sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Múmia (The Mummy, 1959)


O cultuado estúdio inglês “Hammer” refilmou em cores no final de década de 50 do século passado, os grandes clássicos com fotografia em preto e branco dos anos 30, de monstros da produtora americana “Universal”. Tivemos então “A Maldição de Frankenstein” (57), “O Vampiro da Noite” (58) e “A Múmia” (59), todos com a “dupla dinâmica” de ícones do horror Peter Cushing e Christopher Lee. Ficando para o aristocrático Cushing os papéis de “cientista louco”, caçador de vampiros e arqueólogo, e para Lee a missão de interpretar os vilões e monstros.
Dirigido pelo especialista Terence Fisher e com roteiro de Jimmy Sangster (ambos com muitos créditos na “Hammer”), “A Múmia” é inspirada nos filmes “A Mão da Múmia” (The Mummy´s Hand, 40) e “A Sombra da Múmia” (The Mummy´s Ghost, 44). A história é ambientada inicialmente no Egito de 1895, onde um grupo de arqueólogos liderado por John Banning (Peter Cushing), encontra o Templo do deus pagão Karnak, onde está a tumba da princesa e sacerdotisa Ananka (Yvonne Furneaux). Uma vez o túmulo transportado para a Inglaterra, as ações se voltam para três anos depois, onde o egípcio Mehemet Bey (George Pastell), um fanático religioso dos costumes antigos de seu país, está descontente com a violação dos templos sagrados em escavações dos arqueólogos ingleses. Ele consegue, através da leitura de um pergaminho místico de 4000 anos, despertar a múmia Kharis (Christopher Lee), um ancestral guardião da tumba da princesa, que foi condenado à morte, tendo a língua cortada e sendo enfaixado e confinado num ataúde. A múmia recebeu a missão de espalhar uma maldição vingando-se de todos que profanaram a tumba egípcia.
Assim como a grande maioria dos filmes da “Hammer”, a diversão aqui também é garantida para quem aprecia as cultuadas produções com elementos góticos e exploração dos monstros clássicos do horror. A múmia é um tema já filmado à exaustão, apresentando basicamente as consequências de uma maldição vingativa contra os profanadores de tumbas misteriosas. E faz parte da cultura popular ao lado dos vampiros, zumbis, lobisomens, demônios, fantasmas e monstros gigantes. São muitos filmes com a ideia central similar, e a própria “Hammer” possui outros trabalhos no mesmo segmento como “A Maldição da Múmia” (64), “A Mortalha da Múmia” (67) e “Sangue no Sarcófago da Múmia” (71).
Só o fato da participação de Peter Cushing e Christopher Lee no elenco, já é motivo para agregar muito valor ao filme e servir de recomendação para os apreciadores de suas lendárias carreiras. Seus currículos dentro do cinema de horror são parte integrante e inquestionável da história do gênero. Lee é mais lembrado como o vampiro Drácula, mas também foi a criatura de Frankenstein e a múmia, atuando sob forte maquiagem e enfaixado em bandagens. Suas cenas ambientadas num pântano sombrio são memoráveis, num dos grandes ápices do filme, e seu papel de múmia também deve ser lembrado como destaque em sua filmografia, num paralelo de igual importância à múmia interpretada por Boris Karloff no clássico da “Universal” de 1932.
Curiosamente, “A Múmia” é o único filme da “Hammer” em que aparecem juntos Peter Cushing, Cristopher Lee e o eterno coadjvante Michael Ripper, rosto visto com frequência em papéis pequenos de diversos outros filmes tanto da própria “Hammer” como também da rival “Amicus”.
(Juvenatrix - 24/01/15)

O Monstro da Lagoa Negra (Creature From the Black Lagoon, 1954)


