segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A casa assombrada, John Boyne

A casa assombrada (This house is haunted), John Boyne. Tradução de Henrique de Breia e Szolnoky. 296 páginas. Editora Companhia das Letras, 2015.

O apelo sinistro que um casarão antigo evoca no espírito humano é irresistível e os muitos fenômenos naturais que ocorrem nesse tipo de construção, como ruídos geralmente causados pela acomodação do madeirame, pelo vento assoviando nas frestas e por animais abrigados em suas paredes, e visões causadas pelo reconhecimento de padrões em seus detalhes barrocos, contribuem ainda mais para criar uma aura de mistério e assombro. Não é de admirar, portanto, que algumas das mais assustadores histórias de horror têm em construções assombradas os seus principais protagonistas: A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson, A casa sobre o abismo, de William H. Hodgson, A casa das bruxas, de H. P. Lovecraft, O iluminado, de Stephen King, e O castelo de Otranto, de Horace Walpole, são apenas alguns exemplos que demonstram ser este um dos mais bem explorados filões do gênero.
O bem sucedido escritor irlandês John Boyne, que fez enorme sucesso com o premiado drama O menino do pijama listrado – também adaptado para o cinema – decidiu enveredar por esse auspicioso território em A casa assombrada, romance ao estilo gótico que homenageia esse modelo narrativo, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
A história conta como Eliza Caine, jovem londrina de meados do século 19, responde a um anúncio de jornal para o emprego de governanta em Gaudlin Hall, propriedade na área rural da Inglaterra, depois que, com a morte do pai, fica sem recursos de subsistência na capital. O trabalho parece adequado a ela, que tem experiência como professora de crianças, tarefa que será sua principal função nesse emprego. Contudo, muitos mistérios cercam o trabalho, a começar do momento em que Eliza desembarca do trem na pequena estação de Norfolk. A falta de informações sobre suas responsabilidades no trabalho, a ausência de seus empregadores, o estado de decadência do casarão e a estranheza das duas crianças das quais terá de cuidar, Isabella e Eustace, tornam as primeiras horas de Eliza em Gaudlin Hall numa espécie de pesadelo surreal, que não melhora em nada quando, ao deitar para sua primeira noite de sono, sente duas mãos agarrarem suas pernas sob os cobertores.
Contudo, Eliza é uma mulher decidida e resolve enfrentar toda e qualquer adversidade para cuidar das duas crianças inocentes colocadas sob sua responsabilidade. Sua busca por informações na área urbana do condado revela ser ainda mais perturbadora, pois as pessoas a hostilizam de forma evidente. A única fonte confiável de informação parece ser o advogado encarregado de administrar a propriedade, mas ele também a evita e, mesmo quando confrontado diretamente, foge do assunto. Mesmo com tantas dificuldades, agravadas por acidentes graves e bizarros que ocorrem constantemente com ela no interior do casarão, Eliza investiga a história que se esconde atrás das paredes de Gaudlin Hall, que envolve a morte de várias governantas que a antecederam no emprego, e conclui que há um fantasma na casa. Pior, há pelo menos dois.
Embora a história se passe em 1869, o texto de Boyne é moderno e não tenta emular o estilo das narrativas góticas da época, o que tira parte do romantismo que geralmente envolve o gênero. Além do mais, Boyne não é um autor de horror e as poucas tentativas para assustar o leitor são leves e discretas. Cenas de suspense, nas quais um autor especializado no gênero faria o leitor se retorcer em agonia, são rápidas e derivativas, parecendo que o autor ficou com dó dos leitores e decidiu poupá-los de detalhes sórdidos. Um pouco desse efeito é causado pela narrativa em primeira pessoa, com a própria Eliza contando a história. Sendo uma mulher cética e pragmática, não dá muita importância ao sobrenatural e enfrenta os fenômenos como se fossem situações corriqueiras, ainda que mortais.
Ou seja, A casa assombrada acaba por não ser um livro de horror, mas sim um drama familiar de raízes naturalistas com um leve pendão para o espiritismo. Por sorte, o autor evitou habilmente não fazer o romance soar proselitista ou doutrinário, sendo assim uma leitura agradável e positivista, que pode ser lido sem problemas mesmo por leitores que não gostam de histórias de terror. Os fãs de Boyne estão seguros.
Cesar Silva

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escuridão Total sem Estrelas

Escuridão Total sem Estrelas (Full Dark, No Stars), Stephen King. 390 páginas. Tradução de Viviane Diniz. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015.


