terça-feira, 29 de setembro de 2015

Matango, a Ilha da Morte (Matango / Attack of the Mushroom People, Japão, 1963)


A parceria entre os japoneses Ishiro Honda (na direção) e Eiji Tsuburaya (nos efeitos especiais) trouxe uma infinidade de filmes divertidos do cinema fantástico bagaceiro. “Matango, a Ilha da Morte” é mais um deles, uma produção japonesa da “Toho” de 1963, e que tem o sonoro título em inglês “Attack of the Mushroom People”, ou numa tradução literal, “Ataque das Pessoas Cogumelo”.
Um grupo descontraído de jovens formado por cinco homens e duas mulheres está passeando num iate em alto mar. Formado pelo empresário e dono do barco Masafumi Kasai (Yoshio Tsuchiya), o capitão Naoyuki Sakuda (Hiroshi Koizumi), o marinheiro Senzô Koyama (Kenji Sahara), o professor de psicologia Kenji Murai (Akira Kubo), a estudante Akiko Sôma (Miki Yashiro), o escritor de livros de mistério Etsurô Yoshida (Hiroshi Tachikawa), e a atriz e cantora Mami Sekiguchi (Kumi Mizuno). Após enfrentarem uma inesperada tempestade no mar, o barco fica seriamente avariado com os instrumentos de navegação quebrados, e uma vez perdidos e à deriva, eles encontram uma ilha onde desembarcam na procura de recursos para sobrevivência. Explorando o local em busca de alimentos, encontram um navio naufragado e destruído encalhado na beira da praia. Eles decidem investigar e descobrem evidências que revelam ser um navio de pesquisas científicas sobre os efeitos da radiação em testes com explosões nucleares.
Utilizando o navio como um refúgio para sobreviverem enquanto não conseguem sair da ilha, eles encontram um pequeno estoque de alimentos conservados em latas e tentam se organizar para enfrentarem o isolamento forçado. Porém, o grupo de náufragos não imaginava que as dificuldades os levariam a diversos conflitos de relacionamento, além de encontrar uma grande quantidade de cogumelos gigantes alucinógenos na ilha que transformam quem os ingerirem em monstros mutantes.
“Matango, a Ilha da Morte” é um cultuado e divertido filme japonês, situado no sempre interessante sub-gênero do cinema fantástico conhecido como “homem transformado em monstro”. Nesse caso, as pessoas náufragas perdidas numa misteriosa ilha que pode ter recebido os efeitos radioativos de explosões de bombas nucleares, são transformadas em criaturas mutantes deformadas parecidas com cogumelos gigantes. A transformação ocorre depois que elas, famintas e desesperadas na luta pela sobrevivência, cedem à tentação de comer os cogumelos. Os monstros são muito interessantes, coloridos, envoltos numa atmosfera sinistra na floresta com névoa, em efeitos toscos de maquiagem com roupas de borracha, mas que funcionam de forma convincente, compondo as melhores cenas do filme.
E o roteiro também explora com eficiência o desgaste progressivo das relações entre os sobreviventes, pois com o passar do tempo os conflitos tornam-se constantes na luta pela vida. Evidenciando a existência da sempre recorrente linha frágil que separa o comportamento social com trabalho em equipe para o bem comum, das ações egoístas e selvagens para os interesses individuais perante situações turbulentas pela sobrevivência. Um fato claramente comprovado numa frase retirada do filme: “As frágeis barreiras da sociedade se desintegravam frente ao desejo de conseguir sobreviver a todo custo”.
(Juvenatrix – 29/09/15)

domingo, 27 de setembro de 2015

Celular, Stephen King

Celular (Cell), Stephen King. 398 páginas. Tradução de Fabiano Morais. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 2007.

Romance de horror e ficção científica do festejado escritor norte-americano Stephen King, autor de best sellers como O iluminado (The shining), Carrie (Carrie), A dança da morte (The stand), Christine (Christine), entre outros.
Em Celular, King volta a um tema que ele mesmo já explorou em outras histórias: o do cidadão americano comum diante do fim do mundo como o conhecemos. Desta vez, ele é Clayton Riddell, um jovem artista que acaba de assinar o seu primeiro contrato com uma grande editora de histórias em quadrinhos de Boston. Ao sair da editora, por volta da 15 horas do dia 1 de outubro,  diante de um prosaico quiosque de sorvetes, testemunha um surto coletivo de loucura da população em geral. As pessoas começam a se engalfinhar em lutas sangrentas e mortais, automóveis fora de controle atropelam pedestres e invadem lojas, causando grande destruição, pessoas em pânico correm pelas ruas, perseguidas por outras que gritam sons desarticulados.
Um desconhecido ataca Clay com um cutelo de açougueiro, mas Clayton é salvo pelo providencial intervenção de Thomas McCourt, um homem baixinho, de bigotes, e com um ar um tanto afetado, mas que não estava louco. Juntos, eles sobrevivem às primeiras horas de caos escondidos num bar, onde encontram outras pessoas igualmente apavoradas e em estado de choque, como a jovem Alice Maxwell, que perdeu a mãe para a loucura. Do lado de fora, a matança continua e, em algum momento, acaba a energia elétrica, assinalando o fim da civilização humana na Terra.
Clay está muito longe de sua casa, em Kent Pond, e preocupa-se com sua esposa Sharon e seu filho Johnny, de doze anos, que lá ficaram enquanto ele empreendia a viagem à Boston. Durante a noite, as coisa se acalmam e, uma vez que Tom mora nos arredores da Boston, Clay e Alice decidem que é uma boa ideia acompanhá-lo até lá. Quando saem da cidade, percebem que boa parte dela arde em chamas.
Eles passam o restante da noite na casa em que Tom morava apenas com seu gato, sem maiores surpresas. Especulando sobre as causas do fenômeno, chegam a conclusão que pode ter sido ocasionado por algum tipo de pulso eletrônico distribuído pelos celulares, e passam a evitar todo o tipo de aparelhos, incluindo rádios e televisores, que também poderiam distribuir o pulso. Sem condição de se comunicar, o único modo de Tom ter notícias da família é indo até Kent Pond. Enquanto se preparam para a longa expedição, observam os enlouquecidos, aos quais chamam de "fonáticos". Percebem que eles demonstram um padrão comportamental: desaparecem durante a noite, mas são muito ativos durante o dia, circulando como zumbis pelas ruas, em busca de alguma coisa que nem eles mesmos parecem saber o quê. A princípio, atacam-se mutuamente, mas esse comportamento aos poucos começa a desaparecer. Os fonáticos também não demonstram interesse em entrar nas casas, de forma que o grupo decide viajar durante a noite, recolhendo-se em algum abrigo durante o dia. Com armas de fogo obtidos numa casa abandonada, partem rumo a Kent Pond.
Durante as longas semanas seguintes, os três companheiros encontram ao longo das estradas dos Estados Unidos um cenários de completo caos e decadência. Cidades abandonadas, muitas destruídas, milhares de carros acidentados com os corpos dos motoristas ainda dentro deles, muitas vezes semi-devorados, e cadáveres insepultos espalhados por toda parte. Os fonáticos, cada vez mais deteriorados, parecem não ter consciência de sua situação. Imundos, alguns com ferimentos gravíssimos, seguem sua rotina sem sentido. Aos poucos os peregrinos percebem que eles estão se organizando em grandes grupos e que parecem comunicar-se telepaticamente.
Nas ruínas de uma escola, Clay, Tom e Alice encontram Jordan, um jovem gênio da eletrônica que sobrevive ali junto ao Sr. Charles Ardai, velho professor e diretor interino da outrora pujante Academia Gaiten. Os três os ajudam a realizar um grande ataque a uma concentração de fonáticos num arruinado campo de futebol. A matança é tão horrenda que motiva o líder dos fonáticos, um negro tão ferido que eles o chamam de Homem Escangalhado, a dedicar atenção especial ao grupo. Fica claro que os fonáticos não estão apenas organizados, mas estabeleceram uma nova ordem social no mundo, incompatível com a existência dos não-fonáticos. A partir do primeiro encontro do Homem Escangalhado, que obriga o velho Charles a suicidar-se controlando-lhe os pensamentos, os quatro sobreviventes prosseguem o caminho para Kent Pond, com as esperanças de Clay cada vez mais reduzidas de encontrar sua esposa e filho com vida.
Celular está dividido em nove episódios, separados conforme a narrativa salta de nível para nível: "O pulso", "Malden", "Academia Gaiten", "As rosas murcharam, o jardim morreu", "Kent Pond", "Bingo do telefone", "Worm", "Kashwak" e "Salvar no sistema".
É interessante notar que, ao contrário de outros trabalhos, King não deixa para mostrar as cenas de horror mais pesadas no final do livro: ele as coloca logo de cara, a partir dos primeiros parágrafos da história, nos momentos iniciais da loucura que se abate sobre a civilização. A tensão escatológica sobrenatural mantém-se por todo o primeiro episódio, mas logo deixa de ser uma história de horror e torna-se uma ficção pós-apocalíptica na linha de Eu sou a lenda (I'm a legend) de Richard Matheson, associado a A noite dos mortos-vivos (Night of the living dead), de George Romero, autores aos quais King dedicou o romance.
Mas King vai ainda mais longe pois, além de ser um bom contador de histórias com ótimas referências, é um grande criador de personagens, provavelmente sua melhor qualidade como escritor. Cada um dos personagens das suas histórias – e Celular não é exceção – é um confidente do leitor, tão realista quanto pode ser um personagem de ficção. Desse modo, seus dramas parecem mais vivos e agudos, suas decisões mais dolorosas, suas experiências mais traumáticas. A certa altura, o leitor começa a se perguntar o que ele faria no lugar daquele personagem e, geralmente, as opções não são muito animadoras: tornamo-nos seus cúmplices, o que faz as questões morais envolvidas ficarem muito mais contundentes.
O romance, originalmente lançado em 2006 nos EUA, já recebeu o interesse da indústria cinematográfica, mas não espere pelo filme: o livro
é suficientemente bom por si só.
— Cesar Silva

sábado, 26 de setembro de 2015

The Magnetic Monster (EUA, 1953)


