sábado, 29 de abril de 2017

Vinte anos no Hiperespaço

Vinte anos no Hiperespaço, Cesar Silva, org. Prefácio de Marcello Simão Branco. Capa: Cerito. Editora Virgo, São Caetano do Sul, 2003.
A ANTOLOGIA QUE FECHOU UM CICLO
O fanzine Hiperespaço, editado por Cesar Silva e, no início, também por José Carlos Neves e Mário Mastrotti, durou uns vinte anos. Quando resolveu encerrá-lo, Cesar organizou uma antologia comemorativa, que passo a comentar.
VINTE ANOS NO HIPERESPAÇO, Cesar Silva e Mário Mastrotti.
A capa do livro equivale a um conto em forma de noticiário em torno do personagem “Tripanossoma”, pirata galático criado por Mário Mastrotti, responsável pela parte visual da história. A notícia da captura do pirata e seu cúmplice Dodô é bem-humorada, mas infelizmente a colocação das colunas da notícia em posição inclinada fez com que algumas letras se perdessem, impossibilitando a leitura integral do trabalho.
A NOVA REVOLUÇÃO DOS BICHOS, Carlos Orsi Martinho.
Este é, a meu ver, o melhor trabalho da antologia. Com uma originalidade muito grande Carlos Orsi desenvolve uma fábula utópica e autópica que já começa com palavras intrigantes: “O maligno Humanoide observa, impotente, os Gorilas Selvagens de Chachka-Qun atacarem as paredes do Palácio de Tugstênio com brocas roubadas de diamante.” É um conto divertido, que prima pelo absurdo e narrado com grande engenhosidade, numa tessitura que se completa brilhantemente no desfecho, e ainda aproveita para uma referência a Animal farm de George Orwell (ao seu título no Brasil, A revolução dos bichos).
BACTÉRIA, Edgard Guimarães.
Conto sofisticado onde um sujeito especula sobre um hipotético micro-organismo que altera os textos impressos. É um conto bem escrito em termos de língua portuguesa mas esbarra com o problema de não conseguir passar a mensagem de humor que pretende na surpresa final, que de resto é previsível.
ANDROIDES ORGÂNICOS TERÃO CABELOS NO PEITO?, E. R. Corrêa.
História extravagante e de difícil compreensão, a começar pelo título esquisito e excessivamente comprido. Tudo gira em torno de um sujeito reles num botequim, no meio-dia de São Paulo, pensando em ataques terroristas e que, por fim, começa a desconfiar ser ele próprio um androide bomba. A linguagem “punk” prejudica muito o clima de terror induzido e o desfecho, anticlimático, é decepcionante.
PAULA, A ESTRANHA, Fernando Moretti.
Parece que o autor se inspirou, no título, na Carrie de Stephen King. A história porém segue a via da psicopatia, não a do terror puro. O que salta aos olhos é a gratuidade da violência narrada, uma história que segue a triste via do “brutalismo” que hoje infesta a literatura e o cinema.
COLEIRA DO AMOR, Gerson-Lodi Ribeiro.
Num entrecho mais longo – aliás esse autor costuma escrever contos bem mais longos – Gerson conta uma história que poderíamos chamar “passional-tecnológica”, exercitando sua habitual firmeza de estilo e habilidade em tecer tramas. No entanto, a ideia da manipulação dos próprios sentimentos mediante a implantação de nanorrobôs e a discussão se isso fere ou não o livre-arbítrio resulta numa discussão em jargão técnico que soa bem artificial e pesada para os leitores, principalmente aqueles que veem a ficção científica como lazer. Vejam este trecho: “Os chips de amor eterno não inserem novos padrões (...) Apenas reforçam as trilhas neurais que expressam sentimentos mútuos pré-existentes.” Em todo o caso creio que Gerson tem razão ao sugerir a possibilidade de loucura como consequência de tais manipulações.
V.I.R.T.U.A.L., Gian Danton.
Uma divertida vinheta que brinca com aquele clichê de “nada é o que parece ser”, tornado mais comum após a descoberta do mundo virtual. Fazendo lembrar o Hal – o computador inteligente de “2001: uma odisseia no espaço” – o pequeno conto de Gian Danton pode ser considerado perfeito, e admite vários níveis de leitura. O que é a realidade? O que é a auto-consciência?
O MONSTRO DO ARMÁRIO EMBUTIDO, Miguel Carqueija.
Uma espécie de conto lovecraftiano infantil, que se reporta aos clássicos terrores das crianças. Como se sabe, o folclore infantil fala nos monstros  que habitam os armários ou se emboscam embaixo da cama, nos amigos invisíveis e nos brinquedos que se movem e falam na ausência dos humanos. O protagonista-narrador, já adulto, relembra um fato traumatizante de sua meninice.
(observação: como sou eu o autor do conto não posso dar opinião sobre ele e limitei-me a explicar o enredo)
ARMAGEDOM EM MADUREIRA, Octávio Aragão.
Incursão no domínio do “non sense”, como nos velhos quadrinhos de Juarez Machado; porém com detalhes vulgares. A história começa com uma mulher sendo lambida pelo telefone (sic). Outros horrores vão acontecendo, culminando com uma explicação atroz a respeito de uma invasão do inferno. Esse é, de longe, o pior conto do livro.
PRÉ-NATAL, Roberto de Sousa Causo.
Os textos de Causo com frequência tratam de assuntos militares e políticos, e também polêmicos. No caso trata da luta contra a tirania, uma ditadura de algum país não identificado (mas que parece ser o Brasil), já que o autor tem a idiossincrasia de falar apenas no “Regime” e no “Ditador”. Uma criança em gestação deve ser contrabandeada e, para tanto, é implantada no abdômen de um homem, na suposição de que isto iludirá a vigilância do inimigo. O conto me parece pouco convincente do ponto de vista científico, pois não consegui entender como o bebê poderia sobreviver no corpo de um homem.
O ÚLTIMO SUSPIRO, Cesar Silva.
Um conto muito curto para o assunto, passado em época nebulosa, talvez num futuro distante, onde uma nova idade de gelo isola comunidades humanas e, numa delas, um dos habitantes tem a ideia de organizar torneios esportivos para evitar a degeneração da raça e manter a esperança de dias melhores; todavia os torneios só servem, afinal, para estimular o ódio entre as famílias. É um conto deprimente, com um final sombrio. Creio que a ideia básica daria para melhor desenvolvimento e um final menos pessimista. Em todo o caso, uma visão bastante ácida em relação à natureza humana.
Miguel Carqueija

segunda-feira, 17 de abril de 2017

As Crônicas de Medusa

As Crônicas de Medusa (The Medusa Chronicles), Stephen Baxter e Alastair Reynolds. Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasil. 432 páginas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2016.