Quando vi o livro em uma livraria pensei que se tratava de mais uma obra sobre a ausência de luz. Afinal, Escuridão Total sem Estrelas sugere isso, ainda mais pelo design do livro, com capa e contra-capa preta e as folhas pintadas de preto em sua espessura. E o efeito é marcante. Se assim fosse, faria companhia a autores tão bons e diversos como o nosso André Carneiro (1922-2014), o inglês John Wyndham (1903-1969) e o português José Saramago (1922-2010).
Tal impressão me agradou pela perspectiva de ver um autor como King abordar o tema, mas se desfez quando percebi que as quatro histórias – duas novelas e duas noveletas – tratavam, isto sim, da escuridão da alma humana. Nas sombras que habitam em cada um de nós, nos pensamentos escuros, ruins que temos vez por outra, especialmente quando diante de grandes problemas ou dificuldades. Normalmente afastamos rapidamente tais pensamentos – nos reprimindo por tê-los –, mas nas narrativas deste livro, King mostra como tais alternativas más podem, eventualmente, se tornar tentadoras, e aflorarem. Para a ilusão de um alívio imediato que se transforma num pesadelo de proporções inimagináveis.
Este fato é especialmente verdadeiro no caso da primeira história, “1922”. Por causa de uma disputa em torno da herança de uma propriedade, um casal se desentende, pois ele quer incorporar o terreno à fazenda em que já vivem, e ela quer vender para recomeçar a vida na cidade. De saída já sabemos que as coisas tiveram o pior desfecho, já que ele, num quarto de hotel, anos depois escreve uma confissão de como tramou com o filho adolescente a morte da sua esposa e mãe de seu filho. Colocar esta novela como a primeira do livro foi muito arriscado pois é extremamente chocante, tanto pelo ato em si, pela violência desencadeada e, principalmente, pelo que acontece depois na vida do pai e do filho. Confesso que tive de parar a leitura em certos momentos e, embora ficasse com a narrativa remoendo na cabeça durante o dia, me incomodava a perspectiva de enfrentá-la depois, mesmo querendo saber o que iria acontecer. Tudo vai mal para os dois, e a tentativa de escrever a confissão parece sugerir uma certa expiação do pai pelo ato em si e por ter incluído o pobre do fillho. Além de ser uma história pesada e violenta é muito triste. Dos textos mais fortes que li de Stephen King. E olha que li boa parte do que ele já escreveu.
“Gigante do Volante” conta a história de uma escritora que após apresentar uma palestra em uma biblioteca numa cidadezinha do interior do Maine, é surpreendida quando um pneu de seu carro fura na estrada. Até aí nada demais, mas surge um homenzarrão para ajudá-la. Sim, ele troca o pneu, mas não fica só nisso. Ela é estuprada e espancada, e só escapa porque finge estar morta. Para seu horror é colocada dentro de um cano de esgoto num matagal ao lado dos corpos de outras vítimas do monstro. A partir daí ela descobre que existe uma outra persona de si mesma, como se nascesse uma nova, pois o que faz nada tem a ver com a pacata escritora de histórias de suspense adocicado. Mas o mais inacreditável ainda está por vir, na figura da bibliotecária que a havia contratado, e sua ligação com o estuprador. Embora King não defenda que se faça justiça com as próprias mãos é uma história que toma partido da vítima e a justificativa para seus atos.