Os anos 50 do século passado foram marcantes para o cinema fantástico pela expressiva quantidade de filmes abordando o tema dos efeitos destrutivos e ameaçadores que a radiação poderia acarretar para a humanidade. “The Magnetic Monster” (1953) é mais um desses preciosos filmes, com fotografia em preto e branco, roteiro do escritor alemão Curt Siodmak junto com o produtor húngaro Ivan Tors, e direção de Siodmak em parceria com Herbert L. Strock (não creditado). O elenco é liderado por Richard Carlson, rosto reconhecido em outros filmes divertidos do mesmo período como “Veio do Espaço” (1953) e “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), além do posterior “O Vale de Gwangi” (1969).
O Dr. Jeffrey Stewart (Carlson) é casado com a bela Connie (Jean Byron), que está grávida. Ele trabalha num órgão do governo americano conhecido como “Gabinete de Investigação Científica”, de grande importância estratégica no conturbado período da guerra fria entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, na disputa pela supremacia da tecnologia científica que poderia levar ao domínio do poder político e militar no mundo. Seu chefe é o Dr. Allard (Harry Ellerbe) que o envia junto com o assistente Dr. Dan Forbes (King Donovan) para investigar a ocorrência de um fenômeno magnético no prédio onde funciona uma loja de relógios, os quais apresentavam um misterioso defeito. Eles então descobrem uma atividade perigosa de radiação que os leva a um laboratório no andar de cima, que foi parcialmente danificado numa explosão. Investigando o caso, eles encontram evidências sobre a existência de um novo elemento radioativo chamado “serranium”, criado em experiências do físico Dr. Howard Denker (Leonard Mudie, que tem uma cara típica de “cientista louco”) e que se transformou numa criatura viva que se alimenta de eletricidade, aumentando de tamanho e criando um imenso campo magnético ao seu redor. O monstro magnético (do título do filme) torna-se extremamente ameaçador para a humanidade à medida que cresce em massa, com um altíssimo poder magnético que poderia deslocar a Terra de seu eixo, levando nosso mundo à destruição. Por isso, os esforços dos cientistas estão concentrados em eliminar o novo elemento radioativo com uma sobrecarga de eletricidade utilizando uma máquina imensa geradora de energia, localizada numa mina subterrânea de uma cidade canadense, no fundo do oceano.   
Em “The Magnetic Monster” temos todos aqueles equipamentos excêntricos e exagerados com a tecnologia da época, além de um computador enorme chamado de cérebro eletrônico, e que passados 60 anos, no início do século XXI, parecem tão obsoletos e pré-históricos que comprovam a imensa evolução tecnológica que ocorreu em poucas décadas. O filme é curto, com apenas 76 minutos de duração, seguindo a tendência do cinema fantástico de baixo orçamento da época com histórias rápidas. Aqui, a narrativa é fluente e não se perde muito tempo com futilidades e desvios desnecessários, a ação toda é basicamente concentrada na investigação científica do fenômeno magnético, a descoberta do “monstro”, e as tentativas de combater a ameaça. O filme diverte principalmente pelas características gerais das bagaceiras de ficção científica daquela época, com tecnologia do período soando extremamente antiquada para nossos tempos modernos. Também percebemos a intenção dos realizadores em passar uma interessante mensagem sobre os trabalhos solitários de cientistas abnegados, cujos resultados podem trazer consequências desastrosas. Essa ideia é reforçada pelas palavras do “cientista louco” Dr. Howard Denker” à beira da morte: “numa investigação nuclear, não se pode cavalgar sozinho”, enfatizando a necessidade de trabalho em conjunto, concentrando esforços e cooperação, para as experiências e descobertas científicas que podem alterar o futuro da humanidade.
(Juvenatrix – 26/09/15)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, EUA, 1977)

“Maravilhoso! Você não viu nada ainda até ver o sol através dos anéis de Saturno!” – astronauta Steve West

                  
Em 1977 foi produzido um filme tipicamente “B”, de baixo orçamento, mesclando um argumento central de ficção científica com fortes elementos de horror, resultando em mais uma preciosidade do gênero fantástico. Trata-se de “O Incrível Homem que Derreteu” (The Incredible Melting Man), cujo nome é bem parecido e talvez até tenha se inspirado no clássico de FC dos anos 1950, filmado exatamente 20 anos antes, “O Incrível Homem que Encolheu” (The Incredible Shrinking Man, 1957).
Em comum, eles têm o terrível drama particular vivido pelo personagem principal, que se envolve numa situação completamente inesperada. No filme de 1957, dirigido por Jack Arnold, baseado num livro de Richard Matheson, um homem (interpretado por Grant Williams) começa a encolher após ficar exposto a uma nuvem radioativa, num processo irreversível que o coloca frente a perigos mortais como seu gato de estimação ou uma simples aranha no porão. O personagem tem que lutar por sua sobrevivência e aceitar sua inédita condição encarando as novas realidades à medida que encolhe e participa de novos mundos. Já o filme de 1977, dirigido e escrito por William Sachs, traz um astronauta (Alex Rebar) que retorna de uma missão espacial nos anéis de Saturno como o único sobrevivente da expedição e trazendo consigo uma doença misteriosa que literalmente derrete seu corpo aos poucos, deformando sua mente e transformando-o num assassino gosmento.
“O Incrível Homem que Derreteu” foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS pela “Globo”, transformando-se numa enorme raridade para os fãs do gênero.

(Para quem não assistiu o filme ainda e não quer saber de detalhes reveladores da história e do final, não leia os parágrafos seguintes, pois contém “Spoilers”. Mas, caso já tenha visto ou tenha muita dificuldade no acesso ao filme e quer conhecer a horripilante trajetória do incrível homem que derreteu, continue a leitura).


O drama do astronauta Steve West começa logo quando sua nave “Scorpio 5” retorna de Saturno. Como único sobrevivente da missão e com o corpo todo coberto de feridas pútridas, ele acorda no leito de um hospital do exército todo enfaixado, com o governo mantendo em sigilo o fracasso da expedição e a morte dos outros dois astronautas, isolando a imprensa e a população dos fatos reais.
Ver o sol pelos anéis de Saturno deve ter sido mesmo uma experiência única e maravilhosa, como enfatizou o astronauta na frase reproduzida no início desse artigo, mas também trouxe-lhe como consequência uma misteriosa doença degenerativa. Ao descobrir o estado deformado de seu rosto e mãos, ele se rebela furiosamente e ataca uma enfermeira, matando-a de forma violenta e fugindo desorientado do hospital, vagando sem rumo pela floresta vizinha (esses filmes são super divertidos justamente pelas cenas absurdas do roteiro como nessa sequência que é bem inverossímil, pois só há uma única enfermeira no local e o assassino consegue fugir pelos corredores desertos do hospital com extrema facilidade).
Caminhando pela floresta desnorteado por descobrir sua real condição de “homem derretido”, o astronauta Steve encontra um pescador e arranca sua cabeça com as mãos, jogando-a num riacho. Essa cena de horror é de forte impacto, principalmente para a época da produção, e foi bem explorada mostrando a cabeça decepada do pescador descendo o rio até uma pequena cachoeira e se espatifando contra uma pedra, jorrando sangue para todos os lados.
A mente decomposta do astronauta incitou nele um instinto selvagem para matar e a cada nova vítima ele ganhava mais força para continuar vivo. Para perseguí-lo, surgem então o médico Dr. Ted Nelson (Burr DeBenning, de “Cidade Sob o Mar”, 71) e o militar do exército General Perry (Myron Healy, de “O Extraordinário”, 57), amigos de Steve que tentam capturá-lo antes que ocorram mais mortes e possam descobrir a razão de sua doença para tentar uma cura, cuidando também para que o caso seja devidamente abafado e não venha ao conhecimento geral. Porém, antes de encontrar o astronauta, o assassino ainda aumenta sua ficha criminosa retalhando um casal de idosos que inadvertidamente parou seu carro numa estrada deserta e escura para pegar limões num pomar.
Derretendo cada vez mais a ponto de perder uma orelha ao encostar numa árvore, e deixar fluídos de seu corpo pingando pelo caminho, o astronauta ainda mata o General Perry e ataca um jovem casal de namorados que chegava em casa, matando o rapaz. Nessa sua última empreitada, ele perde o braço esquerdo num golpe de faca da jovem que foi atacada, a qual sobrevive, mas torna-se histérica após o confronto.
Continuando a perseguição estão o Dr. Nelson e agora o xerife da cidade Will Blake (Michael Alldredge), que conseguem localizar o astronauta derretido nas instalações de uma fábrica. É noite, o ambiente está escuro, mas eles encontram Steve tentando fugir. O xerife é então violentamente morto ao ser jogado do alto de uma plataforma e sendo eletrocutado por fios de alta tensão que incendeiam seu corpo. Outros dois policiais aparecem e também são mortos, porém um deles consegue disparar um tiro certeiro no Dr. Nelson matando-o na hora, no momento em que ele tentava interceptar a ação dos policiais contra o astronauta enfurecido.
Após a tentativa fracassada em capturar Steve, ele consegue fugir de seus perseguidores, mas não por muito tempo. O processo de derretimento atinge o seu clímax máximo e ele encosta-se próximo a uma lata de lixo agonizando lentamente, derretendo numa massa gosmenta de carne, ossos e sangue.
No dia seguinte pela manhã, um faxineiro aparece para o trabalho na fábrica e vê a enorme sujeira ao lado da lata de lixo, aquilo que um dia foi um homem, e calmamente pega uma vassoura e pá e inicia a faxina. Enquanto isso, uma segunda missão espacial tripulada com destino à Saturno levanta vôo, ignorando as trágicas consequências da expedição anterior as quais estavam sendo secretamente escondidas pelo governo.
Um final “não feliz” no melhor estilo, pois todos morreram, principalmente o astronauta num sofrimento incrível sentindo em seu corpo um processo de derretimento contínuo, e tudo ocultado secretamente numa verdadeira conspiração governamental (daria uma boa ideia de argumento para um episódio de “Arquivo X”). E o que sobrou do “homem derretido” sendo literalmente varrido para o lixo. Um final excepcional para um filme super interessante.
Como curiosidades, temos uma sequência onde o assassino derretido encontra uma menina na floresta e ela sai correndo procurando por sua mãe gritando que havia visto o “Frankenstein”. Essa é uma confusão frequente envolvendo esse famoso personagem do cinema de horror. Na verdade, Frankenstein é o nome do cientista que criou o monstro, e este passou a ser chamado de a “Criatura de Frankenstein”.
Um pouco antes dessa sequência podemos ver um grupo de três jovens crianças tentando fumar um cigarro, numa cena politicamente incorreta, principalmente naquela época dos anos 1970.
O filme foi filmado a cores e as cenas envolvendo o maníaco ganharam uma intensidade muito forte, evidenciando uma massa disforme de sangue, carne e todos os tipos de fluídos gosmentos e repugnantes, algo significativo para a época. Isso é o resultado da excelente maquiagem e efeitos especiais de Rick Baker, que mais tarde se notabilizaria por seus magníficos trabalhos em “Um Lobisomem Americano em Londres” (1981), “Lobo” (1994) e “Planeta dos Macacos” (2001), citando apenas alguns poucos exemplos.
Aliás, na capa da fita VHS da “Globo Vídeo” existe um dos mais grotescos erros que tive a oportunidade de ver em fitas de vídeo ou DVD´s lançados no Brasil. Simplesmente os efeitos especiais foram creditados para um tal de “Dick Baker”, citando que teve trabalhos em “O Exorcista” e no clip musical “Thriller”, do cantor Michael Jackson. Na verdade, eles criaram um ser híbrido, mistura de Dick Smith (que foi o homem da maquiagem de “O Exorcista”) com Rick Baker (que fez o videoclip “Thriller”, sobre lobisomens). Parece piada, mas isso realmente aconteceu e a prova está na capa da fita VHS. Acredite se quiser...
Outra curiosidade interessante é a presença como ator (apesar de discreta numa pequena participação), do cineasta Jonathan Demme, que mais tarde ficaria famoso por “O Silêncio dos Inocentes” (The Silence of the Lambs, 91), com Anthony Hopkins, e “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, 2004), com Denzel Washington.
Para um filme cuja intenção não é apresentar um simples “serial killer” de adolescentes em férias como no posterior “Sexta-Feira 13” (1980), o astronauta Steve West, “O Incrível Homem que Derreteu”, não fica muito atrás, pois num curto período de tempo (uma única noite), ele matou violentamente nove pessoas.
Em todas as cenas envolvendo o astronauta caminhando em seu martírio solitário e derretendo de forma asquerosa, podemos ouvir sua respiração ofegante traduzindo seus gemidos de dor e desorientação do mais puro e absoluto sofrimento.
Enfim, “O Incrível Homem que Derreteu” é mais uma pérola do cinema fantástico bagaceiro, e apesar da produção de baixo orçamento, atores desconhecidos e alguns furos no roteiro com situações inverossímeis, possui qualidades que o coloca em destaque na filmografia de Ficção Científica e Horror dos anos 1970, e que deve ser sempre enaltecido e reverenciado.
(Juvenatrix - Junho 2002)


