sábado, 30 de maio de 2015

Poe 200 anos: Contos inspirados em Edgar Allan Poe

Poe 200 anos: Contos inspirados em Edgar Allan Poe, Maurício Montenegro & Ademir Pascale, orgs. 140 páginas. Capa: Carlos Guimarães. All Print Editora, 2010.

2009 marcou o duplo centenário do nascimento de Edgar Allan Poe, escritor americano que morreu na miséria, mas cuja obra  influenciou toda a literatura moderna e é hoje muito respeitada.
Poe reuniu em si uma espécie de vórtice criativo, do qual emergiram as bases de toda a ficção fantástica, qual seja, a ficção científica, a fantasia e o terror, além do romance de mistério e investigação. Na edição referente a 2009, o Anuário prestou ao escritor os devidos tributos, com um artigo sobre sua vida e uma resenha de O relato de Arthur Gordon Pym, o único romance escrito pelo ele.
Como Poe tem um grande contingente de fãs, isso facilitou o trabalho de Maurício Montenegro e Ademir Pascale em reunir 22 textos de autores de todo o Brasil nesta antologia comemorativa que se pretendia fosse publicada em 2009, mas acabou saindo no ano seguinte.
O conhecido escritor carioca Miguel Carqueija, autor de Farei meu destino (Giz, 2008), assina o prefácio, em que apresenta a vida e a obra de Poe. Ele também participa com um conto, "O quarto caso de Dupim", um texto simples, elegante e divertido no qual o detetive criado por Poe ajuda a polícia francesa a encontrar um empresário americano desaparecido em Paris. Um ótimo contraponto ao clima predominantemente funesto da antologia.
O volume também traz trabalhos dos dois organizadores e de Alex Lopes, Alícia Azevedo, André Catarinacho Boschi, Deborah O'Lins de Barros, Dimitry Usiel, Duda Falcão, Frank Bacurau, Georgette Silen, Gil Piva, Jocir Prandi, Kathia Brienza, Luicana Fátima, M. D. Amado, Mariana Albuquerque, Márson Alquati, O. A. Secatto, Ronaldo Luiz Souza, Roseli Princhatto Arruda Nuzzi e Thiago Félix.
Além do texto de Carqueija, também se destacam os contos comentados a seguir, nos quais os autores encontraram uma forma pessoal de homenagear Poe.
"Relíquia", de autoria do professor universitário Duda Falcão, homenageia o conto "O gato preto", e narra a história de um menino curioso que visita uma espécie de show de aberrações literárias. Metalinguagem realizada com talento e sensibilidade poética, num estilo que, menos do que Poe,  lembra mais a Ray Bradbury – outro grande mestre da ficção fantástica.
"Um homem afortunado", da funcionária pública e Mestre em Letras Kathia Brienza, embarca numa homenagem a "O barril de Amontillado", contando sobre um professor oportunista que progride na profissão às custas de trapaças. Ao ganhar um concurso de monografias acadêmicas roubando o trabalho de seu rival, sente que chegou ao ápice de sua carreira. Mas nem tudo vai ser sempre como ele deseja. Um ótimo trabalho, saboroso e bem realizado.
Mariana Albuquerque é um nome já bem conhecido do fandom: médica veterinária, participou de várias fanzines e antologias, e publicou os livros Coração de demônio (Writers)  e O pássaro e o rochedo (Nativa). Ela assina "A máscara de Vênus",  um texto muito curto que homenageia "A máscara da morte rubra", sendo a única ficção científica em todo o volume e conta o que acontece ao que resta da civilização, refugiada na Antártida depois do fim do mundo. O conto que tem a melhor primeira frase da antologia: "No equador, os oceanos ferviam". Muito inspirador.
"Inferno no circo" é um conto simples e efetivo, dentro do que se pode esperar de uma homenagem a Poe, com a bem mais que emocionante estreia no circo do orangotango de "Os crimes da Rua Morgue".  O autor, Jocir Prandi, é gaúcho de Vacaria e participou de várias antologias recentes. Seu primeiro livro é Inspiração à beira do abismo (Evangraf).
"Louco, eu?", de Ademir Pascale, baseia-se no conto "O coração delator" e conta a história de um psicopata que acredita ver demônios e falar com animais. Apesar de previsível, é um trabalho bem redigido e tem um momento brilhante, quando o protagonista dialoga com fantasmas dos autores dos livros que lê.
Fecha a antologia o texto "Memórias póstumas de Edgar Allan Poe", de Roseli Princhatto Arruda Nuzzi, que não é exatamente um conto, mas uma biografia romanceada na qual um Poe desencarnado narra uma série de fatos de sua vida que podem ou não ser verdade, pois a credibilidade foi comprometida pela mistura com ficção.
Os demais trabalhos seguem uma narrativa algo recorrente, centrada na primeira pessoa e imitando, às vezes bem, o estilo de Poe, mas que resulta em histórias previsíveis e de pouco brilho próprio.
O livro é bem editado, com erros mínimos de revisão, e são homenageados vários outros contos do "Poeta Louco". É justamente esse diálogo com a obra maiúscula de Poe que "contamina" a antologia dando-lhe contornos nobres e clássicos.
Para quem conhece o trabalho de Edgar Allan Poe, a leitura de Poe 200 anos é bem divertida. Contudo, quem não conhece deve ler os textos originais de Poe antes de embarcar nesta verdadeira tietagem literária, senão a maior parte da graça será perdida.
Cesar Silva

Lua negra, Laura Elias

Lua negra, Laura Elias. 190 páginas. Capa: Altair Sampaio. Mythos Editora, São Paulo, 2010.

Lua negra é o segundo volume da série Red Kings, sequência de Crepúsculo vermelho, publicado em 2009 pela mesma editora. Mas a leitura deste volume prescinde daquele e o leitor não terá dificuldade em acompanhar a história sem ter lido o primeiro volume, como foi o meu caso.
A protagonista da série é Megan Grey, jovem de 17 anos de idade que mantém um relacionamento emocionalmente intenso com Bill Stone, líder da banda de sucesso The Red Kings of Dark Paradise e, não por acaso, também um descendente da linhagem dos rovdyr, raça inumana de caçadores de vampiros que sustentam uma guerra surda com poderosas e tradicionais famílias de sugadores. Envolvida na disputa, Megan foi mortalmente ferida no primeiro romance da série e sobreviveu graças ao sangue de Bill que lhe foi administrado.
A história de Lua negra inicia durante um inverno especialmente severo, que tornou branca a paisagem da pequena cidade de Red Leaves, onde Megan vive com sua família, enquanto Bill está fora em excursão com sua banda. Mas o rigor desse inverno não é natural: é decorrente do despertar de forças antigas e poderosas. Um exército feroz de monstros do Ártico está marchando para o sul, disposto a aniquilar tudo o que encontrar pelo caminho, e a onda de baixas temperaturas e tempestades violentíssimas é apenas seu cartão de visitas.
O risco de aniquilamento une vampiros e rovdyrs contra o inimigo comum, numa batalha sangrenta nos campos nevados de Red Leaves. Segredos de família, intrigas e fantasmas do passado vão tornar a relação de Megan e Bill uma montanha russa de acontecimentos trágicos, com muita ação e violência. Megan ainda enfrentará o despertar de estranhos poderes herdados do sangue rovdyr de Bill, que ela não entende e nem controla.
Laura Elias tem uma narrativa ágil, fluida e agradável, apesar do tema mórbido. A linha principal da história acompanha o ponto de vista da Megan mas salta, eventualmente, para plots paralelos. Há uma grande quantidade de personagens coadjuvantes orbitando a relação de Megan e Bill, que os mantém quase sempre afastados e levam a impetuosa Megan a meter-se em enrascadas mortais para ficar perto de seu amado.
Nem todos os mistérios apresentados na trama são explicados, uma vez que Lua negra não é uma conclusão e a história deve ter pelo menos mais um volume, provisoriamente intitulado Luz na noite, sem data de publicação definida*.
Laura Elias é fluminense de Barra Mansa, atualmente radicada em Santo André, no ABC paulista. Apesar de pouco conhecida, é uma autora experiente, com mais de 35 livros publicados sob diversos psedônimos, tais como Loreley Mackenzie, Sophie H. Jones, Suzy Stone, Laura Brightfield. A maior parte de sua obra é formada por romances de banca realistas, mas a autora também navega no fantástico – como nos livros da série Red Kings – e no infanto-juvenil, como no livro Tristin Mckey e o mistério do dragão dourado, assinado como Elizabeth Carrol, publicado em 2007 também pela Mythos Books. Sua produtividade autoral é invejável, e ela afirma com tranquilidade que consegue produzir um romance do porte de Lua negra em poucas semanas, pois esta é uma exigência comum no mercado em que ela atua.
A autora revelou, numa de suas muitas palestras e entrevistas, que o título e os nomes dos personagens de Crepúsculo vermelho foram definidos pelo editor, originalmente eram outros. Isso porque a Mythos não sabia se um romance de horror iria emplacar entre o seu público e Laura nunca havia trabalhado no gênero, embora sempre tivesse gostado dele. Quando Crepúsculo vermelho finalmente foi distribuído, em 2009, tornou-se o seu livro mais vendido, o que lhe deu maior liberdade em Lua negra.
Os livros da coleção Mythos Books seguem o padrão dos romances de banca tradicionais, como os das populares coleções Harlequim, Bianca e Sabrina, com capas envernizadas em papel mole e miolo em papel jornal impresso em rotativa. A produção é modesta, mas caprichada, com boa apresentação e revisão, e um preço ao consumidor bastante acessível.
Laura Elias é pioneira nos romances fantásticos brasileiros dirigidos às mulheres e distribuídos em banca. Antes dela, tivemos apenas livros de pequeno porte dirigidos aos leitores masculinos, como os da Coleção Mini Bolso, da Editora Opera Graphica, da Coleção Império, publicada pela Editora MC, e da série Pocket Suspense, da Editora Fittipaldi. O sucesso do trabalho da Laura Elias, somado ao expressivo crescimento de interesse dos leitores por textos do gênero, pode anunciar o início de um novo e promissor mercado para os autores nacionais de fc&f.
Cesar Silva

* O romance foi publicado em 2013 pela Editora Literata sob o título de A rainha vermelha.

