segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Mortos Falam (The Devil Commands, EUA, 1941, PB)


Quando o diabo manda, Karloff obedece...!

O ícone do cinema de horror Boris Karloff (1887 / 1969) ficou eternizado na história por seu papel do “monstro de Frankenstein”. Mas, em sua carreira produtiva com mais de 200 créditos, também se destacam suas performances como o tradicional “cientista louco” que trabalha incansavelmente em descobertas científicas para o bem da humanidade, e que se sente incompreendido pela sociedade com suas criações transformando-se em tragédias. É o caso de “Os Mortos Falam”, filme do distante ano de 1941, dirigido por Edward Dmytryk, produzida pela “Columbia” com fotografia em preto e branco e duração curta de apenas 65 minutos. Uma das taglines promocionais do filme (reproduzida acima) brinca com seu nome original “The Devil Commands” e o apelo comercial do nome de Boris Karloff como astro do Horror, imortalizado para sempre junto com Bela Lugosi, Vincent Price, Peter Cushing, Christopher Lee e outros.  

Karloff é o “cientista louco” Dr. Julian Blair, que faz experiências com ondas cerebrais humanas, e acredita que mesmo após a morte, elas continuam vivas e podem ter seus impulsos gravados numa máquina especial criada por ele, estabelecendo dessa forma um tipo de comunicação com os mortos (dessa ideia deve ter vindo a escolha do título nacional). Ele é auxiliado pelo também cientista Dr. Richard Sayles (Richard Fiske), e juntos trabalham num laboratório repleto de aparelhos elétricos enormes, com botões medidores e alavancas de acionamento para todos os lados. Porém, tudo começa a mudar para pior depois que a amável esposa do Dr. Blair, Helen (Shirley Warde), é vítima fatal de um bizarro acidente de carro nas proximidades do laboratório. Muito perturbado e desorientado por causa da morte repentina da esposa, e com seu trabalho científico desacreditado pelos colegas, o cientista decide se mudar para uma mansão isolada no alto de um penhasco na costa da Nova Inglaterra.
Nesse local sinistro, em meio a tempestades constantes, ele continua suas experiências macabras, influenciado por uma vidente de caráter duvidoso, Sra. Blanche Walters (Anne Revere), que tem interesses obscuros no sucesso dos testes com os cérebros humanos. Também conta com os serviços braçais de Karl (o ator Cy Schindell, creditado como Ralph Penney), um homem bruto e desajeitado que teve o cérebro torrado numa das experiências mal sucedidas do cientista.
Uma vez preocupada com o bem estar e ações misteriosas do pai, a jovem filha do cientista, Anne Blair (Amanda Duff), tenta localizá-lo com a ajuda do Dr. Sayles, para persuadi-lo a interromper seu trabalho suspeito. Enquanto paralelamente o xerife local, Ed Willis (Kenneth MacDonald), está investigando o desaparecimento de cadáveres do cemitério próximo ao laboratório do Dr. Blair, desconfiado de alguma conexão com as bizarras experiências do cientista, cada vez mais temido e indesejável pelos moradores do vilarejo vizinho da mansão.

“Este mago louco mata à vontade a serviço de Satã!” – uma das taglines promocionais do filme

“Os Mortos Falam” é mais uma bagaceira divertida que pertence ao sub-gênero “cientista louco”, com a participação do lendário Boris Karloff, motivo mais que suficiente para o filme se destacar entre a incontável quantidade de produções similares. Temos todos os principais elementos característicos como o laboratório científico exagerado, muito bizarro para a época (quase 80 anos atrás), a mansão no alto de um penhasco à beira do mar, um ambiente extremamente sinistro e apropriado para uma história de horror, e o cientista com boas intenções que foi vítima de uma tragédia pessoal, sendo corrompido pela descrença e obcecado por um objetivo científico com resultados catastróficos. Suas ações suspeitas, resultado da obsessão em se comunicar com a esposa falecida, despertaram a desconfiança das autoridades e a ira cega dos vizinhos, que por temerem o desconhecido, desejavam sua destruição.
O maior destaque, além da atuação convincente de Boris Karloff como o cientista de boas intenções distorcido para “louco”, são as cenas das experiências com os mortos, vestindo armaduras de aço parecidas com trajes espaciais toscos, com seus cérebros conectados uns aos outros, simulando uma única grande rede de ondas cerebrais. Remetendo-nos totalmente ao cinema fantástico bagaceiro, onde o horror e a ficção científica caminham juntos para um resultado bizarro de puro entretenimento.  

“Se a Ciência puder abrir a mente humana, poderá descobrir os segredos de cada cérebro humano.” – Dr. Julian Blair

(Juvenatrix – 26/06/17)

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Objetos turbulentos, José J. Veiga

Objetos turbulentos: Contos para ler à luz do dia, José J. Veiga, 157 páginas, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997.

Obra derradeira do mestre da fantasia brasileira José J. Veiga (1915-1999), a coletânea Objetos turbulentos traz uma estrutura de tal modo coerente que é quase certo que foi, desde o começo, planejada para ser publicada e lida em bloco. São onze textos independentes entre si, mas solidamente amarrados, que revelam mistérios por trás de objetos comuns do cotidiano que, por alguma circunstância bizarra, assumem contornos quase sobrenaturais, muitas vezes levando tragédia a seus proprietários.
"Espelho" é um dos textos mais perturbadores do volume, embora o desdobramento da trama não leve a um destino especialmente nefasto. Casal é enfeitiçado por um espelho antigo adquirido em um antiquário. O tema não é novo e já apareceu mais de uma vez na literatura brasileira, mas ganha aqui um contorno naturalista.
"Cachimbo" também é um texto forte sobre o preconceito nosso de cada dia. Um negro, operador da bolsa de valores, tem uma vida boa e tranquila até que decide começar a fumar cachimbo, até que, apesar de suas convicções, decide pitar em público.
"Cadeira" traz um objeto assombrado para a vida de um decorador que por ela se apaixona. A piedade de seu proprietário original, um famoso bispo, influencia quem, nela se acomoda a ter crises profundas de tristeza e culpa.
"Manuscrito perdido" é o texto mais divertido do conjunto. Um escritor entra em crise criativa depois de perder, durante uma viagem, o manuscrito de um conto que ele avaliava como sua obra prima. Três anos depois, para sua alegria e desespero, o manuscrito retorna às suas mãos.
Em "Vestido de fustão", um vendedor de tapetes, ao visitar uma cliente, tem uma epifania ao cruzar com uma jovem desconhecida na escadaria do condomínio. Tenta, então, reencontrar a garota que parece não existir de fato.
"Caderno de endereços" narra a tragédia de um jovem estudante apaixonado pela Alemanha que, depois de muito preparo finalmente tem a chance de realizar o sonho de visitar o país. Porém, um prosaico e inocente caderno de endereços vai se tornar um grande problema quando ele chama a atenção do governo nazista.
"Cantilever" conta a história de um menino muito criativo e irrequieto, que tem a mania de inventar palavras.
Em "Luneta" um jovem fotógrafo torna-se voyeur ao se deparar com uma luneta de alta performance. Mas o que ele vai entender é que, quando olhamos muito para dentro da escuridão, a escuridão também olha dentro da gente...
"Tapete florido" é outro conto sobre um objeto enfeitiçado. Esposa, depois de muito insistir, finalmente consegue que o marido compre um tapete novo para a sala de visitas. Mas apesar de muito belo, a estampa do objeto tem o poder de levar a mulher a um estado alterado de consciência, no qual ela tem percepções do passado e do futuro, e sofrer de profunda melancolia. Este conto também dialoga com uma série de outros da nossa literatura, como o famoso "A caçada", de Liga Fagundes Telles.
"Pasta de couro de búfalo" mostra a ascensão de um jovem empresário que enriquece graças ao tino comercial inato. Mas, ao se envolver com uma famosa cantora de ópera, sua credulidade nos poderes de sua pasta de couro entra em choque com a paixão pela dama, levando-o a um destino trágico.
"Cinzeiro", que fecha a edição, também tem um viés cômico. Mostra como um jovem e destemido membro da brigada revolucionária gaúcha que acompanhou Getúlio Vargas ao Rio de Janeiro, constrói sua rede de influência na capital. De um de seus contatos, ganha um cinzeiro feito de uma granada desativada, pelo qual se apaixonou de imediato, pois era perfeito para acompanhá-lo em seus longos períodos de leitura de romances policiais e consumo de charutos. Mas o objeto trazia em si um risco inesperado.
Os contos são leves e, mesmo os mais trágicos, não chegam ao horror. A leitura sobrenatural, apesar de possível, é imprecisa, podendo ser percebida mais como fenômeno psicológico, como nos contos "Espelho", "Cadeira" e "Tapete florido". Temas recorrentes do autor aparecem aqui diluídos no tratamento leve e realista, sem o perfil de pesadelo e violência que aparecem em seus textos mais antigos, exceto por "Cachimbo" que, mesmo assim, não chega estabelecer um mistério inexplicável. Os cenários geralmente campestres e interioranos de Os Cavalinhos de Platiplanto e A estranha máquina extraviada também cedem lugar a ambientes cosmopolitas, nos quais os objetos adquirem mais relevância que os próprios personagens.
Objetos turbulentos é, portanto, um livro diferenciado, ainda que mantenha a poderosa carga psicológica característica da obra do mestre.
Cesar Silva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Bebê Maldito II (The Unborn II, EUA, 1994)


