segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Besta do Milhão de Olhos (The Beast With a Million Eyes, EUA, 1955)


O “Rei dos Filmes B” Roger Corman, cultuado produtor e diretor americano do cinema bagaceiro de horror e ficção científica, começou sua carreira no início dos anos 1950, a década de ouro das tranqueiras divertidas do gênero fantástico com histórias absurdas e efeitos toscos (monstros de borracha e naves espaciais hilárias). Um de seus primeiros filmes como produtor (nesse caso, executivo) e direção (porém, ambos não creditados), recebeu o nome por aqui de “A Besta do Milhão de Olhos” (1955), com fotografia em preto e branco e metragem curta com apenas 78 minutos. Trazendo um título sonoro, cartazes e taglines promocionais exagerados e uma introdução sensacionalista narrada por um líder alienígena tirano e conquistador (voz de Bruce Whitmore), cujo propósito evidente era chamar a atenção dos espectadores.

“Eu preciso da Terra. De milhões de anos-luz eu me aproximo de seu planeta. Logo, minha espaçonave aterrissará na Terra. Eu preciso de seu mundo. Eu me alimento do medo, vivo do ódio humano. Eu, uma mente poderosa sem carne e sangue, quero seu mundo. Primeiro, o impensável, os pássaros do ar, os animais da floresta, então o mais fraco dos homens estará sob meu comando. Eles serão meus ouvidos, meus olhos, até que seu mundo me pertença. E porque posso ver seus atos mais íntimos, vocês me conhecerão como A Besta do Milhão de Olhos.”

Allan Kelley (Paul Birch, de “Rebelião dos Planetas”, 1958, entre outras tranqueiras) é um ex-combatente que participou da Segunda Guerra Mundial e agora tenta administrar uma fazenda decadente localizada no meio de um deserto impiedoso da Califórnia, nos Estados Unidos. Sua esposa Carol (Lorna Thayer) está infeliz com a rotina local e eles têm uma filha adolescente, Sandy (Dona Cole), que é namorada do assistente de xerife Larry Brewster (Dick Sargent, um rosto conhecido pela popular série de TV “A Feiticeira”). Tem também um sinistro ajudante de serviços gerais que é mudo e deficiente mental, que apenas é chamado de “ele” (Leonard Tarver). Os negócios do rancho não vão muito bem, e as coisas pioram depois que um objeto voador não identificado (que eles acham inicialmente ser um avião a jato) atravessa o céu muito baixo e com um zumbido tão agudo que quebrou janelas e copos de vidro.
A partir daí, os pássaros da floresta, as pacíficas galinhas, a vaca leiteira do vizinho Ben Webber (o comediante veterano Chester Conklin) e o cachorro dócil da família (Duke), começam a ter comportamentos bizarros e agressivos, com suas mentes controladas para atacar as pessoas. Preocupado com a segurança da família, o fazendeiro decide investigar a relação dos acontecimentos estranhos com um objeto voador metálico pousado numa cratera no deserto, descobrindo uma terrível e mortal ameaça de outro mundo.
“A Besta do Milhão de Olhos” foi dirigido por David Kramarsky (seu único trabalho nesse ofício e que também participou da produção do filme) a partir do roteiro de Tom Filer. Tem uma produção paupérrima e história ingênua típica do cinema fantástico bagaceiro de baixo orçamento de meados do século passado. O filme é repleto de erros de continuidade e com uma narrativa lenta, sendo interessante mesmo o desfecho, apesar de previsível. No confronto de Allan Kelley, que lidera as ações, contra o monstro espacial invasor, uma criatura extremamente tosca com olhos esbugalhados (criada pelo especialista Paul Blaisdell), dentro de uma nave esquisita, que mais parece um artefato militar de espionagem como uma sonda ou satélite. De resto, a história é cansativa e exagerada nos clichês, furos de roteiro e previsibilidade. Mas, é um dos primeiros trabalhos com a participação de Roger Corman (na direção de algumas cenas e produção executiva, ambos não creditados). Ele que é um dos nomes mais importantes e significativos do cinema fantástico, principalmente de orçamentos reduzidos, de todos os tempos, com mais de 400 filmes no currículo, e isso já é motivo suficiente para conhecer mais essa bagaceira.  
Curiosamente, o filme foi distribuído pela ARC (American Releasing Corporation), da conhecida dupla Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson, que depois virou a cultuada AIP (American International Pictures), responsável pela distribuição de uma infinidade de pérolas do cinema fantástico com produções modestas.
(Juvenatrix – 25/09/16)

domingo, 25 de setembro de 2016

Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros

Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros, Braulio Tavares, org. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2003.