O Incrível Homem Que Derreteu (The Incredible Melting Man, Estados Unidos, 1977). American International. Duração: 84 minutos. Direção e roteiro de William Sachs. Produção de Samuel W. Gelfman, Peter Cornberg e Robert L. Fenton. Produção Executiva de Max Rosenberg. Música de Arlon Ober. Fotografia de Willy Curtis. Edição de James Beshears. Desenho de Produção de Michel Levesque. Efeitos especiais e maquiagem de Rick Baker, Greg Cannom, Tina Lewis e Dulcie Smith. Elenco: Alex Rebar (Steve West), Burr DeBenning (Dr. Ted Nelson), Myron Healey (General Perry), Michael Alldredge (Xerife Will Blake), Ann Sweeny (Judy Nelson), Lisle Wilson (Dr. Loring), Cheryl Smith (Modelo), Julie Drazen (Carol), Stuart Edmond Rodgers, Chris Witney, Edwin Max, Dorothy Love, Janus Blythe, Jonathan Demme.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O Presidente Negro, Monteiro Lobato


A Onda Verde/O Presidente Negro, Monteiro Lobato. Editora Brasiliense – “Obras Completas de Monteiro Lobato” – 1a. Série – Volume 5, São Paulo, 1964, 330 páginas. Lançado originalmente em 1926.

Antes que paire alguma dúvida ao leitor, a obra a ser analisada é O Presidente Negro. É que a edição em que este romance foi publicado também inclui outra obra, talvez a primeira do autor (de 1920), chamada de A Onda Verde, um conjunto de artigos e crônicas originalmente publicadas nos jornais da época.
O Presidente Negro ou O Choque das Raças (aliás, este é o título original da obra), apareceu em 1926. Pode-se dizer que é a obra mais polêmica deste celebrado autor de histórias infantis e uma das mais controversas de toda a literatura brasileira.
Lobato o escreveu rapidamente em apenas três semanas para “o rodapé d’A Manhã de Mário Rodrigues” (página 125), antes de sua partida para os Estados Unidos, onde residiria pelos próximos cinco anos na condição de adido comercial da embaixada brasileira. Ao que parece o autor tinha o objetivo de tentar publicar a obra nos Estados Unidos, pensando tratar-se de uma obra fundamental, que interferisse no debate deste país com relação ao seu problema étnico. Ficou decepcionado, pois a obra foi rejeitada e nem chegou a ser publicada.
Talvez existam duas razões principais para isso. Primeiro é que a obra é assumidamente partidária de uma posição, racista e pró-brancos. E é exposta de forma tão explícita que só poderia ser absorvida positivamente pelos francamente racistas, o que era uma minoria naquele país. Segundo, porque é uma obra literariamente pobre que, conforme o próprio autor admite, foi escrita às pressas.
Ler este livro com alguma isenção é difícil, pois a priori o sentimento, a expectativa já é negativa. E o motivo é óbvio: a clara proposta racista da obra. A este aspecto se acrescenta também certa imagem positiva construída pela escola e pela mídia, de um autor de histórias para crianças, que forjou toda uma geração para se interessar na prática da leitura, por meio do clássico inegável que são as aventuras de O Sítio do Pica-pau Amarelo. Além disso, Lobato pode ser associado também como um nacionalista importante dos anos 1940 e 1950, um dos principais batalhadores para a criação da Petrobrás. Desta forma não há como negar uma espécie de sentimento ambíguo, desconfortável, em confrontar boas recordações infantis e o apoio que deu a uma visão de desenvolvimento estratégico ao país, com uma obra de perfil tão agressivo e repugnante.
O romance tem início com o encontro de Ayrton Lobo, um vendedor ambulante com o misterioso Dr. Benson, após o primeiro sofrer um acidente de carro. Depois dos cuidados recebidos o vendedor pede para ficar com o seu benfeitor em sua mansão, prestando-lhe quaisquer tipos de serviços. E o Dr. Benson, resolve tomá-lo como uma espécie de confidente de suas pesquisas científicas, que ele oculta do resto da humanidade.
Vê-se por este começo que a estrutura da história tem um plano bem conhecido: pessoa do povo encontra um cientista recluso em uma casa afastada, onde realiza experiências mirabolantes que podem mudar o mundo. E ainda lhe apresenta sua linda filha, claro uma loura escultural com olhos azuis. Um tremendo clichê, ainda complementado por nomes anglófonos, Dr. Benson e sua Miss Jane.
Os estudos do cientista permitem que ele invente o porviroscópio, um aparelho que visualiza por meio de uma tela o passado e o futuro. É selecionado um dado ano e a máquina o mostra com áudio e vídeo. Uma espécie de máquina do tempo no qual não se vai fisicamente até outra era, mas a presencia em termos audiovisuais.
Ainda na primeira parte da obra o cientista morre. Como último ato ele destrói o porviroscópio, assim como os papéis que continham a explicação de como construí-lo. Uma opção estranha, pois para que tantos estudos se ele não o compartilha com a sociedade? Deixa dois herdeiros, a filha e Ayrton, pessoas de sua confiança que poderiam continuar o trabalho. Mas isso é esperar muito. Além das situações clichês já comentadas, os personagens são estereotipados, quase caricaturas de modelos. No caso do Dr. Benson, na figura de um extremado altruísta que para o bem da humanidade esconde suas ‘terríveis’ descobertas...
Contudo o cerne do romance ainda não foi exposto que é o tema do choque das raças na sociedade americana. A introdução do tema se faz com o depoimento de Miss Jane a Ayrton, ao relatar que viu por meio do porviroscópio o que ocorreria no ano de 2228, quando um negro venceria, pela primeira vez, a disputa pela Presidência dos Estados Unidos. O pretexto é que Ayrton escreva um romance sobre o relato e possa com isso, ser uma espécie de visionário do que virá. Desta maneira Ayrton visita a solitária donzela todos os domingos em sua mansão e esta conta a ele o que se sucederá nos Estados Unidos no século XXIII.
Sem querer justificar a opção do autor é preciso lembrar que ele seguia a mentalidade de parte da elite cultural brasileira e estrangeira entre o fim do século XIX e a primeira metade do XX, que defendia a superioridade racial de uma dada etnia sobre outra, uma ideia que tinha certa base ‘científica’, através de uma interpretação politicamente conveniente de estudos antropológicos evolucionistas a serviço do imperialismo dos brancos europeus sobre os povos da África e da Ásia, além da doutrina filosófica francesa do positivismo, que via no progresso técnico a chave para o desenvolvimento humano. E este só poderia ocorrer nas terras temperadas, mais afeitas ao trabalho e a uma visão de mundo mais ascética, que seria habitada, não por coincidência por anglos, germânicos, nórdicos e eslavos, todos brancos. Daí para uma corrente equivocada do evolucionismo – o darwinismo social – foi um pequeno passo, que por meio do eugenismo, tentou na prática em alguns países ‘embranquecer’ populações ‘mestiças’, ‘negras’ ou ‘amarelas’ ou até mesmo eliminá-las, simplesmente. Sem meias palavras, Lobato defendia também a destruição de deficientes físicos e mentais. Ora, superioridade branca e genocídio foram práticas executadas em escala pelo III Reich de Adolf Hitler.
Como se ainda não fosse o suficiente Lobato também é misógino, pois na sua América utópica do futuro, há também uma clivagem grave entre homens e mulheres da etnia branca, separados por dois partidos políticos que os representam.
Pois na eleição presidencial americana de 2228, os dois partidos sexistas lutam pelo apoio eleitoral do líder dos negros Jim Roy. Mas às vésperas do pleito ele decide concorrer ao cargo, traindo o apoio que prometera secretamente aos dois partidos. Assim, Jim Roy torna-se o primeiro presidente negro da história americana. Tal fato provoca uma imediata aliança entre os dois partidos da etnia branca, com as mulheres reconhecendo o seu erro em não apoiar os homens brancos. A culpa é das mulheres! Como se elas é que tivessem a obrigação de apoiar o homem.
Talvez nem fosse preciso chamar a atenção para isso, mas é incrível como as divisões étnicas e sexuais são perfeitamente homogêneas entre si. Todos os negros votam no negro – e entre estes não há divisões sexistas, por quê? Assim como as mulheres e os homens brancos seguem os seus respectivos líderes. Nesse mundo as pessoas não exprimem sua individualidade e interesses, agem apenas pelas orientações de seus líderes étnicos e sexuais. Não creio que Lobato fosse tosco o suficiente para endossar tal situação, como se as pessoas agissem como num rebanho. É possível que sua intenção fosse sublinhar como as diferenças étnicas e sexuais poderiam levar a uma verdadeira cizânia social e política no futuro. Uma espécie de caricatura proposital que fizesse os americanos de sua época se alertar contra os ‘perigos’ de se estender direitos a grupos étnicos e sexualmente ‘inferiores’, como os negros e as mulheres.
Como resultado da reaproximação das mulheres e homens brancos, chega-se à ‘solução branca’. Em vez de uma guerra civil ou a expulsão dos negros para a Amazônia – uma das possibilidades esdrúxulas, entre tantas, que Lobato expõe –, a tal ‘solução’ é a aplicação de um tal raio Omega, que alisa os cabelos dos negros. Esta medida, ao lado de um processo já em andamento de clareamento da pele, ‘embranquece’ os negros, tornando-os menos insuportáveis para os brancos. O mais inverossímil é que os próprios negros se revelam racistas – negros com almas brancas –, pois aderem com entusiasmo à aplicação do raio.
Porém, a tal solução vai mais longe e termina, como um efeito colateral não planejado mas muito festejado, a provocar a esterilização dos negros, ocasionando, assim a realização da utopia ariana na América. Certamente os nazistas e os integrantes da Ku Klux Klan aplaudiriam o desfecho da obra.
Este livro é polêmico pelo tema. Mas é chocante pela maneira como o autor o aborda. De uma forma franca e extremamente inverossímil, dando a impressão que tanto os personagens, como os próprios leitores são uns débeis-mentais, tal o grau de exagero e absurdo das situações.
Em pleno século XXI, quando os Estados Unidos têm em Barack Obama um presidente negro desde 2009, uma obra como esta só pode ter valor para aqueles que estudam a tal tendência eugênica da época e sua influência no meio cultural ou mesmo para um pesquisador da obra do próprio Lobato. Pois como ficção científica e, mais importante, como uma obra que possa trazer alguma utilidade literária ou social ao nosso tempo, a melhor coisa a fazer é simplesmente esquecê-la. Uma obra que envergonha por defender valores absolutamente contrários à boa convivência civilizatória e humana.