“No começo, Deus criou o céu e a terra, e a terra era vazia e sem forma. Veio então o planeta Terra, recém nascido e esfriando rapidamente de uma temperatura de 6000 graus e umas poucas centenas em menos de cinco bilhões de anos. O calor se eleva, encontra a atmosfera, formam-se as nuvens e a chuva desaba sobre a endurecida superfície por séculos sem conta. Surge o mar revolto, encontra obstáculos, é contido, começa o mistério da vida. Aparecem coisas vivas em infinita variedade e se transformam e atingem a terra, deixando o registro de sua vinda, de sua luta para sobreviver e de seu fim eventual. O registro da vida é escrito na terra onde 50 milhões de anos depois, no âmago da região do Amazonas, o homem ainda tenta decifrá-lo.”
                Com essa introdução narrada começa o filme “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), dirigido por Jack Arnold, o mesmo de clássicos como “Veio do Espaço” (It Came From Outer Space, 53) e “O Incrível Homem Que Encolheu” (The Incredible Shrinking Man, 57). Fotografado em preto e branco, “O Monstro da Lagoa Negra” é considerado um pequeno clássico de horror “B” e que originou mais duas sequências, “Revenge of the Creature” (55) e “The Creature Walks Among Us” (56).
                A história passa-se na Amazônia, e era muito comum nos roteiros de ficção científica e horror das décadas de 40 e 50, a utilização dessa enorme e intrigante região desconhecida como tema. Outros filmes importantes como “Delírio de um Sábio” (Dr. Cyclops, 39) e “O Mundo Perdido” (The Lost World, 60) também utilizaram a Amazônia como cenário de seus eventos. Na época, o imenso pulmão verde servia de inspiração para os imaginativos roteiristas, sendo palco de civilizações perdidas, mundos ocultos, animais pré-históricos que sobreviveram ao longo do tempo, laboratórios de cientistas loucos, e todo tipo de mistério que fascina a humanidade.
                Um grupo de cientistas está procurando fósseis antigos na região do Rio Amazonas e encontram a pata de uma criatura desconhecida. Eles resolvem então organizar uma pequena expedição e partem à bordo do barco “Rita” à procura de outros vestígios e esqueletos. Viajam até um local chamado de “Lagoa Negra”, devido às águas muito escuras, e encontram uma estranha criatura viva, um ser anfíbio muito parecido com o homem. Considerando a maior descoberta de todos os tempos, os cientistas tentam capturá-lo com vida, e após vários confrontos com o ser, parte da expedição morre. Assim como ocorreu em “King Kong” (33), a criatura também se simpatiza com a única mulher do grupo, a jovem e bela Kay (interpretada por Julia Adams).
As ótimas sequências aquáticas envolvendo as lutas entre os pesquisadores e o monstro anfíbio, interpretado por Ricou Browning (em terra, o papel da criatura era de Ben Chapman, que faleceu em 2008), e criado por Bud Westmore e Jack Keran, são os grandes destaques do filme, além do interessante roteiro baseado em história de Maurice Zimm, criando o “monstro da lagoa negra”, um dos personagens mais importantes da história do horror e que juntou-se à galeria já formada por outros monstros clássicos como o vampiro “Drácula”, a “criatura de Frankenstein”, o “Fantasma da Ópera”, a “Múmia” e o “Lobisomem”, os quais juntos foram responsáveis por dezenas de filmes que aterrorizaram por gerações os fãs do cinema fantástico.
Curiosamente, o ator Whit Bissell, que faz o papel do Dr. Thompson, faria parte mais tarde do elenco fixo da série de TV “O Túnel do Tempo” (The Time Tunnel, 1966), criada por Irwin Allen.
(Juvenatrix - 06/12/05)