De certa forma isto ocorre também – e de forma ainda mais terrível – na novela que fecha o volume, “Um Bom Casamento”. Num dia qualquer uma mulher vai até a garagem da casa em busca de um par de pilhas para o controle remoto da TV, e descobre que seu amado e fiel marido é um serial killer. Ela encontra casualmente os documentos de uma das vítimas do famoso assassino que se identifica como Beadie. O que fazer? Esta pergunta a move durante todo o tempo, principalmente depois que o próprio marido descobre que ela soube de seu segredo, e nada faz contra ela. Como que a pedir um pacto em nome do casamento, dos filhos e, claro, pela própria vida dela. A solução encontrada pode ser discutível, mas é amplamente justificada. Principalmente em nome das muitas mulheres que ele estuprou, mutilou e assassinou ao longo de quase quarenta anos.
A terceira narrativa é a única com um elemento sobrenatural. Em “Extensão Justa”, um doente de câncer vê a chance de sobreviver ao fazer um acordo improvável com um camelô à beira da estrada. Ele nota que o vendedor nada vende, apenas fica sentado em uma cadeira e expõe sobre uma mesinha uma plaquinha com os dizeres: “extensão justa” que, no caso, se trata de oferecer um período a mais daquilo que mais se deseja. Pode ser tempo, dinheiro, carreira, amor, saúde. Claro que existe uma contrapartida, e deve haver uma transferência. No caso, alguém deve ser prejudicado, uma pessoa que seja odiada pelo beneficiado. Após uma breve hesitação ele afirma que é seu amigo de infância que deve receber tudo de ruim que paira sobre ele. Afinal, roubou sua primeira namorada e é muito mais bem sucedido economicamente. Com o pacto o câncer vai embora, sua vida financeira melhora, e seu amigo perde a esposa – a mesma antiga namorada – de câncer, um de seus filhos morre num acidente e outro fica seriamente doente, além da vida financeira da família piorar muito. O que espanta nesta história é como o personagem que faz o acordo com o Diabo é insensível a tudo o que acontece com seu amigo, com o qual ele continua convivendo. Ele vai ficando mais saudável e feliz quanto mais desgraças acontecem com o objeto de seu ódio.
Como observa Stephen King no seu ótimo posfácio, a pergunta recorrente que inspirou cada uma destas histórias é a de que ninguém conhece verdadeiramente outra pessoa, por mais presente, íntima ou amada que ela seja. Claro que o desconhecimento não precisa ser sobre algo necessariamente ruim, mas esta é a premissa do livro, quer dizer, mesmo de quem jamais desconfiaríamos coisas muito más podem surgir. É o que descobre a mulher brutalmente morta em “1922”; o que a escritora descobre sobre si mesma após ser violentada; a esposa feliz que, de repente descobre que seu marido é o oposto radical do que acreditava; e o cara que também descobre em si mesmo o bem estar de fazer o mal a alguém que sempre lhe foi bem próximo. Ora, em “1922” o tema motivador das ações é a ganância; em “Gigante do Volante” é a vingança; em “Extensão Justa” é a inveja e em “Um Bom Casamento” estamos diante de uma situação de ilusão, de auto-engano.
Para nossa fortuna Stephen King escreve muito e é profusamente publicado no Brasil. A qualidade de sua obra é acima da média, ou seja, mesmo um King menor muitas vezes é mais interessante do que outros autores no melhor de sua forma. Escuridão Total sem Estrelas recebeu os prêmios Bram Stoker e British Fantasy em 2010 na categoria “melhor coletânea”, e se distingue como um grande momento do autor. As quatro narrativas propõe uma questão fundamental e como cada personagem vai responder de acordo com suas circunstâncias e motivações. Um livro com histórias poderosas, que desestabiliza os personagens, transformando de forma definitiva suas vidas e, sobretudo, incomoda e perturba o leitor. Quantos escritores são capazes disso?