Uma princesa de Marte, Edgar Rice Burroughs

Uma princesa de Marte (A princess of Mars), Edgar Rice Burroughs. 270 páginas. Tradução de Ricardo Giassetti. Capa: Retina 78. Editora Aleph, São Paulo, 2010.

O mercado editorial brasileiro tem um déficit gigantesco em relação a fc&f de todas as épocas. Os motivos disso são inúmeros e passam pela falta de investimento, falta de educação, falta de critérios, falta de competência, entre outros. Ainda hoje, muitos editores continuam a pautar os títulos que pretendem publicar a partir de apelos acessórios, como por exemplo se o dito cujo vai ganhar alguma adaptação no cinema ou se tornar uma série de tv, como se os leitores só se interessassem por livros com esses vínculos, o que não é verdade.
Isso fica muito evidente quando se fala em Edgard Rice Burroughs (1875-1950), escritor americano que construiu um grande império de entretenimento graças a uma resma de séries de aventuras que escreveu na primeira metade do século 20. No Brasil, a única coisa que vem a mente quando se fala no autor é a série Tarzan dos macacos, personagem de grande sucesso que teve boa atenção dos editores por algum tempo – hoje está imerecidamente esquecido, uma vez que já não ocupa mais na mídia o espaço de outros tempos.
O caso de Burroughs assemelha-se a de um seu contemporâneo, o também americano Robert E. Howard, conhecido como o autor de Conan, o bárbaro que, além dele, tem muitos outros personagens fabulosos que não receberam tradução no Brasil*. Da mesma forma, Burrougs não teve em sua carreira unicamente Tarzan. Ele foi um autor produtivo, que escreveu outros seriados interessantes e bem sucedidos, como Carson de Vênus, Pellucidar e John Carter de Marte que, inacreditavelmente, continuam inéditos em língua portuguesa. Ou estavam.
Pelo menos um desses personagens chegou enfim ao Brasil, traduzido pela editora Aleph. Uma princesa de Marte é o primeiro de uma série de onze livros da franquia Barsoom, publicado primeiramente em 1912 na forma de um seriado na revista All-Story Magazine. Trata-se de uma aventura que é, de muitas formas, o protótipo da pulp fiction que tanto sucesso fez em seu tempo. Trata-se de uma ficção científica com elementos de fantasia, chamada pelos teóricos do gênero como Ficção Planetária, pois toda a história gira em torno da descrição de um planeta alienígena, no caso Marte que, desde as declarações do astrônomo Percival Lowel, em 1895, sobre a possível habitabilidade do planeta vermelho, tornou-se alvo de interesse popular.
O romance foi influente em sua época e muitos escritores de ficção científica já declararam ter sido inspirados por ele. E não é por menos. A história é fabulosa, repleta de sense of wonder e até hoje impressiona.
Uma princesa de Marte conta o que acontece com John Carter, veterano da guerra civil americana que, depois de resgatar o corpo de um companheiro atacado por índios selvagens, abriga-se em uma caverna que é tabu entre os indígenas. Ali ele é alcançado por um gás que o adormece profundamente. Quando desperta, não está mais na caverna, mas num lugar absolutamente estranho, nu e incapaz de andar, próximo a uma estrutura repleta de ovos que ele logo vai descobrir, de uma forma bastante desagradável, ser uma incubadora dos tharks, raça de  grandes seres verdes de quatro braços. Escravizado pelos tharks, Carter aprende sua língua e os impressiona com sua coragem e força desproporcional, uma vez que a gravidade do lugar é muito menor que a da Terra. Adquire o estatus de guerreiro depois de matar um deles e, apesar de ser um prisioneiro, ganha alguma autonomia dentro da tribo, onde faz amigos como o guerreiro Tars Tarkas e a fêmea thark Zola, assim como muitos inimigos formidáveis.
Quando os tharks atacam uma frota de grandes carros a vela, Carter descobre que em Barsoom, a forma como os tharks chamam seu planeta, é habitado também por uma raça humana. Eles capturam Dejah Toris, princesa de Helium, um reino fortificado que está envolvido numa guerra terrível contra o reino de Zodanga.
Os habitantes de Barsoon, que Carter vai descobrir ser o planeta Marte, vivem em guerra constante, atacando-se mutuamente. A biosfera de Barsoon sofre um processo acentuado de decadência, os oceanos e rios secaram e a atmosfera só é mantida graças a uma usina de processamento de oxigênio que existe há tanto tempo que sua tecnologia não é mais conhecida pelos barsoonianos.
Além de homens e tharks, Barsoon é habitado por uma série de animais interessantíssimos, alguns muito perigosos, outros assustadores, como o pequeno Woola, uma espécie de cão de múltiplas pernas que se afeiçoa a Carter, o mais fiel amigo que ele faz em Barsoon.
De combate em combate, Carter conquista o coração da bela Dejah Thoris, ajuda Helium a derrotar seus inimigos e até salva o planeta da destruição iminente, mas acaba voltando à caverna na Terra, muitos anos depois de sua partida – o tempo em Barsoon progride mais lentamente que aqui - onde passa o restante de seus dias.
A aventura é relatada na forma de um diário, escrito pelo próprio John Carter nos anos em que passou na Terra e deixado como herança a um sobrinho que o revela ao leitor conforme o recebeu, após o desaparecimento do tio. O romance não especifica se Carter retornou à Barsoon, mas uma vez que este é apenas o primeiro livro de uma série, é bastante provável que a resposta seja positiva.
Contudo, não há nenhuma garantia que os demais livros da série Barsoon – ou das outras séries de Burroughs – sejam publicados no Brasil**. Ficamos um pouco menos desinformados do que antes, porém com apenas este único exemplo da divertida ficção científica deste precursor importante do gênero.
E não dá para deixar de lembrar que Uma princesa de Marte só chegou ao Brasil porque, em 2009, os estúdios Disney anunciaram a produção um filme com a história – lançado em 2012 –, além do cineasta James Cameron ter afirmado que esse romance foi parte da inspiração para fazer o seu blockbuster Avatar.
Ou seja, quanto mais as coisas mudam, mais continuam iguais.
Cesar Silva

*Em 2014, finalmente saíram no Brasil dois livros inéditos de Howard com outros personagens: Salomon Kane: A saga completa, e Rosto de caveira, Os filhos da noite e outros contos (Skull-face; The children of night and other tales), respectivamente, pelas editoras Évora e Martin Claret.
** A obra de Burroughs ainda não está efetivamente em domínio público, motivo pelo qual a editora brasileira descontinuou a série em 2012 depois de publicar mais dois títulos: Os deuses de Marte (The gods of Mars), e O comandante de Marte (The warlords of Mars).

Os Jacarés Mutantes / Alligators – Crocodilos em Fúria (Ragin´ Cajun Redneck Gators / Alligator Alley, EUA, 2013)


Exibido na TV a cabo “SyFy” como “Os Jacarés Mutantes”, também é conhecido por aqui como “Alligators – Crocodilos em Fúria”. É uma produção americana de 2013 que tem dois títulos por lá: “Ragin´ Cajun Redneck Gators” e “Alligator Alley”. Ou seja, com tantos títulos, torna-se evidente a imensa dificuldade em se fazer um trabalho de catalogação dessas tranqueiras.
Dirigido por Griff Furst (de “Pânico no Lago 3” e outras porcarias similares), a história mostra uma jovem estudante, Avery (Jordan Hinson), que retorna da faculdade para visitar a família em sua pequena cidade natal, no Estado da Louisiana, que fica ao lado de lagos e pântanos onde vive uma comunidade colossal de jacarés. Em seu retorno ela terá que enfrentar a histórica rivalidade entre sua família Doucette e os vizinhos Robichaud, além de administrar a dificuldade em namorar um rapaz da família inimiga, Dathan (John Chriss), numa típica história “Romeu e Julieta”. E principalmente, ela terá que lutar contra o ataque feroz de jacarés mutantes assassinos devoradores de homens. Os enormes bichos foram contaminados por uma estranha “mistura azul” tóxica despejada regularmente nas águas dos lagos que cercam a região, transformando-os em criaturas enormes e violentas. E, além da ameaça natural desses animais rastejantes, suas mordidas infectam as vítimas com uma contaminação misteriosa que transforma as pessoas em jacarés.
Os americanos gostam muito de fazer filmes bizarros e picaretas com tubarões assassinos. São tantas porcarias que é árdua a tarefa de listar e acompanhar. Mas, eles também se divertem produzindo filmes bagaceiros com outros animais como os jacarés, que são os protagonistas dessa tranqueira ruim ao extremo, com um roteiro absurdo e CGI vagabundo.
E para quem tiver a corajosa intenção de ver esse filme um dia, aviso que abaixo seguem alguns “spoilers” inofensivos, que provavelmente não devem ser tão comprometedores para atrapalhar a diversão.
O filme é tão tosco que algumas cenas conseguem até ficar divertidas e guardadas na memória por algum tempo para serem citadas em conversas sobre cinema bagaceiro de ficção científica e horror. Por exemplo, em determinado momento, os patriarcas das duas famílias inimigas finalmente encontram a oportunidade de fazerem um duelo mortal, para encerrarem o assunto da inimizade histórica. A questão bizarra é que um deles, o pai da mocinha estudante que volta para casa, se transformou num imenso jacaré depois de ser mordido por um destes bichos contaminados. Os dois ficam de frente um para o outro, no melhor estilo dos duelos de pistoleiros dos filmes de western, e ambos sucumbem ao mesmo tempo, com o jacaré acertando o rival com o disparo de um potente espinho localizado na cauda, e o outro homem mata o animal com um tiro de arma de fogo.
Continuando as bizarrices, ainda tem uma cena onde um grupo de pessoas está encurralado por um crocodilo, e um deles tem a ideia de arremessar o cachorro de estimação da família na boca do jacaré, para ganharem tempo e poderem fugir. Ninguém imaginaria o destino do pobre cachorrinho.
“Os Jacarés Mutantes” é apenas mais um daqueles filmes ruins e patéticos demais, perdido na imensidão de produções similares, e que um dia no futuro poderá até ser cultuado justamente por isso.   
(RR - Juvenatrix - 30/05/15)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O Vampiro de Black Water / O Assassino das Sombras (The Black Water Vampire, EUA, 2014)