Não é de hoje que alguns estudiosos buscam identificar claramente a evolução da literatura brasileira especulativa, mas a memória do fandom brasileiro, até bem pouco tempo, não ia além dos anos 1980. A maior parte do conhecimento a respeito da fc&f nacional era fruto da observação em primeira mão e o que veio antes era misterioso, desconhecido e até secreto.
Graças aos estudos de Braulio Tavares (Fantastic, fantasy and science fiction literature catalog, Biblioteca Nacional, 1992), Roberto de Sousa Causo (Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, UFMG, 2003), M. Elizabeth Ginway (Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, Devir, 2005), entre outros, a história da fc&f nacional começou a se revelar de forma mais profunda, motivando novos pesquisadores a trabalhar também em outros ambientes midiáticos, ampliando o alcance dos gêneros na cultura local.
Contudo, ainda há muito a ser redescoberto, especialmente o campo da ficção curta, muito mais difícil de identificar. É sobre esse formato que se debruçou Braulio Tavares ao montar a antologia Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros. Provavelmente inspirado na antologia O conto fantástico, organizada por Jerônimo Monteiro, (Civilização Brasileira, 1959), Tavares garimpou ainda mais que o seu antecessor, para montar um panorama abrangente do fantástico na literatura nacional, no que foi muito bem sucedido.
A antologia é aberta por um detalhado ensaio chamado "Nas periferias do real ou O fantástico e seus arredores", do próprio organizador, que justifica e conceitualiza o trabalho de reunir os 16 textos que formam a coletânea, todos de autores consagrados no mainstream que não se furtaram em avançar no campo do fantástico quando julgaram relevante fazê-lo, e com resultados apreciáveis tanto no aspecto formal quanto no de conteúdo. Além disso, cada um dos contos vem precedido de uma breve contextualização do respectivo texto na história da literatura brasileira e na obra do autor, revelando detalhes e curiosidades saborosíssimas, uma atração a parte.
O primeiro conto é uma pequena joia: "Flor, telefone, moça", do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta maiúsculo da língua que também cometia ficções. Neste conto curto, publicado originalmente em 1951, uma é jovem assediada ao telefone – então uma revolucionária novidade tecnológica no país – por um suposto fantasma que exige que lhe seja restituída a flor subtraída por ela de seu túmulo.
"A podridão viva", de Amândio Sobral (1902-????), é um achado, de um autor tão obscuro que praticamente a única fonte de informações sobre ele é justamente a biografia que Tavares relatou na apresentação do conto. O texto foi publicado originalmente em 1934 e fala sobre um comerciante de marfim que testemunha o indizível numa malfadada expedição de caça na África.
O conto seguinte é de um autor já reconhecido pelo fandom, o mineiro Murilo Rubião (1916-1991), que construiu toda a sua carreira literária na fantasia. Tavares selecionou aqui o bizarro "Teleco, o coelhinho", publicado originalmente em 1965, no qual um homem recolhe em sua casa um ser metamorfo que muda de aparência conforme o estado de espírito. A princípio, a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
Outro autor que geralmente é lembrado pelos especialistas quando relacionam autores de fc&f brasileiros é o paraibano Berilo Neves (1901-1974), autor de sucesso em seu tempo, mas pouco lido pelas novas gerações. Dele temos "A última Eva", de 1934, tragicômico relato de ficção científica sobre a morte da última mulher – e, por conseguinte, da espécie humana – depois que uma praga varreu o gênero feminino do planeta.