13 Fantasmas (13 Ghosts, 1960)


Produzido e dirigido por William Castle (1914 / 1977), o mesmo responsável por outras preciosidades como “A Casa dos Maus Espíritos” e “Força Diabólica”, ambos do final dos anos 50 e com o ícone Vincent Price, “13 Fantasmas” tem fotografia em preto e branco e recebeu uma refilmagem sangrenta em 2001, com produção da “Dark Castle”.
Na história, o professor de paleontologia, Cyrus Zorba (Donald Woods) está falido quando recebe a notícia que seu tio ocultista e recluso morreu, deixando como herança uma imensa e tétrica mansão. O advogado do falecido, Benjamen Rush (Maltin Milner, da série de TV “Rota 66”), está tratando dos documentos e informa que a casa é assombrada por fantasmas. Mas, o herdeiro ignora e se muda com a família, a esposa Hilda (Rosemary De Camp) e os filhos, a jovem Medea (Jo Morrow) e o pequeno Buck (Charles Herbert, que esteve em outros filmes bagaceiros do período como “A Mosca da Cabeça Branca”). Uma vez na casa, eles encontram uma sinistra governanta médium, Elaine Zacharides (Margaret Hamilton), e são testemunhas de objetos que se movem sozinhos e aparições de fantasmas que só podem ser visualizados através de óculos especial criado pelo falecido tio, que estudava as ciências ocultas e o mundo sobrenatural.
Filme bastante ingênuo quando comparado aos tempos modernos, com produções recheadas de CGI e histórias barulhentas com sangue em profusão. Pois em “13 Fantasmas” temos apenas um roteiro sem sangue e violência, com uma mansão assombrada por fantasmas e uma nova família de moradores que enfrenta a ameaça, além de uma trama paralela envolvendo uma grande quantidade em dinheiro misteriosamente escondido e despertando cobiça. Serviu muito bem para assustar as plateias da época, com as habituais jogadas de marketing providas por William Castle, e atualmente serve como diversão pela ingenuidade involuntária e para quem aprecia as características gerais de filmes bagaceiros de baixo orçamento.
Curiosamente, temos uma tradicional sessão espírita e uma brincadeira com o famoso tabuleiro ouija, na tentativa de comunicação com os mortos. E os efeitos que apresentavam os fantasmas eram conhecidos pela técnica “Illusion-O”, com os espectadores recebendo nos cinemas óculos apropriado para a visualização. Numa versão mais completa do filme, o próprio diretor e produtor William Castle explica como funciona o processo através de um prólogo e epílogo.
(Juvenatrix - 24/12/14)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Associação Judaica de Polícia, Michael Chabon

Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), Michael Chabon. 472 páginas. Tradução de Luis Antônio de Araújo. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

O escritor americano Michael Chabon impactou o ambiente literário com seus livros anteriores, Garotos incríveis (Wonder boys, 1995), As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (The amazing adventures of Kavalier & Clay, 2001, prêmio Pullitzer) e Summerland (2002), livros que margeiam a literatura de gênero. E ninguém diria que Associação Judaica de Polícia fosse um texto fantástico. Afinal, não seria de surpreender caso existisse mesmo uma Associação Judaica de Polícia. Mas o livro chegou ao Brasil referendado pelos prêmios Hugo, Nebula e Sidewise, portanto, deve estar instalado em algum lugar entre a ficção científica e a fantasia. O interessante é que não dá para dizer exatamente onde. Há uma premissa de história alternativa, mas ela é apenas uma base cenográfica, já que está claro que o que importa a Chabon não é fazer exercícios acadêmicos de historiografia.
Trata-se da história do detetive de polícia Meyer Landsman que, tarde da noite, é chamado pelo gerente do hotel decadente onde mora para ver o que aconteceu a outro morador, um jovem viciado em heroína que foi executado em seu quarto. O estranho morto a tiro é um judeu, como são todos ali em Sitka, cidade litorânea do estado do Alasca. Ao seu lado, um tabuleiro de xadrez com as peças distribuídas numa organização improvável. O detetive faz seu trabalho meticulosamente, aciona o polícia técnica e decide assumir a investigação do caso porque, afinal, ninguém devia ter matado um vizinho dele. Landsman se coloca assim no rastro de um plano terrorista que envolve um atentado a cidade de Jerusalém, o advento do messias dos judeus, a descoberta dos reais motivos da morte de sua irmã alguns anos antes, e a redenção de sua vida miserável.
Na realidade dessa linha histórica, a segunda guerra mundial teve um desfecho ligeiramente diferente. Chabon não detalha essas condições mas, num certo momento, cita uma explosão nuclear em Berlim. Mas o grande efeito visível é que o estado de Israel não foi implementado na Palestina, como em nossa realidade. Sem pátria, os judeus espalhados pelo mundo foram abrigados temporariamente no Alasca, com alguma autonomia política, mas a hora de devolver o território aos EUA se aproxima e a maioria daqueles quatro milhões de judeus não tem a menor ideia para onde ir, uma vez que Israel não existe e ninguém parece muito ansioso em receber esse contingente sem-teto.
O instável estado político reflete-se nas reações entre as personagens. Ali desfilam dramas e idiossincrasias de uma comunidade judia em desconstrução, com rabinos mafiosos, um agrimensor que tem a estranha tarefa de tornar santos os caminhos do judeus ortodoxos, jogadores de xadrez (o único jogo que um judeu pode praticar), enxadristas que mais parecem espiões da guerra fria, milícias paramilitares e um casca-grossa chefe de polícia indígena.
Aos poucos conhecemos a personalidade de Landsman, seus amigos e parentes, como seu parceiro Berko Shemets, um enorme índio tlingit mestiço judeu, que carrega um martelo de guerra que faz tremer o mais valente dos capangas. E sua ex-esposa Bina Gelbfish que, não por acaso, acaba por ser sua chefe de departamento. Landsman ainda nutre algum carinho por ela, mas que os pecados do passado dificultam uma reaproximação.
Está explícita a inversão de valores que Chabon faz com o atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York. A imagem das colunas de fumaça negra elevando-se de uma Jerusalém destruída, transmitidas em rede mundial de televisão e sendo festejada às lágrimas pelos militantes judeus, é bastante reveladora. Onde você estava quando Jerusalém queimou?
Chabon adota neste livro um projeto similar ao que vimos em Laranja mecânica (A clockwork orange, 1962), de Anthony Burgess, com um amplo uso de neologismos e gírias inventadas a partir de palavras iídiches e alemãs, associadas ao inglês americano. Um pequeno dicionário ao final ajuda na compreensão desse linguajar. A narrativa é naturalista e seca, de humor irônico muito ácido, com influências óbvias do romance policial de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Traz imagens detalhadas que transportam o leitor aquele ambiente setentrional e, em alguns momentos, flerta até com o faroeste.
Na falta de uma classificação precisa, vamos dizer que Associação Judaica de Polícia seja uma peça de história alternativa. Só para facilitar a percepção de que, de fato, não é.
O romance foi bem recebido no mainstream e teve os direitos reservados para o cinema pelos respeitados irmãos Joel e Ethan Coen.
Cesar Silva