Quando Arthur C. Clarke (1917-2008) escreveu “Encontro com Medusa” ele estava no auge de seu prestígio e popularidade. Vinha do êxito do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, de 1968, em que ele foi co-responsável pelo roteiro e autor de um excelente romance. A novela foi publicada em dezembro de 1971 na edição norte-americana da revista Playboy, e venceria o Prêmio Nebula em 1972 e o Prêmio Hugo em 1973, os dois mais importantes da ficção científica.
“Encontro com Medusa” foi publicado no Brasil na coletânea O Vento Solar: Histórias da Era Espacial (Globo, 1973), e é provavelmente seu último trabalho de relevância na ficção curta. O enredo narra uma missão ao interior de Júpiter, e a descoberta de surpreendentes formas de vida que flutuam na atmosfera gasosa do gigantesco planeta. As descrições acuradas das etapas da missão e do encontro com as tais medusas são um primor de equilíbrio entre criatividade e verossimilhança científica. Quem conduz a missão é Howard Falcon, que anos antes sofrera um grave acidente no comando do dirigível Queen Elisabeth IV, e fora cobaia de uma experiência medicinal de fronteira, pois ele foi quase totalmente reconstruído com componentes artificiais. Falcon tornou-se um ciborgue, meio homem e meio máquina, e por isso o único capaz de mergulhar no interior de um planeta hostil à vida humana, com temperaturas e pressões na casa dos milhares de graus e atmosferas.
Já ao final de “Encontro com Medusa”, após o êxito da missão, Falcon havia se tornado uma espécie de pária. Respeitado sim, mas com reservas, pois se intuia que como um ciborque ele sinalizava o possível passo evolutivo da humanidade. Um pós-humano. Cerca de dez anos depois, reencontramos Howard Falcon no romance As Crônicas de Medusa, escrito pela dupla de autores britânicos Stephen Baxter e Alastair Reynolds.
O livro cobre um período de tempo de quase mil anos, e mostra como um ser praticamente imortal serve de elo entre a humanidade e as máquinas que, após adquirirem inteligencia e autonomia, se desprendem dos seus criadores e passam a competir com eles sobre o predomínio dos corpos celestes do Sistema Solar e seus recursos naturais. Falcon, que manteve a sua patente de comandante da Marinha Imperial da Terra, é chamado, de forma intermitente, para agir como uma espécie de embaixador da humanidade nos contatos cada vez mais complexos com as máquinas. Desta forma o livro apresenta uma série de eventos em que Falcon assume a tarefa – meio a contragosto – de representar os interesses humanos frente ao dos robôs. Só que sua ligação com os últimos torna-se próxima o suficiente para que sua lealdade seja posta em xeque.
Numa atividade industrial de extração de recursos energéticos num asteróide transplutoniano, ocorre um acidente que destroi vários robôs. Adam, o líder, para os trabalhos e Falcon é enviado para descobrir o que aconteceu. Descobre que Adam sentia tristeza pela perda dos companheiros e questionava como que os humanos os haviam colocado numa missão perigosa, e sem a segurança necessária. Ao descobrir que Adam tinha sentimentos, Falcon não apaga suas memórias, como era recomendado, mas faz um acordo com ele para que voltasse aos trabalhos, até conseguirem construir uma nave para zarparem do Sistema Solar. Centenas de anos depois, Adam anuncia o retorno da agora civilização artificial, e com um últimato: os humanos teriam 500 anos para sairem da Terra, pois seria ocupada pelas máquinas. Com isso humanos e máquinas entram definitivamente em conflito pela supremacia política e tecnológica dos planetas do Sistema Solar, numa ação de certa forma iniciada por Falcon em sua missão ao asteróide.
As Crônicas de Medusa é um romance épico que mostra como ocorre o relacionamento entre criadores e criaturas, retomando um tema dos mais tradicionais da ficção científica, agora em escala espacial. Na verdade, Baxter e Reynolds especulam sobre o que pode acontecer se as máquinas adquirirem uma autoconsciência e se tornarem muitíssimo mais inteligentes e capazes que a humanidade. Segue os argumentos da chamada singularidade, que poderia estar por acontecer ainda no século XXI. Mesmo que seja pouco provável que isto aconteça, ao menos em nosso tempo histórico, quais poderiam ser os possíveis desdobramentos? Uma nova espécie inteligente se contentaria a servir apenas aos seus criadores? Ou passaria a questionar sua condição subalterna e se rebelaria, lutando por direitos, liberdade e buscando seus próprios objetivos? Como ficaria a humanidade à mercê de uma espécie muito mais inteligente, capaz e praticamente imortal? Todas estas perguntas já foram feitas e mostradas em muitas histórias do gênero, e Baxter e Reynolds não almejam originalidade, embora coloquem a questão numa contextualização contemporânea, com aquilo que temos de mais recente em termos de pesquisa científica.
Mas o leitor pode estar se perguntando: E as Medusas? Sim, Falcon cultiva um carinho especial por estes seres enormes que flutuam no meio da atmosfera gasosa de Júpiter. De tempos em tempos, ele voltará a encontrá-las. E são nestas sequências que temos os momentos mais belos de especulação e fantasia nos mergulhos cada vez mais profundos do imenso planeta. Poucas vezes presenciei a descrição de cenas tão inspiradas sobre os mistérios de um planeta tão diferente e fascinante. Tanto do ponto de vista de como ele pode ser em termos naturais, como das eventuais formas de vida que ele pode abrigar. Pois poderá vir justamente das entranhas de Júpiter a chance eventual de reaproximação entre os homens e as máquinas, tendo, mais uma vez, Howard Falcon como uma figura central nos acontecimentos.
O desafio de escrever um romance que ocorre num intervalo de séculos é que possa segurar o interesse e não se torne uma espécie de colcha de retalhos de diferentes eventos que se justapõe. Pois Baxter e Reynolds são competentes ao amarrarem os diferentes acontecimentos dentro de um contexto maior e tendo um personagem principal a servir como elo da narrativa. Mesmo assim, pode-se ponderar que paira sobre a história um drama frio e distanciado. Alguns dos eventos cataclísmicos que ocorrem não recebem uma carga emocional condizente. Os personagens não são muito densos e desenvolvidos do ponto de vista psicológico, mesmo Howard Falcon, um sujeito que atravessa as eras praticamente sozinho, pois perde seus amigos, não tem família e apenas a sua médica é o que mais se pode considerar como uma pessoa íntima – mas ela também é humana. Contudo, pode fazer sentido, pois afinal ele, conforme o tempo passa, tona-se cada vez menos humano e mais próximo das máquinas. Virtualmente imortal como elas.
As Crônicas de Medusa foi listada como “leitura recomendada” dos melhores do ano da revista Locus: The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field, a mais prestigiosa da FC, embora não tenha sido finalista do Hugo e Nebula.  E é surpreendente que tenha sido traduzida e publicada tão rapidamente no Brasil pois, afinal, o livro é de 2016. Talvez tenha a ver com o fato de Ronaldo Sérgio de Biasi ser o tradutor, uma figura importante na ficção científica brasileira no início dos anos 1990, quando editou as 25 edições da Isaac Asimov Magazine (1990-1993) – versão brasileira da Asimov´s Science Fiction. Biasi nunca escondeu que prefere a vertente hard da FC, e talvez tenha influenciado a editora a publicar este romance. Acertou em cheio.
Quando imaginamos que As Crônicas de Medusa seja uma homenagem a Arthur C. Clarke, já seria louvável, embora pudesse não acrescentar muita coisa aos autores, dois expoentes da FC hard desde, pelo menos, os anos 1990. Mas a obra vai além e se ombreia na melhor tradição da corrente temática mais tradicional do gênero.
Num momento em que parte expressiva da FC se repete de maneira desanimadora com histórias sobre temas distópicos, tornando o gênero mais pobre, As Crônicas de Medusa é um sopro de criatividade. Na melhor tradição de uma literatura de ideias, apresenta vários insights especulativos e reflexões sobre os possíveis efeitos complexos da convivência entre duas civilizações inteligentes. Mostra que a FC ainda pode ser capaz de obras no qual é possível especular de forma despojada, e em que o sense of wonder não só é desejável, como necessário. E que uma obra como esta tenha sido inspirada numa história de Arthur C. Clarke não é mera coincidência.


– Marcello Simão Branco

domingo, 16 de abril de 2017

O peculiar, Stefan Bachmann

O peculiar (The peculiar), Stefan Bachmann. 272 páginas. Tradução Viviane Diniz. Editora Record, selo Galera Júnior, Rio de Janeiro, 2014.