Lilia A. Pereira da Silva é a primeira de três autoras publicadas por Tavares nesta antologia, e uma grata surpresa dentro do panorama da ficção fantástica nacional. Paulista de Itapira, Lilia publicou mais de noventa livros, entre os quais está a perturbadora coletânea Monstros e gênios, de 1965, de onde veio o conto "Máquina de ler pensamentos", no qual uma cientista que faz experiências com a mente a partir de estátuas decide passar a seres humanos e escolhe um menino de rua para ser sua primeira cobaia.
O texto seguinte é bastante conhecido dos leitores; trata-se da novela "A escuridão", do atibaiense André Carneiro (1922-2014), um dos textos mais lembrados entre especialistas, presente em inúmeras antologias nacionais e estrangeiras desde a sua primeira publicação, na coletânea Diário da nave perdida (1963). Conta a tragédia que se abate sobre a humanidade quando, repentinamente, todos ficam cegos. Ideia semelhante apareceu antes no romance O dia das trífides (The day of the triffids, 1951), do britânico John Windhan (1903-1969), mas neste clássico brasileiro o tema tem um tratamento mais maduro e sofisticado.
"A casa sem sono" é a contribuição do escritor maranhense Coelho Netto (1864-1934), conto publicado em 1923 no qual um homem é desaconselhado a adquirir uma linda mansão depois que seu amigo relata a experiência estressante que teve quando morou ali. Coelho Netto, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, também foi um autor de grande sucesso em sua época, que nos legou uma rica bibliografia especulativa, mas é praticamente desconhecido dos leitores de hoje.
O paulista Origenes Lessa (1903-1986) aparece com "A gargalhada", texto de 1963 de verve profundamente irônica, que relata o rápido desmoronamento da civilização a partir de um evento cômico, mas inegavelmente perturbador: uma gargalhada que irrompe, sem aviso, em meio às transmissões de rádio e televisão.
"O satanás de Iglawaburg", do capixaba Adelpho Monjardim (1903-????), envereda pelo horror gótico. Em algum momento antes da Primeira Guerra Mundial, uma pintura macabra aparentemente causa desastres num castelo medieval todas as vezes que alguém a tenta destruir. Monjardim se instala na categoria dos políticos escritores, pois foi Prefeito de Vitória, cumpriu pelo menos um mandato de Deputado Estadual e ainda encontrou tempo para escrever muitos livros de ficção especulativa, entre eles a coletânea A torre do silêncio (1944), na qual primeiro apareceu este texto.
Machado de Assis (1839-1908) não pode faltar em qualquer antologia de contos brasileiros e, para nossa sorte, não faltam contos de ficção especulativa em sua bibliografia. "As academias de Sião", publicado em 1884, é uma fantasia oriental com um surpreendente conteúdo feminista e transgênero. Conta a história de um rei sensível e inseguro e sua concubina decidida e autoritária, que decidem trocar de corpos através de um feitiço para confrontar as especulações filosóficas de duas academias rivais a respeito da sexualidade da alma.