Criado da ciência. Vazio de alma. Nascido para comandar
– tagline promocional do segundo filme do bebê maldito

Lançado em VHS no Brasil pela “California” e com produção do “Rei dos Filmes B” Roger Corman, “O Bebê Maldito II” (The Unborn II, 1994) é o típico exemplo do cinema bagaceiro de horror dos anos 90 do século passado, com história tranqueira onde o destaque é o bebê do título, deformado e assassino, um boneco animatrônico que diverte justamente por ser extremamente tosco.
A direção é de Rick Jacobson e a história sucede um original lançado em 1991. Dessa vez, acompanhamos os passos de uma misteriosa mulher, Linda Holt (Robin Curtis), que possui uma lista com vários nomes de crianças, as quais são procuradas por ela e brutalmente assassinadas quando localizadas. Em seu rastro temos um detetive da polícia incompetente, Tenente Briggs (Leonard O. Turner), que não consegue impedir as ações violentas da mulher, mesmo matando crianças em locais improváveis como um parque movimentado e ensolarado, ou dentro de um berçário numa maternidade.
Uma das crianças procuradas é Joey, um bebê de seis meses cabeçudo e deformado, que está sendo protegido pela mãe, Catherine Moore (Michele Greene), uma escritora de livros infantis que está sempre se mudando de casa e escondendo o filho esquisito de todos a sua volta. O que não impede de ter que enfrentar uma dupla de assistentes sociais que querem investigar sua conduta como mãe, depois de uma denúncia de mais tratos dos novos vizinhos intrometidos, Artie e Marge Philips (Darryl Henriques e Caroline White, respectivamente), pais da adolescente Sally Anne (a alemã Brittney Powell). Para ajudá-la a esconder o bebê maldito, surge um misterioso homem inicialmente amigável, John Edson (Scott Valentine), que tem objetivos sinistros e é a principal ligação com o filme original. 
A história não é original, lembrando elementos de outra franquia, “Nasce Um Monstro” (It´s Alive), que teve 3 filmes. Não desperta muita atenção e têm diversas situações exageradas, principalmente os tiroteios intermináveis e barulhentos, que não soam convincentes. O que realmente vale a pena no filme é o bebê maldito em cena, tosco ao extremo, que come carne crua e arranca pedaços de suas vítimas com os dentes afiados, além dos grunhidos animalescos para se comunicar. Ele é o resultado de testes genéticos de fertilização mal sucedidos, os quais geraram crianças demoníacas, deformadas e agressivas, que ainda tem o poder de controlar a mente das pessoas para seu benefício (reforçando a ideia da tagline promocional reproduzida no início do texto). Tudo obra de um “cientista louco”, Dr. Richard Meyerling, do original, e que é citado rapidamente nessa continuação para reforçar a conexão entre os filmes.
O desfecho em aberto, como sempre acontece nas franquias intermináveis em busca de lucros, mesmo que pequenos, possibilita uma eventual sequência, um truque comum dos produtores caso decidam a viabilidade de continuar a história. Porém, isso não aconteceu, e o bebê maldito parou nessa segunda parte.   
(Juvenatrix – 22/06/17)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ghoulies IV - Eles Estão Próximos! (Ghoulies IV, EUA, 1994)


Um pouco de magia negra, um pouco de couro preto... e muito humor negro – tagline promocional do quarto filme da franquia Ghoulies

Os ghoulies são pequenas criaturas bizarras oriundas de um universo sombrio paralelo e que acidentalmente entraram em nosso mundo. Remetendo-nos diretamente aos filmes das saudosas décadas de 80 e 90 do século passado, a ideia de criação desses pequenos demônios utilizou elementos similares de outros monstrinhos de divertidas franquias como “Gremlins” (que teve 3 filmes) ou “Critters” (com 4 filmes).
“Ghoulies” por sua vez teve 4 partes, sendo a primeira lançada em 1984 pela extinta produtora “Empire”, de Charles Band, seguida em 1988 por “Ghoulies 2” e em 1991 por “Os Ghoulies Vão Ao Colégio” (Ghoulies III: Ghoulies Go To College). Em 1994 foi lançado diretamente para o mercado de vídeo VHS o quarto episódio, que recebeu o nome nacional “Ghoulies IV – Eles Estão Próximos!” (distribuído pela “Warner” com um subtítulo totalmente desnecessário), dirigido pelo especialista em bagaceiras Jim Wynorski, dono de um currículo produtivo com mais de 100 filmes.
Nessa comédia com elementos de fantasia e horror, um ex-praticante de magia negra e agora detetive da polícia, Jonathan Graves (Peter Liapis), é o elo de ligação com o universo ficcional da franquia, sendo o mesmo personagem e ator do filme original de 1984. Ele tem em seu poder uma pedra vermelha mágica, a “joia do conhecimento”, procurada desesperadamente pela entidade maligna Fausto, que na verdade é a manifestação de seu lado negro, para poder entrar em nosso mundo.
Para alcançar seu objetivo, a criatura demoníaca utiliza os serviços da bela Alexandra (Stacie Randall), uma antiga namorada do policial que está vestindo roupas sensuais de couro preto, além de ter habilidades especiais em lutas e manuseio de armas, e que fugiu de um manicômio para roubar a pedra mágica. Ela enfrenta em seu caminho uma dupla de ghoulies trapalhões, interpretados pelos anões Tony Cox e Arturo Gil, que entraram acidentalmente em nosso mundo através da abertura de um portal dimensional. Para ajudar o policial e antigo ocultista surge também outra ex-namorada e parceira na polícia, a bela capitã Kate (Barbara Alyn Woods), e juntos eles tentam combater Alexandra e os planos maquiavélicos de seu mestre Fausto. Além de salvar a atual amante do policial, a prostituta Jeanine (Raquel Krelle), que tem a pedra mágica num colar pendurado no pescoço e por isso corre perigo de vida como vítima de um ritual satânico de sacrifício humano, e resgatar do limbo o também policial Scotty (Bobby Di Cicco), atual parceiro de Graves e que foi possuído pelas forças do além.
O roteiro de Mark Sevi é uma salada indigesta com tanta bobagem misturada que inevitavelmente contribui para o desinteresse e afastamento do espectador de qualquer tipo de entretenimento. Existem os filmes bagaceiros que divertem e tem também aquelas tranqueiras que entediam, sendo que essa quarta parte de “Ghoulies” se enquadra no segundo caso. Tem muitos momentos de comédia pastelão e não é todo mundo que aprecia isso, mesmo sendo um filme com elementos propositais de humor negro (reforçado na tagline promocional do filme, reproduzida no início desse texto). Principalmente nas cenas com os ghoulies patetas, que de bonecos com comportamentos malignos nos filmes anteriores, passaram para criaturas de boas condutas interpretadas por atores anões com máscaras extremamente toscas (eles falam, mas suas bocas praticamente não se mexem). Aliás, eles também andam tranquilamente pelas ruas de Los Angeles sem serem notados ou importunados, simulando de forma inverossímil que se escondem das pessoas, ou não despertando estranheza quando descobertos. Apenas nesse filme da franquia os ghoulies foram interpretados por atores, porque a produtora “Cinetel” não conseguiu utilizar os bonecos originais dos filmes anteriores.
Curiosamente, existem algumas cenas do filme original de 1984 apresentadas em flashback, e o desfecho de “Ghoulies IV” apresenta um gancho proposital onde as criaturas convidam o espectador para conferir a próxima aventura deles, mas o anunciado quinto filme da franquia nunca foi filmado.
(Juvenatrix – 19/06/17)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Doce Vingança 2 (I Spit on Your Grave 2, EUA, 2013)


Com direção novamente de Steven R. Monroe, do filme homônimo de 2010 (que por sua vez é uma refilmagem de “A Vingança de Jennifer”, de 1978), “Doce Vingança 2” não é uma continuação, e sim apenas a variação de história similar com outra ambientação.
Uma jovem e bela garota americana, Katie (Jemma Dallender), decide fazer uma sessão de fotos para tentar a difícil carreira de modelo, porém um dos homens do estúdio fotográfico invade seu apartamento e a estupra. Os irmãos do criminoso são chamados para ajudá-lo e levam a garota para a Bulgária. Lá, ela é novamente violentada de forma brutal, além de sofrer torturas terríveis e enterrada viva. Mas, ela sobrevive e coloca em prática um sangrento plano de vingança.
Sem novidades em relação ao primeiro filme, é apenas mais uma jogada oportunista do diretor para tentar arrecadar algum lucro com o tema batido de violência e vingança. Dessa vez a ambientação saiu de uma floresta e pequena cidade americana, indo para um cenário urbano do leste europeu. Continuamos com várias situações mal explicadas para facilitar o trabalho do roteirista, como a viagem para a Bulgária, a fuga da garota enterrada para morrer, e a sucessão de situações inverossímeis no plano de vingança centrado na dor e tortura das vítimas. A violência, sem não for igual ao filme antecessor, é até maior e mais gráfica.
Continuando a franquia, em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, que é uma continuação direta do primeiro filme, com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. O nome nacional é “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
(Juvenatrix – 09/02/14)