A Terra Velha, também conhecida como o mundo das fadas, liga-se ao mundo dos homens por portais que surgem eventual e naturalmente. Nesses episódios, homens desatentos os atravessam para ficar para sempre presos nas florestas selvagens da magia, ou fadas vêm parar aqui, onde definham por causa da magia fraca. Mas, em raríssimas vezes, surgem portais grandes o suficiente para que muitas fadas atravessem para o nosso mundo. É quando as coisas realmente ruins acontecem. Foi o que ocorreu em Bath, uma pequena aldeia próxima de Londres, na noite de 23 de setembro de algum ano no século 19. Todos os aldeões desapareceram misteriosamente e uma horda fadas selvagens começaram a causar todo tipo de problemas nos arredores. O exército interveio e uma guerra feroz aconteceu. No início, foi um massacre, mas aos poucos os homens aprenderam a subjugar as fadas e acabaram por vencê-las. Com o fim do conflito, que ficou conhecido como Guerra Sorridente, o mundo mudou. As fadas se tornaram um recurso valioso entre os homens, como fonte alternativa à tecnologia, embora esta ainda predomine na maior parte do mundo. Máquinas movidas a carvão e magia são coisas corriqueiras. Na virada do século, homens e fadas desfrutam de uma convivência quase pacífica, embora estas ainda estejam, em sua maior parte, escravizadas ou segregadas em guetos insalubres. As fadas até são toleradas, ao ponto de terem representantes no Parlamento, mas uma categoria delas é odiada pela sociedade, tanto humana quanto mágica: os peculiares, popularmente chamados de medonhos. Filhos da união entre fadas e homens, sem ser nem homens nem fadas, os peculiares são odiados e perseguidos até a morte. Por isso, ninguém ligou quando corpos ocos de peculiares jovens começaram a surgir boiando no Tâmisa.
Na periferia favelada de Bath, no Beco do Velho Corvo, os irmãos peculiares Bartholomew e Hattie Kettle moram com sua mãe humana. Seu lema de vida é "não seja notado e não será enforcado". Por isso, vivem escondidos no barraco que chamam de casa, fora das vistas de todos. Mas como a curiosidade também é um traço forte nas crianças peculiares, Barth vê quando uma linda e elegante dama num vestido cor de ameixa leva embora um de seus poucos amigos, peculiar como ele, entregue pela própria mãe a troco de alguma coisa. Mas a bisbilhotice de Barth não passou despercebida.
Em Londres, o despreocupado Sr. Jelliby segue com sua vida confortável como representante no Parlamento. Sobreviver às tediosas reuniões políticas é o principal desafio de sua vida, sendo que passa o restante de seu tempo em festas, espetáculos e bons restaurantes da metrópole. Mas o destino tem outros planos para ele e as coisas começam a acontecer muito rápido quando é obrigado, muito a contragosto, a comparecer a uma reunião social protocolar na residência do Lorde Chanceler John Wednesday Lickerish, a mais bem posicionada fada do império. Quando mais um peculiar é encontrado no Tamisa, um turbilhão de acontecimentos sinistros colocará o Sr. Jelliby ao lado do jovem Bartholomew, empurrando-os literalmente em direção ao fim do mundo.
O peculiar (The peculiar) é o romance de estreia do jovem escritor americano Stefan Bachmann, publicado em 2012 pela Harper Collins quando tinha apenas 19 anos, sendo elogiado por autores como Rick Riordan e Christopher Paolini. Bachmann nasceu em 1993, no Colorado, e vive atualmente em Zurique, na Suiça, onde estuda música, tendo composto uma trilha sonora para o livro, disponível em ThePeculiarBook. A edição brasileira veio em 2014 pelo selo Galera Junior da editora Record, com tradução de Viviane Diniz.
O romance impressiona pela concisão e boas ideias, dialogando com obras vultosas como o premiado Jonathan Strange & Mr. Norrell, de Susanna Clarke. Há um toque steampunk secundário na trama, embora seja um elemento útil em vários momentos. Também há méritos do autor na habilidade em reconstruir o ambiente britânico, algo que nem todo americano consegue tão naturalmente.
Bachmann escreveu uma sequência, The whatnot, publicado originalmente em 2013 e traduzido no Brasil pela mesma Record em 2015 com o título de Não-sei-o-quê, cujo capítulo inicial está disponível para leitura aqui.
-- Cesar Silva

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A Morte Veste Vermelho (I´m Dangerous Tonight, EUA, 1990)


A Morte Veste Vermelho” é um filme que tem direção de Tobe Hooper, um cineasta com nome reconhecido no gênero principalmente pelo eterno clássico “O Massacre da Serra Elétrica” (1974). O elenco é formado, entre outros, por Anthony Perkins, o psicopata Norman Bates de “Psicose”, e Dee Wallace-Stone, atriz veterana e um rosto conhecido por preciosidades dos anos 80 como “Grito de Horror”, “E.T. – O Extraterrestre”, “Cujo” e “Criaturas”. Lançado em nosso mercado de vídeo VHS pela “CIC”, o filme realmente desperta a atenção por essas credenciais e só por esses nomes no projeto já valeria uma conferida. Mas, fora isso, não deixa de ser apenas mais um filme mediano de horror, produzido diretamente para a televisão, que diverte ligeiramente sem muita exigência.
Um caixão misterioso que era utilizado em rituais de sacrifícios humanos pelos antigos astecas é comprado ilegalmente por um museu. Em seu interior repousa a múmia de um sacerdote maligno, vestindo um manto cerimonial vermelho com poderes sobrenaturais. Após um incidente com morte, o manto vermelho vai parar dentro de um baú que foi comprado numa venda de garagem pela bela estudante Amy O´Neill (Madchen Amick), namorada do colega de escola Eddie (Corey Parker). Depois de transformado num belo vestido, aos poucos a jovem vai descobrindo que o estranho tecido vermelho exerce forte influência na personalidade das pessoas que o vestem, despertando agressividade e tendências assassinas em seus usuários.
Entre as vítimas gananciosas do manto estão Gloria (Daisy Hall), prima de Amy, e Wanda Thatcher (Dee Wallace-Stone), uma mulher envolvida com bebidas, drogas e prostituição e que se aproveita do vestido sobrenatural para se afundar ainda mais na criminalidade. Os assassinatos misteriosos despertam a atenção da polícia, sob a investigação do Capitão Ackman (R. Lee Ermey), que sempre está fumando, e também a curiosidade do sinistro Prof. Gordon Buchanan (Anthony Perkins), que está interessado no “Animismo” (a crença que objetos inanimados possuem uma essência espiritual), e consequentemente nos eventuais poderes do misterioso manto vermelho, com sua história sobre violência e mortes sangrentas.
Quem combate monstros deve se cuidar para não virar monstro. Quando você olha um abismo, o abismo também olha para você.” – Friedrich Nietzsche (1844 / 1900)
Dessa vez parece que o título nacional escolhido é até melhor que o original. “A Morte Veste Vermelho” soa bem e tem relações coerentes com a história, funcionando bem melhor que “I´m Dangerous Tonight”, que numa tradução literal seria “Eu Estou Perigoso(a) Esta Noite”, um título mais comum e sem impacto. O filme tem o diferencial pela direção de Tobe Hooper e elenco com Dee Wallace-Stone e Anthony Perkins, mas isso não é suficiente para torná-lo especial. A história, baseada num conto de Cornell Woolrich, até tem seus interesses, mas o resultado final é mediano, principalmente pelas doses discretas de violência. O desfecho apresenta um gancho que até poderia ser explorado para uma sequência, mas a ideia foi descartada.
(Juvenatrix –12/04/17)

domingo, 9 de abril de 2017

A Morada do Terror (Grandmother´s House, EUA, 1988)


Com direção de Peter Rader, “A Morada do Terror” (outro título nacional oportunista e sem relação com o original) é de 1988 e foi lançado por aqui em VHS pela “Transvídeo”. A produção é do grego Nico Mastorakis, que também é conhecido pela direção de outras bagaceiras dos anos 1970 e 80 como “A Ilha da Morte” (1976),  “A Próxima Dimensão” (1984) e “The Zero Boys” (1986).
Depois da morte do pai dos irmãos adolescentes David (Eric Foster) e Lynn (a bela Kim Valentine), eles vão morar com seus avós numa casa de campo (daí o nome original “A Casa da Vovó”). São bem recebidos pelo avô (Len Lesser) e a avó (Linda Lee), mas depois que o garoto David testemunha um movimento suspeito deles com uma misteriosa e estranha mulher (a “scream queen” Brinke Stevens), ele passa a se sentir inseguro e desconfia que seus parentes mais velhos possam estar envolvidos em assassinatos.
Qualquer informação adicional pode ser considerada “spoiler” e comprometer a diversão do espectador, pois o filme é cheio de reviravoltas e revelações importantes ao longo da história. Temos um clima constante de suspense que consegue manter a atenção, apesar de que algumas situações inverossímeis ocasionalmente atrapalham o resultado final. Alguns personagens desaparecem por um tempo e reaparecem depois, numa manobra propícia para facilitar o trabalho do roteirista, porém prejudicando a coerência da história.
O filme tem pouco sangue, as mortes são discretas e as cenas de golpes com faca e machado não evidenciam o líquido vermelho, com as lâminas limpas mesmo após penetrarem repetidas vezes nos corpos das vítimas, numa falha grosseira que minimiza o grau de violência. Mas, ainda assim, “A Morada do Terror” consegue despertar o interesse com as reviravoltas na descoberta da verdade. A dupla de atores adolescentes cumpre bem o papel, principalmente o garoto Eric Foster, assumindo uma posição importante na história tentando entender a postura sinistra de seus avós e a real identidade da mulher misteriosa que surge para aterrorizar a casa. E o veterano ator Len Lesser (1922 / 2011) também se destaca no papel do avô com segredos obscuros do passado, numa interpretação assustadora e convincente.
(Juvenatrix –09/04/17)