Marcello Simão Branco

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O Primeiro Homem no Espaço (First Man Into Space, Inglaterra, 1959)


A guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial, gerou uma tensão constante em nosso planeta com o medo de um holocausto nuclear com bombas atômicas e também uma corrida de conquista espacial entre as duas grandes potências. Os soviéticos saíram na frente colocando o primeiro homem no espaço em 1961, o astronauta Yuri Gagarin, e a resposta americana viria em 1969 com a nave Apollo 11 chegando até a Lua (nesse caso, existem conspirações que afirmam que foi uma farsa). De qualquer forma, a corrida espacial instigou a imaginação dos roteiristas de cinema e uma infinidade de filmes sobre o tema foi lançada durante as décadas de 1950 e 1960. “O Primeiro Homem no Espaço” é de 1959, dois anos antes da viagem do astronauta russo pelo espaço sideral, e é uma produção de baixo orçamento inglesa, com direção de Robert Day.
Em Albuquerque, cidade no Estado americano do Novo México, uma base militar está realizando testes com o lançamento de foguetes para o espaço. Sob a liderança do Comandante Charles Ernest Prescott (Marshall Thompson), auxiliado pelo Capitão Ben Richards (Robert Ayres) e o médico da Aeronáutica Dr. Paul van Essen (Carl Jaffe), um projeto com o foguete Y-13 está em andamento. Com o piloto de testes Tenente Dan Milton Prescott (Bill Edwards), irmão do Comandante, sendo lançado ao espaço a partir de um avião em grande altitude. O piloto tem uma bela namorada, Tia Francesca (a italiana Marla Landi, de “O Cão dos Baskervilles”, Hammer, 1959), que trabalha com cardiologia para o Dr. van Essen, mas graças a sua rebeldia de jovem impetuoso, ávido em ser o “primeiro homem no espaço” (do título do filme), ele desobedece as regras e o foguete supera os limites de controle, ficando à deriva no espaço e sendo afetado por uma tempestade de poeira cósmica de meteoritos. Um módulo com o piloto é ejetado do foguete e retorna à Terra, porém com um estranho recobrimento na fuselagem que intriga as autoridades. O piloto de testes não é localizado e é dado inicialmente como desaparecido. Porém, tem início uma série de mortes misteriosas de animais e pessoas nas proximidades, com as gargantas cortadas e ausência de sangue, sempre com a presença de misteriosos pontos brilhantes nas vítimas, despertando a atenção das investigações.
“O Primeiro Homem no Espaço” é um filme com um roteiro pretensioso, mas uma produção com características do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 do século passado. O centro de comando tem todos aqueles computadores imensos e painéis de controle cheios de mostradores, botões e luzes, o foguete é uma maquete tosca e o monstro assassino é um homem deformado numa maquiagem bizarra de borracha. Com fotografia em preto e branco, o filme faz parte do sub-gênero conhecido como “homem transformado em monstro”, tão comum na época, com uma infinidade de histórias similares onde as pessoas transformavam-se em monstros como consequência da curiosidade em desbravar o desconhecido, ultrapassando os limites da ciência. Vale destacar os ataques do monstro, o piloto mutante que voltou do espaço recoberto com uma camada de poeira de meteoritos, uma espécie de crosta criada pela exposição aos raios cósmicos que servem como uma blindagem contra disparos de armas de fogo, mas que também necessita de sangue de suas vítimas. A abordagem desses homens intrépidos que se transformam em monstros perturbados sempre é interessante, enfatizando o drama de suas novas condições, como nas palavras de desespero do piloto de testes, “... andei sem rumo por um labirinto de medo e dúvidas...”. Os ataques do monstro podem ser considerados até bem violentos para a época da produção, e certamente os realizadores conseguiram impressionar a plateia. Mas, projetando um paralelo com os dias atuais, as cenas são inocentes e ingênuas quando comparadas com similares numa infinidade de filmes onde a violência é explícita, com um horror gráfico repleto de mutilações e sangue em profusão, que deixariam as audiências dos anos 50 traumatizadas. São as mudanças que ocorrem com o passar dos anos, e a humanidade cada vez mais está se acostumando com a violência e se impressionando menos.
Curiosamente, uma história bem similar foi filmada em 1977 na divertida bagaceira “O Incrível Homem Que Derreteu” (The Incredible Melting Man), escrito e dirigido por William Sachs, e com efeitos de maquiagem de Rick Baker. Nesse filme, um astronauta parte numa missão espacial aos anéis de Saturno, e ao retornar para a Terra, seu corpo começou a se deteriorar de forma crescente, derretendo literalmente e transformando-se numa massa gosmenta de fluídos, músculos, carne e ossos partidos, deixando um rastro de sangue e vítimas por seu caminho.
Outra curiosidade interessante é que o ator americano Marshall Thompson (1925 / 1992) participou de outras pérolas do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 como “Maldição da Serpente” (Cult of the Cobra, 1955), “O Horror Veio do Espaço” (Fiend Without a Face, 1958) e “A Ameaça do Outro Mundo” (It! The Terror From Beyond Space, 1958). Além de uma grande variedade de séries de TV como a popular “Daktari” (1966 / 1969).
(Juvenatrix – 21/09/15)

domingo, 20 de setembro de 2015

616: Tudo é inferno, Angel Gutierrez & David Zurdo

616: Tudo é inferno (616 Todo es infierno), Angel Gutierrez & David Zurdo. 304 páginas. Tradução de Sandra Martha Dolinsky. Editora Planeta, São Paulo, 2007.