"O caminho do poço verde", conto de 1994 do escritor carioca Rubens Figueiredo – já duas vezes vencedor do prestigioso Prêmio Jabuti –, é mais um achado do organizador. Conta as andanças de uma jovem mochileira em férias por rincões do interior sertanejo, onde experimenta o sobrenatural das comunidades isoladas. O conto não tem um componente fantástico explícito, mas o clima sombrio da narrativa, mesclado a alguma ambiguidade nas informações, é eficiente para criar um cenário mágico e misterioso, numa das mais intensas experiências literárias da antologia.
A carioca Heloísa Seixas é a segunda autora a aparecer na seleta, com o conto "Íblis", publicado em 1995, provavelmente na coletânea Pente de Vênus: Histórias do amor assombrado. Relata a experiência de uma acadêmica sofisticada em férias pela Europa, que tem um encontro ardente com a morte durante uma viagem de trem. Ainda que seja um texto curto, destaca-se por sua intensidade sensual.
A terceira autora do grupo é a também sempre lembrada Lygia Fagundes Telles. Paulistana de nascimento, esta grande dama da literatura brasileira quase sempre aparece nas antologias de gênero com "A caçada" ou "Seminário dos ratos", mas o organizador optou aqui pelo assustador "As formigas", conto de 1977 em que duas mulheres hospedadas num quarto de pensão, testemunham um exército de formigas, noite após noite, montarem o esqueleto de um anão abandonado ali em uma caixa.
"Luvibórix", do cearense Carlos Emílio Correia Lima, contribui à seleção com um contrastante texto pós moderno originalmente publicado em 1986. Conta sobre o momento sagrado em que o dragão místico Luvibórix, que dá forma à realidade com seu olhar, decide subir a superfície do planeta e, conduzido por um sacerdote, contemplar as ruínas da civilização que lhe serve de alimento.
"Os olhos que comiam carne", do maranhense Humberto de Campos (1886-1934) é um interessante exemplo da conjunção espontânea de ideias: publicado originalmente em 1932, antecipou a história do clássico filme de Roger Corman, O homem dos olhos de raio X (X: The man with the X-ray eyes, 1963). Conta sobre um homem cego que, submetido a uma cirurgia experimental revolucionária, recupera a visão de um modo traumático. Campos é, assim, mais um membro da Academia Brasileira de Letras que, ao lado de Machado de Assis, Coelho Netto, Antonio Olinto, Zora Seljan, Dinah Silveira de Queiroz e Rachel de Queiroz, entre outros, trabalhou bem com o fantástico em sua obra.
A edição é fechada pelo inolvidável "Demônios", do também maranhense Aluísio de Azevedo (1857-1913), um dos grandes clássicos da ficção especulativa brasileira, digno representante da estética da weird no País. Fantasia, horror e ficção científica se amalgamam para contar os últimos dias da humanidade depois que um estranho fenômeno apaga o sol e transforma as pessoas em seres rastejantes sem intelecto.
Páginas de sombra cumpre, assim, o importante papel de iluminar regiões fronteiriças da fc&f brasileira que, por muito tempo, se acreditou ser território exclusivo da ação de fãs desprezados pelo mainstream, mas, pouco a pouco, revela-se um campo de tradição muito maior e que precisa ser estudado. Fica claro que a literatura brasileira não ignorou a literatura de gênero, pelo contrário, a praticou com qualidade e aqui estão 16 inegáveis exemplos disso (sem esquecer também da ótima antologia Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizada por Lainister de Oliveira Esteves e publicada em 2010 pela Editora Escrita Fina, resenhada aqui). Muito ainda espera ser redescoberto e são pesquisas como esta que dão satisfação de ver que nunca estivemos sozinhos, e sim muito bem acompanhados: só é preciso olhar para o lado.
Cesar Silva