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Marca do Vampiro (Pale Blood, EUA / Hong Kong, 1990)


Lançado em VHS no Brasil pela “Sato Comunicações”, “A Marca do Vampiro” (Pale Blood, 1990) é um obscuro filme de vampirismo totalmente datado, nos remetendo ao período de transição entre as décadas de 80 e 90 do século passado, uma época sem as facilidades do celular, da internet e dos efeitos artificiais de computação gráfica. Tudo é datado, desde a atmosfera, figurinos e trilha sonora, com várias músicas da banda americana de punk rock “Agent Orange”.
Numa co-produção entre EUA e Hong Kong e com direção de V. V. Dachin Hsu e Michael W. Leighton, a história é sobre a chegada aos Estados Unidos de um misterioso homem vindo da Europa, Michael Fury (George Chakiris), atraído pela ocorrência de estranhos assassinatos em série de mulheres, que apresentavam sinais de mordidas no corpo e com o sangue drenado, como se fossem atacadas por um vampiro. Ele solicita ajuda para investigar os casos, contratando uma bela jovem, Lory (Pamela Ludwig), representando uma agência de detetives. Ela é aficionada pelo tema do vampirismo, consumindo filmes e livros sobre o assunto. Em paralelo, um videomaker esquisito, Van Vandameer (Wings Hauser), contrata duas dançarinas de boate, Jenny (Diana Frank) e Cherry (Darcy DeMoss) para participarem de um filme erótico, e misteriosamente ele sempre aparecia nas cenas dos crimes para captar imagens. Com os principais personagens apresentados, a ideia é descobrir a autoria das mortes sangrentas e a possível relação com as ações de um vampiro.
Primeiramente, vale registrar uma crítica na escolha do nome nacional, que poderia ser uma tradução literal do original, algo como “Sangue Pálido”, uma vez que já existia um filme chamado “A Marca do Vampiro” (Mark of the Vampire), de 1935 e com o ícone Bela Lugosi, confundindo os colecionadores e apreciadores do cinema fantástico, e dificultando ainda mais um trabalho de catalogação.
Esse “A Marca do Vampiro” de 1990 não apresenta nada que já não tenha sido visto à exaustão em filmes de vampirismo, e sua existência praticamente significa apenas mais um produto dentro do tema e que foi criado para permanecer no limbo do esquecimento. A presença do ator canastrão Wings Hauser, um rosto conhecido em uma infinidade de produções bagaceiras, pode até ser um convite para conhecer o filme, mas a narrativa arrastada e os clichês por outro lado tendem a afastar o espectador.
Curiosamente, no quarto da jovem investigadora Lori, consumidora de produtos relacionados ao vampirismo, podemos notar a exibição do clássico “Nosferatu” (1922) na televisão, além de posters de cinema nas paredes, com destaque para uma foto do ator Bela Lugosi caracterizado como “Drácula” e o cartaz francês do filme “O Beijo do Vampiro” (Kiss of the Vampire, 1963) da lendária produtora inglesa “Hammer”.
(Juvenatrix –03/04/17)

domingo, 2 de abril de 2017

A Maldição de El Diablo (The Evil Below, EUA, 1989)


Algumas coisas são melhores deixadas sozinhas

A frase acima é uma tradução literal de uma tagline promocional do filme “A Maldição de El Diablo” (The Evil Below, 1989), e podemos alterar para algo como “Alguns filmes são tão descartáveis que não valem a pena assistir”. Lançado em vídeo VHS em nosso mercado pela “Top Tape”, o filme foi dirigido por Jean-Claude Dubois, em seu único trabalho.
Max Cash (Wayne Crawford) tem um barco e leva turistas para pescar em alto mar, auxiliado pela jovem assistente Tracy (Sheri Able). Endividado, ele aceita o convite de uma bela mulher, a professora de Arte Sarah Livingstone (June Chadwick), para alugar seu barco por uma semana na tentativa de localizar um suposto tesouro perdido num navio espanhol que naufragou em 1683. O navio carregava artefatos religiosos roubados por um grupo de padres hereges renegados do catolicismo, inspirados por Lucifer. Por causa disso, o navio afundado, conhecido por “El Diablo” (do título nacional), tinha fama de amaldiçoado e seu paradeiro no fundo do mar era desconhecido e protegido por um misterioso guardião sobrenatural, Adrian Barlow (Ted Le Platt). 
A ideia central do roteiro nem é tão ruim, com potencial para uma boa história. Porém, não é o que acontece com “A Maldição de El Diablo”, cujo título original numa tradução literal seria algo como “O Mal Abaixo”. O filme é arrastado e quase sem elementos de horror, perdendo a oportunidade de explorar melhor a lenda de um navio satânico maldito e as conseqüências para todos que se atreviam a tentar roubar seus tesouros. Tem poucas mortes e sangue, quase sempre fora da tela, e a parte “mistério sobrenatural” não consegue empolgar, num inevitável convite ao sono.
Curiosamente, no mesmo período foram lançados vários filmes com temática sub-aquática como por exemplo “Abismo do Terror” (Deep Star Six), de Sean S. Cunningham, e “Leviathan”, de George P. Cosmatos, que pelo menos divertem muito mais que a bagaceira analisada nesse breve texto.   
“Convém não mexer em certas coisas, senão você morre misteriosamente” – tagline promocional da fita VHS lançada no Brasil. Acho que ficaria melhor assim: “Convém não ver esse filme, senão você pode dormir de tédio.”
(Juvenatrix –01/04/17)

sexta-feira, 31 de março de 2017

A Maldição dos Espíritos (Spirits, EUA, 1990)


A frase acima é uma junção de duas taglines originais promocionais do filme “A Maldição dos Espíritos” (Spirits, 1990), lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Carat Home Video”. A direção é do veterano Fred Olen Ray, dono de um currículo imenso repleto de bagaceiras, e o elenco é liderado por Erik Estrada, da cultuada série de TV “CHiPs” (1977 / 1983), e por Robert Quarry, conhecido por vários filmes preciosos de horror como “Conde Yorga, Vampiro” (1970), “A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes” (1972) e “A Casa do Terror” (1974).   
A história é manjada e já vista várias vezes em outros filmes. Um grupo de estudiosos de fenômenos paranormais vai investigar uma casa assombrada que tem um passado sinistro de mortes violentas. A equipe de investigação é formada pelo cientista Dr. Richard Wicks (Robert Quarry), a psicóloga descrente Beth Armstead (Kathrin Middleton), a médium sensitiva Amy Goldwin (Brinke Stevens, veterana atriz com carreira de mais de 150 créditos de tranqueiras diversas), e pelo membro da “Sociedade de Preservação Histórica” Harry Matthias (Oliver Darrow). O objetivo do grupo é obter provas da existência de espíritos (daí o título original), de vida após a morte, baseando-se em relatos sobre atividades psíquicas misteriosas no local e que resultaram em assassinatos.
A casa existe desde 1901 e seu morador original foi um expatriado francês místico e ocultista, que realizava rituais satânicos com sacrifícios de jovens virgens. Enquanto eles enfrentam a ira dos espíritos malignos que assombram a casa, um padre católico, Anthony Vicci (Erik Estrada), está atormentado pela perda da fé e por ter cometido pecados com uma bela mulher que viveu na casa maldita, sendo constantemente perturbado com visitas de demônios femininos, obrigando-o a se juntar ao grupo de investigadores para tentar combater o mal que habita a casa.
Primeiramente, não dá para deixar de citar a escolha do nome nacional do filme, apelando para o manjado “Maldição” no título, somando-se às dezenas de outros filmes que também tem essa palavra clichê em seus nomes, numa falta de criatividade imensa dos responsáveis por essa tarefa, os preguiçosos distribuidores dos filmes de horror que chegam ao Brasil.
“A Maldição dos Espíritos” é certamente um filme datado, nos remetendo imediatamente para os anos 80 e início de 90. Uma época sem a artificialidade da moderna computação gráfica, tanto que os efeitos das pessoas possuídas pelos espíritos malignos e demônios são tão toscos que divertem pela precariedade, com os atores maquiados e transformados em monstros. O filme tem um diretor de cinema bagaceiro, um nome associado ao gênero, e tem um elenco de atores cultuados pelos apreciadores de filmes de orçamentos menores. Apesar de que parece bem apelativa a exploração do nome de Erik Estrada, inclusive com um dos cartazes do filme estampando seu rosto, sendo que na verdade ele nem aparece tanto em cena, com o foco de boa parte das atenções para o grupo de estudiosos da casa assombrada.
O roteiro é um grande clichê, já explorado à exaustão pelo cinema de horror, onde podemos citar apenas por curiosidade os clássicos “Desafio ao Além” (The Haunting, 1963) e “A Casa da Noite Eterna” (The Legend of Hell House, 1973), com histórias muito similares, também apresentando um grupo de pesquisadores que investiga as atividades sobrenaturais de uma casa com fama de maligna.
Depois dessa breve análise, o que podemos dizer é que o filme é indicado para quem aprecia bagaceiras oitentistas e se diverte com efeitos toscos, histórias rasas, clichês comuns e atores com imagens associadas às produções de orçamentos reduzidos.
(Juvenatrix –26/03/17)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Uma Introdução aos Prêmios de Ficção Científica e Fantasia