Doce Vingança (I Spit on Your Grave, EUA, 2010)


Doce Vingança” é uma refilmagem de um original de 1978 com o nome aqui no Brasil de “A Vingança de Jennifer”, escrito e dirigido por Meir Zarchi, e conhecido pelos títulos “Day of the Woman” ou “I Spit On Your Grave”. A nova versão tem direção de Steven R. Monroe, que enfatizou sua intenção em homenagear o filme antecessor da década de 1970 do século passado. Teve uma parte 2 lançada em 2013 pelo mesmo cineasta, porém não é uma continuação e a opção dos realizadores foi criar outra história dentro do mesmo tema. E em 2015 foi lançada a parte 3, com direção de R. D. Braunstein, essa sim é uma continuação direta com a mesma personagem Jennifer Hills e atriz Sarah Butler. Recebeu o nome nacional de “Doca Vingança 3: A Vingança é Minha” (I Spit on Your Grave 3: Vengeance is Mine).
Uma jovem e bela escritora, Jennifer Hills (Sarah Butler), decide ir para um chalé afastado e cercado por uma floresta, para ficar isolada e poder trabalhar em seu novo livro. Porém, ao chegar à cidade próxima ao local de seu refúgio na natureza, ela chama a atenção por sua beleza e características de uma garota da cidade grande. Ela então é visitada de forma inesperada por quatro homens, que se juntam ao desonesto xerife local, que se diz religioso e temente a Deus, mas na verdade tem um caráter desprezível. A jovem escritora torna-se vítima de crueldades indescritíveis, sendo estuprada violentamente na floresta. Porém, “a vingança é um prato que se come frio”, e ela consegue sobreviver para dar o troco em seus algozes através de atrocidades ainda piores.
Filme sangrento repleto de momentos de grande tensão, principalmente a tortura física e psicológica sofrida pela protagonista, fazendo-nos torcer por sua recuperação e sucesso no plano de vingança. O ser humano consegue ser tão desprezível com atitudes de crueldade, que muitas vezes é mais insignificante e rasteiro que os insetos que esmagamos sem perceber ao caminhar. E não é nenhum spoiler revelar que, para nossa total satisfação como apreciadores do cinema de horror, os estupradores são punidos de formas terrivelmente dolorosas, apesar de sabermos que as ações meticulosas e precisas da mulher vingadora são bem improváveis quando tentamos aproximar a história de algo mais real.
(Juvenatrix – 03/02/14)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Maldição dos Brinquedos (Curse of the Puppet Master, EUA, 1998)


Charles Band nasceu em 1951 nos Estados Unidos. Roteirista, diretor e produtor, ele fez parte, junto com seu pai Albert Band, da extinta produtora “Empire Pictures”, que foi a responsável por várias preciosidades como “A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator, 1985) e “Do Além” / “Possuídos Pelo Mal” (From Beyond, 1986), ambos baseados em histórias de H. P. Lovecraft. Após o encerramento das atividades da “Empire”, ele fundou a produtora “Full Moon Entertainment” e continuou lançando suas pérolas de horror e ficção científica como a imensa franquia “Puppet Master”.
A Maldição dos Brinquedos” (Curse of the Puppet Master, 1998) é o sexto filme da franquia e foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Play Time”. Com direção de David DeCoteau, creditado como Victoria Sloan, a história é sobre o “cientista louco” Dr. Magrew (George Peck), que utiliza os conhecimentos de Andre Toulon, o famoso “mestre dos brinquedos” dos filmes anteriores, e mantém em cativeiro um grupo de bonecos vivos assassinos, apresentando-os num show bizarro como se fossem marionetes que se movimentam sozinhas misteriosamente.
Ele é obcecado em fazer experiências tentando transferir a alma das pessoas para dentro de bonecos, criando “brinquedos humanos” (daí a ideia da tagline “...A Experiência Humana”). Para isso, ele encontra o jovem Robert “Tank” Winsley (Josh Green), um rapaz tímido e sem família, que viveu num orfanato e trabalha num posto de gasolina. Ele sempre tem pesadelos e é constantemente ridicularizado por seus colegas, até ser convidado para trabalhar com o cientista depois de revelar que é um talentoso escultor de bonecos em madeira. Tank logo se apaixona pela bela filha do cientista, Jane Magrew (Emily Harrison), não imaginando os planos maquiavélicos de seu novo patrão. Enquanto isso, em paralelo o xerife Garvey (Robert Donavan) e seu assistente Wayburn (Jason-Shane Scott), estão desconfiados do trabalho sinistro do cientista e investigam o desaparecimento suspeito de seu antigo empregado.
O filme até diverte um pouco justamente pelos bonecos toscos e as cenas de mortes sangrentas, mas eles e os assassinatos somente entram em cena para valer a partir da metade da projeção. O roteiro tem muitos furos que podem ser notados sem esforço, validando o fato de que os realizadores não estão se importando muito com os espectadores e a qualidade da história. Quando Tank é apresentado para os bonecos vivos, ele não parece admirado com algo tão incomum. E o desfecho abrupto gera um inevitável desconforto, onde não esperávamos o corte brusco para os créditos finais. “A Maldição dos Brinquedos” foi filmado às pressas em apenas 8 dias e com a grande maioria das cenas dos fantoches sobrenaturais aproveitadas dos filmes anteriores, fazendo desse sexto capítulo da franquia apenas mais um produto comum e de fácil esquecimento.
Curiosamente, entre os bonecos assassinos que aparecem nesse capítulo da franquia, temos “Blade” (dublado no Brasil como “Lâmina”, que tem uma faca e um gancho no lugar das mãos) e “Six-Shooter” (“Seis Tiros”, um pistoleiro do velho oeste habilidoso com os revólveres). Além de “Pinhead” (“Cabeça de Alfinete”, que tem uma cabeça muito pequena e desproporcional ao tamanho do corpo, com sua força concentrada nas mãos enormes), “Tunneler” (“Tonelada”, que tem uma broca na cabeça e gosta de furar suas vítimas em imensos banhos de sangue), “Jester” (um comediante fantasiado como “o bobo da corte”), e “Sugismunda” (“Leech Woman”, uma mulher que tem sanguessugas na boca).     
A imensa franquia começou em 1989 com “Bonecos da Morte” (Puppetmaster) e teve mais dez filmes. Alguns foram lançados no Brasil e os títulos nacionais ruins contribuíram para uma enorme confusão e dificuldade num trabalho de catalogação. São eles: “O Mestre dos Brinquedos” (Puppet Master II, 1990), “A Volta do Mestre dos Brinquedos” (Puppet Master III: Toulon´s Revenge, 1991), “Bonecos em Guerra” (Puppet Master 4, 1993) e “Bonecos em Guerra – O Capítulo Final” (Puppet Master 5, 1994). Depois de 4 anos veio o filme analisado rapidamente nesse texto, seguido de “Retro Puppet Master” (1999), “Puppet Master: The Legacy” (2003), “Puppet Master: Axis of Evil” (2010), “Puppet Master X: Axis Rising” (2012), e “Puppet Master: Axis Termination” (2017).
 (Juvenatrix – 08/06/17)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Noiva Assassina (Praying Mantis, EUA, 1993)