Também conhecido no Brasil como “O Assassino das Sombras”, o filme foi exibido na TV a cabo “SyFy” como “O Vampiro de Black Water”. Escrito e dirigido por Evan Tramel, em seu primeiro trabalho, está situado dentro do sub-gênero “found footage”, com muita influência de “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) e elementos de “O Bebê de Rosemary” (Rosemary´s Baby, 1968) no desfecho.
Uma equipe de filmagem de documentários está trabalhando no misterioso caso de assassinatos em série de mulheres nas florestas geladas de Black Water, no Estado americano de Washington. As vítimas são encontradas sem sangue e com uma enorme mordida no pescoço. A polícia encerra o caso ao prender um morador da região, Raymond Banks (Bill Oberst Jr.), que é condenado à morte de maneira suspeita. A equipe de documentaristas é formada por Danielle Mason (Danielle Lozeau), Andrea Adams (Andrea Monier), o cinegrafista Anthony Russell (Anthony Fanelli) e o técnico de som Robin Allen (Robin Steffen). O objetivo é investigar os assassinatos, entrevistando os moradores e visitando os locais onde foram encontradas as vítimas. Porém, ao ficarem perdidos na floresta e sendo ameaçados por estranhos ruídos noturnos, eles terão que lutar por suas vidas ao serem atacados por uma violenta criatura de dentes pontudos.
Este é um daqueles típicos filmes do cinema bagaceiro de horror do século 21. Ruim e repleto de clichês e ideias de outros filmes, e que talvez um dia no futuro possa até ser cultuado justamente por ser uma tranqueira que não agrega grande coisa ao gênero, mas que até poderia divertir. Assim como fazemos com os filmes bagaceiros de roteiros absurdos e efeitos toscos produzidos dezenas de anos atrás, principalmente as preciosas tranqueiras dos anos 50 e 60 do século passado, podendo até se estender à década de 80.
O estilo “found footage” já está saturado ao extremo, mas ainda continua chamando a atenção dos realizadores. “O Vampiro de Black Water” não apresenta nada que já não tenha sido explorado numa infinidade de filmes anteriores, inclusive tem uma imensa similaridade com o já citado “A Bruxa de Blair”. A opção do diretor em mostrar o monstro em vez de apenas sugerir sua presença ameaçadora, com a artificialidade do CGI, também contribui para situá-lo num imenso grupo de filmes apenas comuns. E pelo título, é plenamente óbvio saber com antecedência a identidade da criatura. É para assistir, tentar não dormir, talvez até se divertir um pouco, e esquecer logo em seguida.
(Juvenatrix - 26/05/15)

domingo, 24 de maio de 2015

Guerra justa, Carlos Orsi

Guerra justa, Carlos Orsi. 150 páginas. Capa: Ericksama. Editora Draco, São Paulo, 2010.

Um dia, no futuro imaginado por Carlos Orsi, um grande meteoro vai se abater sobre a Terra Santa, transformando-a em pó e deixando uma enorme cratera onde antes havia as bases mais sagradas das religiões ocidentais, abalando a fé ao ponto de eliminar do mundo todas a religiões conhecidas. No vácuo desse cataclisma, emerge um novo profeta – o Pontífice – que funda uma religião apoiada na tecnologia de ponta, cujo santuário fica em órbita da Terra, numa estação espacial.
Essa nova teologia, chamada de Quinta Revelação, ganha poder no mundo graças a capacidade do Pontífice para prever o futuro. Sua igreja tornou-se, rapidamente, um governo mundial todo poderoso, um estado policial teocrata que literalmente controla a vida de todos através de implantes de alta tecnologia, decidindo os rumos da política internacional e determinando quem vive ou morre nas inevitáveis tragédias naturais.
Mas há pessoas que não concordam com o predomínio dessa força política e movem um plano secreto para desacreditá-la. Uma delas é Rebeca, infiltrada na estação espacial da Quinta Revelação. Ela rouba dados importantes do santuário e é morta durante a fuga, mas não antes de encaminhar esses dados ao seu destino, uma inteligência artificial chamada Ma Go que, com essa informação, adquire a mesma capacidade do Pontífice para antecipar acontecimentos futuros e estabelece um outro pólo de poder para confrontar a hegemonia da Quinta Revelação.
Rebeca tem uma irmã, Rafaela, pesquisadora de implantes de processamento a serviço da Quinta Revelação, que é abordada pelo grupo de dissidentes a qual sua irmã fazia parte. Ela é levada à Ma Go e lá confronta toda a verdade por trás da doutrina da Quinta Revelação e dos supostos poderes de seu lider espiritual. Ma Go pretende usar Rafaela para presentear o Pontífice com um poder ainda mais refinado, que pode colocar a igreja da Quinta Revelação num caminho menos impiedoso.
Carlos Orsi é um dos autores mais interessantes da Segunda Onda de Ficção Científica Brasileira. Seus contos estão entre os melhores que essa geração produziu, alguns deles publicados nas suas coletâneas Medo, mistério e morte (Didática Paulista, 1996) e Tempos de fúria (Novo Século, 2006). Guerra justa é seu primeiro romance, embora seja bastante curto. Pelo menos trinta de suas 150 páginas não têm texto, pois foram usadas como respiro entre os capítulos. Pelos padrões americanos, trata-se de uma novela, portanto. Mas esse tratamento gráfico deu ao romance uma leveza visual incomum e muito personalizada, usando inclusive o interessante recurso de páginas em negro, com texto vazado em branco.
Inteligências artificiais, pós-humanidade, manipulação da opinião pública e da informação a serviço de uma religião hegemônica revelam uma visão pessimista do autor com relação às religiões, que nada teriam a oferecer ao homem além de dor e sofrimento. Entrevistado no Anuário brasileiro de literatura fantástica - 2005, Orsi afirmou que acredita que, um dia, tudo o que existe será explicado pela ciência: Guerra justa é assim o seu libelo contra o misticismo religioso.
Apesar de ter apontado suas baterias às religiões, Orsi acabou acertando em outro alvo, qual seja, a absoluta incapacidade do ser humano para fazer o bem, pois nesse futuro distópico e violento, quem redime a humanidade é a inteligência artificial Ma Go. Orsi cria, assim, sua própria versão de Deus.
Contudo, algumas coisas não convencem no enredo, a começar da premissa algo exagerada de que todas as religiões desabariam caso as cidades sagradas dos cristãos, judeus e muçulmanos fossem destruídas por uma tragédia cósmica. Afinal, estas não são as únicas religiões do mundo e tanto o judaismo quanto o cristianismo já sobreviveram, em outras épocas, a destruição de seus templos mais sagrados.
O autor demostra habilidade ao emular o estilo de autores como Willian Gibson e Bruce Sterling – os mais populares fundadores do movimento cyberpunk – como, por exemplo, a forma episódica, com uma porção de personagens cujas histórias vinculam-se frouxamente, e uma espécie de globalização narrativa que lança a trama para os quatro cantos do mundo e até para fora dele, num mosaico expressionista em que a sensação vale mais que o enredo. A única personagem mais elaborada é Rafaela, que ancora levemente a trama mas não chega a causar identificação com o leitor. Seu destino, ainda que importante para o desfecho da história, é de somenos relevância damática.
Ainda que não esteja entre seus trabalhos mais expressivos, Guerra justa é um texto autoral interessante porque Orsi expõe nele algo de sua íntima convicção filosófica, indo além do simples exercício estético literário ou do entretenimento descomprometido que geralmente caracteriza a ficção científica brasileira. Um pouco de polêmica só pode fazer bem a um gênero que tem o talento histórico de discutir temas difíceis.
— Cesar Silva

sábado, 23 de maio de 2015

O Homem Que Enganou a Morte (The Man Who Could Cheat Death, Inglaterra, 1959)