Marcello Simão Branco

Quem disse que é só o cinema americano que tem o seu Oscar? Se a festa maior do cinema acontece no último domingo de fevereiro, a da ficção científica dos Estados Unidos acontece no primeiro domingo de setembro, com a entrega do Hugo. Assim como a Sétima Arte, a Arte do Amanhã também tem vários prêmios de diferentes matizes.
Se no cinema americano o Oscar foi instituído em um momento decisivo, em 1928, com o surgimento dos filmes falados, com relação à ficção científica americana deu-se um fenômeno semelhante.
Era o início dos anos 1950, e o gênero começava a ganhar ares industriais, passando do ambiente dos pulp magazines (revistas baratas vendidas em bancas de jornais e supermercados), para a das grandes editoras, que começavam a publicar regularmente os primeiros livros de ficção científica, aproveitando os autores mais populares dos anos 1940, na chamada Golden Age: Isaac Asimov (1920-1992), A.E. Van Vogt (1912-2000), Robert Heinlein (1907-1988) e Frederik Pohl (1919-2013).
É nesse clima de expansão comercial que surgem os primeiros prêmios voltados à ficção científica. O primeiro deles foi o International Fantasy Award (IFA), criado na Inglaterra, por um grupo de fãs e escritores em 1951. Escolhiam os vencedores alguns nomes importantes da ficção científica britânica. A primeira obra vencedora foi o romance Só a Terra Permanece (Earth Abides), do escritor americano George R. Stewart (1895-1980), um clássico.
Mas o IFA acabou superado por aquele que viria a ser o prêmio mais popular da ficção científica em todo o mundo, o Hugo. Ele foi criado em 1953 pelo fã Hal Linch e apresentado na Convenção Mundial de Ficção Científica daquele ano, na Filadélfia. O primeiro vencedor é outra obra clássica da ficção científica, O Homem Demolido (The Demolished Man), de Alfred Bester (1913-1987). A partir de 1955 na WorldCon realizada em Cleveland até o prêmio a ser entregue este ano em San José (California), o Hugo vem sendo entregue todos os anos aos melhores e mais populares da ficção científica em língua inglesa.
A exemplo do Oscar, o Hugo - com o troféu ao lado -, é entregue em várias categorias, tais como romance, novela, conto, filme, editor, ilustrador etc., refletindo mais tendências populares do que propriamente critérios artísticos. Também como o principal prêmio do cinema, seu nome deriva de uma homenagem carinhosa. Só que ao contrário do Oscar, que ninguém sabe realmente quem foi, o Hugo lembra a figura do editor Hugo Gernsback (1884-1967). Ele foi o sujeito que publicou a primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica em todo o mundo, Amazing Stories, a partir de 1926 e também cunhou o termo “science fiction”.
Os vencedores em cada categoria são escolhidos por eleição dos fãs, votando tanto aqueles que comparecem às WorldCons, tanto aqueles que mandam seus votos por correspondência. A partir do ano 2000 passou a ser aceito votos enviados pela Internet. Nos últimos anos o Hugo tem enfrentado polêmicas relacionadas a grupos ou escritores que dizem representar minorias e, por se sentirem prejudicados, adotam ações de lobby ou sabotagem para prejudicar o prêmio. Mesmo assim ele segue inabalável como o mais representativo do campo da FC.

Escritores
Se o Hugo é o prêmio dos fãs, surge em 1965 um prêmio mais rigoroso quanto à escolha dos vencedores. É o Prêmio Nebula, criado pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFFWA), uma associação de escritores norte-americanos. Votam no Nebula apenas os autores associados e as categorias são apenas literárias: Melhor romance, novela, noveleta, conto e, mais recentemente, roteiros de cinema e televisão. O primeiro vencedor do Nebula, foi um dos clássicos absolutos da ficção científica, Duna, de Frank Herbert (1920-1986), que também conquistou o Hugo no mesmo ano.
A partir de 1974 o Nebula passou a ser entregue também a um escritor com destacada carreira e influência dentro da ficção científica, o chamado Grande Mestre, rebatizado posteriormente como Damon Knight Memorial Grand Master, em homenagem ao escritor e crítico Damon Knight (1922-2002), também agraciado com o título em 2002. O primeiro homenageado foi Robert Heinlein (1907-1988). Arthur C. Clarke (1917-2008), Isaac Asimov e Ray Bradbury (1920-2012) também já ganharam. No total 33 autores já foram lembrados, e em 2017 o prêmio será entregue para Jane Yolen, autora ainda inédita no Brasil.  

Não demorou muito para a indústria editorial americana explorar o filão dos autores e obras vencedores do Hugo e Nebula. Livros que vencem estes prêmios têm edições extras, seus autores são mais bem pagos, editam-se várias antologias com os contos vencedores de ambos os prêmios. E, de mais a mais, não deixa de ser um critério objetivo de qualidade para o leitor na hora de escolher que livro de ficção científica levar para casa.
Sendo a sociedade americana extremamente competitiva e diversificada, não demorou em surgir outros prêmios, de características mais específicas. Entre eles, podemos citar, o World Fantasy Award, um equivalente do Hugo para o gênero fantasia; dois prêmios que levam o nome de John W. Campbell, Jr (1910-1961), o mais influente editor da história da FC dos EUA: o John Campbell Award, entregue ao autor revelação do ano, e o John Campbell Memorial Award, para o melhor romance de FC do ano nos EUA, agraciado pela Kansas Science Fiction and Fantasy Society; o prêmio entregue pela principal revista sobre ficção científica no mundo, a Locus, que leva o seu nome; além de dois prêmios britânicos tradicionais, entregue por associações de fãs e escritores: British Science Fiction e o British Fantasy.
E sem esquecer de citar os prêmios que recebem nomes de escritores consagrados, como Philip K. Dick, Arthur C. Clarke e Theodore Sturgeon. O primeiro para o melhor romance em formato pocket (bolso) publicado anualmente nos Estados Unidos; o segundo para o melhor romance publicado na Grã-Bretanha; e o terceiro para o melhor conto norte-americano do ano.

Cinema
Mas se estamos falando dos prêmios literários, é importante lembrar que existem também prêmios para o cinema de ficção científica, tal como o Saturno - com o troféu ao lado -, e o Avoriaz, este entregue no festival espanhol de cinema de mesmo nome. Mas a referência principal no cinema também é o Hugo. A categoria “Dramatic Presentation”, que representa séries de TV e filmes para o cinema é a mais concorrida e votada todos os anos.
Algumas obras seminais que mudaram o destino do gênero na TV e cinema ganharam o Hugo, tais como a série Além da Imaginação (por três anos), Jornada nas Estrelas (clássica, dois anos), 2001: Uma Odisséia no Espaço, Guerra nas Estrelas, Os Caçadores da Arca Perdida, Blade Runner, Truman Show e, no ano passado, Perdido em Marte, como longa-metragem, e um episódio da série Jessica Jones.
Mas não é só nos States e no Reino Unido que os prêmios de ficção científica proliferaram. Países como França, Austrália, Rússia, Itália, Espanha e Japão também entregam prêmios importantes no ambiente local de sua produção literária de ficção científica.