Existe uma infinidade de filmes com histórias tão banais e comuns que assisti-los é um desgastante exercício de paciência. “A Noiva Assassina” (Praying Mantis, 1993) é uma produção para a televisão apenas recomendada para aqueles que estão dispostos a ver filmes ruins de suspense como simples curiosidade ou para conhecer tudo dentro do gênero, mesmo as porcarias que não divertem.
Com direção de James Keach, é um thriller básico, com história clichê e entediante, que foi lançado no Brasil em vídeo VHS pela “CIC” e lembra os tipos de filmes ruins exibidos na sessão “Supercine” da TV Globo. Uma suposta escritora, Linda Crandell (Jane Seymour), conhece um homem viúvo, Don McAndrews (Barry Bostwick), dono de uma rede de livrarias, e pai do adolescente Bobby (Chad Allen). Eles se apaixonam e decidem inicialmente morar juntos, e depois se casar, para o descontentamento da cunhada Betty (Frances Fisher), que desconfia do caráter da nova mulher.
Paralelamente, uma dupla de detetives do FBI, Johnson (Colby Chester) e Broderick (Michael MacRae), estão investigando uma série de assassinatos de homens logo após seus casamentos, e suspeitam que a autora dos crimes é sempre a mesma mulher, conhecida como “A Noiva Assassina” (do título nacional). Ou “Praying Mantis” (do título original), cuja tradução do inglês é o inseto “louva-a-deus”, que tem o hábito incomum das fêmeas matarem e devorarem os machos logo após o acasalamento. Enquanto os agentes da polícia tentam encontrar o rastro da assassina, a família de Don recebe sua nova namorada não imaginando o perigo e a ameaça mortal que se instalaria em sua casa.
O filme, carregado de clichês e situações previsíveis, não apresenta nada que já não se tenha visto antes em filmes de suspense com mulheres assassinas que demonstram perturbação, agressividade, ciúme exagerado e poder de manipulação, com um passado trágico na infância que influenciaria em sua personalidade doentia. Enganando todos a sua volta com falsas impressões de educação e bom caráter, e eliminando as pessoas inocentes que tiveram o infortúnio de cruzarem seu caminho, atrapalhando seus planos de vingança pessoal contra os homens. Dispensável.
Curiosamente, os atores Jane Seymour, Barry Bostwick e Frances Fisher são agora veteranos com extensas filmografias e carreiras bem sucedidas no cinema.
(Juvenatrix – 04/06/17)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Filha de Sarah (Sarah´s Child, EUA, 1994)


Entre 1996 e 1997 foi exibida na TV Bandeirantes a lendária sessão de cinema de horror “Cine Trash”, apresentada por “Zé do Caixão”. Entre as dezenas de filmes, “A Filha de Sarah” (Sarah´s Child, 1994), com direção de Ron Beckstrom, é um thriller sonolento que conta a história de uma mulher infértil e obcecada para ser mãe. Também foi lançado em vídeo VHS por aqui pela “Company”.
Sarah LaMere (Mary Parker Williams) é casada com Michael (Michael Berger) e eles decidem se mudar de uma cidade grande para uma pequena, morando de aluguel numa bela casa de arquitetura antiga, de propriedade da Sra. Margareth Franklin (Ruth Hale). Sarah é pintora de aquarelas e seu marido é um agente de seguros de carros, que abre um escritório na cidade representando uma grande empresa. O casal vive bem e é relativamente feliz, porém Sarah deseja ter filhos para aumentar a família e uma vez não tendo sucesso em seus planos, fica desesperada ao descobrir que sofre de infertilidade.
Seu relacionamento com o marido começa a se desgastar pela dificuldade em aceitar a impossibilidade de gerar filhos e as coisas complicam ainda mais depois que surge entre eles uma misteriosa criança chamada Melissa (Meagen Addie), que tem um comportamento estranho, não fala, não se sabe de onde veio e freqüenta a casa conturbando o ambiente, principalmente depois da ocorrência de acidentes mal explicados com o cachorro de estimação e com a Sra. Franklin. Sarah foi educada de forma rígida e religiosa aprendendo que a missão da mulher é procriar, e sua condição de infertilidade interfere em sua percepção da realidade mergulhando num pesadelo de insanidade, mesmo com as tentativas de ajuda do marido e apoio médico do psiquiatra Dr. Perry (Bryce Chamberlain).
“A Filha de Sarah” tem uma hora e meia de duração que se arrasta num ritmo lento e história pouco inspirada que não consegue manter o interesse do espectador. Os elementos de horror são muito sutis, representados pela figura misteriosa da criança que surge para influenciar no clima de tensão crescente entre o casal sem filhos. As poucas coisas que poderiam gerar algum interesse, na exploração de um mistério, demoram tanto para acontecer e ainda mais com um resultado tão trivial, que qualquer tentativa de apresentar elementos supostamente sobrenaturais perde seu efeito. E não poderíamos deixar de citar uma tentativa de humor forçado totalmente fora de contexto, envolvendo um enfermeiro patético que dança e faz palhaçadas no hospital onde Sarah fica internada. A cena tem um resultado estranho que não se encaixa na história.
(Juvenatrix –29/05/17)

sábado, 27 de maio de 2017

Kurt Vonnegut, Jr. (1922-2007)

Escritor americano faleceu aos 84 anos no dia 10 de abril de 2007 em conseqüência de lesões cerebrais provocadas por uma queda em sua residência, semanas antes. É um dos mais prestigiados e controversos autores de sua geração, influente em temas como sátira política e comportamental, boa dose de humor negro e, claro, ficção científica. Dizia que não pertencia ao gênero enquanto tal usava-o como uma ferramenta metafórica para criticar os homens e a sociedade de sua época, mas também entre os especialistas do gênero, Vonnegut é celebrado por sua inteligência e descompromisso com qualquer padrão, uma alma iconoclasta, antes de qualquer outra coisa. Nascido em Indianápolis (Indiana) em 1922, estudou química na Universidade de Cornell, antes de se alistar no Exército para a Segunda Guerra Mundial. Foi feito prisioneiro dos alemães e um dos poucos sobreviventes do bombardeio de Dresden, o pior realizado na Europa, em 1945. 
Depois da guerra trabalhou como jornalista em vários lugares até começar a escrever e publicar. Seu primeiro romance é Player piano (Revolução no futuro), de 1951. Logo depois, vieram Sirens of Titan (As sereias de Titã), de 1959, seu primeiro livro publicado no Brasil, pelo editor Gumercindo Rocha Dorea, em 1966. Talvez seu livro mais conhecido seja Slaughterhouse-Five, or the children’s cruzade: A duty-dance with death (Matadouro 5 ou a cruzada das crianças), de 1969, em que mistura viagens no tempo com alienígenas do futuro do planeta Tralfamadore e suas próprias experiências pessoais de sobrevivente do bombardeio de Dresden. Ganhou uma boa adaptação para o cinema em 1971, sob direção de George Roy Hill. Outros livros importantes incluem Cat’s cradle (Cama de gato), de 1963, God-bless you, Mr. Rosewater (1965) – aqui apresentando um de seus alter egos, Eliot Rosewater, retomado em livros posteriores. Outros incluem Billy Pilgrim – o sobrevivente de Dresden de Matadouro 5 – e  Kilgore Trout, um mal-sucedido autor justamente de, ficção científica neste romance e também em Breakfast of champions, or goodbye, blue monday! (Almoço dos campeões), de 1973.

Outros livros importantes são Galapagos (Galápagos), de 1985, uma fantasia de humor negro sobre os sobreviventes de um holocausto nuclear que vivem na tal ilha do título; Hocus Pocus, or what’s the hurry,  Sam?(Hocus Pocus), de 1990, uma ácida especulação sobre as contradições sociais que poderiam levar à auto-destruição da civilização. Vonnegut era, à maneira de um Mark Twin, um sujeito existencialista, no sentido de partir das dúvidas básicas da vida, tais como “Por que estamos neste mundo?” ou “Há mesmo alguma figura presidindo tudo isso?”. Era, assim, um pessimista contumaz e usava a mordacidade cômica para disfarçá-la ou melhor, torná-la mais explícita e suportável. Muito polêmico, foi guru dos hippies e da contra-cultura, o que lhe custou reações truculentas, como quando seus livros foram queimados por grupos conservadores no início dos anos 1970. Apesar do reconhecimento sofreu de depressão a maior parte da vida e tentou o suicídio – assim como sua mãe que se matou –, em 1984, tomando pílulas e álcool.
Tem um público fiel no Brasil, para além das fronteiras da ficção científica, pois dos seus 14 romances escritos sete estão disponíveis no mercado, incluindo o publicado em 2007, pela editora Record, Deus, o abençoe, Dr. Kervokian. Um nome importante, talvez mais da cultura ocidental do pós-guerra, do que propriamente da ficção científica, mas que mesmo nela, a ilustrou com sua irreverência e inteligência acima da média.

– Marcello Simão Branco

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007)

Promotor e Corregedor do Ministério Público, professor universitário, jornalista, romancista e ensaísta, Rubens Teixeira Scavone faleceu no dia 17 de agosto de 2007, aos 82 anos.
Nascido na cidade de Itapira, interior de São Paulo, em 8 de julho de 1925, filho dos escritores Hermelino Scavone e Maria de Lourdes Teixeira, o pequeno Rubens teve acesso a uma das mais completas bibliotecas do Brasil em sua própria casa. Mesmo depois da separação de seus pais mãe, continuou a conviver num meio erudito porque seu padastro, José Geraldo Vieira, também era um escritor importante.
Scavone graduou-se em 1948 pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e seguiu a carreira do Direito, como Promotor de Justiça, chegando a ser Corregedor Geral do Ministério Público.
Paralelamente, desenvolveu uma sólida carreira literária, com uma das mais expressivas bibliografias da literatura fantástica brasileira. Estreou em 1958 com o romance O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros), que publicou sob o pseudônimo de Senbur T. Enovacs, um anagrama de seu próprio nome. Em 1961, publicou duas coletâneas de contos, Diálogo dos Mundos (GRD) e Degrau para as estrelas (Martins), além de participar da Antologia brasileira de ficção científica (GRD), um período literariamente muito ativo.
Entretanto, Scavone não se limitou à literatura fantástica e alcançou muito sucesso também redigindo ensaios e romances mainstream. Em 1973 foi agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro por Clube de campo (Record), um denso romance de mistério que se passa exatamente no dia em que o homem pousou na Lua.
Apesar de todo o sucesso, Scavone não deixou de participar das atividades dos fãs de ficção científica no Brasil, com os quais sentia grande identificação.