– Marcello Simão Branco

domingo, 23 de outubro de 2016

Os Reencarnados / A Morta Viva (The Undead, EUA, 1957)


Olhem para mim, todos sabem quem sou. Esta é a história do meu trabalho eterno em todas as épocas, as obscuras e esquecidas, e aquelas que ainda virão. Admirem o sutil funcionamento dos meus talentos, e rezem para que eu nunca volte o meu interesse para vocês!

Essa introdução do próprio diabo (interpretado por Richard Devon), com uma gargalhada de deboche no final, dá início ao filme bagaceiro de horror com elementos de fantasia “Os Reencarnados” / “A Morta Viva” (The Undead, 1957), produzido e dirigido por Roger Corman em início de carreira, através de sua produtora “American International Pictures” (AIP). Ele, que é conhecido pela carreira imensa com centenas de filmes, principalmente do gênero fantástico, cujas maiores características são os orçamentos reduzidos.
Com fotografia em preto e branco, curto com apenas 71 minutos de duração e filmado em apenas 6 dias, “The Undead” conta a história de um psiquiatra pesquisador, Quintus Ratcliff (Val Dufour), que desafia seu antigo professor Ulbrecht Olinger (Maurice Manson), com uma experiência arriscada de hipnose com regressão. Ele utiliza como cobaia uma bela jovem chamada Diana Love (Pamela Duncan), que encontra desocupada pelas ruas, oferecendo dinheiro para se submeter ao experimento.
Uma vez aceitando o dinheiro fácil, a garota é hipnotizada e sua mente a faz retornar no tempo em uma vida anterior durante a Idade Média, na pele de Helene (novamente Pamela Duncan), uma jovem acusada injustamente de bruxaria e condenada à morte por decapitação. Porém, ocorre uma interferência mental da moça do futuro e ela consegue fugir da prisão, iniciando uma série de ocorrências imprevistas que poderiam afetar a existência de todas as suas vidas no futuro. Através de uma trama envolvendo seu par romântico, Pendragon (Richard Garland) e a bela bruxa Livia (Allison Hayes), que tem interesse amoroso por ele e quer a morte de Helene para sair de seu caminho. Além do coveiro atrapalhado Smolkin (Mel Welles), que se diz enfeitiçado por bruxaria, fica cantando bobagens o tempo todo e alega ser meio maluco, e da bruxa velha e deformada Meg Maud (Dorothy Neumann), que quer ajudar Helene a se salvar de seus perseguidores.
Em paralelo, Satã está apenas assistindo toda a confusão como um espectador que tentará interferir no momento certo para conquistar mais almas para seu reino de caos. E o psiquiatra Quintus decide também ser hipnotizado para retornar ao passado e tentar consertar as coisas, oferecendo a solução para Helene através da escolha em aceitar a decapitação e permitir suas vidas futuras ajustando novamente a linha temporal, ou decidir fugir da condenação e viver em seu tempo, e com isso impedir a existências de suas próximas vidas.

Você está em transe, esta é a sua escolha: a morte agora, vida depois. Ou vida agora, e morte pata todo o sempre.
O roteiro explora o tema da reencarnação, aproveitando o lançamento do livro “The Search For Bridey Murphy”, de Morey Bernstein. A autoria é de Charles B. Griffith, que foi o responsável por outras bagaceiras da época também dirigidas por Roger Corman como “It Conquered the World”, “Not of This Earth” e “Attack of the Crab Monsters”, entre outros. A história é uma confusão completa, cheia de furos e situações absurdas, onde o resultado acaba convidando o espectador a não se importar com qualquer lógica ou coerência, e apenas aceitar os fatos na tentativa de diversão. Pois, o que realmente interessa no filme são os elementos de horror de uma época medieval onde havia muita conspiração e suposta feitiçaria, com constantes execuções violentas em público. Com uma atmosfera sinistra de um período sangrento da humanidade, em cenas filmadas simulando florestas fantasmagóricas envoltas com névoa constante.
A produção é paupérrima, com cenários toscos e efeitos tão bagaceiros que se tornam hilários, como as transformações da bruxa Livia em morcego ou uma gata preta, além da participação de um anão (Billy Barty) como um diabrete, que é uma pequena criatura sobrenatural pertencente à bruxa. Tem até uma cena de dança macabra num cemitério que é inacreditável de tão patética. Vale apenas pela curiosidade de ser um dos primeiros trabalhos do “Rei dos Filmes B” Roger Corman.
A bela atriz Allison Hayes é uma musa conhecida dos filmes bagaceiros do cinema fantástico do período, aparecendo em tranqueiras divertidas como “O Extraordinário” (The Unearthly, 1957), com o “cientista louco” John Carradine, “Os Zumbis de Mora Tau” (1957) e o cultuado “A Mulher de 15 Metros” (1958).