Brasil
Mas e nós? No Brasil, os prêmios de ficção científica também existem e vieram a refletir o desenvolvimento do gênero no fim dos anos 1980. Assim surgiu o Prêmio Nova, criado pelo fã e escritor Roberto de Sousa Causo em 1987. O objetivo foi homenagear os trabalhos de destaque em cada ano e incentivar a competição e o aprimoramento entre os escritores, editores e ilustradores de ficção científica no Brasil. Desta forma, o Nova mudava o número de categorias quase todos os anos e também o critério de votação, refletindo o que se produzia em termos de ficção científica brasileira. Embora restrito à comunidade de fãs, o Nova durou dez anos – até 1996 – é uma tradição em nossa história, além de ter legado um herdeiro nos dias atuais, o Prêmio Argos.
Entregue pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), entre 2000 e 2003, é escolhido pelo voto dos sócios foi o primeiro e único prêmio brasileiro de ficção científica, que remunerou os vencedores – em suas duas primeiras edições. Depois de ausente alguns anos retornou em 2012 e mantém-se ativo no momento.
Outros prêmios foram criados e descontinuados. Ainda nos anos 1990, o fanzine Megalon promoveu a entrega do Prêmio Tapìraì, entre 1992 e 1994, votado pelos leitores da publicação; também originário dos anos 1990, o Prêmio SBAF, da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, era concedido a uma pessoa em particular por serviços relevantes para o desenvolvimento da ficção científica no Brasil. Não era concedido  necessariamente todo ano, mas apenas quando seu júri entendia que alguém havia se destacado o suficiente. O último premiado foi o escritor Roberto de Sousa Causo, em 2003,  com seu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (1875-1950). De certa forma, anda que não oficialmente, este prêmio foi substituído pela seção de entrevista “Personalidade do Ano”, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, edição coordenada por Marcello Simão Branco e Cesar Silva, publicado entre 2004 e 2013.
 Alguns outros prêmios foram extemporâneos como o Prêmio Fantasticon, entregue apenas em 2011, durante o simpósio literário de mesmo nome; o “Melhores do Ano”, em votação realizada apenas na internet, entregue em 2010; o Codex de Ouro, de caráter bianual, também apurado no ambiente da internet. Sua última premiação foi em 2015.
Se no Brasil os prêmios não tem repercussão comercial e nem chegam a incentivar a carreira dos vencedores, tem sim sua importância, no sentido de fazer um registro do melhor da produção do gênero entre nós, ao longo dos anos. Além de revelar as tendências temáticas premiadas no gosto do leitor brasileiro e estimular uma pequena, mas renhida competição em algumas categorias já tradicionais, como ficção curta e fanzine. É pouco? Em termos de mercado profissional, sem dúvida. Mas em termos de instituição de uma tradição e reconhecimento do trabalho entre os brasileiros que produzem ficção científica e gêneros afins, é um serviço vital e que deve ser mantido e aperfeiçoado, e ampliado com a criação de mais prêmios.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sagas 5: Revolução

Sagas, Volume 5: Revolução,  Cesar Alcázar e Duda Falcão, orgs. 96 páginas. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2014.

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heroica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.
Cesar Silva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Maldição da Casa do Diabo (The Fall of the House of Usher, EUA, 1979)


O cultuado escritor americano Edgar Allan Poe (1809 / 1849) teve uma grande quantidade de seus contos transformados em filmes. “A Queda da Casa de Usher” é uma das histórias mais filmadas, com diversas versões. Entre as principais temos a produção francesa muda em preto e branco “La chute de la maison Usher”, dirigida por Jean Epstein em 1928, e a preciosidade “A Casa de Usher”, também conhecido por aqui como “O Solar Maldito” (1960), dirigido por Roger Corman e com o lendário Vincent Price. Porém, temos também outra versão, produzida especialmente para a televisão em 1979, fazendo parte do programa “Classics Illustrated”, sobre grandes obras literárias adaptadas para filmes, que recebeu o sonoro nome no Brasil de “A Maldição da Casa do Diabo” (The Fall of the House of Usher) quando lançado em vídeo VHS pela “Alvorada”.
Com direção de James L. Conway, essa versão televisiva apresentava o grande ator Martin Landau, dono de um currículo imenso com quase 180 filmes, no papel de Roderick Usher, um dos últimos remanescentes de uma antiga família proprietária de uma mansão gótica amaldiçoada, localizada numa região inóspita e evitada por todos chamada “Ravenshead Lake”, com um lago de águas podres, sem vida, cercado por uma floresta morta envolta em névoa espessa, transmitindo medo e insegurança constantes.
Com história ambientada em 1839, Roderick Usher é um homem portador de uma doença misteriosa hereditária e incurável que o torna extremamente sensível nos cinco sentidos, enfrentando dolorosas torturas por causa de ruídos e claridades, vivendo a maior parte do tempo enclausurado em seu quarto. Ele vive com sua irmã Madeleine (Dimitra Arliss), também terrivelmente doente e sofrendo de insanidade. A mansão centenária esconde segredos obscuros do passado da família Usher, envolvendo práticas de magia negra, bruxaria, idolatria satânica, rituais demoníacos, torturas e sacrifícios humanos, e suas imensas estruturas de pedra e madeira estão decadentes, mal conservadas, cheias de enormes rachaduras e em constante movimentação, ameaçando cair o tempo todo (daí o título do filme). Além deles, também é morador o mordomo Thaddeus (Ray Walston), que faz de tudo no mausoléu macabro, desde cozinhar até inspecionar as diversas salas e quartos imensos, com direito a passagens e túneis secretos para todos os lados. Seus antepassados sempre serviram a obscura família Usher, e ele sente-se preso ao sinistro lugar.
Para tentar ajudá-lo a impedir a queda da casa, Roderick chama seu único amigo de infância e que se formou em arquitetura e engenharia, Jonathan Cresswell (Robert Hays), que decide visitá-lo juntamente com sua recém esposa Jennifer (Charlene Tilton). Porém, após a chegada do casal as coisas sem complicam, a saúde dos irmãos amaldiçoados piora, a loucura se instaura no ambiente, passando uma atmosfera de horror, e mesmo com as tentativas de reforçar as estruturas da casa, suas paredes tremem assustadoramente, ameaçando a vida de todos.
Só pela história inspirada na obra de Edgar Allan Poe (mesmo já filmada várias vezes) e pela presença do ator Martin Landau, já vale a conferida desse filme que é especialmente indicado para os fãs do cinema de horror gótico, com o clima característico das produções inglesas da “Hammer”. Essa versão de “A Queda da Casa de Usher”, com esse título nacional oportunista envolvendo as palavras “maldição” e “diabo” no nome, não é tão famosa e cultuada quanto principalmente a versão da dupla dinâmica formada pelo cineasta Roger Corman e o ator Vincent Price. Porém, a diversão está garantida com todos os elementos típicos do horror gótico, e pela interessante história de loucura e maldição familiar. Com carruagens, floresta fantasmagórica, aldeões supersticiosos, mansão assombrada, ambientes escuros iluminados por velas, vultos ameaçadores ocultos nas sombras, gemidos agonizantes, mortos que levantam do caixão, instrumentos medievais de tortura usados para matar, e atmosfera sufocante do poder das trevas.  

“Todo ato abominável de degradação e horror, aconteceu aqui neste vil abismo do pecado” – Roderick Usher, sobre uma sala secreta para a prática de magia negra.

(Juvenatrix – 27/02/17)

Distrito Federal

Distrito Federal, Luiz Bras. Capa e ilustrações internas de Teodoro Adorno. 282 páginas. São Paulo: Patuá Editora, 2014.