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política, Marcello Simão Branco org. 408 páginas. Capa Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2011.

Depois de quase dois anos de trabalho entre os primeiros convites aos autores e o lançamento do volume, a antologia Assembleia estelar chegou bem mais parruda do que se imaginava a princípio, com quatorze textos, entre contos e noveletas, incluindo trabalhos dos importantes autores norte-americanos, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin.
A ideia nasceu do envolvimento do organizador com a política, uma vez que Marcello Simão Branco, além de respeitado estudioso de ficção científica, é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor na Unifesp nessa disciplina. Nada mais natural, portanto, que se lançasse à tarefa de aproximar suas duas paixões. Branco editou por muitos anos o prestigioso fanzine de ficção científica e horror Megalon e organizou uma das mais importantes antologias temáticas brasileiras, Outras copas outros mundos, publicada em 1998 pela Editora Ano-Luz. Desde a suspensão do Megalon, em 2004, Branco vinha se dedicando exclusivamente ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual é um dos autores, e sua volta à atividade editorial criou muita expectativa.
Política é um tema que sempre recebeu interesse dos autores de fc. Obras clássicas e maiúsculas no gênero, como Tropas estelares (Starship troopers, 1959) e Estranho numa terra estranha (Stranger in a strange land, 1961) de Robert A. Heinlein, O mundo de Zero-a (The world of Null-a, 1948), de A. E. van Voght, Admirável mundo novo (Brave new world, 1932) de Aldous Huxley, 1984 (Nineteen eighty-four, 1949) de George Orwell, A muralha verde (We, 1920), de Evgeny Zamiátin, e Os despossuídos (The dispossessed: An ambiguous utopia, 1974), de Ursula Le Guin, entre outros, atestam o vigor que o tema detém dentro do gênero. Contudo, no Brasil, há poucos exemplos nessa linha, e os que existem pertencem à produção de autores do mainstream, que o abordaram de maneira transversal e alegórica, como Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, Não verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, Fazenda Modelo (1974), de Chico Buarque de Holanda, e Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga. Faltava mesmo que alguém demonstrasse que o tempo da censura e das perseguições políticas passou e podemos voltar a falar abertamente sobre política no Brasil, especialmente dentro do ambiente especulativo, que permite um leque amplo de abordagens criativas.
Além dos estrangeiros já citados, aos quais também se une o escritor português Luiz Filipe Silva, Branco selecionou textos de autores brasileiros cujos nomes já são bastante associados ao gênero, como André Carneiro e Daniel Fresnot. Contudo, a maior novidade da antologia é um texto do autor mainstream Fernando Bonassi, um verdadeiro achado do antologista.
O volume abre com um longo ensaio “Afinidades eletivas entre ficção científica e política”, do organizador, contextualizando a proposta e detalhando exemplos históricos na literatura estrangeira e nacional.
O primeiro conto é “A queda de roma, antes da telenovela”, de Luís Filipe Silva, um dos grandes nomes da fc lusitana, numa história sobre o ocaso do último político “à moda antiga”, ou seja, que atua num sistema representativo, uma vez que a atividade política se transferiu para uma nova tecnologia, não exatamente melhor conforme o ponto de vista.
Em seguida temos o excelente “Anauê”, de Roberval Barcellos, provavelmente o autor brasileiro mais politizado de sua geração. É uma história alternativa de um Brasil governado por uma ditadura nacionalista, visto através de um burocrata do Partido Integralista que tem de optar entre manter o seu status quo ou sua integridade moral frente a um terrível programa de higiene social.
“Gabinete blindado”, do veterano autor da Primeira Onda, André Carneiro, é o melhor texto da antologia. Com um estilo elegante e surpreendente, que muitos ainda acreditam não ser possível usar nos gêneros especulativos, Carneiro revive os Anos de Chumbo da ditadura militar, na história dos integrantes de um aparelho de guerrilha em plena operação.
