segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Solarium 3

Solarium 3, Frodo Oliveira, org. 220 páginas, capa de Natalia Caruso. Editora Multifoco, selo Anthology, Rio de Janeiro, 2014.

Em 2009, Frodo Oliveira organizou para a Editora Multifoco o primeiro volume da coleção Solarium, uma antologia de contos de ficção científica com textos de autores novos e algumas boas revelações. A parceria já rendeu três sequências, a mais recente delas é o volume quatro, publicada em 2016. O objeto desta resenha é o volume três, de 2014.
Solarium 3 manteve a proposta de apresentar autores novos no panorama da fc brasileira. O próprio organizador assina um dos 29 textos da edição, que também tem Aldo Costas, Anderson Dias Cardoso, Andrei Miterhofer Cutini, Bruno Eleres, Cesar Bravo, Cristiano Gonçalves, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, David Machado Santos Filho, Demetrios Miculis, Edgard Santos, Eduardo Alvares, Emerson D. E. Pimenta, Fabiana Guaranho, Fabio Baptista, Fernando Aires, Giovane Santos, Gutemberg Fernandes, Helil Neves, Ítalo Poscai, Jowilton Amaral da Costa, Lucas Félix, Marcelo Sant'Anna, B. B. Jenitez, Patrick Brock, Ricardo Guilherme dos Santos, Sheila Schildt e Thiago Lucarini.
Não seria produtivo comentar conto a conto aqui, pois a maior parte é amadora e carece de um desenvolvimento mais apurado mas, como sempre acontece em antologias, alguns textos se destacam e merecem ser observados mais detidamente.
"Olhos de Cronos", de Andrei Miterhofer Cutini, é uma ucronia sobre um homem ferido e sem memória que desperta nos arredores de um povoado arruinado pela guerra e habitado por aleijados e moribundos assolados por ladrões de órgãos. Em seus bolsos, alguns itens estranhos que vão se revelar as chaves da salvação do seu mundo. Fica patente a influência da obra de Philip K. Dick, especialmente do conto "O pagamento" (em Realidades adaptadas, Philip K. Dick, Aleph, 2012), mas Cutini demonstra habilidade na condução do enredo, sem replicar os maneirismos do autor americano.
"Contato secreto: Operação Forget", de Cristiano Gonçalves, é uma bem elaborada ficção ufológica na linha do seriado de televisão Arquivo X. Militar desmemoriado desperta no hospital depois de participar de uma ação secreta que o deixou em coma por alguns dias. Disposto a entender o que se passou, inicia uma investigação que irá levá-lo a uma evidente conspiração governamental.
"O agricultor", de David Machado Campos Filho, vai a um futuro no qual comer carne se tornou um crime. A engenharia genética desenvolveu, então, uma nova espécie de vegetais híbridos que replicam tecidos comestíveis para substituir a proteína animal na mesa dos consumidores. Entre simulacros de aves, boi, porco e até mesmo leite e ovos, a próxima aposta do agricultor é um novo tipo de carne que pode se tornar um grande negócio no futuro. Humor negro absurdista apresentado em detalhes instigantes e um desfecho surpresa bem construído – coisa rara –, este bom texto critica os extremos da moda do veganismo.
"Ogum S. A.", de Patrick Brock, é uma divertida space opera apresentada em forma de diário de um pouco honesto empreendedor do ramo dos transportes interplanetários, que relata os dramas e alegrias, sucessos e fracassos de sua vida atribulada. Um dos melhores textos do volume que, junto ao conto comentado no parágrafo anterior, usa de um protagonista sem caráter, típico da literatura brasileira, para especular sobre a nossa cultura e atitudes frente a vida.
"Só", de Ricardo Guilherme dos Santos – autor cujos préstimos me fez chegar às mãos este volume – também investe numa space opera na qual a inteligência artificial de uma espaçonave de gerações relata a história dramática do povo que a construiu e usou através dos séculos, em sua viagem em direção à eternidade. A personalização de espaçonaves e computadores, que é um dos temas recorrentes da ficção científica, tem aqui um exemplo de contornos poéticos que obteria resultados mais expressivos se o autor tivesse elaborado uma voz própria para a sua I.A., uma linguagem de máquina, digamos assim – perseguida por William Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial, totalmente perdida na tradução brasileira, diga-se de passagem –, que daria ao texto um aspecto literário mais expressivo. Exemplo de construção de vozes próprias bem sucedidas na fc&f brasileira estão no conto "Meu nome é Go", de André Carneiro, publicado na coletânea A máquina de Hyerônimus e outras histórias (UFSCar, 1997), e nos textos da série A saga de Tajarê, de Roberto de Sousa Causo, vistos em A sombra dos homens (Devir, 2004), mas como não são especificamente vozes de máquinas, este é aparentemente um desafio ainda por realizar na fc brasileira.
Há potencial nos demais textos apresentados na antologia, que renderiam ótimas peças se tivessem uma orientação técnica especializada, mas é preciso ter em mente que, tal como suas edições anteriores, Solarium 3 é uma antologia de autores novos, muitos deles estreantes. A proposta da seleção não é publicar o melhor da fc nacional, mas abrir espaço ao exercício do gênero no país, uma missão legítima e digna geralmente feita por revistas e fanzines, pouco publicados neste momento. Encarado como um periódico literário, Solarium 3 não decepciona e, como tal, é uma iniciativa que deve ser valorizada.
Solarim 3 – bem como os demais volumes da série – pode ser encontrado no saite da Editora Multifoco, aqui.

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