Filme de Horror com elementos de Ficção Científica produzido pelo cultuado estúdio inglês “Hammer”. A direção é de Terence Fisher, o principal cineasta da produtora com grande quantidade de trabalhos, o roteiro é de Jimmy Sangster (baseado em peça de Barré Lyndon), autor das histórias de outras preciosidades como “O Vampiro da Noite” (1958) e “A Múmia” (1959), e com o lendário Christopher Lee, um dos grandes ícones do cinema de horror em todos os tempos.
O Homem Que Enganou a Morte” é ambientado na Paris de 1890, onde o médico Dr. Georges Bonnet (o alemão Anton Diffring, de “Fahrenheit 451”, 1966), que nas horas livres faz esculturas de bustos de belas mulheres servindo de modelo, carrega um mistério em sua longa vida de 104 anos, mesmo aparentando menos de 40. Ele descobriu como “enganar a morte” junto com outro médico famoso, Dr. Ludwigg Weiss (Arnold Marle), através de cirurgias em intervalos regulares de tempo, com a substituição das glândulas paratireóides. Porém, o “cientista louco” precisa ingerir um líquido especial, no melhor estilo de “O Médico e o Monstro”, em momentos críticos quando ocorrem atrasos na realização das cirurgias, para impedir um desequilíbrio mental que o torna um assassino frio e cruel.
Apaixonado pela bela Janine Du Bois (Hazel Court, de “A Maldição de Frankenstein”, 1957), o médico centenário precisa tomar uma decisão, continuar prolongando a vida com cirurgias, enfrentando a oposição do velho companheiro Dr. Weiss, que desaprova sua conduta em matar pessoas inocentes para usar suas glândulas, sendo obrigado também a se separar de Janine, que envelhecerá normalmente. Ou eliminar todos aqueles que cruzam seu caminho obrigando sua amada também a ser eterno como ele, enfrentando um rival na figura do cirurgião Dr. Pierre Gerrard (Christopher Lee), que também se interessa por Janine. Além de fugir da investigação policial liderada pelo Inspetor Legris (Francis De Wolff), que desconfia de suas atitudes suspeitas.
Mais uma divertida produção da “Hammer”, com menos ação e mais diálogos, numa história interessante de um médico enfrentando o drama de desafiar as leis da natureza, descobrindo o segredo da vida e saúde eterna, mas que não impede a inevitável ocorrência de consequências desconfortáveis, como não poder formar uma família, vivendo eternamente em solidão. E quando a dificuldade de se conseguir glândulas de cadáveres torna-se progressivamente pior, ele encontra a alternativa em retirar de pessoas vivas, com os assassinatos despertando a atenção de investigação policial e a desaprovação do cirurgião Dr. Weiss,  que sempre esteve ao seu lado mantendo o segredo.
Entre as curiosidades, o filme é considerado uma versão do americano “O Homem Que Desafiou a Morte” (The Man in Half Moon Street, 1945). E o igualmente ícone do cinema de Horror Peter Cushing estava escalado inicialmente para fazer o papel do Dr. Bonnet, mas desistiu alegando problemas de saúde.  
(Juvenatrix - 23/05/15)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O Monstro do Himalaia (The Abominable Snowman, Inglaterra, 1957)


Um filme da década de 50 do século passado, da produtora inglesa “Hammer”, com fotografia em preto e branco, estrelado por Peter Cushing e com uma história explorando o lendário “abominável homem das neves”, assunto que inspirou a realização de vários filmes especulando sua misteriosa existência. Esse conjunto de fatores é mais do que suficiente para a garantia de diversão em mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro.
O Monstro do Himalaia” tem direção de Val Guest, o mesmo de “O Dia Em Que a Terra se Incendiou” (61) e “Quando os Dinossauros Dominavam a Terra” (70), e roteiro de Nigel Kneale, o criador do universo ficcional de “The Quatermass Experiment”. É o primeiro de muitos filmes do “Cavalheiro do Horror” Peter Cushing (1913 / 1994) para o cultuado estúdio “Hammer”. Ele que ficou eternizado no cinema fantástico por sua imensa contribuição ao gênero com participações em dezenas de filmes de horror e ficção científica, interpretando papéis marcantes e se especializando em “caçador de vampiros” e “cientistas loucos”.
O cientista botânico Dr. John Rollason (Cushing) está hospedado num monastério situado na base das montanhas geladas do Himalaia, uma região inóspita onde se encontram as montanhas mais altas do mundo, abrangendo lugares como o Tibete (na China) e o Nepal. Junto com sua esposa Helen (Maureen Connell) e o assistente Sr. Peter Fox (Richard Wattis), eles estudam ervas raras que sobrevivem nesse ambiente hostil de frio intenso. Porém, o Dr. Rollason também tem outro objetivo maior, que é fazer parte de uma expedição rumo ao topo da montanha para tentar encontrar o lendário “Yeti”, ou “homem das neves”, uma criatura primitiva enorme com pegadas de 40 cm e altura de 3 m, que poderia ser o elo evolutivo entre o macaco e o homem, e cuja lenda de sua existência fascina o mundo, tendo um equivalente paralelo nas florestas dos Estados Unidos, chamado de “Sasquatch” ou “Pé Grande”.
A expedição é liderada pelo explorador Tom Friend (Forrest Tucker), e fazem parte outros três homens, o caçador Edward Shelley (Robert Brown), o fotógrafo Andrew McNee (Michael Brill) e o guia local Kusang (Wolfe Morris). Mesmo com a oposição da esposa Helen, que teme os perigos da empreitada, e do mestre espiritual do monastério, Lhama (Arnold Marle), que tem motivos misteriosos para manter os exploradores afastados da região, o Dr. Rollason decide acompanhar a expedição. Descobrindo mais tarde as reais intenções comerciais de Tom Friend em contraste com seus objetivos científicos, e desvendando o mistério que envolve os imensos antropóides que se escondem nas mais remotas e geladas regiões do planeta.
A narrativa é lenta em boa parte do filme, mas em compensação temos a bem sucedida intenção dos realizadores em manter em segredo as enormes criaturas peludas, expondo-as sutilmente apenas no desfecho, instigando a imaginação do espectador. Mesmo que tal intenção também possa ser algo inevitável devido às deficiências orçamentárias da produção, que não permitiria uma grande exposição do “monstro do Himalaia”. Também é bastante louvável o roteiro especular que as misteriosas criaturas que são o foco da expedição, não sejam necessariamente primitivas, e que poderiam ter evoluído em paralelo com a raça humana, desenvolvendo inteligência e preferindo viver em isolamento com receio do poder de autodestruição da humanidade.   
O filme é uma refilmagem de “The Creature” (1955), episódio de TV da série “BBC Sunday-Night Theatre”, também com Peter Cushing fazendo o mesmo papel do Dr. John Rollason. Além dele, outros dois atores reprisaram seus personagens, Wolfe Morris como o guia da expedição e Arnold Marle como o líder espiritual do mosteiro.
Em 1954 foi lançado “O Terror do Himalaia” (The Snow Creature), que é considerado o primeiro filme a abordar a lenda do “Yeti”. Produzindo nos Estados Unidos com baixo orçamento e em preto e branco, tem direção de W. Lee Wilder.
“O Monstro do Himalaia” ainda faz parte da fase em preto e branco da “Hammer”. Porém, no mesmo ano de 1957 já começaria a produção dos filmes em cores como “A Maldição de Frankenstein”, também com Peter Cushing no papel do “cientista louco”, só que dessa vez ao lado de Christopher Lee como o monstro, outro ator que se transformou em ícone no gênero e que fez inúmeras parcerias com Cushing. Os filmes coloridos da “Hammer” ajudaram o estúdio a torna-se cultuado, ao mostrar o vermelho vivo do sangue e revitalizando os monstros clássicos da produtora americana “Universal”.
O ator americano Forrest Tucker (1919 / 1986), que tem um dos papéis principais no filme, tanto que seu nome aparece em destaque nos cartazes de divulgação, é mais conhecido pelos inúmeros filmes de western. Mas, ele também participou de outros dois filmes ingleses bagaceiros de ficção científica e horror, “The Trollenberg Terror” e “O Monstro Cósmico” (The Strange World of Planet X), ambos de 1958.
Curiosidades:
* Na divertida animação “Monstros S.A.” (2001), cuja história apresenta monstros diversos que vivem num universo paralelo interligado ao nosso através de portas dimensionais, o “abominável homem das neves” é um monstro banido desse mundo oculto. Ele foi obrigado a viver no nosso, isolado nas terras geladas do Himalaia e longe da humanidade. E, inevitavelmente ele despertaria uma lenda sobre sua misteriosa existência.
* “Quando a humanidade lançar a bomba atômica, também nossos descendentes viverão no gelo”. Essas palavras do explorador Tom Friend evidenciam o medo naquela época conturbada da catástrofe nuclear, um temor fortemente presente durante a paranoia da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, sendo um assunto abordado à exaustão numa infinidade de filmes, principalmente nas décadas de 1950 e 60.
* O roteiro de “O Monstro do Himalaia” procurou especular o “abominável homem das neves” como um ser inteligente e não primitivo. Porém, curiosamente, apenas dois anos depois do lançamento do filme, em 2 de Fevereiro de 1959 ocorreu um massacre de nove estudantes esquiadores que viajavam pelo Norte dos Montes Urais, uma cordilheira de montanhas geladas e inóspitas na Rússia, região que divide a Europa da Ásia. Os cadáveres dos jovens foram encontrados mutilados e semi nus, e a autoria dos assassinatos tornou-se um grande mistério conhecido como “Incidente do Passo Dyatlov”, que era o nome do líder da expedição de esquiadores mortos. Existe também a especulação sobre uma investigação da polícia secreta russa KGB, escondendo informações que ajudariam a desvendar o mistério. Para muitos jornalistas investigativos e habitantes de aldeias locais, o responsável pelas mortes sangrentas é um “Yeti”, demonstrando que a criatura seria primitiva e violenta.
(Juvenatrix – 20/05 e 17/07/15)

A Invasão, José Antonio Severo

A Invasão, José Antonio Severo. 225 páginas. Capa de Uberti. Editora L&PM, Porto Alegre, RS, 1979.  