Desde que surgiu para o cenário da ficção científica brasileira, no início dos anos 2000, Nelson de Oliveira tem se notabilizado pela ousadia editorial e criatividade literária. Tornou-se mesmo uma liderança intelectual em nosso campo.
Editou a série “Portal”, com contos de ficção científica de autores mais vinculados ao mainstream. Rendeu seis edições e o livro Todos os Portais: Realidades Expandidas, em 2012. Como parte desta intenção de aproximar os autores do mainstream da FC e, com isso, procurar dar mais visibilidade e reconhecimento, organizou para a Record a antologia Futuro Presente, em 2009.
Em termos ficcionais adotou os pseudônimos de Luiz Bras, como escritor, e Teo(doro) Adorno, como ilustrador, para criar novas personas junto à nossa FC, com uma outra identidade, principalmente como escritor. Sua maior realização ainda é a coletânea Paraíso Líquido (2010), notável ao aliar um estilo literário de qualidade incomum para a ficção científica brasileira com a elaboração de temas complexos e de fronteira da pesquisa científica. É, até o momento, o melhor livro brasileiro do gênero neste século XXI.
A despeito disso, Distrito Federal também é uma contribuição ímpar. Principalmente pela moldura adotada. Um livro escrito em forma de rapsódia é incomum não só para a nossa FC – no geral bem conservadora quanto ao estilo – no sentido de uma história, linear ou não que aborda no conjunto alguns assuntos predominantes e recorrentes, que vem e vão ao longo das páginas. Na literatura brasileira uma referência importante neste formato é Macunaíma (1928), de Mário e Andrade (1893-1945).
Em Distrito Federal lê-se um poema, depois outro, lê-se uma, duas, três páginas. E o leitor desfruta, antes de mais nada, de um prazer poético requintado e caprichado. Para quem aprecia, especialmente, poesia, pode-se saborear as estrofes e passagens de maneira quase aleatória. Sim é possível ler o livro de forma solta, sem preocupação com uma linha narrativa. Embora Bras não tenha na poesia a principal fonte de sua expressão literária, é talentoso o suficiente para conduzir a narrativa sem deixar a leitura dispersar. Pois é intenção de Bras conduzir o leitor por uma linha narrativa encadeada, ainda que rapsódica.
O assunto principal do livro, como o próprio título sutilmente sugere é a política. Mas o lado menos virtuoso. Estamos no Distrito Federal, capital da República Federativa do Brasil, e o tópico central do livro é a corrupção. Mal que assola o Brasil desde há muito tempo e que vem ganhando as manchetes de forma crescente e cotidiana nos últimos anos.
O romance rapsódico retrata os vários tipos de subterfúgios e ações para se desviar da lei e do interesse público, ao comentar, de forma indireta, alguns dos vários escândalos dos últimos anos, entre eles os anões do orçamento (1993) e o mensalão (2005).
À parte o tema da corrupção a obra é permeada com algumas reflexões sobre outro grande problema nacional, a dilapidação do nosso ecossistema. Para ilustrar o imaginário em torno da questão o Curupira e o Saci-Pererê assumem mesmo uma tarefa contra o corrupto civilizado, possuindo algumas pessoas como seus instrumentos de vingança.
Pois em Distrito Federal a corrupção é o mal maior, com desdobramentos sobre todos os outros assuntos. Para combatê-lo é preciso ir direto ao ponto, à margem das imperfeições das leis e da morosidade das regras institucionais. Pois neste ambiente civilizado viceja, na verdade, a injustiça e o privilégio. Mas o que é ir direto ao ponto? Simples, partir para a violência, “fazer justiça com as próprias mãos”. Os que defendem os meios legais são chamados de obtusos, cidadãos que tem uma postura entre o ingênuo e conformado e, por isso, cúmplices não intencionais da malversação dos recursos públicos por políticos desonestos e imorais. A violência é defendida e deflagrada com a morte violenta dos corruptos: esquartejamento e decapitação expostos publicamente é o recurso mais utilizado, e passa a ganhar adeptos com a criação de gangues de caçadores de corruptos pelo país afora. Num contexto como este viveríamos a falência do Estado democrático num caminho que levaria ou à anarquia ou a uma ditadura.
É claro que a obra não defende “o olho por olho, dente por dente”, ao realizar mais um expediente de provocação ao leitor e ao mesmo tempo quase que um panfleto de desabafo ante a uma corrupção mostrada como generalizada. Talvez o cerne subjacente da provocação, digamos assim, é uma postura hipócrita de muitos segmentos da sociedade, ao se condenar mais uns do que outros, e relativizar uns atos de corrupção, com outros, a depender, em boa medida, da ideologia de quem o pratica. Mesmo assim incomoda. Primeiro ao circunscrever a corrupção apenas no ambiente da política institucionalizada. Ora, os atos lesivos ao interesse público só se disseminam porque fazem parte de um substrato sociocultural. A corrupção antes de se manifestar na política institucionalizada é praticada em todos os segmentos (privados) da sociedade. Este é um argumento clássico dos estudos sociais brasileiros. Confundimos o interesse público com o privado. Mas o livro passa uma ideia de que o mal estaria na classe política; sem a corrupção no ambiente público, teríamos um país mais próspero, uma sociedade mais civilizada e, por consequência, com cidadãos mais éticos. Impressão certa ou não, não há como concordar com tal reducionismo. Esta solução nos colocaria num contexto policialesco de tons fascistas. Afinal, quem é o senhor do que é certo e o que é errado? Existiria alguém moralmente superior?
O fato é que o Brasil de 2015 para cá, a partir dos escândalos investigados pela Operação Lava Jato, tem depurado, de forma inédita, corruptos graúdos como nunca se viu, mas levou de roldão uma presidente da República honesta e eleita com mais de 54 milhões de votos. Em consequência, temos hoje uma democracia menos robusta e segura do ponto de vista de sua estabilidade.
Como dito, o contexto da rapsódia se alterna entre a crítica ao desmatamento ambiental e a crítica à corrupção política, com prevalência desta última, com uma ficção científica que se manifesta na linguagem tecnológica, pós-humana como se convencionou chamar de uns tempos para cá, neste século XXI. Afora o Distrito Federal como centro político, também temos o Distrito Federal como a representação de um videogame de realidade virtual ultrassofisticado que seria livre, porque gerenciado de forma quase sensiente por uma inteligência artificial. Este ambiente virtual vai, aos poucos, se sobrepondo ao mundo concreto, sem contudo transformar a realidade e seus problemas.
Pois nesta leve moldura de ficção especulativa, o tema da corrupção adquire uma importância algo desmedida, e talvez o livro fosse melhor em termos temáticos, se apresentasse em suas rapsódias outros problemas brasileiros igualmente graves. Exemplo maior seria a desigualdade social historicamente abjeta, praticamente ausente da obra.
O maior problema do Brasil não é a corrupção, mas a desigualdade social. É ela que, inclusive, reproduz as relações desiguais de poder, com os setores histórica e socialmente dominantes agindo em torno de seus interesses, ao explorar e desrespeitar o povo menos favorecido. Um país mais civilizado é mais justo e igualitário, mesmo num sistema de produção capitalista. Não só por existir um Estado mais republicano e socialmente presente, mas também por responder de forma mais equânime as demandas dos mais diferentes setores. Um Estado mais transparente e universalizado em seus objetivos e interesses. Ora, por consequência, menos corrupto. Uma sociedade desigual e com privilégio para poucos reproduz comportamentos mais autoritários e privatistas, menos comprometidos com o coletivo. Este contexto socioeconômico explica mais a corrupção do que a acusação tão senso comum de que existiria um déficit moral, uma “crise ética”. Sim, crise há, mas da reprodução de um modelo de relação Estado-sociedade de caráter patrimonialista, em que o interesse público serve, em grande medida, para reproduzir os privilégios de uma elite descomprometida com as necessidades da população mais carente e com os interesses nacionais.
Já se disse que quem se importa mais com a corrupção é uma certa corrente da classe média, de perfil ideológico mais conservador. Não enxerga que o problema é menos moral e mais político, no sentido de se praticar políticas públicas realmente inclusivas e democratizantes. A corrupção se transforma numa questão moral porque não há interesse em alterar esta sociedade desigual e cheia de privilégios para poucos. Afinal, quem foi que tomou as ruas do país para clamar por “moralidade pública”? Ora, ajudou sim a afastar a presidente Dilma Rousseff e fragilizar o seu partido –, de vinculação socialmente mais progressista, embora envolvido nos esquemas de corrupção com as empreiteiras –, mas tem se mostrado tolerante com os novos (velhos) políticos que assumiram o governo, tão ou mais envolvidos nos mesmos escândalos. Quem seriam os verdadeiros obtusos, então?
Distrito Federal foi escrito antes da Lava Jato, mas parece que vaticinou o ambiente conturbado e polarizado que estava por vir. Seja como for é um livro pertinente por trazer uma discussão tão polêmica e contemporânea no contexto da FC, e apresentar uma tentativa bem-sucedida do ponto de vista estético e literário. Acho que dificilmente teremos outra experiência de romance em rapsódia na FC brasileira. Algum outro autor se arrisca?

