocas. Padway se mostra descrente de tal argumento, mas pouco depois de se despedir do amigo, se vê ele próprio como vítima desta teoria.
O que fazer na Roma do século VI? Foi um período de grande decadência e perda de relevância política, após o fim do Império ocidental e as invasões de vários povos bárbaros. Ele rapidamente procura por pessoas que possam ajudá-lo a sobreviver numa época completamente diferente da sua. Mas para Padway apenas em parte, já que ele, como estudioso de História, tinha sólidos conhecimentos sobre este período que antecede a Idade Média. Fala, inclusive, um pouco de latim, podendo, assim se comunicar com relativa habilidade. Conhece, entre outras pessoas, um banqueiro sírio que lhe empresta algum dinheiro para que possa se manter.
Embora seja um homem culto, Padway revela um talento incomum para a ação e o empreendimento. Sem nenhum pudor ou preocupação começa a introduzir mudanças na vida cotidiana, com a inclusão de novas tecnologias, da qual tira o seu sustento. De início com a destilação de bebidas, para depois ir mais além por meio de técnicas modernas de contabilidade, e os algarismos árabes. Com isso parte para suas criações mais ambiciosas: a construção de máquinas tipográficas – antecipando Gutemberg em cerca de 1000 anos –, o que lhe permite publicar um jornal semanal e, uma rede de comunicação por telégrafos, mas sem a eletricidade. Assim procurou difundir e democratizar o conhecimento e aperfeiçoar as comunicações a longas distâncias. De fato, duas das criações mais importantes para forjar uma civilização mais livre e integrada.
Como o próprio título sugere – A Fim de que Não Caiam as Trevas – Padway teve por objetivo, com suas inovações tecnológicas, evitar a queda do Ocidente nas assim chamadas trevas do obscurantismo medieval. É fato que tais mudanças sugerem fortemente que isto vá acontecer mas, penso que as decisões do arqueólogo se deram também num sentido mais pragmático, de alguém que buscou alternativas concretas e criativas para viver num mundo de costumes muito diferentes do dele. Mas em nenhum momento ele se pergunta se ao mudar o futuro ele mesmo não estaria com sua existência ameaçada.
Mais do que o tema em si e suas possíveis consequências o diferencial de A Luz e as Trevas é o texto ágil, além do tom coloquial e levemente humorístico. Martin Padway, neste novo século, é chamado de Martinus Paduei, e ganha a alcunha de “misterioso”, pois além de apresentar várias invenções aos italianos e godos, ainda demonstra prever o futuro, em algumas situações que lhe possa trazer vantagens imediatas. Como não poderia deixar de ser nesta época, é acusado de feitiçaria e preso, e só se livra dos possíveis destinos desta época, a excomunhão, as masmorras ou a fogueira, porque suborna um bispo influente.
Por tudo isso Martinus acaba sendo objeto de admiração e desconfiança, mas tem a prudência de cercar-se de algumas pessoas fiéis que estão sempre do seu lado, como o banqueiro Thomasus, o guarda pessoal Fritharik e o fazendeiro Nevitta. Devido ao seu gênio, Martinus prospera e por antever uma guerra dos godos com o Império Romano do Oriente, sob a liderança do imperador Justiniano, passa a agir politicamente para proteger seus negócios, tornando-se mesmo questor do titubiante rei godo de Roma, Thiudahad.
A narrativa é recheada de momentos inspirados e divertidos, personagens interessantes e espirituosos, e traz uma boa contextualização histórica dos valores e costumes da Itália do século seis. Todas estas virtudes tornam a leitura extremamente agradável, mostrando um autor seguro de sua prosa, na construção de personagens e timing para uma obra que, no fundo, não procura se levar muito a sério. Uma FC pulp da melhor qualidade.
Esta última característica, por sinal, ecoa muitas das histórias de FC dos anos 1930 e 1940, no qual o eixo condutor, por assim dizer, encontra-se na ação dos acontecimentos e não em possíveis reflexões dos acontecimentos em si. Isso, de certa forma, alivia um possível questionamento crítico que se poderia fazer a Martin, ou melhor, Martinus, já que ele conscientemente altera a História e não vê problema algum nisso – e sendo um arqueólogo! Chama a atenção de que em nenhum momento ele pensa em voltar ao século XX, se adaptando de forma resignada, mas não melancólica, em viver fora de sua época, não vendo mais suas pessoas queridas e compartilhando dos valores e costumes de sua época.
A Luz e as Trevas é uma FC histórica motivada pelo recurso da viagem no tempo, e tornou-se muito influente, tendo inspirado outras narrativas semelhantes e até continuações por outros autores. É mesmo considerada uma das precursoras contemporâneas do subgênero da História Alternativa, que viria a se desenvolver com vigor a partir da segunda metade do século XX. Além disso, o romance é também um representante do que de melhor a ficção pulp produziu nos anos 1930 e 1940, a despeito da pouca consideração que esta vertente literária tem até os dias de hoje. Isso porque, temos uma história inteligente, agradável e despojada, que faz deste livro um momento singular da ficção científica.


– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!
Cesar Silva

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017)


O triunfo da Morte

O fã de cinema de horror que está procurando diversão escapista, barulheira, correrias desenfreadas, tiroteios, sustos fáceis, sangue em profusão, tripas expostas, monstros em CGI, não irá encontrar no filme “Ao Cair da Noite” (It Comes at Night, 2017), que estreou em circuito comercial restrito nos cinemas brasileiros em 22/06/17, com cópias originais legendadas. Porém, quem aprecia e procura uma história tensa, com constante atmosfera sombria e perturbadora, carregada de paranoia, mistério, pessimismo, com narrativa mais cadenciada onde toda esperança está abandonada, num ambiente de grande pressão psicológica, além de um final depressivo, então esse é o filme indicado.
Com direção e roteiro de Trey Edward Shults, temos uma família morando isolada numa casa no meio da floresta, formada pelo pai protetor, Paul (o australiano Joel Edgerton), a esposa Sarah (a inglesa Carmen Ejogo), e o filho adolescente de 17 anos, Travis (Kelvin Harrison Jr.), que tem pesadelos terríveis frequentemente. O clima é de tensão constante, numa luta pela sobrevivência contra uma contaminação misteriosa que aparentemente mergulhou o mundo no caos. Eles precisam eliminar a ameaça que tomou o corpo do avô, Bud (David Pendleton), enterrado com o cadáver cheio de feridas pestilentas e carbonizado por segurança. Porém, as coisas se complicam mais ainda após a chegada de outra família pedindo refúgio, formada pelo jovem casal Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough), e o filho pequeno Andrew (Griffin Robert Faulkner).
Distanciando-se da fantasia tradicional do cinema, “Ao Cair da Noite” se aproxima mais de uma possível realidade com o mundo mergulhando numa contaminação devastadora não explicada, onde os sobreviventes precisam lutar ferozmente por suas vidas fragilizadas. Trazendo à tona seus instintos mais selvagens de sobrevivência, utilizando-se de violência e desconfiança para a autopreservação, eliminando gradativamente os sentimentos e emoções que caracterizam a humanidade, dando lugar à frieza e indiferença.  
Indo na contra mão do cinema que prioriza o entretenimento com pipoca e refrigerante, “Ao Cair da Noite” aposta no mistério, na falta de informação sobre os trágicos acontecimentos externos, no clima de tensão devido à luta selvagem pela sobrevivência, no desespero crescente do fim aparentemente inevitável da humanidade, dizimada por uma doença sem nome.
Após ver o filme e com o sentimento perturbador e desconfortável que invade o espectador, temos a sensação de que seriam pessoas de sorte todas aquelas que fossem carregadas pela Morte logo no início do apocalipse, caso um dia uma pandemia devastasse a Terra.
(Juvenatrix – 03/07/17)