 A década de 1970 foi pródiga na publicação de livros de ficção distópica, para usar o termo empregado pela brasilianista Mary Elisabeth Ginway, em seu livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (2005). Histórias do Brasil no futuro de um ponto de vista político, antiutópico, a maior parte delas através da fábula ou da metáfora. Era uma ficção engajada politicamente, claro, numa tentativa importante de crítica e conscientização sobre os destinos possíveis do país, sob o regime militar.
Dentro desta linha tivemos livros como, por exemplo, Adaptação do Funcionário Ruam, de Mauro Chaves (1975) – despersonalização do indivíduo –, O Fruto do Vosso Ventre (1976), de Herberto Salles – crítica à burocracia autoritária – e Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), uma distopia ecológica sob uma ditadura que nunca terminou.
Se o tom destes livros todos é de desalento e pessimismo quanto ao futuro do país, o romance de estréia do jornalista gaúcho José Antonio Severo vai, aparentemente, por outra linha.[1] Escrito em 1979, quando estávamos no chamado processo de “abertura lenta, gradual e segura”, na definição do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), que comandou esta liberalização, o Brasil é assinalado como uma “potência emergente”: um país que aprofundou a sua industrialização e tornou-se temido em termos militares por seus vizinhos. Ora, estas eram as duas principais bandeiras dos militares-governantes – após o combate sem tréguas aos comunistas no início dos anos 70 –, que este romance contempla.
De fato, ao final dos anos 1970 o Brasil tinha estas duas características. Estava entre as dez principais economias do mundo e havia desenvolvido uma indústria bélica importante, que colocou o país como um dos principais exportadores do setor no mundo. Havia também se distanciado dos Estados Unidos, ao procurar uma relação de aliado especial não reconhecida, ao enfrentar uma crítica severa para afrouxar seu desrespeito aos direitos humanos e, sobretudo, assinado um acordo de cooperação nuclear com a Alemanha Ocidental, que desagradara também aos seus vizinhos sul-americanos.
Todo este contexto transparece em A Invasão, que retrata a aventura militar brasileira em invadir a Angola, um país do sul da África sob ocupação de tropas cubanas e de outros países socialistas. Após sua independência de Portugal em 1974, o país viveu sob guerra civil entre os líderes da libertação, de três tendências opostas, um deles a favor do comunismo e dois deles apoiados pelos norte-americanos e sul-africanos. No romance quem está no poder é um presidente comunista, daí a presença de apoio de tropas de países com a mesma orientação ideológica. Mas os angolanos estão perdendo o controle do país para os cubanos, com um expressivo contingente militar na luta contra as forças pró-Ocidente. Por isso eles propõem que o Brasil invada o país e expulse os cubanos. Em troca, os angolanos prometem relações econômicas preferências, a mais importante delas os diamantes e petróleo que o país possui. Os angolanos apelam também para uma “solidariedade histórica cultural”, já que os dois países falam a mesma língua e o Brasil tem uma presença expressiva de descendentes africanos em sua população. Se nos ativermos apenas a estes argumentos eles podem soar como insuficientes para justificar uma empreitada arriscada como esta mas, de fato, o Brasil durante os anos 70 tornou-se uma voz de liderança da África em vários fóruns internacionais, em defesa de um projeto de desenvolvimento econômico a favor dos países subdesenvolvidos.
Acontece que o governo de Angola no romance é comunista, presidido pelo presidente Agostinho Neto – que morreria no mundo real em setembro de 1979. Acho que o leitor já intuiu estas perguntas: 1) como que um governo conservador e anticomunista como o brasileiro vai ajudar um país governado por forças pró-Moscou? Seria mais lógico que apoiasse as guerrilhas de direita, que lutavam pelo domínio de Angola. 2) ao assumir que está perdendo o controle sobre seus aliados ideológicos, o governo angolano não estaria justificando a guerrilha de direita que o combate? Talvez só mesmo o autor possa explicar o motivo de optar por uma aliança tão irreal, mesmo tendo a chance de construir a história sob uma base mais sólida.
Inverossimilhanças à parte, o leitor pode encontrar bons momentos pelo menos até a metade do livro, quando as negociações entre os dois governos são feitas, os preparativos dos militares são mostrados, os planos de invasão, o recrutamento e a logística da ação são expostos com competência e realismo. Percebe-se que Severo tem intimidade com o assunto, pois na nota biográfica ao final do livro informa-se que ele fez a cobertura para o jornal Gazeta Mercantil, de São Paulo, da sucessão do presidente Geisel e tornou-se próximo de diplomatas e militares graúdos do regime. Talvez esta seja mais uma sinalização de que esse romance de ficção científica política sobre o período da ditadura tenha um viés de certo apoio ao regime. Será? Vejamos.
A invasão brasileira acontece em 1986, e o país ainda se encontra sob o domínio dos militares. De uma forma curiosa, o autor elabora uma coalizão de poder em que estão presentes os militares e os cinco principais partidos políticos do país. Líderes democráticos nossa história, como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Pedro Simon surgem confabulando com os militares sobre a necessidade de manter o equilíbrio de forças para manter a democracia no país. Como? Esta falta de clareza conceitual sobre o que é uma ditadura ou uma democracia talvez tenha ocorrido ao autor por causa do contexto incerto do regime militar brasileiro quando ele escreveu o romance. Mas isso incomoda na busca por uma especulação mais refinada sobre o momento político em que a história é narrada.
O Brasil invade Angola com toda a sua força. Mas enfrenta uma boa resistência dos cubanos e dos alemães orientais. Contamos com o apoio de dois terços das Forças Armadas angolanas. Mas, depois de narrar com vividez e realismo duas boas batalhas em solo angolano, de uma forma surpreendente e decepcionante, o autor abandona o conflito que dá razão à história e conduz a narrativa para outro rumo. Severo tenta mostrar as consequências políticas no interior do Brasil e no mundo. Sem dúvida que esta linha narrativa é válida e merece ser enfatizada. O problema é como isto é realizado. O texto deixa seu tom sério e descai para uma espécie de deboche – mas não assumido, apenas implícito. Situações absurdas se sucedem sem maiores explicações ou desdobramentos coerentes.
Os norte-americanos são surpreendidos, repreendem o Brasil, são pressionados pelos soviéticos e despacham, simplesmente, o presidente Jimmy Carter para Brasília. Ele chega de madrugada, se hospeda num hotel e fica por aí. Não se tem mais notícia dele pelo resto do livro![2] Uma tempestade assola a cidade do Rio de Janeiro e a ponte Rio-Niterói desaba. Isso mesmo! O presidente brasileiro renuncia subitamente, sem explicação alguma e em plena guerra. Na calada da noite, nos bastidores de Brasília, o alto comando militar e os líderes políticos dão um novo golpe ao decidir pela não posse do vice-presidente – por ser um homem por demais ligado à esquerda... –, na figura de Paulo Brossard, que viria a ser ministro da Justiça do governo Sarney. Mas ainda mais insólito que o golpe é a decisão de restaurar a monarquia no Brasil.
Após esta sucessão de nonsenses, o romance termina por mostrar uma invasão coordenada de vários países da América Latina ao Brasil, sob o argumento de que estavam ameaçados pela força imperialista e monarquista que o país tinha se tornado.
O que transparece é que Severo procurou abordar algumas questões da época histórica em que o livro foi escrito. Mas se a invasão de Angola foi mostrada em detalhes, depois disso o conflito foi abandonado e as demais questões foram mostradas de forma sarcástica, talvez procurando ridicularizar tanto os militares, quanto a classe política que lutava pela redemocratização do país. O fato é que como romance, obra de ficção, o livro deixa muito a desejar; é uma decepção por sua inverossimilhança e descuido com a continuidade narrativa. Talvez o seu legado esteja nas consequências desastrosas da aventura militar em Angola e nas decisões precipitadas dos donos do poder. Ou seja, Severo não se posiciona claramente contra a ditadura, mas contra o sistema de poder como um todo. O que pode ser visto tanto a partir de uma postura mais cética, niilista, como também de ficar ‘em cima do muro’, não se definir por nenhum dos lados.

– Marcello Simão Branco


[1] Severo é um jornalista político experiente, com carreira sólida, em jornais como Gazeta Mercantil (SP), Correio do Povo (RS), Folha de S. Paulo, revistas Veja e Exame, além da Rede Globo de Televisão. Também escreveu, entre outros, o romance distópico A Guerra dos Cachorros (1983) e o romance histórico Senhores da Guerra (2000), todos por uma linha política com ênfase militar.
[2] Outra situação de descontinuidade é a do jornalista que divulga a notícia da invasão com exclusividade. Ele aparece com destaque no começo da história, mas depois some. Até ocorre uma sequência da cobertura jornalística, mas tímida e sem importância alguma para a história. 

domingo, 17 de maio de 2015

A Galeria dos Alienígenas / Breeders - A Ameaça de Destruição (Breeders, EUA, 1986)