Sempre gentil e atencioso, esteve presente no histórico Simpósio de Ficção Científica do Rio de Janeiro, em 1969. Também foi convidado para formar a mesa de debates da 1ª Mostra de Ficção Científica do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), em 1987 no SESC Pompéia, em São Paulo, foi convidado da II InteriorCon 1991, em Sumaré/SP, e da I HiperCon 1993, em Santo André/SP, mesmo ano em que publicou a importante novela O 31º peregrino (Estação Liberdade), resenhada adiante.
Em 1988 foi eleito para a cadeira nº18 da Academia Paulista de Letras, que presidiu por dois mandatos.
Depois disso, debilitado por problemas de saúde, não apareceu mais entre os fãs. Mesmo assim, participou das antologias Estranhos contatos (Caioá, 1998), Histórias de ficção científica (Ática, 2005), Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) e Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007), estas últimas através da representação de seu filho, o fotógrafo  Marcio Scavone.
Rubens T. Scavone deixa um importante legado, com um acervo de contos, novelas e romances de altíssima qualidade, que merece ser republicado para conhecimento das novas gerações de leitores. Sua contribuição para a identidade da ficção fantástica brasileira é importantíssima e deve ser sempre  referenciada.

Bibliografia:
= O homem que viu o disco voador (Palácio do Livros, 1958) – Romance.
= Degrau para as estrelas (Martins, 1961) – Coletânea.
= Diálogo dos mundos (GRD, 1961) – Coletânea.
= Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961) – Antologia.
= Ensaios norte-americanos (Revista dos Tribunais, 1963) – Ensaio.
= Além do tempo e do espaço (EDART, 1965) – Antologia.
= O lírio e a antípoda (Revista dos Tribunais, 1965) – Romance.
= Passagem para Júpiter (Mundo Musical, 1971) – Coletânea.
= Clube de campo (Record, 1973) – Romance.
= A noite dos três degraus (Melhoramentos, 1976) – Romance .
= Morte, no palco (Clube do Livros, 1979) – Coletânea.
= Faukner & cia (Soma, 1984) – Ensaio.
= O Projeto Dragão (Scipione, 1988) – Coletânea.
= Templários, Frankenstein, Buracos Negros e outros temas (Hemus, 1991) – Ensaio
= Sete faces da ficção científica (Moderna, 1992) – Antologia.
= Sete faces da ficção espacial (Moderna, 1992) – Antologia.
= O 31º peregrino (Estação Liberdade, 1993) – Novela.
= Estranhos contatos (Caioá, 1998) – Antologia.
= Vinte voltas ao redor do Sol (CLFC, 2005) – Antologia.
= Histórias de ficção científica (Ática, 2005) – Antologia.
= Os melhores contos brasileiros de ficção científica (Devir, 2007) – Antologia.
Cesar Silva

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Despertar do Demônio (Bay Cove, EUA, 1987)


O mercado brasileiro de vídeo VHS foi bastante movimentado entre os anos 80 e 90 do século passado, com muitos lançamentos de filmes de horror. “Despertar do Demônio” (Bay Cove) é de 1987 e foi lançado por aqui pela “Globo Vídeo”, sendo uma produção especialmente para a televisão dirigida por Carl Schenkel, e com a curiosidade da participação no elenco de um jovem Woody Harrelson, em início de carreira. Dentre uma infinidade de atores e atrizes que aparecem em centenas de filmes de todos os estilos e para todos os lados, apenas alguns poucos conseguem sucesso efetivo na carreira. Harrelson é um deles, sempre atuante e participando de grandes projetos como a franquia “Jogos Vorazes”.  
Um jovem casal sem filhos, Jerry Lebon (Tim Matheson) e a esposa Linda (Pamela Sue Martin), decide se mudar e sair do aluguel, comprando uma casa afastada da cidade, localizada num pequeno vilarejo de uma ilha pouco habitada. O lugar é chamado de “Bay Cove” (do título original) e a comunidade local tem mais de 300 anos de história. Eles primeiramente são recebidos com entusiasmo e cordialidade pelos novos vizinhos, como a idosa Beatrice Gower (Barbara Billingsley), antiga proprietária da casa vendida para eles, e pelos casais Josh (Jeff Conaway) e Debbi McGwin (Susan Ruttan), e os misteriosos Nicholas (James Sikking) e Matty Kline (Inga Swanson).
Porém, uma série de acontecimentos bizarros e sinistros transforma seus novos vizinhos em pessoas extremamente estranhas. Como a ocorrência de acidentes misteriosos e trágicos envolvendo um amigo de Linda, Slater (Woody Harrelson), que veio à ilha para visitá-la, e também o cachorro de estimação da moça, passando pelo comportamento nada infantil das poucas crianças do lugar, e pelos avisos de alerta para o perigo de um velho recluso numa cadeira sempre observando os movimentos de uma janela num sótão. Além de um cântico assustador ecoando pela ilha e a descoberta de uma caverna escondendo um ambiente preparado para a realização de cultos demoníacos, com um enorme pentagrama no chão e iluminação por tochas de fogo.   
O nome nacional “Despertar do Demônio” é oportunista e já entrega a temática do roteiro com uma conspiração satânica. Uma vez sendo uma produção para a televisão, quase não há violência e sangue, e o foco está na construção de uma atmosfera de suspense e mistério que lembra situação similar do clássico “O Bebê de Rosemary” (1968, de Roman Polanski). Apesar dos velhos clichês de filmes com seitas demoníacas e covil de feiticeiros, e da presença inevitável de previsibilidade nos eventos, temos aqui uma história que ainda consegue envolver o espectador com um clima de tensão crescente. Que ocorre na medida em que Linda desconfia do comportamento estranho dos habitantes da ilha, e decide investigar a história sinistra do lugar, descobrindo aos poucos a obscura verdade e reais intenções de seus moradores envolvidos com bruxaria.
“Se um mortal vir o local, deve ser sacrificado na primeira noite de lua cheia. Se o sacrifício não ocorrer à meia-noite, então qualquer pacto com Satanás será destruído.
(Juvenatrix –22/05/17)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Complô contra a América

Complô contra a América (The plot against America), Philip Roth. 440 páginas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015. Traduzido originalmente no Brasil em 2005, pela mesma editora.