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Tempo Fechado

Tempo Fechado (Heavy weather), Bruce Sterling, 340 páginas. Tradução de Carlos Angelo e capa de Vagner Vargas. São Paulo, Devir Livraria, 2008.

Este é o segundo livro do prestigiado autor americano Bruce Sterling. Primeiramente traduzido entre nós com Piratas de Dados (Islands in the Net), em 1991, também teve contos publicados nas revistas Isaac Asimov Magazine e Quark nos anos 1990. Mais recentemente Sterling recebeu atenção das editora Aleph e Devir, com a publicação do romance Máquina Diferencial (The Difference Engine), em 2012 pela primeira, e com contos em antologias pela segunda.
Principal ideólogo do movimento cyberpunk no início dos anos 1980, em Tempo Fechado o autor, assim como fez com o outro romance lançado no Brasil, expande as fronteiras temáticas tradicionais do movimento, que é essencialmente urbano e tecnológico.
Publicado originalmente no já não tão recente ano de 1994, Tempo Fechado encara de frente um dos temas mais atuais deste início de século XXI, as consequências humanas para as alterações climáticas que o planeta já enfrenta e que deve piorar muito pelas próximas décadas. Se em Piratas de dados, Sterling alargou o horizonte temático cyperpunk por abordar suas principais questões de um ponto de vista dos habitantes dos países em desenvolvimento – o que por si só revela a intenção política da questão –, daqueles que são mais receptores, consumidores  ou mesmo excluídos, do que os produtores das transformações políticas e socioeconômicas do planeta, em Tempo Fechado o autor explora os paradigmas do seu chamado movimento, saindo novamente de sua redoma urbana, tecnológica e pós-moderna, para explorará-la em grandes planícies do Texas e de Oklahoma, sob os efeitos de fenômenos meterológicos violentísismos e transformadores das relações humanas.
A história acontece em 2031, em um futuro bem próximo, portanto. Acompanhamos a trajetória de dois irmãos que acabam participando da Trupe Intempestiva, uma equipe de caçadores de tornados. Talvez você já os tenha visto em reportagens na TV, pois eles existem lá pelo Meio-Oeste dos Estados Unidos ou então no filme Twister (1995). Mas este grupo, além de perseguir os fenômenos naturais que já existem, tem como grande objetivo achar e documentar o chamado F6, um megatornado, acima da escala verificada na Terra, que está previsto apenas nos cálculos de um matemático brilhante e genioso, Jerry Mulcahey, que os une e lidera.
Os irmãos são Jane e Alex Unger. Ela é a namorada de Jerry e que se arrisca para resgatar o irmão de uma clínica clandestina mexicana para tratamento de um grave problema pulmonar que o atinge desde a infância. Ela leva Alex para a Trupe e este, doente e sem perspectiva, não tem muito a perder se juntando a um grupo de pessoas que, cada um à sua maneira, também nada tem de convencional. Como se fossem uns hippies, mas desencantados com qualquer ideologia, vivem em acampamentos improvisados, com água racionada, comendo carne de caça e vestindo roupas de papel. À moda do cyberpunk, porém, lidam com desenvoltura e rebeldia com aparelhos altamente tecnológicos, que os ajudam em suas pesquisas e perseguições aos tornados.
Alex, particularmente, é um sujeito estranho e doentio também em termos psicológicos, desajustado e niilista que, por irônico que possa ser, ilustra bem o tipo de juventude presente num mundo caótico em termos econômicos e prestes a ser devastado em termos climáticos. Nesse sentido, inclusive, talvez seja possível traçar um paralelo entre estas pessoas que abandonam suas vidas civilizadas – ao lado de um trabalho, amigos e família – para viver uma grande e perigosa aventura, com a própria existência do F6, uma anomalia causada pela grande mudança climática global acontecida nas primeiras décadas do século XXI.
O diálogo dos irmãos no fim do romance é exemplar nesse sentido:

“ – Nós somos gente de muita sorte, não é Alex?
“– Estamos vivos. Isso é ter sorte.
– Não temos sorte, Alex. Este não é um tempo de sorte. Estamos vivos, e estou contente por isso, mas somos gente da catástrofe. Nunca vamos ficar felizes ou seguros de verdade, nunca. Nunca, jamais.” (pág. 333).