“Trunfo de campanha”, de Roberto de Sousa Causo, é um texto do ciclo de Jonas Peregrino, space opera que o autor vem desenvolvendo em episódios espalhados por diversas publicações.  Aqui, Jonas tem que enfrentar as intrigas políticas de um figurão que quer se aproveitar de sua imagem de herói de guerra, numa história se assemelha às aventuras de espionagem ao estilo James Bond, porém com raios laser.
“Diário do cerco de Nova York”, do franco-brasileiro Daniel Fresnot, já é um clássico, visto na coletânea O cerco de Nova York e outras histórias (Alfa-Ômega, 1984). Conta a história de um escritor francês que tenta sobreviver em meio ao fogo cruzado da uma nova guerra civil nos Estados Unidos, que eclodiu depois que o prefeito da cidade de Nova York, apoiado por seus eleitores, decide descumprir ordens que recebe da União. A cidade é cercada por forças federais e atacada de forma avassaladora, o que a transforma numa reedição do gueto de Varsóvia.
Ataíde Tartari constrói uma alegoria às eleições majoritárias brasileiras de 2010 em “Saara Gardens”, na qual uma grande empresa tenta destruir o prestígio de uma candidata ambientalista que pode ser um grande problema, caso seja eleita.
Miguel Carqueija se apresenta com o curtinho “Era de aquário”, que não foge a seu estilo humorístico e irônico, sobre um tempo em que o esporte nacional brasileiro é assassinar políticos em atentados públicos.
Em “A evolução dos homens sem pernas”, Fernando Bonassi também investe na ironia e no humor para descrever os motivos que levaram os homens do futuro a desenvolverem mutações bizarras, mas talvez esses homens já estejam aqui, agora mesmo.
Assembleia estelar traz para os novos leitores a nova versão da noveleta “A pedra que canta”, de Henrique Flory, originalmente visto na coletânea de mesmo nome publicada pela Editora GRD em 1991. Trata-se da história de um jovem que recebeu um implante especial e pode literalmente fazer a “pedra cantar” numa ação que vai acabar com a guerra entre o Brasil e a Argentina.
Em “O dia antes da revolução”, Ursula K. Le Guin volta ao universo de seu romance Os despossuídos com uma prequela que mostra os últimos dias de Laia Odo, pensadora política que construiu o sonho anarquista de Anarres. Tal como o romance, este conto foi premiado com Hugo e Nebula, e é certamente o texto mais importante desta antologia. O conto foi originalmente visto em 1974 na revista Galaxy e recebeu tradução de Roberto de Sousa Causo.
A Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira está aqui representada por “O grande rio”, do autor mineiro Flávio Medeiros Jr, que elaborou uma ucronia intrincada para contar sua versão do assassinato do presidente John F. Kennedy.
O texto mais longo da antologia é a novela “O originista”, de Orson Scott Card, que também investe numa prequela, porém não de um romance próprio como fez Le Guin, mas ao clássico Fundação, de Isaac Asimov. O texto fez parte da antologia Foundations friends, organizada em 1989 por Martin H. Greenberg. Conta, de forma muito íntima, como o intelectual Hari Seldon, criador da Fundação e da Psico-História, desenvolveu o plano secreto de resistência ao governo totalitário do Império Galáctico a partir de um gigantesco mecanismo de pesquisa eletrônica que se parece muito com o Google moderno. A tradução é de Carlos Angelo.
“Questão de sobrevivência”, um dos textos mais publicados do escritor jundiaiense Carlos Orsi, também se insere no conflito entre um grupo de resistência e um governo totalitário.
A chave de ouro que fecha a antologia é “Vemos as coisas de modo diferente”, conto do papa cyberpunk Bruce Sterling, originalmente publicado em 1989 na coletânea Semiotext[e] sf.  A história faz uma extrapolação do conflito ocidente-oriente contando sobre um jornalista de um próspero mundo árabe que vem aos Estados Unidos – que está mergulhado em uma profunda crise econômica – para entrevistar um superstar do rock. A tradução é de Roberto de Sousa Causo.
Como se vê, trata-se de um livro de peso, tanto pelos autores quanto pelos textos reunidos, sendo uma das mais importantes antologias de ficção científica publicadas no Brasil nos últimos anos.
Cesar Silva