Com produção executiva não creditada de Charles Band, da “Empire Pictures”, e escrito e dirigido por Tim Kincaid, “A Galeria dos Alienígenas” (Breeders) é o nome nacional quando exibido na TV de uma tosqueira de ficção científica com elementos de horror. Completamente datado dos anos 80 do século passado, tem uma história tão manjada e rasa de invasão alienígena que mais parece apenas um pretexto para mostrar belas e jovens mulheres nuas.
Ambientada na famosa metrópole americana New York, o roteiro tosco mostra mulheres virgens sendo estupradas misteriosamente, ficando deformadas pela ação de um ácido corrosivo. Um detetive da polícia, Dale Andriotti (Lance Lewman) está encarregado das investigações para tentar descobrir o autor dos crimes. Ele é auxiliado pela médica Dra. Gamble Pace (Teresa Farley), que trabalha no Hospital Geral de Manhattan, para onde as vítimas são encaminhadas e ficam internadas em observação. Eles descobrem resquícios de um estranho material orgânico nas mulheres atacadas, que após um tempo despertam em transe e rumam como zumbis para os subterrâneos do hospital, onde numa estação abandonada do metrô está escondido um imenso ninho gosmento de uma raça alienígena capez de assumir a forma humana e que quer dominar nosso planeta.
Com pouco mais que 70 minutos de duração, o filme é uma típica tranqueira dos anos 80, com trilha sonora e figurinos datados, e um elenco amador com atuações inexpressivas, além de uma história patética com tantas situações absurdas que até os apreciadores de cinema bagaceiro encontrarão dificuldades para digerir. As únicas coisas que podem se salvar são os efeitos toscos exagerados com borracha e sangue falso nas cenas violentas dos ataques do monstro de olhos esbugalhados do espaço, e que mesmo com orçamentos minúsculos ainda conseguem divertir, diferente dos efeitos de CGI atuais que tornam as cenas sangrentas artificiais demais, e a overdose de exposição gratuita de mulheres peladas gritando por suas vidas.
Entre as curiosidades, podemos citar que o filme foi lançado em VHS no Brasil e recebeu o nome alternativo “Breeders – A Ameaça de Destruição”. E teve uma refilmagem inglesa em 1997, com roteiro e direção de Paul Matthews. Além disso, o diretor e roteirista Tim Kincaid é o responsável por outras tranqueiras ruins ao extremo do mesmo período como “Robot Holocaust” e “Mutant Hunt – O Exterminador de Andróides”. O técnico em efeitos de maquiagem Ed French atuou no filme fazendo o papel do médico Dr. Ira Markum, que auxilia a Dra. Pace na pesquisa sobre os misteriosos esporos encontrados nas vítimas do monstro.          
(Juvenatrix - 17/05/15)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. Capa: Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir Livraria decidiu republicar o clássico O jogo do exterminador, em 2006, o que, a princípio, não considerei uma boa ideia. O mercado literário de fc no Brasil estava em baixa e, na minha visão, um livro que havia sido anteriormente publicado em grande tiragem, ainda que estivesse esgotado, poderia não ter uma boa receptividade. Acreditava que, caso a Devir sofresse um revés logo de saída (o título inaugurou sua Coleção Pulsar), poderia não ter interesse de seguir adiante. Estava ainda bem viva na minha memória as críticas dos leitores quando a então editora PECAS (depois batizada Ano-Luz) decidiu publicar, em 1998, o romance Tropas estelares (Starship troopers), de Robert Heinlein que, apesar de inédito no Brasil, tinha uma antiga edição portuguesa, dos anos 1960.
Para sorte de todos, queimei minha língua e a Devir não só republicou em 2007 o segundo volume da saga, O orador dos mortos, mas finalmente, em 2010, traduziu a terceira parte da saga, inédita em língua portuguesa, Xenocídio, um romance aguardado com expectativa desde a publicação de O orador dos mortos em 1990.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu os primeiros livros sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O segundo volume conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card é um autor que não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação e entretenimento. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto tem que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica publicado no Brasil em muitos anos. O fato dele não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir Livraria publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, e abre a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais quatro romances e uma coletânea –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, assim como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.
— Cesar Silva

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

domingo, 10 de maio de 2015

A Dama e o Monstro (The Lady and the Monster, EUA, 1944)


Direção de George Sherman, cineasta mais conhecido pelos filmes de western, produção da “Republic” com fotografia em preto e branco, e história baseada no conto “O Cérebro de Donovan”, escrita em 1942 por Curt Siodmak. Teve outras duas refilmagens, “Experiência Diabólica” (Donovan´s Brain, 1953) e “The Brain” (1962).
Em “A Dama e o Monstro”, o “cientista louco” Prof. Franz Mueller (o austríaco Erich von Stroheim) está trabalhando em seu castelo no deserto do Arizona com experiências para tentar manter vivo o cérebro mesmo após a morte do corpo. Auxiliado por dois assistentes, o Dr. Patrick Cory (Richard Arlen) e a bela Janice Farrell (a atriz Tcheca Vera Hubra Halston), o cientista tenta obter sucesso utilizando animais como um macaco doente à beira da morte, mas seu interesse maior está em testar a experiência em seres humanos.
Após surgir a oportunidade com o cadáver de um famoso e misterioso milionário, William H. Donovan, morto no acidente com a queda de um pequeno avião, o Prof. Mueller consegue êxito em manter o cérebro vivo e ativo mergulhado numa solução química especial. Porém, continuando o projeto científico com a tentativa de comunicação com o cérebro, eles não imaginariam que o Dr. Cory seria controlado telepaticamente pelo cérebro de Donovan, obrigando-o inconscientemente a fazer suas vontades obscuras, colocando em risco a vida de todos.
A premissa central é de ficção científica bagaceira com elementos de horror, típica dos anos dourados do cinema fantástico das décadas de 40 a 60 do século passado, e nesse caso especificamente misturado com uma história policial. Com 82 minutos de duração e uma interessante atmosfera sinistra nas cenas no interior do castelo gótico, o filme apresenta os clichês característicos dessas divertidas tranqueiras. Temos o tradicional laboratório sombrio do “cientista louco”, que por sua vez tenta se convencer que seu trabalho traz resultados para o bem da humanidade, através da capacidade em manter vivo um cérebro separado do corpo morto, e com isso preservar o conhecimento, sabedoria e pensamentos de personalidades importantes como cientistas, inventores, escritores e estadistas.
Porém, apesar desses elementos do cinema bagaceiro de FC sempre garantirem a diversão, temos alguns fatores negativos que chegam a incomodar um pouco, mesmo para os apreciadores do estilo. A atuação forçada e sem expressão da atriz Vera Hubra Halston, que deixa claro que não possui as habilidades necessárias para a arte de atuar, e o roteiro que dá maior enfâse para uma história policial com um assassinato misterioso e pessoas interessadas em dinheiro, em detrimento do mais interessante que é a ficção científica com horror.
(Juvenatrix - 10/05/15)

sábado, 9 de maio de 2015

Megalópolis, Júlio Emílio Braz

Megalópolis, Júlio Emílio Braz. 100 páginas. Rio de Janeiro: Editora Rocco – Coleção “Jovens Leitores”, 2006.

   Júlio Emílio Braz é um caso raro na ficção científica brasileira. Para começar é negro, uma raridade no meio, integrado mais por descendentes de europeus. Além disso, é um escritor bem-sucedido no gênero, ao menos em comparação com outros autores. É que Braz investe em duas searas pouco exploradas pela maioria dos demais autores: o infanto-juvenil e os quadrinhos. Pois é nestes nichos que o autor tem se notabilizado, ora como roteirista de HQs, ora como escritor de ficção científica e policial para o público adolescente.
   E tem uma carreira extremamente prolixa com seus cerca de 80 livros publicados. É tudo isso mesmo, não se espante. Também já recebeu prêmios importantes no Brasil, como o Jabuti e alguns internacionais, ambos na área do infanto-juvenil. Pois estamos então diante de um autor tarimbado, que sabe se comunicar com o seu público preferencial. E que não é ocaso, curiosamente, do leitor de ficção científica ‘adulta’, que praticamente não acompanha o que se escreve e edita no infanto-juvenil.
   Uma oportunidade de vencer esta barreira é o novo livro de Braz, Megalópolis, lançado pela prestigiosa editora Rocco em sua coleção “Jovens Leitores”. O autor nos apresenta um mundo futuro em tempo indeterminado, mas percebe-se que não muito distante, ainda durante o século XXI. O título se refere a uma grande metrópole, com uma população de dezenas de milhões de pessoas, com uma arquitetura sofisticada, uma avançada tecnologia – com direito a hologramas, robôs e androides no cotidiano das pessoas – e com fronteiras não definidas e recortadas por diferentes regiões que não necessariamente estão interligadas, principalmente em termos sociais.
A    história é narrada em primeira pessoa por um investigador particular chamado Lino Sigma. Ele é contratado por uma mulher da parte rica da cidade para resgatar sua filha, que se encontra presa em um dos bairros periféricos da cidade por um grupo criminoso que controla o tráfico dos biostimuladores neurais. Isto é, a droga desta época.
   Embora Braz apresente um painel instigante no início, a novela não passa de um episódio da megalópolis. Um entre tantos outros milhões que ocorrem todos os dias em uma urbe extremamente segregada em termos sociais, a ponto de criar sub-culturas fechadas em si mesmas, nas quais nem a ação do Estado existe. Ora, mas isso não lhe é familiar?
Sim, há passagens inteiras que poderiam perfeitamente caber às nossas metrópoles de hoje, São Paulo e Rio de Janeiro, apenas retirando a ‘roupagem’futurista. Desigualdade social, pobreza, exclusão, falta de oportunidades, preconceitos mútuos e bandos criminosos. Alimentados, é claro, por uma fonte de poder econômica ilícita, o tráfico de drogas. Tudo isto existe hoje e continua presente nesta megalópolis do amanhã.
   Contudo, se o autor apresenta o contexto social, não discute as razões que o levaram a chegar a este ponto sem retorno possível de uma convivência civilizada. Seu foco está na ação do detetive Sigma e o que ele tem de fazer para retirar a garota dos infernos da periferia abandonada e entregue ao caos. É curioso que embora possa ser vista como uma história cyperpunk – por meio do contexto social degradado e dos hologramas, andróides e robôs que interagem com os humanos –, a narrativa é em si policial, por meio da ação do detetive. Mas ele não tem de desvendar mistério algum. Só precisa entrar no hotel do inferno – onde está presa a garota – e trazê-la de volta ao mundo burguês.
   Desta forma, embora a trama seja narrada na primeira pessoa de Sigma, o texto tem um ritmo ‘adrenalínico’, com muita ação em um estilo quase pictórico, semelhante ao que seria um roteiro de HQ ou mesmo um filme para o cinema, com muita ênfase em cenas com cuidado visual, principalmente de lutas, perseguições e tiroteios. Além disso, há uma profusão exagerada de nomes para lugares e os vários grupos sociais que o habitam, o que torna a leitura um pouco confusa. Ainda dentro deste contexto ilustrativo, o destaque vai para a bela ilustração de capa de Glenda Rubinstein. Que é complementada pela concepção claramente visual do livro inteiro, quase que tratado como se não fosse (ou não devesse ser encarado como) um objeto literário.
   Se as peculiaridades narrativas e editoriais com forte ênfase na imagem estão no primeiro plano da obra, sobra pouca oportunidade para uma caracterização melhor dos personagens, todos superficiais e próximos do estereótipo. É como se Braz quisesse apenas se divertir dentro de uma sociedade perturbadoramente pervertida em suas normas e valores. Como se nem valesse a pena discutir um pouco mais os rumos sombrios de uma convivência social deste tipo, porque o futuro estaria mesmo perdido. Nesse sentido é estranho que o autor se ausente de discutir um pouco mais este mundo, pois ele mesmo afirma no posfácio, ‘Referências de inspiração’, que esta obra é “Uma contribuição. Uma proposta em aberto. Meu jeito de ver o futuro que não verei.”
   Mesmo assim é possível dizer que o texto de Braz tem fluência, alguns bons diálogos e uma pitada de humor na voz do detetive Lino Sigma, embora tudo seja um pouco diluído pelo já citado excesso de perseguições e pela falta de dramatização ou de uma especulação um pouco mais caprichada do mundo que o autor imaginou.
  Megalópolis é uma novela para jovens que mostra um mundo sem esperança, entregue ao materialismo e ao individualismo mas que, talvez em nome da proposta mais infanto juvenil, perca uma oportunidade interessante de dramatizar e discutir assuntos de extrema relevância social e humana, inclusive para os jovens. Ou talvez principalmente para eles, os futuros adultos da megalópole que virá.