Diálogos como este transparecem, justamente, nos momentos que se seguem a transformações dramáticas. Seja por guerras ou, neste caso, devastações da natureza. E a ficção científica é pródiga em refletir sobre as grandes tragédias possíveis da época em que estão inseridas. Assim foi, por exemplo, nos tempos da Guerra Fria e a sombria perspectiva de um holocausto nuclear.
Sterling capta bem o que ainda não era a norma no momento que foi escrito, em termos de especulação sobre grandes perigos climáticos para a vida humana no planeta. Podemos pensar numa comparação dele com William Gibson, pois ambos são agudos especuladores socioculturais. Se Gibson é hábil em antecipar tendências, quase como um visionário tecnológico-cultural e, nesse sentido, com uma perspectiva analítica que parte mais da ótica da ação individual, Sterling segue numa trilha mais, digamos, estruturalista em suas especulações e, por isso, de fundo mais coletivo. Pois embora não aprofunde neste romance, ele trata de algumas mudanças políticas e socieconômicas ocorridas no tempo de vida dos personagens.
A história se passa poucos anos depois de um chamado Estado de Emergência, em grande parte ocasionado por uma colapso financeiro, devido a um desequilíbrio vinculado à excessiva liberdade especulativa, baseada em uma frágil estrutura tecnológica de base digital. Ora, isso soa como extremamente presciente do que estamos vivendo nos dias de hoje, quando, também devido ao descontrole especulativo-financeiro provocado pela falta de controle e regulamentação, atravessamos uma das piores crises da história do capitalismo. Mais dramático, Sterling imagina o colapso das próprias moedas nacionais e a emergência do que ele chama de Regime, provavelmente um governo de força próximo a uma ditadura no território dos Estados Unidos, muito significativo, já que jamais o país viveu fora do ordenamento democrático. Viria esta ruptura institucional devido a um colapso financeiro? Depende da magnitude, mas nos dias de hoje nem se imaginou tal situação.Que, contudo, chegou a ser especulada como eventualmente possível devido às ameaças terroristas que os norte-americanos viveram a partir de setembro de 2001.
Divagações à parte, como este não era o tema central da obra, sua discussão não destoa do mundo apresentado, ajudando a contextualizar o tipo de sociedade vigente às portas da chegada de um evento metereológico radical. Sim, a palavra é esta porque o F6 teria um poder de destruição maciço, esmigalhando uma cidade em poucos minutos e se tornaria uma tempestade permanente, semelhante à Grande Mancha Vermelha de Júpiter. Não é preciso muita imaginação ou conhecimento para intuir que tal fenômeno traria efeitos permanentes para o ambiente e a vida na Terra.
Afora este tema por si só fascinante, Bruce Sterling conduz o enredo com bom ritmo, equilibrando os dramas pessoais dos personagens aos eventos atmosféricos que movem a história, assim como o pano de fundo social em que está inserido. Nota-se que o autor realizou uma pesquisa séria sobre o tema para escrever o livro, chegando a acompanhar equipes de caças a tornados. Isso transparece no realismo das sequencias de perseguição e mesmo na construção de personagens verossímeis para o contexto imaginado.
Apesar disso, há um grupo de pessoas no romance, liderados pelo irmão de Jerry, Leo Mulcahey, que atuaria como terroristas e conspiradores para provocar a morte de pessoas na escala de milhões, sob a justificativa de que o mundo não aguenta tantas bocas para alimentar. Nada justifica tal barbaridade, ainda mais por um argumento tão fajuto. Atuariam derrubando governos legais, provocando guerras civis ou espalhando epidemias e moléstias com vacinas e drogas envenenadas. Todos estes planos mirabolantes são revelados quando Jane é socorrida do F6 e levada para um abrigo subterrâneo onde Leo e os outros estão. Esta sequencia é francamente tola, estranha e destoou do realismo científico e da verossimilhança temática vista no conjunto da obra. Desnecessária e ainda bem que secundária para não atrapalhar o desdobramento final da história.
Embora Tempo Fechado não tenha alcançado êxito em termos de premiações, pode ser visto como um dos livros mais atuais de sua carreira, pois chama a atenção para a responsabilidade humana no destino de todas as formas de vida no planeta. Com isso cumpre o seu papel de intelectual ativista em questões candentes, algo presente nos autores cyperpunks em geral, mas principalmente nele, o mais engajado politicamente. Se por um lado, há sempre o risco de uma obra como esta ser refém de sua época, neste caso Sterling acertou, pois cada vez mais as consequencias das mudanças climáticas são vitais em nosso cotidiano e certamente assim será nas próximas gerações.

-- Marcello Simão Branco

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dia dos Independentes (Independents´ Day, EUA, 2016)