Depois da morte de Jesus Cristo, muitos textos foram escritos a respeitos dos dias em que o Filho de Deus andou entre os homens. Na maioria dessas histórias, Judas, o traidor que vendeu Jesus aos soldados romanos, tem um destino trágico. Mas e se ele não tivesse morrido e deixasse um texto seu com um depoimento que poderia abalar a cristandade?
Esse é o ponto de partida do interessante romance de horror 616: Tudo é inferno, dos escritores espanhóis Angel Gutierrez e David Zurdo, que também assinaram o livro O último segredo de Da Vinci: O enigma do Santo Sudário (2005, Novo Século). Pesquisadores de formação científica, Gutierrez e Zurdo usam seus conhecimentos para dar verossimilhança à uma narrativa que mistura fato e ficção.
A história é centrada no padre jesuíta Albert Cloister, membro de um grupo especial do Vaticano chamado Lobos de Deus, especializado em fenômenos paranormais. Ele pesquisa casos de quase morte, colhendo relatos assustadores de quem teve a oportunidade de ver o que existe do “lado de lá”. Ao acompanhar a exumação do corpo de um padre em vias de ser beatificado, descobre todos os ossos do cadáver quebrados e, no tampo do caixão, gravada à unha, a frase “Tudo é inferno”. Isso o lança numa busca dramática pela verdade absoluta a respeito do plano de Deus para o mundo dos homens. Na pesquisa pelo esclarecimento desse mistério, o padre tem contato com um texto secreto, um códice mantido no Vaticano, que abala suas convicções a respeito das forças que comandam o mundo.
Paralelamente, o bombeiro Joseph Nolan salva o velho deficiente Daniel de morrer num incêndio e acaba por se envolver com a psicóloga Aldrey Barret, que trata dele no hospital. Aldrey teve uma experiência dramática em sua juventude, da qual nunca se recuperou, e também está sofrendo com o desaparecimento do seu filho há alguns anos. Numa das sessões de tratamento, Daniel manifesta uma personalidade maligna e mostra conhecer os segredos obscuros do passado de Aldrey. Cética, ela tenta encontrar orientação com outros profissionais sobre o fenômeno, mas as seções ficam cada vez mais sinistras e a convencem de que o velho está realmente possuído por um demônio.
Na segunda parte do romance, enquanto o Padre Cloister encontra uma localidade em que uma voz sobrenatural lhe revela mistérios através de gravações num aparelho eletrônico, Daniel é submetido a uma tumultuada sessão de exorcismo, quando a entidade no corpo de Daniel revela informações a respeito do paradeiro do filho de Aldrey. Ela então toma uma decisão radical, lançando-se numa trilha de vingança que vai levá-la a uma pequena cidade onde um bem sucedido autor de livros para crianças mantém um segredo terrível no porão. Nolan e Cloister juntam-se a ela para tentar entender por que parece que Deus se esqueceu da humanidade enquanto o mal domina o mundo.
616: Tudo é inferno lembra muito o estilo profissional de Stephen King, com uma ótima construção de personagens. As descrições vivas e precisas de diversos locais do mundo remetem aos romances de Dan Brown.
Apesar da boa distribuição e um interessante trabalho de promoção – a editora distribuiu amostras grátis impressas com um trecho do romance – o livro passou despercebido no Brasil, talvez por ter ficado à sombra desses autores pesos-pesados, e também por serem escritores pouco identificados com a literatura fantástica. Entretanto, trata-se de um livro envolvente que agrada tanto ao leitor não iniciado quanto aquele já experiente no gênero. O final algo redentor diminui o impacto das discussões que o romance evoca, tirando-lhe ainda boa parte da aura de horror escatológico que poderia sustentar, caso tivesse um desfecho mais tenebroso.
É bom perceber, de qualquer forma, que as editoras como a Planeta do Brasil têm publicado autores e títulos inéditos de procedências variadas (no caso, da Espanha), ampliando o espectro de propostas para o leitor brasileiro. Mesmo não sendo um expoente do horror, 616: Tudo é inferno é uma ótima opção de leitura.
Cesar Silva

sábado, 19 de setembro de 2015

A Maldição do Lobisomem (The Curse of the Werewolf, Inglaterra, 1961)


A produtora inglesa “Hammer” refilmou em cores os monstros clássicos em preto e branco do estúdio americano “Universal”. Foram vários filmes abordando múmias, a criatura de Frankenstein e vampiros (especialmente o temível Conde Drácula), mas curiosamente o lobisomem só tem um filme. “A Maldição do Lobisomem” é de 1961, tem direção do especialista Terence Fisher e roteiro de Anthony Hinds (sob o pseudônimo John Elder), a partir da história “The Werewolf of Paris”, de Guy Endore. Hinds foi produtor da “Hammer” e por causa de restrições orçamentárias decidiu assumir o roteiro do único filme de lobisomem do estúdio, utilizando pseudônimo, e a partir daí ele passou a escrever roteiros para muitos filmes seguintes como “O Fantasma da Ópera” (1962), “O Beijo do Vampiro” (1963) e “O Monstro de Frankenstein” (1964), entre outros.
Ambientada no pequeno vilarejo de Santa Vera, na Espanha, a história apresenta um mendigo (Richard Wordsworth, o astronauta infectado de “Terror Que Mata”, 1955) que é preso na masmorra de um castelo, pelo cruel Marquês Siniestro (Anthony Dawson), depois de aparecer em sua festa de casamento pedindo comida. Após divertir os convidados com diversas humilhações, ele é abandonado na prisão por anos, onde encontra uma bela serviçal muda (Yvonne Romain). O mendigo comete atos de violência sexual contra ela e a jovem foge do castelo, sendo resgatada da morte na floresta por Don Alfredo (Clifford Evans), que a leva para sua casa, para receber os cuidados de sua bondosa empregada Teresa (Hira Talfrey). A criança nasce no Natal e ganha o nome Leon (Justin Walters), mas a mãe morre no parto. Já adulto, Leon (Oliver Reed), vai trabalhar num vinhedo e se apaixona pela bela Cristina (Catherine Feller). Porém, por ter nascido no Natal e ter sido gerado num estupro, Leon tem que enfrentar uma terrível maldição ancestral que irá perturbá-lo por toda a vida, quando em noites de lua cheia ele se transforma num monstro misto de homem e lobo, e que aterroriza a região em busca de vítimas.
O lobisomem é um corpo com o espírito de um lobo em constante guerra interna entre sua humanidade e a fera selvagem sedenta de sangue e violência que está dentro de si. A alma humana enfraquece quando é alimentada com ódio, avareza e solidão, principalmente no ciclo da lua cheia, onde as forças do mal são mais fortes. Por outro lado, o espírito da besta enfraquece quando prevalece o amor, a amizade e o calor humano.
A história do cinema de horror possui uma infinidade de filmes sobre essas fascinantes criaturas mitológicas de homens transformados em lobos. “A Maldição do Lobisomem” é um dos destaques e é sempre lembrado por ser uma produção da “Hammer”, a única abordando esse monstro clássico. Faz parte de uma elite formada por outras preciosidasdes como “O Lobisomem” (The Wolfman, 1941), da “Universal”, e “Um Lobisomem Americano em Londres” (An American Werewolf in London, 1981), de John Landis, entre outras. A história de um ser humano transformado em monstro assassino, com seu perturbador conflito interno entre o desejo de ter uma vida normal e a fúria incontrolável para sentir na boca o gosto do sangue e carne de animais e outras pessoas. O ator inglês Oliver Reed (1938 / 1999), que também esteve em outros filmes de horror como “A Mansão Macabra” (Burnt Offerings, 1976) e “Os Filhos do Medo” (The Brood, 1979), tem uma performance notável enfatizando seu drama com a paixão pela jovem Cristina e a necessidade de eliminar o monstro dentro de si. 
Curiosamente, o eterno ator coadjuvante Michael Ripper (1913 / 2000), que tem uma grande quantidade de participações menores em filmes da “Hammer”, e mais de 200 créditos em sua longa carreira, também aparece aqui, no papel de um bêbado que sucumbe nas garras do monstro. E tanto Oliver Reed quanto Yvonne Romain fizeram parte do elenco de outro filme da “Hammer”, “A Patrulha Fantasma” (Captain Clegg, 1962). 
(Juvenatrix – 19/09/15)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Terror Que Mata (The Quatermass Xperiment, Inglaterra, 1955)