O Homem que Adivinhava, André Carneiro

O Homem que Adivinhava, André Carneiro. 152 páginas. São Paulo: Editora Edart, coleção Cienciaficção no. 8. Lançado originalmente em 1966.

André Carneiro faleceu em novembro de 2014 e nos deixou uma obra das mais significativas dentro da ficção científica brasileira. Muito atuante ainda antes de seu ingresso na FC, como jornalista e poeta, Carneiro tornou-se a partir dos anos 1960 no principal nome do gênero no país, e o mais publicado e reconhecido no exterior.
Três obras estabeleceram sua reputação a partir desta época. As coletâneas  O Diário da Nave Perdida (1963) e O Homem que Adivinhava (1966), ambas publicadas pela editora EdArt, e seu ensaio pioneiro Introdução ao Estudo da “Science-Fiction”, de 1967.
Em O Homem que Adivinhava, o autor retoma alguns dos temas de seu interesse já vistos em Diário da Nave Perdida. Mas longe estão de meras variações sobre os mesmos temas, pois ele os explora sob novos ângulos e pontos de vista, sobretudo a questão da incompreensão entre as pessoas e as várias formas com que essa incompreensão se manifesta.
A ficção científica de André Carneiro é sobretudo humanista, preocupada com os impactos que a ciência e a tecnologia podem ter sobre a sociedade e a cultura. Em O Homem que Adivinhava, somos expostos a níveis refinados de observações sobre a condição humana, mostrando mais uma vez como o autor é um crítico sensível sobre a ambiguidade do comportamento humano.
A coletânea apresenta oito histórias que se equilibram em termos de qualidade, o que é difícil em se tratando de um conjunto de trabalhos tão diferentes entre si. Talvez porque, além da semelhança no subtexto das narrativas, a prosa seja segura, fluente, com um estilo já maduro quando o autor tinha 46 anos, e que seria ainda mais desenvolvido nas décadas posteriores — ainda que o rico impacto de suas ideias e reflexões tenha obtido melhor resultado no conto e na novela, do que nos seus dois romances, Piscina Livre (1980) e Amorquia (1991).
A questão principal que permeia os contos de O Homem que Adivinhava são as dificuldades de comunicação, relacionamento e compreensão entre as pessoas. Se é verdade que esta dimensão ganharia contornos ainda mais complexos na sua coletânea Confissões do Inexplicável (2007), livro de notável riqueza psicológico-existencial, já nos anos 1960 Carneiro possuía pleno domínio da palavra e do que queria transmitir ao leitor ao contar-lhe uma história.
Alguns contos são aparentemente esquemáticos, como “Um Casamento Perfeito”, “Um Caso de Feitiçaria”, “Planetas Habitados” e “O Relatório Secreto”, mas a previsibilidade das ações não esconde o tratamento sutil a respeito das situações humanas, nem a afirmativa de que a vida moderna e tecnológica, ou a busca e a prática de rituais sobrenaturais, não conduzem à felicidade ou paz interior às pessoas. Ou então, que o que consideramos como certo ou normal guarda estreita — e nem sempre aceita — relação com um certo relativismo moral, trazendo ao primeiro plano virtudes esquecidas ou subestimadas, como humildade ou modéstia em relação tanto ao desconhecido no plano externo (“Planetas Habitados”), quanto no interno à mente (“O Relatório Secreto”), também deixando nas entrelinhas que não devemos nos levar tão a sério.
Duas histórias abordam mais de perto a questão do preconceito e desajuste social. Em “O Homem que Adivinhava”, um sujeito tem o dom da clarividência — enxerga o futuro de outras pessoas, mas isto acaba por conduzi-lo ao caminho fácil e traiçoeiro da fama rápida. Da mesma forma que as pessoas o bajulam, também o discriminam quando seus poderes começam a falhar. Já em “O Mudo”, o talento que diferencia o protagonista é mais sutil e mesmo discutível. Ele não fala e não ouve, mas tem uma sensibilidade apurada em lidar com as plantas. Vive num mundo marginalizado e particular, até que se apaixona e descobre o que as pessoas verdadeiramente pensam dele. As duas histórias trabalham com o preconceito da sociedade e a dificuldade dos personagens em lidar com suas diferenças; e Carneiro não é nem um pouco otimista quanto aos desdobramentos.