A produtora “The Asylum” costuma lançar cópias porcarias de filmes feitos com orçamentos milionários nos cinemas, sendo o destino o mercado de televisão e vídeo. São os chamados “mockbusters”, filmes apenas oportunistas e muito ruins, principalmente os elencos e roteiros.
Em resposta a “Independence Day – O Ressurgimento”, continuação do filme de 1996 sobre invasão alienígena, a produtora lançou “Dia dos Independentes” (que também recebeu o nome por aqui de “O Ultimato” quando exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”). A direção inexpressiva é de Laura Beth Love, mais conhecida pela fotografia de uma infinidade de tranqueiras modernas como as partes 3 e 4 da franquia “Sharknado”, onde tubarões se locomovem através de tornados e atacam as grandes cidades americanas.
A história é tão ruim que nem merece uma sinopse detalhada, e sim apenas uma abordagem bem superficial. O filme já começa com imensas naves espaciais surgindo em vários locais do mundo. Não sabendo se as intenções dos visitantes são pacíficas ou não, o exército americano tenta uma comunicação através de uma equipe liderada pela vice-presidente Raney (Fay Gauthier). Ela é auxiliada pelo General Roundtree (Sal Landi, creditado como Salvatore Garriola), o Capitão Goddard (Johnny Rey Diaz, creditado como Jonathan Ortiz), o Senador Randall Rayne (Jon Edwin Wright, creditado como Jon Wright), que é o marido da presidente, e pelo agente Taylor (Jude Lanston).
Eles tentam negociar com os alienígenas invasores, que querem a evacuação do planeta oferecendo de forma suspeita naves de transporte para a retirada da humanidade. Porém, uma milícia armada chamada “Terra Primeiro” oferece uma resistência gerando um confronto sangrento com os invasores do espaço.
Pela falta de criatividade onde o que interessa é copiar, temos aqui a já conhecida cena da Casa Branca sendo destruída pelos alienígenas, matando o presidente americano, obrigando a vice a assumir o cargo. E temos também aquelas frases banais e ridículas que só depreciam ainda mais o filme, como “é hora de explodir mais alguns ET´s, a gente vai resistir até a morte” e “esses desgraçados de alienígenas mexeram com o planeta errado”. Nada mais patético do que evidenciar o heroísmo americano como salvador da Terra e a única esperança da humanidade.
O elenco é desconhecido e é difícil imaginar como os atores encontram algum tipo de motivação para participar da realização de algo tão inexpressivo. O filho da presidente, Bobby (Mathew Poalillo), é um personagem extremamente irritante e chorão, e o ator medíocre ainda consegue tornar as coisas ainda piores. Sabemos que os efeitos de CGI são necessários em filmes de invasão alienígena, com naves rasgando o céu e tiroteios para todos os lados, e então podemos até tolerar essa questão em “Dia dos Independentes”, mas o grande problema mesmo é a história reciclada e totalmente previsível, que não desperta interesse.
Os filmes bagaceiros dos anos 50 do século passado, com suas histórias absurdas e muitas delas ingênuas, são eternamente mais divertidos justamente pelas características toscas de um cinema produzido dezenas de anos atrás. Mas, esses filmes do início do novo século produzidos pela “The Asylum” são difíceis de digerir até mesmo para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, principalmente pelos roteiros de péssima qualidade. Se essas porcarias um dia se tornarão cultuadas só o tempo dirá, mas o que é certo é que o espectador precisa ter muita tolerância para conseguir assistir um filme desses até o fim, sabendo antecipadamente que será um desperdício de tempo.
Imediatamente após seu lançamento, o filme já faz parte do limbo dos esquecidos e dispensáveis, e está no cemitério das tranqueiras que não agregam nada ao gênero. Passe longe ou tente assistir apenas para conhecer as bagaceiras da produtora “The Asylum”. 
(Juvenatrix – 19/09/16)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Monstro de Pedras Brancas (The Monster of Piedras Blancas, EUA, 1959)


Sturges (John Harmon) é um homem viúvo que administra o funcionamento de um farol instalado numa construção à beira do mar, com o objetivo de alertar as diversas embarcações durante a noite sobre o perigo de acidentes contra os rochedos, responsáveis por muitos naufrágios. Ele tem uma jovem e bela filha, Lucille (Jeanne Carmen), que trabalha de garçonete num restaurante da pequena vila próxima, e é a namorada do jovem bioquímico Fred (Don Sullivan, das bagaceiras “O Gigante Monstro Gila” e “Teenage Zombies”). Quando assassinatos misteriosos e violentos começam a ocorrer na região, com vítimas degoladas e sem sangue, os moradores do vilarejo, especialmente o dono de um açougue, Kochek (Frank Arvidson), ficam assustados e creditam a responsabilidade das mortes para um lendário monstro que habita as cavernas nos penhascos logo abaixo do farol. Como Sturges parece esconder um terrível segredo, ele não é bem visto pelos habitantes, enfrentando problemas de relacionamento.
Mais mortes estranhas acontecem e o xerife George Matson (Forrest Lewis) está liderando as investigações, sempre fumando seu charuto e bastante intrigado pelas cabeças cortadas com precisão e a ausência de sangue nos cadáveres. Ele é auxiliado pelas perícias e análises do médico Dr. Sam Jorgenson (o inglês Les Tremayne, visto em outras bagaceiras divertidas do período como “Rastros do Espaço” e “Viagem ao Planeta Proibido”, além do clássico “A Guerra dos Mundos”). Devido ao crescente perigo ameaçando os moradores da pequena vila, e para interromper os assassinatos violentos, eles organizam um grupo para caçar o monstro. 