A ficção especulativa, por motivos econômicos, especializou-se em uma miríade de gêneros e subgêneros devidamente esquematizados. Autores especializados em cada um desses subgêneros exploram cada uma de suas dobras em busca de seus limites sem perder os apelos comerciais que os editores exigem. Essa prática nos trouxe uma série de bons trabalhos criativos e perturbadores mas, por mais que se tente, sempre há uma fronteira que tem que ser respeitada, um protocolo que ali está para estabelecer a identidade da obra e seu público alvo. Eventualmente contudo, ocorre de um autor importante, mas não especializado, acidentalmente ou não, adentrar os domínios de um gênero como um touro enfurecido e, sem respeitar nenhum desses protocolos, ali instalar uma obra de tal forma autoral que a crítica tem dificuldade de classificá-lo. Há diversos exemplos dessa ordem, que causam intermináveis polêmicas entre os fãs, uns denunciam a invasão não autorizada, outros festejam que alguém importante finalmente tenha enxergado valor naquilo que tanto gostam, tudo isso enquanto o crítica mainstream destila seus preconceitos.
Por exemplo, temos os casos de 1984, de George Orwell, Shikasta, de Doris Lessing, A estrada (The road), de Cormac McCarthy, Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), de Michael Chabon, Não verás pais nenhum de Ignácio de Loyola Brandão, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A eles se soma também Complô contra a América de Philip Roth, que recebeu uma nova edição em 2015 na coleção Companhia de Bolso, da Editora Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.
É um caso curioso porque a obra de Philip Roth não apresenta nenhum outro livro especulativo. Sua produção está focada no realismo, em livros como O complexo de Portnoy (Portnoy's complaint) e Pastoral americana (American pastoral). Nascido em Newark, Nova Jersey, em 1933, Roth é um autor mainstream prestigiado, detentor dos mais importantes prêmios literários, entre os quais o Pulitzer e a National Medal of Arts. É um mistério os motivos que o levaram a escrever esta ficção especulativa instalada no subgênero da História Alternativa, um formato que geralmente faz sucesso apenas entre fãs de ficção científica.
Não se trata de uma ideia original. Antes de Roth, outros autores dedicaram textos à utopias nazistas na América, como, por exemplo, O homem do castelo alto (The man in the high castle), de Philip K. Dick, e O sonho de ferro (The iron dream), de Norman Spinrad, ambos já publicados no Brasil.
O caso é que Complô contra a América é muito mais que uma história alternativa. Trata-se de um romance em que o real e o imaginário misturam-se de tal forma que é praticamente impossível desassociá-los. Não porque seja difícil saber o que é historicamente correto ou não, porque essa percepção o autor providencia de modo muito claro, ao inserir, no final do livro, um apêndice detalhado com as biografias reais dos principais personagens históricos citados no romance, para "fornecer referências aos leitores interessados em saber até onde vão os fatos históricos e onde tem inicio a imaginação histórica", cita o próprio Roth na nota de esclarecimento que abre a seção.
O que não sabemos se é real ou não são os fatos ocorridos com os protagonistas, que nada mais são que os membros da família de Philip Roth, num relato que pode muito bem ser autobiográfico em sua maior parte, ou completamente inventado. Pois o romance, narrado em forma de um testemunhal, conta as impressões do infante Philip Roth que, com apenas sete anos de idade, vive um período turbulento da sociedade americana, exatamente os dias que antecederam a entrada do país na Segunda Guerra Mundial.
No romance, a comunidade judaica de Newark, onde vivem os Roth, é abalada quando, nas eleições de 1940, o herói da pátria Charles Lindberg – o primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico sozinho num vôo sem escalas – elege-se presidente dos Estados Unidos derrotando o democrata Franklin Delano Roosevelt, que se candidatara ao terceiro mandato. Ocorre que Lindberg tinha ideias controversas, pois era antissemita assumido e admirador de Adolf Hitler. A presença de Lindberg na Casa Branca faz o país manter-se fora do conflito europeu e cria desconforto entre os judeus americanos ao abrir espaço à propagação do nazismo nos EUA.
O texto de Roth, ainda que dotado de menos maravilhamento que seus antecessores, ao importar o holocausto europeu para a América – numa situação que não aconteceu de fato –, apresenta um retrato um tanto cruel da sociedade judaica, discutindo agudamente a questão antissemita nos EUA, a estrutura familiar da comunidade, seus valores e cultura. Pelos olhos do pequeno Phil vamos acompanhar como o fascismo avança gulosamente sobre a sociedade americana, animada pela ampla aprovação à política isolacionista de Lindberg, travestida por ações pacifistas e progressistas. E a tragédia que era apenas um temor, comprova-se para a família Roth quando são tratados como cidadãos de segunda classe em uma malfadada viagem turística à capital do pais, assim como no drama do primo Alvin, que havia se alistado no exército canadense para lutar contra Hitler na Europa, mas retornou poucos meses depois sem uma das pernas, perdida em batalha.
O mais dramático, contudo, é que os traumas pelo que vão passar os Roth e seus vizinhos da comunidade judaica de Newark são, de forma geral, criados a partir da intolerância dos próprios judeus entre si, em especial a ação de Walter Winchell, radialista de enorme audiência que move uma campanha difamatória incansável – e não propriamente honesta – contra o presidente Lindberg. Em cada detalhe das recordações do pequeno Phil, as pistas de como os próprios judeus ajudam a construir as armadilhas para seus iguais, incluindo o próprio Philip que, do alto de seu inocente egoísmo juvenil, lança seu vizinho Seldon, provavelmente o único admirador que jamais teve, no pior de todos os infernos, potencializando a natureza de culpa que todo judeu carrega desde o berço.
O que enfraquece a tocante história de Complô contra a América é a atabalhoada explicação final, que sugere Lindberg como mais uma das vítimas de um plano nazista para dominar a América, sendo que tudo o que ele fez foi decorrente de chantagem, uma vez que os alemães teriam seu filho refém (na história oficial, o filho de Lindberg morreu ainda bebê, assassinado por um sequestrador psicopata). Ainda que a forma como Roth apresenta essa conspiração seja um tanto transversal, através de uma série de contraditórias reportagens de jornal que não parecem ser dignas de crédito, o efeito final é da História sendo reconduzida ao normal, apenas com um ano de atraso: os japoneses atacam Pearl Harbour em 1942 e os EUA acabam por entrar na Segunda Guerra ao lado dos aliados.
Mesmo assim, a opção de Roth por construir um holocausto pessoal pelos olhos de sua própria infância dá tal credibilidade á história que nos faz pensar que ela talvez tenha acontecido de uma forma ou outra, e que inacreditável é o fato de não ter sido assim, uma dúvida que perturbará para sempre o leitor: talvez, a história tenha sido mesmo aquela e sejamos nós que vivemos na realidade alternativa.
Cesar Silva

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Infinito em Pó

Infinito em Pó, Luís Giffoni. Belo Horizonte: Editora Pulsar, 238 páginas. Lançado originalmente em 2004.

Este romance de ficção científica surgiu em fins de 2004 quando o mercado editorial brasileiro ainda estava avesso à publicação de ficção científica. Recebeu, além disso, uma resenha favorável no caderno ‘Prosa e Verso’, do jornal carioca O Globo, um dos principais do país.
Talvez isso se explique pelo fato de Luís Giffoni, ser um um autor razoavelmente experimentado, assinando outros romances e recebendo premiações prestigiosas, como os da Academia Paulista dos Críticos de Arte (APCA), Bienal Nestlé, e duas indicações para o Prêmio Jabuti, o principal da literatura nacional.
Com tais referenciais recebi o livro enviado pelo próprio autor com bastante expectativa. De que a obra pudesse acrescentar qualidade e visibilidade à ficção científica, dois elementos de que ela tanto carece entre nós. O tema, de saída, já ajuda, é dos mais interessantes, a temática da nave de gerações, que parte da Terra em direção às estrelas numa viagem muito inferior à da luz. E que por isso, só deverá ser testemunhada pelos descendentes da tripulação original, milhares de anos depois.
Lamento dizer, contudo, que o livro decepciona. Embora seja bem escrito e imerso de metáforas inspiradas, argutas observações e ironias sobre a condição humana e em particular sobre a racionalidade de uma missão como esta, o livro se enfraquece e se torna um fastio pela ausência de drama, de um enredo trabalhado. Uma narrativa que fosse mais fluente, palatável, que apresentasse e desenvolvesse tramas e problemas próprios e inerentes à operacionalidade da missão e os inúmeros perigos que ela potencialmente pode apresentar. Enfim, falta ao romance vida própria.
Há algumas especulações interessantes das, digamos, consequências sociais de avanços científico-tecnológicos. Como por exemplo, no desenvolvimento de seres humanos artificiais criados apenas para o prazer sexual dos tripulantes. Mas são secundárias dentro da trama, apresentadas mais como curiosidades, do que como possibilidades dramáticas a serem desenvolvidas.
Não que não haja um enredo. Há e já começa com um recurso metalinguístico que dilui os problemas vindouros, pois se sabe de antemão, em suas primeiras páginas, que, enfim, de um modo ou de outro, a missão teve êxito. Isso porque o livro se conta por meio de um relato de um historiador de um dos planetas habitados de Alpha Centauri. Então, já no começo, Giffoni se impõe um desafio. Qual? De contar uma história forte o suficiente para dissipar a perda de suspense, que a revelação inicial encerra. Contudo, o autor não perde tempo com este suposto esforço em contar de forma vibrante – talvez épica, por que não? –, como se deu a trajetória em direção ao sistema estelar situado a pouco mais de quatro anos-luz da Terra.
Já no primeiro capítulo se inicia um denso mergulho reflexivo – pontificado pelo óbvio recurso da primeira pessoa do singular –, no qual os principais tripulantes da nave vão alternando suas dúvidas e divagações existenciais sobre a razão de estarem ali e do destino que os aguarda.
O livro, página após página, capítulo após capítulo, com tal imersão psicológica torna-se ‘pesado’, difícil de ser lido com uma mínima fluidez e prazer narrativo. E as tais introspecções existenciais são muito semelhantes entre si, na voz de cada tripulante, causando até uma certa ambiguidade  sobre quem é realmente quem, para além dos papéis hierárquicos de cada um na nave.
Para se ter uma ideia da ‘densidade’ da narração, temos somente na página 98 a primeira sucessão de diálogos continuados em torno de um problema prático.
Ao seu modo intimista, a narrativa vai de forma paulatina mostrando alguma ação e tensão própria, saindo desta espécie de ‘inércia psicológica’. Assim é que dois fatores externos ganham relevo. O primeiro é uma guerra que viceja na Terra, envolvendo o governo mundial ditatorial e grupos rebeldes que tentam derrubar o regime. Opositores do planeta e de outras colônias humanas instaladas em outros planetas e luas do Sistema Solar. O segundo é a revelação de que a nave, Unity, leva consigo um mini-buraco negro, o que pode, potencialmente, destruir a nave e levar ao fim da missão.
O grande desfecho para as duas situações se insinua a partir dos últimos capítulos, mesclados com as repetitivas elucubrações. Na página 174, temos as frases:  “Envolta por tanta conjectura...” e “Chega de divagar...” Ora, embora estejam dentro do contexto da história, serviu a mim, na condição de leitor, como uma espécie de confissão do próprio autor sobre o exagero de sua opção de estilo. Outro exemplo emblemático se dá à página 200:

“As dúvidas são mesmo meu grande vício. Questiono por defeito de fábrica, meu selo de origem descontrolada. Quando em paz, imagino problemas para me perturbar, com frequência chuto o incômodo para a frente e desestabilizo a rotina. Será que meu gesto enriquece a vidinha a bordo?”