Príncipe da escuridão, criador do mal, arquiinimigo do céu. Satã, seja bem vindo ao sabá das feiticeiras.

(Juvenatrix – 23/10/16)

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

The Hollow (EUA, 2015)


É uma pena que existam tantos filmes que desqualificam o tão fascinante cinema de horror, com roteiros exageradamente ruins, desfile de clichês, previsibilidade e um monstro criado por CGI tão patético que inevitavelmente arremessa o resultado final no limbo das produções que merecem ser esquecidas. É o caso da tranqueira “The Hollow” (2015), com direção do canadense Sheldon Wilson e história dele em parceria com Rick Suvalle. A dupla já havia trabalhado junto em outra porcaria similar, o anterior “Espantalho Assassino” (Scarecrow, 2013).
Três irmãs adolescentes, Sarah (Stephanie Hunt), Marley (Sarah Dugdale) e a caçula Emma (Alisha Newton) vão visitar sua tia Cora (Deborah Kara Unger) numa pequena cidade que fica numa ilha, na época do Halloween. Elas enfrentaram uma tragédia familiar com a morte dos pais num acidente de carro.  Porém, ao chegarem ao local, se deparam com um cenário deserto de mortes e mistérios envolvendo uma lenda de uma criatura sobrenatural da floresta, formada por fogo, ossos e terra, que está em busca de sangue e vingança.
“The Hollow” pode ser resumido rapidamente como uma história banal com ideia central já vista incontáveis vezes, sem absolutamente nada que já não tenha sido explorado à exaustão anteriormente, com os mesmo velhos e muitas vezes entediantes clichês do gênero. As três irmãs ficam o tempo todo correndo de um lado a outro, em encontros e desencontros, perseguições, tiroteios, gritarias e confrontos com um monstro de computação gráfica que não desperta qualquer interesse. Elas eventualmente encontram outros personagens tão patéticos quanto elas, que surgem apenas para serem vítimas da criatura. É o típico filme que nasceu para ser esquecido, premiando com isso a falta de criatividade e preguiça dos realizadores em tentar fazer algo melhor 
(Juvenatrix – 14/10/16)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

El Grito de la Muerte (The Living Coffin, México, 1959)