Filme que faz parte do ciclo de produções de ficção científica com elementos de horror com fotografia em preto e branco, do cultuado estúdio inglês “Hammer”, no período de meados dos anos 50 do século passado. “Terror Que Mata” tem direção de Val Guest, de outros filmes da “Hammer” como ”Usina de Monstros” e “O Monstro do Himalaia” (ambos de 1957), e roteiro de Richard Landau baseado no universo ficcional criado por Nigel Kneale, formado por vários filmes e séries para a televisão.
Um foguete espacial cai numa fazenda nos arredores de Londres, tendo seu bico soterrado no solo. Dos três astronautas lançados ao espaço, num projeto científico liderado pelo Prof. Bernard Quatermass (daí o título original inglês), interpretado por Brian Donlevy, apenas um deles sobrevive e é resgatado seriamente doente. Ele é Victor Carroon (Richard Wordsworth), que está internado secretamente num hospital para tentar se recuperar de estranhas feridas que cobrem seu corpo. Os outros dois astronautas desapareceram. Para investigar o caso, o cientista Quatermass assume a liderança, contando com o auxílio não desejado de um policial, o Inspetor Lomax (Jack Warner).
O transtornado astronauta foge do hospital, ajudado por sua esposa Judith (Margia Dean), e depois de deixá-la em estado de choque devido sua horrenda transformação física, ele percorre as ruas de Londres desorientado matando pessoas que encontra pelo caminho e animais de um zoológico. Com um misterioso fungo recobrindo seu corpo e o transformando vagarosamente numa massa disforme com tentáculos que cresce conforme se alimenta da energia vital de suas vítimas.
Depois de atingir um tamanho imenso e refugiar-se numa abadia, ocorre um confronto final com o Prof. Quatermass, interessado em eliminar rapidamente a ameaça para poder desviar novamente suas atenções na continuidade de novos projetos científicos de exploração do espaço exterior.
“Terror Que Mata” é um título brasileiro oportunista e mal escolhido, pois certamente o melhor seria apenas traduzir do original inglês, resultando em algo como “O Experimento de Quatermass”. O filme também é conhecido pelo título alternativo “The Creeping Unknown” nos Estados Unidos e tem uma história explorando o sempre interessante tema de “homem transformado em monstro”. É a investida da “Hammer” em ficção científica, num período fértil para o gênero na década de 1950, abordando uma ameaça alienígena trazida para a Terra após o retorno de um foguete lançado para pesquisas espaciais.
Fez muito sucesso na época, impulsionando a “Hammer” como produtora de filmes do gênero fantástico, se especializando principalmente nas histórias com ambientação gótica e atmosferas sombrias, além de explorar os tradicionais monstros clássicos em filmes de vampiros, lobisomens, múmias e cientistas loucos.
As aventuras do cientista Quatermass envolvendo alienígenas estão registradas numa trilogia produzida pela “Hammer”, e além de “Terror Que Mata”, ainda temos o já citado “Usina de Monstros” e “Uma Sepultura na Eternidade” (Quatermass and the Pit, 1967), sendo que nesse último o ator Andrew Keir ficou com o papel do abnegado cientista, substituindo Brian Donlevy, que esteve nos dois primeiros filmes. Em 1956 o estúdio inglês lançou “O Estranho de Um Mundo Perdido” (X: the Unknown), cuja ideia inicial seria que fosse uma continuação de “Terror Que Mata”, mas como o escritor Nigel Kneale não havia liberado o uso do personagem, os realizadores optaram por utilizar uma história similar com o roteiro de Jimmy Sangster. E o Prof. Quatermass foi apenas substituído pelo cientista Dr. Royston, que possui as mesmas características.
(Juvenatrix – 16/09/15)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

ESPECIAL RAY BRADBURY (1920-2012)



O legendário escritor de ficção científica e fantasia Ray Bradbury, morreu em 5 de junho de 2012, aos 91 anos, em Los Angeles, de causa não revelada. É um dos poucos escritores de ficção científica conhecido e respeitado no Brasil para além dos leitores do gênero, e esta condição é ainda mais acentuada em seu país, os Estados Unidos – e mundo afora –, onde Bradbury é distinguido como um autor que teria elevado à ficção científica a um patamar de maior prestígio literário. Como parte desta reputação, escreveu roteiros de filmes importantes e publicou contos e romances no chamado mainstream literário.
Raymond Douglas Bradbury nasceu em 22 de agosto de 1920, na pequena cidade de Waukegan, no estado de Illinois. Aproximou-se da FC&F ainda criança, vendo os filmes de horror da Universal, lendo os gibis de Buck Rogers e Flash Gordon, e lendo os livros de Edgar Rice Burroughs. Aos 13 anos muda com a família para Los Angeles, e em 1937 descobre a Los Angeles Science Fiction Society, e passa a integrar o fandom local. Conhece Forrest J. Ackerman, Hannes Bok, Edmond Hamilton, Ray Harryhausen, Robert A. Heinlein, Henri Kutner e muitos outros nomes que se tornaram luminares na história da ficção científica. Bradbury colaborou com vários fanzines, chegando a editar um, o Futuria Fantasia, com quatro edições em 1939. Neste mesmo ano esteve em Nova York na primeira convenção mundial de ficção cientítica.
Sua estreia como autor se dá com o conto “Pendulum”, na revista pulp Super Science Stories, em novembro de 1941. A partir de 1943 ele se torna um escritor em tempo integral, aumentando muito a quantidade de histórias publicadas durante os anos 1940, primeiro nas pulp magazines, e logo a seguir nas chamadas slicks magazines, devido à repercussão positiva de suas histórias junto a críticos do mainstream.
O primeiro livro de Bradbury é Dark Carnival (1947), uma coletânea de contos escritos entre 1943 e 1947. Na sequência aparece outra coletânea seminal, O Homem Ilustrado (The Illustrated Man, de 1951) – adaptada para o cinema em 1968, com o título nacional de Uma Sombra Passou Por Aqui.
A maior parte da produção literária de Bradbury é de contos, publicados especialmente em coletâneas nas décadas de 1950 a 1970. A maioria delas hoje clássicas como, Os Frutos Dourados do Sol (The Golden Apples of the Sun, de 1953), O País de Outubro (The October Country, de 1955, uma versão expandida e revisada de Dark Carnival), Remédio para a Melancolia (A Medicine for Melancholy, de 1959), F de Foguete (R is for Rocket, de 1962), As Máquinas do Prazer (The Machineries of Joy, de 1964), E de Espaço (S is for Space, de 1966), The Vintage Bradbury (1965), A Cidade Perdida de Marte (I Sing the Body Electric!, de 1969), entre muitas outras que vieram depois.


Talvez nenhum autor dentro da FC&F, ou fora na segunda metade do século XX, tenha publicado tantos contos maravilhosos. Textos como, por exemplo, “A Sirene do Nevoeiro”, “O Pedestre”, “O Pequeno Assassino”, “Um Som de Trovão”, “Os Frutos Dourados do Sol”, “O Anão”, “O Próximo da Fila”, “O Lago” –, “A Segadeira”, “A Cisterna”, “A Morte Maravilhosa de Dudley Stone”, “O Homem Ilustrado”, “As Máquinas do Prazer”, “Tirannosaurus Rex”, e tantos outros. Neles notamos de forma clara outra das características marcantes do autor, o seu trânsito livre entre as fronteiras da ficção científica, da fantasia e do horror. Bradbury dizia que escrevia uma “fantasia científica”, mas podemos afirmar tanto quanto que ele se notabilizava por textos de “fantasia sombria”, em que, ocorria uma mistura peculiar entre o lirismo, o fantástico, o horror e o humor.
As décadas de 1950 e 1960 são as principais do autor, não só pelos contos mas também por obras mais longas igualmente notáveis, a começar pelo romance fix-up As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles, de 1950), que conta a história da expansão humana a Marte, menos para celebrá-la, e mais para denunciá-la como uma violência expansionista e colonizadora do Homem aos marcianos, que no início lutam iludindo os invasores, mas depois acabam derrotados e quase extintos. Não deixa de evocar a própria trajetória colonizadora europeia frente a culturas nativas como, aliás, aconteceu nos Estados Unidos. Mas o romance aborda este enredo principal através de histórias particulares daqueles que se aventuram num novo mundo, no qual o medo, a angústia e a excitação pelo desconhecido se misturam de forma admirável.
Pouco depois surgiu um dos seus poucos romances autênticos, o distópico Fahrenheit 451 (1953). Num mundo governado de forma autoritária, e em que o individualismo é incentivado como postura de vida, pensar não é recomendável. Desejam-se consumidores e não cidadãos. Assim, os livros passam a ser proibidos. Se encontrados devem ser queimados. A ironia é que Montag, um dos bombeiros responsáveis pela queima dos livros é, na verdade, apaixonado por eles. Fahrenheit 451 – a melhor temperatura para queimar os livros – denuncia o conformismo e individualismo exacerbado, nos alertando que uma sociedade que pouco valoriza o pensamento crítico e a leitura está próxima da censura e do autoritarismo. Há evidentes paralelos com o clássico 1984, de George Orwell, mas a verve de Bradbury opta por uma crítica endereçada a um dos aspectos possíveis de uma ditadura – a censura –, e não a ela como uma construção ideológica total, como no livro de Orwell. Fahrenheit 451 ganhou uma boa adaptação cinematográfica dirigida pelo francês François Truffaut, em 1966.


A partir dos anos 1970 Bradbury escreve menos FC&F, ao enveredar por histórias de suspense, mistério e algum realismo, de tom mais autobiográfico, além de poesias e peças de teatro. Toda esta diversificação não surpreende se notarmos que desde os anos 1950 Bradbury também escreveu roteiros para filmes, e pelo mais conhecido deles, a adaptação de Moby Dick (1956), dirigido por John Huston, recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado.  Entre os romances de mistério de prestígio incluem-se, A Morte é uma Transação Solitária (Death Is a Lonely Business, de 1985) e a sequência Um Cemitério para Lunáticos (A Graveyeard for Lunatics, 1990).
Na televisão, Bradbury escreveu para a clássica Além da Imaginação (Twilight Zone, 1959-1964), de Rod Serling, adaptando algumas de suas histórias. Já nos anos 1950 várias de suas histórias foram adaptadas para seriados como, por exemplo, Tales of Tomorrow, Lights Out, Out There, Suspense, Alfred Hitchcock Presents, e outros. Entre 1985 e 1992 foi homenageado com o nome da série Ray Bradbury Theater, em que colaborou com vários episódios. Além disso, seu clássico As Crônicas Marcianas foi adapatado como uma minissérie de três episódios, em 1980.
Em termos de premiações, Bradbury recebeu um prêmio pelo conjunto da obra, da World Fantasy Award, em 1977; foi eleito Grande Mestre Nebula, em 1989; recebeu um prêmio Bram Stoker pelo conjunto da obra, em 1989; uma premiação Grande Mestre do Horror, em 1999; recebeu a Medalha Nacional das Artes, em 2004, e uma citação especial do Prêmio Pulitzer “por sua prestigiosa, prolífica e profundamente influente carreira como autor de ficção científica e fantasia”, em 2007. Sua coletânea O Homem Ilustrado, vence o International Fantasy Award, em 1951 e seu romance Fahrenheit 451 leva o Retro-Hugo de 1953 (concedido em 2003). Já em  2010 a Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA) – do qual ele foi presidente entre 1951-1953 –, cria a categoria “Prêmio Ray Bradbury”, no interior do prêmio Nebula, para a distinção do melhor roteiro do ano.
Bradbury deixa quatro filhas e oito netos. Sua esposa, Marguerite, morreu em 2003, após 57 anos de casamento.