Apesar da sucessão de capítulos muito parecidos em suas divagações, foi divertido constatar a homenagem de Giffoni a vários escritores de ficção científica ao longo do texto. Pois vários deles foram retratados como tripulantes, cientistas, artistas e políticos. Nomes como: Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Kurt Vonnegut, Aldous Huxley, Murray Leinster, William Burroughs, Doris Lessing, Ursula K. Le Guin, Walter Miller, Jr, Edgar Allan Poe, Hugo Gernsback, tem seus sobrenomes emprestados a personagens secundários. E sim, há brasileiros: Fausto Cunha e Jorge Luiz Calife, ou melhor George Califa!, que foi o nome do personagem que se refere ao escritor carioca.
Outra expectativa quanto a este livro é o do diálogo que ele poderia estabelecer com outras obras sobre o mesmo tema. Em termos arquetípicos o melhor romance sobre nave de gerações da história da ficção científica é Nave-Mundo (Non-stop), do inglês Brian Aldiss, de 1958. Milhares de anos depois de iniciada a viagem uma distante geração de tripulantes vive em regiões diferentes e isoladas da nave, sem nem ao menos ter consciência de que estão em um vazo que singra o espaço sideral. Um terrível acidente ocorrido há muito tempo e a manutenção de um comando autocrático, sustentado por uma religião criada para legitimar o poder, mantém os tripulantes alheios à sua origem e ao seu destino. Temos um equilíbrio virtuoso sobre a aventura épica e única que representa uma missão deste tipo e as idiossincrasias humanas nela envolvidas, além das surpresas e perigos que inevitavelmente põe em risco e remodela todos os objetivos inicialmente planejados. Enfim, um clássico.
Outro que pode ser elencado é o romance As Canções da Terra Distante (The Songs of Distant Earth, de 1986), do também inglês Arthur C. Clarke. Com a proximidade do fim da Terra, a nave Magalhães é enviada para um planeta anos-luz distante de casa. Ao atingirem o destino programado, os descendentes da viagem inicial descobrem que o tal planeta já abriga uma civilização inteligente. Taí um problema fascinante a ser enfrentado. Pena que Clarke não estivesse particularmente inspirado em desenvolver a dramaticidade que o enredo suscita.
No Brasil podemos citar ao menos dois: Horizonte de Eventos (1986), de Jorge Luiz Calife – segundo livro de sua trilogia ‘Padrões de Contato’ – no qual a nave de geração não é propriamente o tema principal, mas compõe com outros – e o romance Projeto Evolução (1990), de Henrique Flory, no qual uma missão é montada às pressas ao se descobrir que o Sol se tornará em pouco tempo uma nova.
Em termos comparativos, Infinito em Pó, tem o seu diferencial. Menos pelo que traz de novo ao tema, do que pela opção de enveredar pelos meandros das reflexões existenciais dos personagens. Sem dúvida, uma opção interessante e que acrescenta um novo ponto de vista. O que compromete, porém, é o excesso.
É possível dizer que Infinito em Pó seja um livro literária e formalmente bem acabado. Que tenha o seu público próprio, pois a prosa de Giffoni é boa e bem articulada. Mas talvez tenha faltado à obra, uma busca por um equilíbrio entre o aspecto literário e intimista – tão valorizado pelo mainstream em geral –, com uma literatura que prioriza mais as ideias e o desenvolvimento do enredo, que é uma marca característica da ficção científica.

– Marcello Simão Branco



terça-feira, 2 de maio de 2017

Veio do Espaço (It Came From Outer Space, EUA, 1953)


O diretor americano Jack Arnold (1916 / 1992) é sempre lembrado pelos fãs do cinema fantástico por causa de vários filmes cultuados produzidos durante os saudosos anos 50 do século passado, como “O Monstro da Lagoa Negra” e “O Incrível Homem Que Encolheu”. Sua estréia no gênero foi em 1953 com a primeira produção da história do cinema de Ficção Científica filmada em 3-D, “Veio do Espaço” (It Came From Outer Space), do estúdio “Universal”.

Com fotografia em preto e branco, roteiro de Harry Essex, inspirado na história “The Meteor” do veterano escritor americano Ray Bradbury, o filme mostra um casal de noivos, o astrônomo John Putnam (Richard Carlson) e a professora Ellen Fields (Barbara Rush), que testemunha a queda de um meteoro no deserto do Arizona, chocando-se violentamente contra o solo nas redondezas da pequena cidade de Sand Rock. Ao investigar de perto o misterioso objeto que “veio do espaço”, o homem descobre que se trata na verdade de uma nave extraterrestre, que fica soterrada após um desmoronamento de pedras na cratera formada por sua queda. O astrônomo observador de estrelas e sua noiva são desacreditados pela população local e pelos jornalistas sensacionalistas quando mencionam a chegada de alienígenas ao nosso planeta, sendo vítimas de gozações e calúnias de auto promoção, enfrentando também a intolerância do xerife Matt Warren (Charles Drake), que organiza um grupo armado para invadir o local da queda da nave.
O objeto voador pertence a uma civilização alienígena avançada tecnologicamente, que descobriu uma forma de viajar pelo espaço sideral, conhecendo novos mundos, mas um acidente fez com que caíssem na Terra, obrigando-os a entrarem em contato com os humanos na tentativa de obterem recursos para consertar a nave e poderem partir. Eles tem o poder de assumir a forma humana, transformando-se numa réplica fria e sem emoções de qualquer pessoa, como aconteceu com uma dupla de técnicos que faziam trabalhos na área para a manutenção de postes e linhas telefônicas, o veterano Frank Daylon (Joe Sawyer) e o jovem George (Russell Johnson). Os horríveis seres do espaço não são bem recebidos e sentem a desconfiança e o despreparo da raça humana em aceitá-los como uma civilização superior e com um visual aterrador, distante da aparência humanoide (os alienígenas tem apenas um olho central, além de tentáculos e outras características que os tornam monstruosos aos olhos humanos).  
 
Analisando a história de mais de 100 anos do cinema fantástico, estou inclinado a escolher numa opinião totalmente subjetiva que os anos 50 (principalmente) e também a década seguinte, foram o período mais importante com a produção de filmes de Ficção Científica com elementos de Horror que ficaram marcados para sempre, explorando temas diversos e fascinantes como invasões alienígenas, exploração espacial, cientistas loucos em meio as suas experiências bizarras para o suposto bem da humanidade, homens transformados em monstros ameaçadores, expedições científicas rumo ao desconhecido, monstros atômicos gerados pelo descontrole da tecnologia nuclear, guerras interplanetárias... Em filmes como “O Monstro do Ártico” (51), “Destino: Lua” (51), “O Dia Em Que a Terra Parou” (51), “Colisão de Planetas” (52), “A Guerra dos Mundos” (53), “Os Invasores de Marte” (53), “Vinte Mil Léguas Submarinas” (54), “O Mundo em Perigo” (54), “O Monstro da Lagoa Negra” (54), “O Monstro do Mar Revolto” (55), “Tarântula” (55), “Vinte Milhões de Léguas a Marte” (55), “Guerra Entre Planetas” (55), “Godzilla” (56), “A Invasão dos Discos Voadores” (56), “Planeta Proibido” (56), “Vampiros de Almas” (56), “Emissário de Outro Mundo” (57), “O Começo do Fim” (57), “O Incrível Homem Que Encolheu” (57), “A Bolha” (58), “Guerra dos Satélites” (58), “A Mosca da Cabeça Branca” (58), “O Horror Vem do Espaço” (58),  “O Monstro de Mil Olhos” (59), “Viagem ao Centro da Terra” (59), “Quarta-Dimensão” (59), e muitos outros mais. E dentro dessa lista interminável de pérolas do cinema fantástico dos anos 50, temos o divertido “Veio do Espaço”. 