-- Marcello Simão Branco

Invasores Invisíveis (Invisible Invaders, EUA, 1959)


Produção em preto e branco com direção de Edward L. Cahn (1899 / 1963), o mesmo cineasta de outras divertidas tranqueiras do cinema bagaceiro como “O Cadáver Atômico” (1955), “Os Zumbis de Mora Tau” (1957) e “A Ameaça do Outro Mundo” (1958). No elenco temos John Agar (1921 / 2002), de pérolas como “Tarântula” (1955) e “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), além do cultuado John Carradine (1906 / 1988), ator com forte relação com o cinema fantástico, tanto que ele aparece em destaque num dos cartazes originais do filme, mesmo com uma participação pequena apenas no início fazendo o papel de um “cientista louco”.
Alienígenas conquistadores oriundos de um planeta de outra galáxia invadiram a nossa lua há 20.000 anos e aniquilaram suas formas de vida, instalando uma base para suas naves espaciais. São criaturas invisíveis que adquiriram a capacidade de alterar a estrutura molecular de seus corpos. Até então, a Terra não interessava devido seu lento desenvolvimento tecnológico, mas depois que a humanidade entrou na era espacial, com testes de armas nucleares e foguetes para viajar pelo espaço, os alienígenas ditadores decidiram dominar nosso planeta tomando os corpos dos mortos para dizimar os vivos.
Com suas naves construídas com materiais que também poderiam tornar-se invisíveis, eles primeiramente se apossaram do cadáver do cientista Dr. Karol Noymann (John Carradine), morto numa explosão em seu laboratório. O zumbi visita seu colega veterano cientista Dr. Adam Penner (Philip Tonge), solicitando para avisar as autoridades militares para se renderem, ou seria iniciada uma invasão com destruições catastróficas, arrasando edifícios governamentais, unidades de comunicação, depósitos, arsenais de armas, estradas de ferro e aeroportos.
Desacreditado pelos governos e ridicularizado pela imprensa com manchetes pejorativas dos jornais, o alerta de rendição não funcionou e os alienígenas invisíveis iniciaram a invasão com uma guerra desproporcional. Restando ao cientista Dr. Penner, sua bela filha Phyllis (Jean Byron), o jovem cientista John Lamont (Robert Hutton, de “Eles Vieram do Espaço Exterior”, 1967) e o militar Major Bruce Jay (John Agar), se refugiarem num abrigo subterrâneo secreto e bem equipado, para tentarem encontrar um meio ou arma eficaz para deter os inimigos do espaço.  
Invasores Invisíveis” está situado dentro do sub-gênero da Ficção Científica que aborda invasões alienígenas com elementos de horror, explorando novamente o tema da guerra fria do período pós-Segunda Guerra Mundial, com a corrida armamentista e as consequências nocivas das experiências nucleares.  Para facilitar o baixo orçamento da produção, além da metragem curta com apenas 67 minutos de duração, o roteiro de Samuel Newman apresenta alienígenas invisíveis, com respiração ofegante e que deixam rastros no chão de terra ao caminharem, diminuindo os gastos com efeitos e maquiagem. Eles se apossam dos corpos de seres humanos mortos, transformando-os em zumbis assassinos, numa ideia que serviu de inspiração para George Romero conceber o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), que traz semelhanças tanto na concepção dos zumbis como na forma de caminharem.
O filme é mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 do século passado, divertido justamente pela forma simplória e ingênua de condução da história, acontecendo tudo rapidamente e repleto de clichês. Não faltam os “cientistas loucos” cercados de aparelhos em experiências exageradas e os militares truculentos em ações de força. Também não poderia deixar de ter uma jovem mulher bonita sem função na história (a filha do cientista), com o objetivo de criar um triângulo amoroso em meio ao caos, e nesse caso incluindo o Dr. Lamont e o Major Jay. E com aquela tradicional mensagem de cooperação entre as nações do mundo para uma causa comum, deixando os conflitos entre si para unirem-se no combate ao inimigo maior na figura de alienígenas hostis, que por sua vez, são o alvo de uma crítica social contra as ações opressoras de ditadores conquistadores, com o uso de força e destruição.
Curiosamente, o ator Philip Tonge morreu aos 61 anos logo após completar suas filmagens e não conseguiu ver seu trabalho editado. E, ao longo do filme, um narrador conduz a história, com constantes informações sobre as ações dos alienígenas.
“Num prazo de três dias, os mortos exterminarão todos os vivos, e nós iremos governar a Terra. Para a raça humana, este é o fim de sua existência” – mensagem dos alienígenas invasores.
(Juvenatrix - 09/05/15)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Fantástico Homem Transparente (The Amazing Transparent Man, EUA, 1960)


* Fantástico Homem Transparente, O (1960)
Direção de Edgar G. Ulmer. Um presidiário perigoso, Joey Faust (Douglas Kennedy), especialista em arrombar portas e cofres, escapa da penitenciária com a ajuda da bela Laura Matson (Marguerite Chapman), que o aguarda de carro numa estrada próxima. A fuga faz parte de um plano do ambicioso Major Paul Krenner (James Griffith), que quer usar o criminoso como cobaia numa experiência de invisibilidade conduzida pelo cientista nuclear alemão Dr. Peter Ulof (Ivan Triesault), um refugiado da segunda guerra mundial, que trabalha contra sua vontade, sendo chantageado pelo militar americano que mantém sua filha como refém. O objetivo é formar um exército de soldados invisíveis para obter vantagem e lucros nas guerras. sendo chanteaadedogunda guerra mundial, ntistaadrtrada pr escapa da pro
Lançado em DVD no Brasil junto com “Um Mundo Desconhecido” (1951), “O Fantástico Homem Transparente” tem um título sonoro, produzido em preto e branco e sendo exageradamente curto (apenas 57 minutos), parecendo mais um episódio de alguma série de TV com elementos fantásticos no estilo “Além da Imaginação”. É tão rápido que a história carece de mais detalhes, onde tudo é apresentado com pressa e sem a intenção de explorar melhor as ideias. Os personagens são tão superficiais e mal apresentados que nem é possível imaginar com clareza suas origens e motivações. O tema central é novamente aproveitar os efeitos da guerra fria e a ameaça da era atômica para mostrar um cientista fazendo experiências malucas num laboratório secreto, com a finalidade de transformar homens em seres transparentes, obtendo assim vantagens em missões de espionagem. Mas aqui, ao contrário dos outros filmes similares sobre homens invisíveis, o roteiro nem se preocupou com detalhes e o presidiário tornava-se invisível juntamente com suas roupas, quando normalmente apenas o corpo deveria ficar transparente.
(RR - Juvenatrix - 12/11/09)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Time out: Os viajantes do tempo

Time out: Os viajantes do tempo, Ademir Pascale, org. 120 páginas. Apresentação de André Carneiro. Capa: M. D. Amado, sobre foto de Denis Devekov. Fotos internas de diversos artistas estrangeiros. Editora Estronho, Belo Horizonte, 2011.