Análise
Surgido no fim dos anos 1930 no cenário literário norte-americano, é curioso notar como Bradbury se diferenciou de outros autores do período conhecido como a Golden Age da FC. Menos pelos temas que tratava, mas sim pela maneira como os abordava e a forma como escrevia. Isso porque a maioria dos autores de FC da época, que publicavam nas chamadas pulp magazines, tais como Amazing Stories e Astounding Science Fiction, escrevia histórias com ousados exercícios especulativos que não escondiam – na maior parte das vezes – um otimismo quase determinista pela conquista do mundo pelo avanço científico. Além disso, a maioria tinha uma prosa simples, rápida e utilitária, para não dizer pobre do ponto de vista literário.
Além de Bradbury, outro autor com estilo semelhante foi Theodore Sturgeon (1915-1985), humanista de primeira linha. Ambos não compartilhavam deste otimismo que contagiava outros, e escreviam com uma habilidade e sensibilidade poética incomuns. Mas principalmente em Bradbury estas duas características foram marcantes e ajudam a entender porque ele era tão respeitado, tanto pelos leitores de FC&F, como do chamado mainstream literário. O mundo e a vida eram um palco privilegiado para a sua imaginação intimista e ao mesmo tempo crítica da sociedade e das contradições da natureza humana.
Bradbury dizia mesmo que um dos aspectos mais relevantes da ficção científica não era referendar uma visão cientificista e individualista do futuro, mas sim prevenir para que isso não acontecesse, numa espécie de alerta para evitar pesadelos futuros. É bom lembrar que Bradbury, nascido em 1922, viveu a infância na pobreza da Grande Depressão dos anos 1930 e adolescente viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial. Ora, mas podemos argumentar que contemporâneos seus também como, por exemplo, Isaac Asimov (1920-1992) e A.E. Van Vogt (1912-2000). Mas digamos que o menino que nasceu numa pequena cidade do interior, teve uma sensibilidade precoce e particular para aspectos ao mesmo tempo lúdicos e críticos da vida.
Nesse sentido podemos afirmar que Bradbury encontrou a sua voz e autenticidade como escritor, menos nos gêneros que aborda, ou no seu estilo absurdamente lírico e poético, mas em sua infância: nos dinossauros, monstros ou seres imaginários, no circo – a quem dedicou um romance fascinante e perturbador: Algo Sinistro Vem Por Aí (Something Wicked this Way Comes, de 1962) –, na viagem a Marte que ninguém melhor do que ele retratou em termos criativos, e tantos outros sonhos vividos e nunca abandonados em sua vida adulta, dedicada à literatura.
Isso quer dizer também que parte importante da compreensão de porque ele se tornou um autor extremamente talentoso passa pela ideia que ele tinha do ofício literário. No seu livro de ensaios O Zen e a Arte da Escrita (Zen in the Arte of Writing, de 1990), ele afirma que para escrever bem é preciso escrever sempre; é preciso ler com regularidade – e de tudo. Mas, antes de mais nada, é preciso gostar do que se faz, escrever pelo prazer estimulado por uma espécie de necessidade de expor ao mundo uma visão, uma ansiedade interior. Há alguns anos tenho cobrado dos autores brasileiros de ficção científica o que chamo de "inquietação existencial", ausente em boa parte deles. É o mesmo que Bradbury defende – de uma forma mais convincente e encantadora, é claro –, para um autor se diferenciar dos demais, expor o seu eu particular de enxergar o mundo. Não necessariamente melhor em termos literários, mas com uma singularidade íntima só sua, o que lhe pode garantir uma expressão mais original, mesmo que seja em uma história de tema comum.
Mesmo nos primeiros anos de sua carreira já é possível perceber esta busca por uma voz interior que aliada ao seu talento criativo o coloca numa posição de relevo no cenário literário norte-americano e mundial, para além do ambiente quase sempre incompreendido da FC&F. Pois os próprios fãs destes gêneros nunca se incomodaram com esta prosa tão elegante, refinada e surpreendente, ao abordar temas caros ao gênero de uma forma inusitada, crítica e sobretudo poética.

Influência no Brasil
Se no plano internacional Bradbury tornou-se uma figura icônica, em nosso país ele é carinhosamente referido pelos fãs como o “B” da ficção científica. O “ABC” do gênero, onde o “C”, pertence ao inglês Arthur C. Clarke (1917-2008) e o “A”, ao russo-americano Isaac Asimov (1920-1992). Embora Clarke e Asimov tenham sido nas décadas de 1970 e 1980 os dois best-sellers da FC no Brasil é Bradbury, seguramente, o autor estrangeiro que mais influência exerceu na ficção científica brasileira.
Curioso notar que tal penetração entre os escritores brasileiros do gênero ocorreu na década de 1960. Pois eram os tempos da corrida espacial e o grande entusiasmo que gerou nos mais diferentes ramos da sociedade, em todo o mundo. Pois os escritores brasileiros, abrigados nas coleções regulares de FC da época, a carioca GRD (principalmente) e a paulista Edart, publicaram várias histórias com um tom humanista, refratário ao avanço científico-tecnológico, e com uma prosa mais subjetiva e quase poética.
Podem-se apontar duas razões para isso. Uma pela crítica de uma modernização tecnicista e industrializada, que estaria modificando drasticamente a vida dos brasileiros sem, necessariamente, resolver seus problemas sociais e políticos. Ou seja: a industrialização e o conhecimento científico recolorariam em novos termos a temática e a prática da colonização dos países do Primeiro Mundo aos do Terceiro. A outra, de uma prosa mais poética, pela tradição literária dos autores que escreveram FC naquela época, pois a grande maioria deles não tinha afinidade com o gênero, mas foram convidados a escrever e por isso tinham uma bagagem literária mais elaborada. Mas mais que isso: por vezes referidas direta ou indiretamente a Ray Bradbury. Como exemplos podemos citar principalmente Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), em vários dos contos presentes sem coletâneas como Diálogo dos Mundos (1961) e Passagem para Júpiter (1971). Também em autores como Fausto Cunha (1923-2004), Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982) e André Carneiro percebe-se, de forma recorrente, uma influência mais poética e, sobretudo, humanista. Estas características tão próprias de Ray Bradbury nos permitem afirmar que a Primeira Onda da FC brasileira, também chamada “Geração GRD”, foi neo-bradburyana.
A partir dos anos 1980, com o surgimento da Segunda Onda da FC brasileira ao menos um autor, e de forma abertamente imitativa, tentou seguir os passos de Bradbury. Trata-se de Roberto Schima, um dos autores mais prolíficos dos anos 1980 e 1990, que escreveu diversos contos de inspiração poética e humanista. Numa visão retrospectiva percebe-se que alguns deles não passaram de pastiche, mas há textos que evocam os temas e a poesia de Bradbury com mérito próprio como, por exemplo, em “Como a Neve de Maio” (1992), “Os Fantasmas de Vênus” (1993) e “Ao Encontro do Sonho” (1993). Este último é um conto homenagem a Bradbury, com uma inspiração lírica e nostálgica que provavelmente agradaria o mestre. Observe-se também que Schima foi um dos autores mais premiados e populares do fandom e estas três histórias, inclusive, foram premiadas. Isso mostra que agrada ao brasileiro em particular, seja fã ou não de FC, o estilo de poesia em prosa do autor e sua imaginação de tons humanistas.
Se estas características foram tão marcantes em Bradbury a ponto de ser criado o neologismo “bradburiano” para histórias semelhantes, uma distinção de característica quase tão marcante pode ser encontrado com outros dois gigantes do gênero, os “A” e “C” do trio acima referido. Nesse sentido, grosso modo, vemos que Asimov notabilizou-se por uma prosa mais objetiva e com uma exploração mais racionalizadora de temas, embora não destituída de crítica social, a especular sobre avanço da ciência e tecnologia e os impactos (nem sempre positivos) que traz ao Homem. Quanto a Clarke, ele foi um líder intelectual que inspirou gerações de fãs e cientistas na defesa da exploração do espaço e dos avanços tecnológicos. Mas contextualizou este otimismo com uma visão mais desapegada em termos materiais, relacionando-a de forma transcendente com um possível destino cósmico para a humanidade.
Se é triste que uma pessoa do talento e singularidade artística de Ray Bradbury tenha morrido, ao menos podemos nos consolar com as palavras do escritor de FC norte-americano Kim Stanley Robinson, quando disse que tivemos sorte de pertencer ao mesmo período histórico em que ele viveu e desfrutar de sua obra magnífica. Um legado que fica para as gerações vindouras, como um verdadeiro tesouro do que de melhor produziu a literatura de FC&F no século XX.

por Marcello Simão Branco


Bibliografia:

A seguir temos uma relação dos livros de ficção científica e fantasia de Ray Bradbury publicados no Brasil e em Portugal.