Entre as várias curiosidades e observações interessantes sobre o filme, podemos citar:
* Temos três outros títulos originais alternativos, “Atomic Monster”, “Strangers From Outer Space” e “The Meteor”.
* Foram apresentadas duas concepções visuais dos alienígenas para a aprovação dos executivos da “Universal”, e aquela que foi rejeitada inicialmente foi aproveitada depois como o monstro mutante de “Guerra Entre Planetas”, lançado dois anos depois.
* A ideia apresentada pelo filme mostrando os alienígenas se transformando em cópias de pessoas, assumindo a forma humana, num tratamento claro do roteiro evidenciando atitudes de xenofobia, também foi utilizada como o argumento básico de outras preciosidades da  FC como “O Dia em Que Marte Invadiu a Terra” (The Day Mars Invaded Earth, 62) e “Vampiros de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 56), de Don Siegel, que teve sua história baseada na obra do escritor Jack Finney, considerada como uma analogia política gerada pelos efeitos perturbadores da guerra fria e a paranoia americana de invasão comunista soviética (apesar que o próprio autor não confirma essa intenção quando escreveu o livro).
* Outra ideia interessante abordada em “Veio do Espaço” é a intenção dos alienígenas em tentar reparar os problemas da nave que ocasionaram a queda, para poderem partir de nosso planeta o mais rápido possível, algo que também aconteceu em “Escravos da Noite” (Night Slaves, 1970), com James Franciscus, onde os moradores de uma pequena cidade são manipulados e escravizados por alienígenas que os utilizam como mão de obra para consertar sua nave avariada.   
* “Veio do Espaço” é um dos poucos filmes dentro da temática de “invasão alienígena” que retrataram as criaturas do espaço como pacíficas, assim como em “O Dia Em Que a Terra Parou”, de 1951. A maioria dos filmes de FC similares fizeram questão de enfatizar os extraterrestres como hostis e ameaçadores para a raça humana.  
* Em 1996, foi lançada uma desnecessária e oportunista continuação, produzida especialmente para a televisão e dirigida por Roger Duchowny. Recebeu o nome original de “It Came From Outer Space II”.
* Em 2004, o escritor Ray Bradbury, autor da história original que inspirou a produção de “Veio do Espaço”, publicou um livro intitulado “It Came From Outer Space”, reunindo suas versões para o roteiro do filme dos anos 50. Bradbury teve várias de suas histórias adaptadas em filmes interessantes como “O Monstro do Mar” (53), “Fahrenheit 451” (66) e “O Homem Ilustrado” (69).  

Veio do Espaço / A Ameaça Que Veio do Espaço (It Came From Outer Space, Estados Unidos, 1953). Universal. Preto e Branco. Duração: 81 minutos. Direção de Jack Arnold. Roteiro de Harry Essex, baseado na história “The Meteor”, de Ray Bradbury. Produção de William Alland. Fotografia de Clifford Stine. Música de Irving Gertz e Henry Mancini. Edição de Paul Weatherwax. Direção de Arte de Robert Boyle e Ruby R. Levitt. Efeitos Especiais de Roswell A. Hoffman e David S. Horsley. Elenco: Richard Carlson (John Putnam), Barbara Rush (Ellen Fields), Charles Drake (Xerife Matt Warren), Joe Sawyer (Frank Daylon), Russell Johnson (George). 

(Juvenatrix - 25/07/2007)

sábado, 29 de abril de 2017

Vinte anos no Hiperespaço

Vinte anos no Hiperespaço, Cesar Silva, org. Prefácio de Marcello Simão Branco. Capa: Cerito. Editora Virgo, São Caetano do Sul, 2003.
A ANTOLOGIA QUE FECHOU UM CICLO
O fanzine Hiperespaço, editado por Cesar Silva e, no início, também por José Carlos Neves e Mário Mastrotti, durou uns vinte anos. Quando resolveu encerrá-lo, Cesar organizou uma antologia comemorativa, que passo a comentar.
VINTE ANOS NO HIPERESPAÇO, Cesar Silva e Mário Mastrotti.
A capa do livro equivale a um conto em forma de noticiário em torno do personagem “Tripanossoma”, pirata galático criado por Mário Mastrotti, responsável pela parte visual da história. A notícia da captura do pirata e seu cúmplice Dodô é bem-humorada, mas infelizmente a colocação das colunas da notícia em posição inclinada fez com que algumas letras se perdessem, impossibilitando a leitura integral do trabalho.
A NOVA REVOLUÇÃO DOS BICHOS, Carlos Orsi Martinho.
Este é, a meu ver, o melhor trabalho da antologia. Com uma originalidade muito grande Carlos Orsi desenvolve uma fábula utópica e autópica que já começa com palavras intrigantes: “O maligno Humanoide observa, impotente, os Gorilas Selvagens de Chachka-Qun atacarem as paredes do Palácio de Tugstênio com brocas roubadas de diamante.” É um conto divertido, que prima pelo absurdo e narrado com grande engenhosidade, numa tessitura que se completa brilhantemente no desfecho, e ainda aproveita para uma referência a Animal farm de George Orwell (ao seu título no Brasil, A revolução dos bichos).
BACTÉRIA, Edgard Guimarães.
Conto sofisticado onde um sujeito especula sobre um hipotético micro-organismo que altera os textos impressos. É um conto bem escrito em termos de língua portuguesa mas esbarra com o problema de não conseguir passar a mensagem de humor que pretende na surpresa final, que de resto é previsível.
ANDROIDES ORGÂNICOS TERÃO CABELOS NO PEITO?, E. R. Corrêa.
História extravagante e de difícil compreensão, a começar pelo título esquisito e excessivamente comprido. Tudo gira em torno de um sujeito reles num botequim, no meio-dia de São Paulo, pensando em ataques terroristas e que, por fim, começa a desconfiar ser ele próprio um androide bomba. A linguagem “punk” prejudica muito o clima de terror induzido e o desfecho, anticlimático, é decepcionante.
PAULA, A ESTRANHA, Fernando Moretti.
Parece que o autor se inspirou, no título, na Carrie de Stephen King. A história porém segue a via da psicopatia, não a do terror puro. O que salta aos olhos é a gratuidade da violência narrada, uma história que segue a triste via do “brutalismo” que hoje infesta a literatura e o cinema.
COLEIRA DO AMOR, Gerson-Lodi Ribeiro.
Num entrecho mais longo – aliás esse autor costuma escrever contos bem mais longos – Gerson conta uma história que poderíamos chamar “passional-tecnológica”, exercitando sua habitual firmeza de estilo e habilidade em tecer tramas. No entanto, a ideia da manipulação dos próprios sentimentos mediante a implantação de nanorrobôs e a discussão se isso fere ou não o livre-arbítrio resulta numa discussão em jargão técnico que soa bem artificial e pesada para os leitores, principalmente aqueles que veem a ficção científica como lazer. Vejam este trecho: “Os chips de amor eterno não inserem novos padrões (...) Apenas reforçam as trilhas neurais que expressam sentimentos mútuos pré-existentes.” Em todo o caso creio que Gerson tem razão ao sugerir a possibilidade de loucura como consequência de tais manipulações.
V.I.R.T.U.A.L., Gian Danton.
Uma divertida vinheta que brinca com aquele clichê de “nada é o que parece ser”, tornado mais comum após a descoberta do mundo virtual. Fazendo lembrar o Hal – o computador inteligente de “2001: uma odisseia no espaço” – o pequeno conto de Gian Danton pode ser considerado perfeito, e admite vários níveis de leitura. O que é a realidade? O que é a auto-consciência?
O MONSTRO DO ARMÁRIO EMBUTIDO, Miguel Carqueija.
Uma espécie de conto lovecraftiano infantil, que se reporta aos clássicos terrores das crianças. Como se sabe, o folclore infantil fala nos monstros  que habitam os armários ou se emboscam embaixo da cama, nos amigos invisíveis e nos brinquedos que se movem e falam na ausência dos humanos. O protagonista-narrador, já adulto, relembra um fato traumatizante de sua meninice.
(observação: como sou eu o autor do conto não posso dar opinião sobre ele e limitei-me a explicar o enredo)
ARMAGEDOM EM MADUREIRA, Octávio Aragão.
Incursão no domínio do “non sense”, como nos velhos quadrinhos de Juarez Machado; porém com detalhes vulgares. A história começa com uma mulher sendo lambida pelo telefone (sic). Outros horrores vão acontecendo, culminando com uma explicação atroz a respeito de uma invasão do inferno. Esse é, de longe, o pior conto do livro.
PRÉ-NATAL, Roberto de Sousa Causo.
Os textos de Causo com frequência tratam de assuntos militares e políticos, e também polêmicos. No caso trata da luta contra a tirania, uma ditadura de algum país não identificado (mas que parece ser o Brasil), já que o autor tem a idiossincrasia de falar apenas no “Regime” e no “Ditador”. Uma criança em gestação deve ser contrabandeada e, para tanto, é implantada no abdômen de um homem, na suposição de que isto iludirá a vigilância do inimigo. O conto me parece pouco convincente do ponto de vista científico, pois não consegui entender como o bebê poderia sobreviver no corpo de um homem.
O ÚLTIMO SUSPIRO, Cesar Silva.
Um conto muito curto para o assunto, passado em época nebulosa, talvez num futuro distante, onde uma nova idade de gelo isola comunidades humanas e, numa delas, um dos habitantes tem a ideia de organizar torneios esportivos para evitar a degeneração da raça e manter a esperança de dias melhores; todavia os torneios só servem, afinal, para estimular o ódio entre as famílias. É um conto deprimente, com um final sombrio. Creio que a ideia básica daria para melhor desenvolvimento e um final menos pessimista. Em todo o caso, uma visão bastante ácida em relação à natureza humana.
Miguel Carqueija