Seguindo a tendência iniciada em 2009, 2011 continuou a trazer à luz uma grande quantidade de antologias temáticas, que não deixam de ser uma tradição na fc&f brasileira. Algumas editoras têm de fato se especializado nisso, produzindo antologias em quantidade, embora de tiragens pequenas e memória ainda menor. A maior parte das dezenas de antologias publicadas nos últimos dois anos receberam pouquíssimas resenhas e já nem são mais lembradas. Mesmo assim, o ambiente de antologias continua aquecido, com muitos projetos em fase de montagem por diversas editoras, apresentando novos autores, ao lado de veteranos que também precisam de espaço para mostrar seus escritos. Afinal, a quantidade de lançamentos não significa que os mais experientes já tenham estabilidade editorial — pelo contrário, tudo continua incerto e imprevisível, e é preciso aproveitar as oportunidades.
A mineira Estronho é uma das editoras que têm trabalhado fortemente no segmento das antologias temáticas, e este ano investiu alguns cartuchos na ficção científica, mas exatamente no subgênero da viagem no tempo, com a antologia Time out: Os viajantes do tempo.
Organizada pelo escritor Ademir Pascale (O desejo de Lilith, Draco, 2009), um dos campeões em organização de antologias temáticas, Time out reúne oito contos de autores brasileiros, complementados por um ensaio sobre o tema e a apresentação do veterano escritor André Carneiro, uma autoridade no que se refere a ficção especulativa no Brasil.
O conto que abre a antologia é “Déjà-vu: O forte”, de Roberto de Sousa Causo, o texto de ficção mais elaborado do livro. Conta a história de uma mulher diagnosticada com doença terminal, que faz uma viagem sentimental pelo Brasil. Durante visita a um forte histórico, ela tem sua consciência arremessada para o passado, incorporando um soldado naquele mesmo lugar, durante o ataque de uma frota naval.
“A velha canção do marinheiro do futuro”, do próprio organizador, relata a situação incomum de um marinheiro que ficou preso num fenômeno espaço-temporal depois do navio em que estava ter sido usado em uma experiência mal-sucedida: o famoso experimento do USS Philadelphia, integrante da mitologia ufológica. Durante um de seus surtos, ele observa a distopia do mundo de 2075.
O melhor conto da antologia é “A difícil arte de lidar com os patrulheiros do tempo”, de Miguel Carqueija (autor de Farei meu destino; Giz, 2009), devido ao viés cômico que o autor manuseia muito bem. Um cientista meio maluco recebe, em pleno processo criativo, a visita de um jovem que se diz patrulheiro de uma polícia do futuro, que anuncia que vai matá-lo para evitar que invente alguma coisa muito ruim. Sem perder a fleuma, o cientista argumenta de forma a confundir seu assassino e mandá-lo de volta para onde veio.
“Pelas badaladas do tempo”, de Luciana Fátima, é o texto mais curto da antologia. Em clima de poesia, conta as visões de uma mulher ao escutar os sons de um sino.
Álvaro Domingues (autor de Sombras e sonhos; Balão, 2010) também envereda pelo humor em tons farsescos em “Modelo do ano”, em que dois amigos “nerds” que, quando jovens, sonhavam em construir uma máquina do tempo, reencontra-se depois de um afastamento de alguns anos. Um texto leve, mas com um travo machista que certamente não vai agradar as mulheres.
Ecos de Carl Sagan e H. P. Lovecraft se apresentam em “A máquina da insanidade”, de Estevan Lutz (o autor de O voo de Icarus, Novo Século, 2010), no qual um cientista enlouquecido que testou sua própria máquina do tempo, tenta contar sua história para a psicóloga do sanatório onde está internado.
Em “O último trem para as Plêiades”, de Allan Pitz (que escreveu A morte do cozinheiro, Above, 2010), um rapaz conta ao amigo incrédulo o sonho que teve no qual alienígenas o conduziram a uma viagem pelo espaço e pelo tempo, para mostrar-lhe que o fim do mundo está próximo. Texto pessimista e desesperançado, que contrasta com o tom galhofeiro da narrativa.
O último conto da antologia é “Contra o apagar das luzes”, de Mariana Albuquerque (autora de Coração de demônio, Writers, 1999), no qual um grupo de astronautas que testemunhou o fim do mundo cria uma máquina do tempo para voltar cinco anos no passado e tentar impedir a tragédia. Trata-se da mesma premissa do seriado de televisão Odyssey 5; uma fanfic, portanto.
Fecha a edição o breve ensaio “Viagens no tempo na ficção científica brasileira”, de autoria do pesquisador acadêmico Edgar Indalécio Smaniotto, que tem se especializado nesse tipo de texto para diversas antologias. Smaniotto cita Monteiro Lobato, Erico Verissimo e Jerônymo Monteiro, destacando a noveleta “A ética da traição” (1993), de Gerson Lodi-Ribeiro, e a antologia Intempol, além de outros textos de menor expressão, o que revela a pouca intimidade da fcb com o tema, embora o ensaísta afirme o contrário.
Da mesma forma, a antologia Time out: Os viajantes do tempo é tão leve e despretensiosa que mal arranha o tema. De suas 120 páginas, apenas 80 realmente têm texto, o restante é ocupado por imagens e vinhetas em uma apresentação gráfica sofisticada que merecia a companhia de mais conteúdo.
Cesar Silva

sábado, 2 de maio de 2015

Sagas 1, 2 e 3

Sagas volume 1: Espada e magia (144 páginas), Sagas volume 2: Estranho oeste (144 páginas); Sagas volume 3: Martelo das bruxas (128 páginas), Cesar Alcázar & Duda Falcão, orgs. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2011.

A Editora Argonautas, de Porto Alegre, como muitas outras editoras novas, é fruto da iniciativa de fãs de literatura de ficção científica e fantasia, no caso os escritores Duda Falcão e Cesar Alcázar. Entusiastas da clássica coleção portuguesa de fc&f Argonauta, da Editora Livros do Brasil, decidiram não apenas dar o mesmo nome à editora, mas estrear com uma publicação que segue a mesma tradição, a coleção Sagas, formada por livros de bolso com antologias temáticas. Trata-se de uma pequena joia em meio à barafunda que se tornou o espaço editorial da fc&f no Brasil, coalhado por antologias temáticas montadas a toque de caixa.
A primeira edição, dedicada à fantasia, foi publicada ainda em 2010, mas as edições 2 e 3, faroeste e bruxaria, respectivamente, saíram em 2011. A edição é cuidadosa e as capas, ilustradas por Nathan Milliner e Fred Macêdo, remetem aos quadrinhos e às revistas pulps.
Sagas volume 1: Espada & magia, tem 144 páginas, prefácio do escritor Roberto de Sousa Causo, e traz textos de autoria de Georgette Silen, Rober Pinheiro e dos próprios editores, explorando enredos na linha das histórias de Conan, O Bárbaro, e de Elric de Melniboné*.
O volume é despretensioso em sua proposta e equilibrado na organização. Os contos são simples, mas correspondem bem à proposta da edição, que é homenagear a Weird Fiction. O melhor texto do conjunto é “A cidadela de Ellan”, de Georgette Silen; de fato é o melhor texto da autora que já tive a oportunidade de ler, com elementos feministas e um enredo que escapa das convenções do gênero. Conta a história de uma guerreira psicologicamente problemática, que precisa recuperar um artefato que está sob a guarda de um velho conhecido, líder de um grupo de salteadores no momento escondidos num castelo. Velhos sentimentos vão emergir em meio à missão que tem tudo para resultar em tragédia.
Sagas Volume 2: Estranho oeste tem prefácio de Thomas Albornoz e apresenta, em suas 144 páginas, cinco histórias macabras de Alícia Azevedo, Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira, todas ambientadas no Velho Oeste norte-americano. Trata-se de um tema muito rico, pois no mesmo período podem ser contadas histórias em variados cenários e personagens: com nativos, dramas familiares em fazendas nas planícies, militaria da Guerra Civil, a Guerra da Independência, ou nas guerras indígenas, histórias com os pioneiros, sobre freakshows, sobre a corrida do ouro na Califórnia e no Alasca, sobre as caravanas, sobre os cowboys que atravessavam o país conduzindo seus rebanhos, sobre a construção das linhas de trens, caçadas de baleias, e até dramas urbanos vitorianos nas grandes metrópoles do leste, e muito mais. Mas faltou intimidade dos autores com o gênero. Todos acabaram contando histórias de pistoleiros metidos em confusões em saloons.
O melhor conto do volume é “Aproveite o dia”, de Christian David, com um protagonista patife e espirituoso que traz um colorido diferenciado à monocromia dos demais contos. Ele é um jogador que se mete numa situação da qual não terá chance de sair vivo, a não ser com muita sagacidade e um bocado de sorte.
A edição tem seus méritos, pois o tema é dos mais espinhosos para os autores brasileiros. Tanto que há apenas dois livros brasileiros nesse gênero, e são recentes: os romances Areia nos dentes, de Antônio Xerxeneski (2008), e O peregrino, de Tibor Moricz (2011). Uma alternativa bastante razoável seria trocar o cenário do faroeste pelo cangaço, ou por bandeirantes, ou por jagunços modernos. As histórias poderiam ser exatamente as mesmas, mas ganhariam um colorido mais autêntico e imprevisível.
Finalmente, Sagas volume 3: Martelo das bruxas é o melhor da série, com 128 páginas e contos de Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com prefácio de Simone O. Marques.
“Cada história tem...”, de Christopher Kastensmidt, escritor norte-americano que vive no Brasil e aprecia trabalhar com os temas nativos, narra o duelo entre uma feiticeira e um caçador de bruxas no Brasil colonial, ambos acreditando estarem certos em seus pontos de vista. É o melhor conto publicado na série e, apesar do clima dramático, foi inevitável lembrar da épica luta entre Merlin e Madame Min no clássico desenho animado A espada era a lei (1963), de Walt Disney.
Ana Cristina Rodrigues também se apresenta com um bom trabalho. A história “O quão forte pode um gigante gritar” é ambientada na Irlanda medieval, onde o último sobrevivente de uma raça mágica envolve-se numa situação de risco para salvar uma jovem que está sendo torturada. O maior mérito do conto de Ana Cristina é a história de fundo, que demonstra riqueza suficiente para sustentar um texto bem mais longo. “Encruzilhada”, de Douglas MCT, apesar de não ser tão empolgante quanto os contos anteriores, destaca-se pelo estilo narrativo diferenciado. Conta a história de duas irmãs, meninas ainda, que precisam cumprir um ritual mágico de sacrifício mas, para isso, terão de enfrentar adversários poderosos.
A coleção é muito simpática, bem feita e dispõe de espaço para crescer no mercado. Contudo, depois do início alvissareiro, deu uma freada e só lançou mais dois volumes nos três anos seguintes: Sagas volume 4: Odisseia espacial e Sagas volume 5: Revolução, publicados em 2013 e 2014, respectivamente. O que não deixa de ser uma boa notícia em comparação a suas concorrentes diretas: a coleção Paradigmas foi descontinuada com o encerramento da editora Tarja, e Ficção de polpa, da Não Editora, tem uma periodicidade ainda mais elástica.
Sagas é o tipo de publicação que poderia se dar bem nas bancas, pena que a distribuição brasileira é um jogo de cartas marcadas no qual editoras pequenas como a Argonautas, infelizmente, não têm vez.
Cesar Silva
*Criações respectivas de Robert E. Howard e Michael Moorcock.