Dirigido por Irvin Berwick, com fotografia em preto e branco e curto (apenas 71 minutos), “O Monstro de Pedras Brancas” é mais um daqueles típicos filmes bagaceiros indispensáveis dos saudosos anos 50 do século passado, com seu roteiro simples e cheio de clichês, onde basicamente uma pequena cidade próxima do mar é atacada por um monstro carnívoro. E para os apreciadores dessas tranqueiras, a diversão está garantida justamente por esse tipo de história e pelos efeitos toscos de maquiagem com mortes violentas para a época, com um ator alto vestindo uma fantasia de borracha para interpretar o monstro assassino. Nesse caso, o trabalho é do ator Pete Dunn, que interpreta também outro personagem no filme, Eddie, um ajudante do açougue. Aliás, a concepção do monstro foi inspirada na criatura do clássico “O Monstro da Lagoa Negra” (Creature From the Black Lagoon, 1954), onde percebemos muitas similaridades. Isso pode ser explicado pelo fato do técnico em efeitos de maquiagem Jack Kevan, ter trabalhado na equipe que criou o famoso monstro que vivia nas águas escuras de uma região remota na Amazônia, e ele é o produtor de “O Monstro de Pedras Brancas”. Por curiosidade o nome do filme refere-se às rochas abaixo do farol, que pareciam brancas pela grande quantidade de gaivotas desorientadas que se lançavam para a morte à noite contra as pedras.
O monstro é uma mutação da família dos diplovertebrons, uma raça pré-histórica anfíbia extinta, e de tão tosco consegue despertar aquele bem vindo sentimento de nostalgia dos incontáveis filmes de baixo orçamento que eram produzidos com histórias parecidas, e que divertiam pelas características bagaceiras. E não falta a tradicional cena onde o monstro caminha carregando em seus braços a mocinha indefesa e desacordada.
Numa época que não existia computação gráfica, os efeitos eram toscos pela falta de recursos técnicos e indisponibilidade de investimentos para resultados com mais qualidade, mas ainda assim eram infinitamente mais divertidos. Até mesmo pela ingenuidade das histórias absurdas, quando em comparação com o cinema fantástico bagaceiro do início do século 21 com efeitos em CGI que não despertam o mesmo interesse pelo excesso de artificialidade, e que facilitam o trabalho preguiçoso dos realizadores em tentar contar uma história melhor.
Em 2005 foi lançado “The Naked Monster”, que é uma homenagem aos filmes “B” da década de 1950, com a participação de muitos atores veteranos, os quais tornaram possíveis e imortalizadas aquelas tranqueiras divertidas do passado. Com uma ideia de comédia de ficção científica e horror, o filme homenageia “O Monstro de Pedras Brancas” numa cena passada num farol, com os atores originais John Harmon e Jeanne Carmen. Curiosamente, um dos diretores dessa paródia é Wayne Berwick (filho de Irvin Berwick), que também esteve no filme de 1959, num papel menor interpretando o garoto Jimmy, que era manco de uma perna e corria aos gritos avisando para todos que o monstro tinha assassinado outra vítima.   
Também por curiosidade, vale citar que antigamente eu visitava os sebos do centro de São Paulo à procura de raridades sobre cinema fantástico, e comprei um poster gigante (70 x 90 cm) nacional e da época de lançamento do filme, com uma arte desenhada destacando o rosto do monstro. “O Terror Invade a Praia... Surge das Profundezas... O Monstro de Pedras Brancas”.
(Juvenatrix – 07/09/16)