A lenda da “Maldição da Chorona”, sobre uma mulher fantasma que assombra com seus gritos desesperados de angústia por causa da morte de seus dois filhos soterrados na areia movediça de um pântano, é a ideia básica do filme “El Grito de la Muerte” (1959), produção colorida mexicana com direção de Fernando Méndez (1908 / 1966), que tem no currículo outras tranqueiras do período como “O Morcego” (1957), “Ladrón de Cadáveres” (1957), “O Ataúde do Vampiro” (1958) e “Misterios de Ultratumba” (1959).
Essa mesma famosa lenda mexicana também foi explorada no posterior “A Maldição da Chorona” (La Maldición de la Llorona / The Curse of the Crying Woman, 1963), produção em preto e branco escrita e dirigida por Rafael Baledón, sendo um excelente filme de horror gótico, com todas as características desse fascinante estilo e rivalizando com os melhores exemplos da cultuada produtora inglesa “Hammer”.
O cowboy detetive Gastón (Gastón Santos), acompanhado de seu parceiro “Coiote Louco” (Pedro de Aguillón), investiga o rancho da jovem e bela Maria Elena Garcia (Maria Duval) e sua severa tia Dona Maria (Hortensia Santoveña). Elas tentam administrar o local em decadência, com a morte trágica de Clotilde (Carolina Barret), após seus filhos morrerem no pântano que cerca a fazenda. As coisas complicam com a ocorrência de mortes misteriosas creditadas pelos supersticiosos como relacionadas à maldição de uma mulher chorona que abandonou a tumba em busca de vingança.    
Em “El Grito de la Muerte” (“The Living Coffin” nos Estados Unidos), temos uma mistura de gêneros com elementos de western, horror gótico e comédia pastelão, cujo resultado final não funcionou. A presença de um cowboy herói, perseguições a cavalo, tiroteios e brigas de bar nos remetem para um filme comum de western, sem apresentar nenhum diferencial e se perdendo na infinidade de produções similares. Os elementos de comédia, mesmo que em pequena quantidade em cenas num estilo pastelão, não combinam em nenhum momento com o argumento central de horror com as várias mortes misteriosas e a especulação da maldição da chorona. Essas cenas fora de contexto ficaram a cargo do personagem “Coiote Louco”, que está sempre desesperado para encontrar um local para dormir, e seus momentos hilários são acompanhados por sons cômicos. Além de enfatizar o cavalo do mocinho herói com habilidades improváveis como atirar com um revólver, salvar seu dono de uma areia movediça e descobrir uma passagem secreta no casarão com grande importância para a solução do mistério que assombra o local.
Dessa salada de estilos, o que realmente se destaca e salva o filme do limbo são os elementos de horror gótico, com as mortes violentas causadas supostamente por uma mulher atormentada que retornou do mundo dos mortos em busca de vingança e alívio para seu eterno desespero pela morte trágica dos filhos. O vilarejo decrépito e deserto, os gritos sombrios pela casa, a atmosfera sinistra de ambientes escuros, corredores mal iluminados e criptas geladas, a especulação de lendas e maldições familiares, e o clima desconfortável de mistério e assassinatos, garantem bons momentos de diversão para os apreciadores do estilo.
Apesar disso, infelizmente, “El Grito de la Muerte” perdeu uma grande oportunidade de se destacar no cinema de horror que explora fantasmas assassinos vingativos, por causa da história com mistura de gêneros, principalmente o humor deslocado, além de reviravoltas na trama também mal sucedidas. O filme é curto com apenas 71 minutos de duração, e vale conhecer por curiosidade devido ao tema da lenda da “maldição da chorona”, e pelos bons momentos de horror gótico.
(Juvenatrix – 12/10/16)

O coração de jade e A Pedra da História

Os sóis da América III: O coração de jade, 184 páginas; Os sóis da América IV: A Pedra da História, 176 páginas, Simone Saueressig. Ilustrações e capas de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2014.