– Marcello Simão Branco

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Hora do Terror (Witchcraft 7: Judgement Hour, EUA, 1995)


Na época do mercado de vídeo VHS no Brasil foram lançadas muitas porcarias em nossas locadoras. Uma delas foi o sétimo filme de uma extensa série de tranqueiras cujo nome nos Estados Unidos é “Witchcraft”. Com o subtítulo original de “Judgement Hour”, aqui recebeu o título de “A Hora do Terror” (1995), um fato que apenas reforça a incrível a falta de criatividade dos responsáveis pela escolha dos nomes para distribuição no Brasil, contribuindo para confundir e dificultar um trabalho de catalogação ou a pesquisa dos colecionadores de filmes de horror. Cuidado para não se enganar com outro filme lançado por aqui com o mesmo nome, “The Midnight Hour” (1985).
Dirigido por Michael Paul Girard, que também fez a parte 9 da série (1997), temos uma história básica sobre vampirismo, totalmente inexpressiva, com clichês cansativos, previsibilidade, piadas idiotas, efeitos toscos e muitas cenas com mulheres peladas, que é a principal característica da imensa série. Poderíamos até interpretar que “Witchcraft” é uma série de filmes eróticos com elementos de horror.
Um obscuro empresário romeno tem a intenção de tomar o controle dos bancos de sangue nos Estados Unidos, enquanto belas mulheres são assassinadas apresentando estranhas marcas no pescoço. As misteriosas mortes despertam a atenção de um advogado, Will Spanner (David Byrnes) e de uma dupla de policiais de Los Angeles, os detetives Lutz (Alisa Christensen) e Garner (John Cragen), que partem para uma investigação, descobrindo as atividades de um antigo vampiro.
Nada se salva nesse filme, que é o exemplo típico de tranqueira descartável que não diverte e somente consegue depreciar ainda mais o gênero. O cinema de horror é tão maltratado com filmes ruins e a série “Witchcraft” contribui significativamente para denegrir essa imagem. O mais importante para uma chance mínima de sucesso num filme é a existência de um bom roteiro. Em “A Hora do Terror”, a história é péssima e os atores são inexpressivos. É apenas um filme com belas mulheres sem roupas. E talvez, citaríamos o vampiro transformado numa criatura tosca no ato final, devido exclusivamente aos efeitos extremamente bagaceiros.
Curiosamente, a série “Witchcraft” tem treze filmes produzidos pela “Vista Street Entertainment” e foi anunciado o lançamento de mais outros três. Alguns deles foram distribuídos pela “Troma”. O personagem Will Spanner aparece em quase todos eles, interpretado por vários atores diferentes. A parte 5 foi lançada em DVD no Brasil com o título “Dançando Com o Mal” (Witchcraft V: Dance With the Devil, 1993), que saiu em 2004 num DVD lançado em bancas de jornais e revistas num mesmo disco, junto com outro filme, “A Lenda da Múmia” (The Legend of the Mummy, 1997).
(Juvenatrix – 26/02/17)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Estranha Ficção Científica de Ursula K. Le Guin

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), Ursula K. Le Guin. Editora Aleph, São Paulo, 2014 (segunda edição). Tradução de Susana L. de Alexandria. Capa: Pedro Inoue.
                      
            Utilizei no título o adjetivo “estranha” porque o presente romance parece muito mais uma narrativa moderna de fantasia que de ficção científica. Em outras palavras, parece mais próximo de Tolkien, Lewis (Carrol ou C.S.), Rowling, Zimmer Bradley, que de Asimov, Van Vogt, Clarke ou Heinlein. Toda a logística da história passada no planeta Gethen segue um clima de fantasia, e o elemento FC se define mais pela origem do protagonista Genly Ai, como emissário da federação galática conhecida como Ekumen, da qual a Terra faz parte.
            Gethen é um mundo gelado, sem mamíferos, e os seres humanos que aí vivem, em diversos países, não possuem aparelhos voadores nem tecnologia avançada. Além disso possuem uma condição sexual insólita: na maior parte do tempo são assexuados e no restante podem adquirir um ou outro sexo, como hermafroditas. Esta fase mais curta é chamada de “kemmer”, o que tem alguma semelhança com o cio dos animais. Uma civilização de humanos-caracóis... detalhe que influencia toda a vida. Le Guin porém evita entrar em detalhes grosseiros ou lascivos, tecendo a narrativa com elegância e segurança. Ainda bem, porque o romance em questão não é de leitura facil.
            Realmente, não é fácil construir todo um universo ficcional, dar coerência à sua estrutura. No caso, a autora precisou criar a infra-estrutura de toda uma civilização planetária sem esquecer detalhes climáticos e geológicos, em descrições feitas com grande naturalidade. Nada mais irritante que certos autores de FC que se demoram em longas explicações didáticas dirigidas diretamente aos leitores, quebrando de todo a chamada “suspensão da incredulidade”. Numa boa narrativa de ficção científica e/ou fantasia, as coisas devem ir se explicando por si mesmas, à proporção que a trama se desenrola. E Ursula consegue esse efeito com facilidade.
            Vejamos alguns respigos da narrativa de Le Guin e a maneira como ela introduz os conceitos através do texto:
            “Quando falou, peguei-me acreditando que de fato iríamos chegar a Karhide, cruzando 1.300 quilômetros de montanha, ravina, fenda, vulcão, geleira, lençol de gelo, pântano congelado ou baía congelada, tudo desolado, sem abrigo e sem vida, sob as tempestades de inverno no meio de uma Era Glacial.” (cap. 15)
            Veja-se a habilidade com que ela define em poucas palavras todo o cenário que em sua jornada os dois personagens (Genly Ai e Estraven) têm de atravessar.
            “Durante o mês de Kus, vivi na costa leste, num Clã-Lar chamado Gorinhering, uma casa-cidade-forte-fazenda construída numa colina, acima das brumas eternas do Oceano Hodomin. Cerca de quinhentas pessoas viviam ali. Há quatro mil anos, eu teria encontrado seus ancestrais vivendo no mesmo lugar, no mesmo tipo de casa. Ao longo desses quatro milênios o motor elétrico foi desenvolvido, rádios e teares elétricos, veículos elétricos, maquinaria agrícola e outros equipamentos começaram a ser utilizados, e uma Idade da Máquina foi surgindo aos poucos, sem revolução industrial, sem revolução de espécie alguma.” (cap. 8)
            Este trecho, típico de uma narração feita sem precipitação (outro vício de tantos autores) justifica-se plenamente por se tratar de um relatório na primeira pessoa, e o autor fictício (isto é o protagonista-narrador) dirige-se à sua própria civilização, explicando fatos de uma civilização estranha. Mesmo assim, explica com uma grande naturalidade.
            Tudo o que Genly deseja é que aquele mundo entre para o Ekumen, ou seja a federação de povos galáticos. O Ekumen, porém, tem o critério de enviar um único representante, com a cara e a coragem, para negociar com os povos locais de cada mundo habitado por humanos e ainda exterior à federação. Uma nave fica esperando em órbita, que Genly a chame quando tiver certeza de que o acordo será feito. Mas em meio a intrigas políticas e ciúmes nacionais, Genly verá que a sua missão não é tão simples assim e que ele correrá perigo de vida, pois representa mudanças que trarão consequências imprevisíveis áqueles povos. Para início de conversa ele nem sequer é acreditado, sendo mesmo tido como um farsante. Uma sucessão de dissabores espera por ele, inclusive uma longa jornada por regiões gélidas e hostis à vida, em companhia de Estraven, único personagem a apoiá-lo na situação mais extrema.
            Como eu disse, não é uma leitura fácil, não é um livro linear (o protagonista-narrador inclusive intercala, ao seu próprio depoimento, o de Estraven e algumas lendas locais), ainda que Ursula K. Le Guin seja uma autora de fato categorizada. É livro para ler com paciência e atenção.
— Miguel Carqueija