A Árvore Sagrada (The Halloween Tree, 1972). Coleção Argonauta 224. Romance.
Algo Sinistro Vem Por Aí (Something Wicked this Way Comes, 1962). Editora Bertrand Brasil, 2006. Romance.
A Bruxa de Abril e Outros Contos (The April Witch, The Fog Horn, The Veldt, The Other Foot). Edições SM, Coleção Barco a Vapor, 2004. Contos.
A Cidade Inteira Dorme e Outros Contos Breves (Bradbury Stories, 2003). Editora Globo, 2008.
Cemitério de Lunáticos, volumes 1 e 2 (A Graveyeard for Lunatics, 1990). Coleção Argonauta 417 e 418. Romance.
Um Cemitério para Lunáticos (A Graveyeard for Lunatics, 1990). Editora Best Seller, 1991. Romance.
A Cidade Fantástica (Dandelion Wine, 1957). Coleção Argonauta 108 e Editorial Caminho 37. Romance.
O Licor de Dente-de-Leão (Dandelion Wine). Editora Bertrand Brasil, 2012. Romance.
O Vinho da Alegria (Dandelion Wine, 1957). Editora Best Seller, 1988. Romance.
A Cidade Perdida de Marte (I Sing the Body Electric!, 1969). Editora Hemus. Contos.
A Última Cidade de Marte (I Sing the Body Electric!, 1969). Coleção Argonauta 260. Contos.
As Vozes de Marte (I Sing the Body Electric!, 1969). Coleção Argonauta 254. Contos.
Contos de Dinossauros (Dinosaur Tales, 1984). Editora Artes e Ofícios, 1993. Contos.
As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles, 1950). Editorial Caminho 15, 1985; Círculo do Livro, 1982; Editora Francisco Alves, Coleção Mundos da FC 16, 1980; Editora Globo, 2005. Romance fix-up.
O Mundo Marciano (The Martian Chronicles, 1950). Coleção Argonauta 6. Romance fix-up.
E de Espaço (S is for Space, 1966). Editora Hemus. Contos.
Uma Estranha Família: Lembranças de um Lugar do Passado (From the Dust Returned: A Family Remembrance, 2001). Ediouro, 2002. Romance.
F de Foguete (R is for Rocket, 1962). Editora Hemus. Contos.
Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451, 1953). Editora Melhoramentos, 1985; Círculo do Livro; Coleção Argonauta 33; editora Livros do Brasil 10; Editora Globo, 2009. Romance.
Os Frutos Dourados do Sol (The Golden Apples of the Sun, 1953). Editora Francisco Alves, Coleção Mundos da FC 13, 1979; Círculo do Livro, 1982; Coleção Argonauta 55. Contos.
As Maçãs Douradas do Sol (The Golden Apples of the Sun, 1953). Editorial Caminho 93, 1989. Contos.
O Abismo de Chicago (The Machineries of Joy, 1964). Coleção Argonauta 97. Contos.
As Máquinas da Alegria (The Machineries of Joy, 1964). Coleção Argonauta 93. Contos.
As Máquinas do Prazer (The Machineries of Joy, 1964). Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1983. Contos.
Marte e a Mente do Homem: A Conquista de Marte e o Futuro do Mundo ( ), com Arthur C. Clarke. Editora Artenova Coleção Veja 7. Divulgação científica.
Morte é uma Transação Solitária (Death Is a Lonely Business, de 1985). Editora Best-Seller,
Muito Depois da Meia-Noite, volumes 1 e 2 (Long After Midnight, 1976). Coleção Argonauta 331 e 332. Contos.
Outros Contos do País de Outubro (The October Country, 1955). Edições GRD, Coleção Agora e Sempre 11, 1966. Contos.
O País de Outubro (The October Country, 1955). Editora Francisco Alves, Coleção Mestres do Horror e da Fantasia, 1981; Edições GRD, Coleção Agora e Sempre, 1966. Coleção Argonauta 246. Contos.
Às Portas da Fantasia: Dez Histórias Escolhidas de Ficção Científica (ver original), com Robert Bloch, organizado por Kurt Singer. Editora Expressão e Cultura. Contos.
Recordações do Futuro (The Illustrated Man, 1951). Edibolso, 1976. Contos.
Uma Sombra Passou por Aqui (The Illustrated Man, 1951). Editora Record. Contos.
Remédio para Melancolia (A Medicine for Melancholy, 1959). Editora Artenova, 1975, Coleção Best Sellers. Contos.
O Viajante do Tempo (The Toynbee Convector, 1988). Editora Best Seller, 1989. Contos.
O Zen e a Arte da Escrita (Zen in the Arte of Writing, de 1990). Editora Leya, 2011.

Adaptações de histórias em quadrinhos:

O Papa-Defuntos. Editora L&PM, 1990.
O Pequeno Assassino. Editora L&PM, 1991.

O Tubarão Fantasma (Ghost Shark, EUA, 2013)


Apresentado pelo canal de TV “SyFy” e produzido pela “Active Entertainment”, “O Tubarão Fantasma” tem direção de Griff Furst, que além de diretor também tem vários trabalhos como produtor e ator, mas nada relevante.
O filme tem um prólogo onde pescadores noturnos matam um tubarão branco explodindo sua boca com uma granada em represália por ele ter roubado um peixe já capturado num anzol. Porém, o temível predador dos mares retorna como um espírito fantasma para se vingar de seus algozes. Numa pequena cidade americana chamada Smallport, o tubarão fantasma translúcido ataca suas vítimas aparecendo em qualquer lugar onde tenha água, desde piscinas, banheiras, mangueiras e tubulações, fazendo vítimas para todos os lados com mortes sangrentas. Um grupo de adolescentes fúteis desprovidos de cérebros tenta combater a assombração assassina. Formado pela baixinha Ava (Mackenzie Rosman), sua irmã mais nova Cicely (Sloane Coe, que também esteve no péssimo “Tubarões Zumbis”, 2015), além de Blaise (Dave Davis) e Cameron (Jaren Mitchell), filho do inescrupuloso prefeito da cidade Stahl (Lucky Johnson). Eles contam com a ajuda do veterano xerife Martin (Tom Francis Murphy) e de um velho guardião do farol local Finch (Richard Moll), que tem assuntos pessoais pendentes envolvendo uma maldição com espíritos perturbados e uma caverna próxima ao farol, onde os fantasmas vingativos são gerados.
Entre os incontáveis filmes com roteiros absurdos envolvendo tubarões, este certamente está entre os mais ridículos. Não há absolutamente nada que se salve. As atuações dos atores são patéticas, apesar de que é difícil exigir alguma coisa do elenco com uma história tão banal sobre um tubarão fantasma. Mas, o pior de tudo são os efeitos de CGI vagabundo, onde todas as cenas com o espírito do peixe comendo gente são tão ruins que não dá nem para rir. Já nas cenas das vítimas ensanguentadas e mutiladas os efeitos toscos são os tradicionais que vemos em dezenas de filmes similares, que não convencem de tão artificiais. Eu acho que tenho uma missão na Terra, que é assistir essas tranqueiras descartáveis que não divertem, justamente para alertar os apreciadores do cinema fantástico (até os fãs de bagaceiras) a não perderem seu valioso tempo com porcarias como essas.
(Juvenatrix – 14/09/15)

domingo, 13 de setembro de 2015

Tubarões Zumbis (Zombie Shark, EUA, 2015)


Os tubarões estão entre os animais mais explorados pelo cinema. Depois que Steven Spielberg concebeu seu clássico “Tubarão” (Jaws) em 1975, a quantidade de filmes utilizando esses temíveis predadores dos mares é imensa, com a grande maioria sendo produções bagaceiras com roteiros com excesso de clichês e principalmente ideias bizarras ao extremo. Tem tubarões viajando em tornados, em avalanches de neve, aparecendo em pântanos, tornando-se fantasmas, mutantes diversos, gigantescos, pré-históricos, geneticamente modificados, e até zumbis. Isso mesmo, tubarões mortos que atacam outros de sua própria espécie e os humanos, transferindo uma infecção que transforma todos em mortos-vivos.
Tubarões Zumbis” (Zombie Shark) é apresentado pelo canal de TV “SyFy”, produzido pela “Active Entertainment” e tem direção de Misty Talley, que foi o editor de outros filmes tranqueiras como “Terremoto Aracnídeo” (2012), “A Cápsula do Tempo” (2012) e “O Tubarão Fantasma” (2013). O roteiro horrível de tão ruim é de Greg Mitchell, o responsável pela porcaria colossal “SnakeHead Swamp” (2014).
Um grupo de quatro jovens descerebrados vai até um hotel fuleiro numa ilha. Jenner Branton (Ross Britz) é o único homem, que está levando sua namorada Amber Steele (Cassie Steele), a irmã dela Sophie (Sloane Coe) e a fútil Bridgette (Becky Andrews), todas garçonetes de um bar. Lá chegando, depois de descobrirem que o hotel não tem nem estrelas de tão ruim, e é administrado apenas por uma pessoa, Lester (Roger J. Timber), eles ainda tem que enfrentar a fúria de ataques de tubarões que estão mortos, mas mordem e destroçam suas vítimas. E quem é infectado transforma-se em zumbi. O líder dos tubarões, chamado de Bruce, é inteligente e fugiu de uma base militar científica próxima da praia que supostamente estava abandonada. Ele é o resultado de experiências lideradas pela cientista Dra. Diane Palmer (Laura Cayouette) com regeneração de tecidos mortos para utilizar em soldados feridos em combate. O chefe de Segurança da base, Sargento Maxwell Cage (Jason London) está caçando o tubarão e tenta ajudar os jovens turistas recém chegados à ilha, que estão desprotegidos por causa de uma tempestade no continente que impede a comunicação com a polícia ou guarda costeira.
No meio de tanta porcaria lançada aos montes para todos os lados, situada dentro do cinema fantástico bagaceiro do século XXI, alguns filmes até divertem pela precariedade da produção e honestidade em apresentar um roteiro absurdo que brinca com os próprios clichês. Mas, tem também os filmes ruins com excesso de defeitos que somente conseguem entediar o espectador com overdoses de bobagens nas histórias e amadorismo de seus realizadores. “Tubarões Zumbis” faz parte deste último grupo, onde nada funciona, desde a história cheia de furos e com notável falta de empenho do roteirista, passando pelo elenco inexpressivo que contribui para torcermos pelas mortes violentas das personagens, e culminando com um trabalho tosco com CGI vagabundo, com péssimos efeitos que não convencem e ainda estragam qualquer tentativa de tornar alguma cena tensa. É o tipo de filme para ser ver uma vez apenas por curiosidade, e se esquecer logo em seguida, mandando-o para o limbo das produções que não acrescentam nada ao gênero. 
(Juvenatrix – 13/09/15)