Em 2014, Simone Sauressig publicou, com recursos próprios, O coração de jade e A Pedra da História, partes finais da tetralogia Os sóis da América, saga de fantasia com as aventuras do menino Pelume por um continente americano mítico, em busca da história para chamar o Sol, sem a qual seu povo, que habita a longínqua Caverna Mais Alta do Mundo, localizada em uma ilha no Círculo Polar Antártico, jamais verá o astro nascer novamente.
Nos livros anteriores, O Nalladigua e A Flauta Condor, publicados em 2013, Pelume e seus amigos, a menina Misqui e o guarani Nimbó, atravessaram os territórios do sul, passando pelos pampas gaúchos, o Rio da Prata, as cataratas do Iguaçu, os campos de caçada e a grande cordilheira dos Andes, fazendo novos amigos e enfrentando perigos mortais, entre os quais o bruxo Machí que, tendo seus planos frustrados por Pelume, os persegue sem trégua, em busca de vingança a qualquer custo. Quando Pelume precipita-se nos abismos andinos, Misqui e Nimbó são obrigados a seguir viagem sozinhos.
O coração de jade inicia exatamente nesse momento. Miraculosamente, Pelume sobrevive a queda ao ser capturado, em pelo ar, por uma ave que pretende devorá-lo, mas o velho remo – que é um galho da lendária árvore Nalladigua – o protegeu do apetite da fera alada. Perdido na selva, Pelume é envolvido pelas promessas da traiçoeira Cobra Grande, que consegue convencê-lo a trocar seu coração puro de menino pelo transporte até a cidade de Tiahuanaco. No lugar, Pelume passa a ter um coração feito de jade, duro e frio, que a Cobra Grande lhe deu. Agora sem sentimentos, Pelume suporta sem muita dificuldade uma aterrorizante viagem no lombo da cobra, só para, no final da jornada, encontrar seus amigos aprisionados pelo poderoso Machí. O confronto com o bruxo revela o quanto o menino mudara. Pelume resgata seus velhos amigos, mas o custo emocional é enorme e a relação entre eles nunca mais seria a mesma. Na sequência da jornada para o norte, os meninos chegam à maravilhosa cidade Teothiuacán, onde se deparam com uma urbanidade inédita que deixa maravilhado até o insensível Pelume.
Ali eles conhecem um povo muito desenvolvido, mas que está passando por um momento delicado. Esta próxima a hora da cerimônia do Fogo Novo, quando todos os fogos da cidade são apagados e substituídos por uma nova chama. Para isso, é necessário o sacrifício de um homem honrado, ou então, de um pouquinho do fogo sagrado de Popocatepetl, o vulcão que se ergue sobre a cidade. Por trás do drama de Tenamaztli, o valente guerreiro que terá de ser sacrificado, está a história de ciúme de uma mulher egoísta que não se importa em colocar toda a cidade em risco de ser destruída apenas para satisfazer seus caprichos. Isso vai colocar os três jovens do sul na busca pelo fogo de Popocatepetl e numa luta infernal contra um exército de seres mágicos que prenunciam o fim do mundo.
A Pedra da História, volume final da série, vai levar os jovens aos limites setentrionais do continente. Perseguidos de perto pelo cada vez mais enfurecido feiticeiro Maquí, que agora tem um séquito de feras mágicas sob suas ordens, os do sul atravessam as grandes pradarias norte americanas, a Floresta Dourada e a Mata do Norte, conhecem povos nativos e civilizações mágicas, e encontram-se com a misteriosa Mulher-Aranha, que entrega a Pelume a misteriosa Pedra da História e faz revelações que o menino só poderia compreender se ainda tivesse um coração de verdade no peito. A fuga prolongada e cansativa, as constantes lutas e o frio cada vez mais intenso começam a minar a determinação de Pelume, e quando ele percebe que seus amigos estão muito próximos do completo esgotamento físico e emocional, ele mesmo dominado pela frieza de coração de jade, decide abandonar a busca e se entregar à ira de Maquí. Mas as revelações pelas quais tanto lutou, bem como o destino de seus amigos, estão para além da banquisas polares.
Assim como em O Nalladigua A Flauta CondorO coração de jade e A pedra da história são ilustrados por Fabiana Girotto Boff, que também assina as capas. Cada livro vem com um marcador de páginas que estampa um útil glossário de termos linguísticos e figuras mágicas, que ajuda a entender de onde veio a infinidade de criaturas fabulosas que aparece ao longo da narrativa e seu contexto no folclore das diversas culturas com as quais Pelume toma contato.
Apesar da invejável bibliografia da autora, que detém em seu currículo vários prêmios importantes e romances ousados como aurum Domini: O ouro das missões (2010), O jogo no tabuleiro (2010) e B9 (2011), Os sóis da América se destaca como um trabalho de fôlego, que certamente exigiu um esforço monumental de pesquisa. Seu maior mérito é ter ido além de qualquer bairrismo, reclamando todo o continente como o espaço sem as fronteiras que perdemos de vista por causa do apelo nacionalista, uma proposta corajosa e inovadora na ficção fantástica brasileira.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Do Outro Lado do Sonho

Do Outro Lado do Sonho (The Lathe of Heaven), Ursula K. Le Guin, 169 páginas. Tradução de Maria Amélia Silva. Capa de Arcângela Marques. Lisboa: Edições 70 – Coleção Orion Clássicos da Ficção Científica, n. 3, 1991.

Do que são feitos os sonhos? Qual sua relação com a realidade, tal qual a conhecemos e percebemos? E o que falar da própria realidade? No fundo não temos certeza por onde andamos e sob que concretude estamos assentados.
Destas profundas e recorrentes perguntas, que todos já nos fizemos algumas vezes, trata o romance Do Outro Lado do Sonho (The Lathe of Heaven), da Ursula K. Le Guin. Livro publicado originalmente em 1971, que nos mostra a autora no auge, em pleno exercício de sua prosa e de sua criatividade.
Foram publicadas duas edições em Portugal. Esta ao qual tomei por base para esta resenha, e O Flagelo dos Céus, número 64 da coleção Europa-América. E vale lembrar que o romance ganhou uma versão para o cinema em 1980, dirigida pela dupla David Loxton e Fred Barzik, finalista do Prêmio Hugo de 1981.
George Orr é um sujeito atormentado, sem paz. Ele sonha. E dos seus sonhos criam-se novas realidades, das quais ele é o único elo com a realidade passada. Em desespero, passa a drogar-se, é internado e lhe recomendam um tratamento voluntário com um psiquiatra, um especialista em sonhos.
Logo após a primeira sessão, a realidade já estava alterada. No lugar de um quadro do Monte Hood que antes estava na parede do consultório, encontra-se agora o quadro de um cavalo, conforme lhe fora recomendado a sonhar pelo Dr. Haber. A partir daí, de sessão em sessão as transformações irão se acentuar de maneira radical. Isso porque George percebe que o Dr. Haber é testemunha das modificações que ele faz ao mundo, com seu sonho. O perturbado sonhador procura a ajuda de uma advogada. Ela comparece a uma sessão com o pretexto de atestar a idoneidade do tratamento do doutor, mas acaba por testemunhar também o nascimento de um novo e radical mundo: da janela do consultório, onde antes olhava imponentes edifícios da metrópole de Portland, via-se agora uma paisagem bucólica com casas modestas e muita vegetação.
O Dr. Haber potencializa os sonhos de George usando uma máquina que ele chama de aumentador. Hipnotisa o paciente, conecta eletricamente o seu cérebro com o amplificador de sonhos, e transforma em nova realidade seus mais desvairados desejos e visões de mundo. Tenta transformar a realidade em suas utopias, terminando com as guerras, com o racismo. Mas os efeitos colaterais são terríveis e desestruturam as vidas de milhões de pessoas, suas memórias, seus destinos e suas existências. Até a figura de extraterrestres benevolentes vindos de Aldebarã cabe em seus delírios a fim de acomodar seus projetos de reconstrução do mundo.
Mas George continua sonhando e mudando a realidade. Só que agora de forma induzida e controlada, servindo de instrumento para um cientista que quer se fazer de Deus. Ele procurará se insurgir contra o Dr. Haber, nem que com isso nada reste de qualquer fiapo, qualquer noção de continuidade entre um sonho e uma realidade e desta para uma próxima realidade.
Le Guin imprime um bom ritmo ao texto, não se voltando para uma interpretação mais densa e complexa da natureza do sonho e da realidade, procurando deixar a própria narração dos acontecimentos falar por si. Nem a fonte do poder de George para modificar a realidade nos é explicada. Cabe ao leitor, então, mergulhar nas mais livres interpretações sobre as conseqüências dos acontecimentos da história, bem como se voltar à procura de uma compreensão da relação que pode existir de fato entre sonho e realidade.
George é um sujeito sem paz. O mundo não tem paz. Haber se entusiasma de forma megalômana e passa a dispensar George. O cura: pede para ele sonhar que não terá mais sonhos com modificações da realidade. O próprio Haber se conecta ao aumentador e passa a transformar a realidade a partir de seus sonhos. O mundo entra em colapso. Das cinzas, a sociedade é reconstruída, e George conforma-se em viver e deixar viver. Sem tentar entender o que, de fato, não pode ser entendido em sua plenitude. Mas George ainda está amargurado e sem paz. O alívio lhe aparece no fim da história quando reencontra a advogada, por quem se apaixonara e casara em uma outra realidade. A cena final é de forte simbolismo, com Le Guin nos deixando habilmente a indagação do que terá sido do mundo e da vida de George Orr. Seja em que realidade for. Uma história marcante e inesquecível.

– Marcello Simão Branco