Duas noveletas estão mais próximas de temas tradicionais da ficção científica: “A Espingarda”, uma história de pós-holocausto nuclear, e “A Invasão”, sobre o contato com seres extra-terrestres.
“A Invasão” é uma curiosa história de fc ufológica e mostra como seria a reação da imprensa, dos políticos, dos militares, das pessoas do povo e dos cientistas ante a aterragem de dois gigantescos discos voadores numa floresta. O país destinatário do contato é Calamar, nome de um Brasil fictício, que não por coincidência vive sob uma ditadura militar. Assim, o autor pode se sentir mais livre para criticar a falta de transparência, a censura e a truculência dos militares no poder, e, sob o caos, lidar com um evento de interesse a toda a humanidade. O texto é narrado como se fosse apresentado em recortes, com flagrantes de comentários e noticiosos a respeito do evento, e mostra novamente como a questão do preconceito e da luta pelo poder está enraizada no comportamento das pessoas, ainda mais numa circunstância tão especial.
Carneiro é mais feliz, porém, com “A Espingarda”, um dos melhores textos de sua carreira. Incluída em Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica, antologia organizada por Roberto de Sousa Causo em 2007, é um relato angustiante sobre um sobrevivente do pós-holocausto que vaga à procura de comida, abrigo e, sobretudo, companhia humana, que resgate algum sentido à sua vida. A certa altura ele encontra uma pessoa, mas o contato não é pacífico, pois o outro vive cercado em uma casa de muros altos e brada para que o visitante vá embora, pois ele teria trazido a praga do sul do país. Como notou M. Elizabeth Ginway (in Ficção Científica Brasileira; 2005), há uma referência sutil à clivagem entre o Sul desenvolvido e industrializado e o Norte miserável e rural. Embora o Brasil tenha mudado desde então, a desigualdade regional continua significativa.
“A Espingarda” é um flagrante de um mundo que se desfez e deixou apenas restos aos sobreviventes. Tanto é que a imagem do homem com sua espingarda e a estrada como destino, não comunica um sentido de esperança, mas antes de solidão e incerteza sobre o que virá.
Publicado há 49 anos, O Homem que Adivinhava foi premiado como “Livro do Ano”, pela Câmara Municipal de São Paulo em 1966, e ilustra o destaque que o autor trouxe à fc brasileira, ao mostrar que, se realizada como literatura de qualidade, a questão do preconceito literário recua a um plano secundário. Ainda mais se o autor reflete de forma despojada e madura sobre temas importantes da condição humana, seja em que época, conjuntura tecnológica ou tipo de sociedade que estivermos inseridos.
Marcello Simão Branco

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O vampiro da Mata Atlântica, Martha Argel

O vampiro da Mata Atlântica, Martha Argel. 176 páginas. Capa de Billy Argel. Idea Editora, São Paulo, 2009.

Já tem algum tempo que a vampiromania invadiu o fandom brasileiro. Na verdade, suas raízes são antigas, vêm das seções de cinema nas madrugadas da tv que exibiam semanalmente os clássicos da Hammer, histórias de estilo gótico com vampiros que geralmente eram nobres da Europa oriental.
No ambiente da literatura popular para mulheres, romances fogosos com vampiros e lobisomens nunca foram novidade, mas explodiram sob a influência dos livros da franquia Entrevista com o vampiro (Interview with the vampire, 1976), de Anne Rice, que propunha um vampiro humanizado, sensível e ansioso por amor e carinho. O vampiro deixou de ser uma aberração para se tornar um objeto de desejo, com promessas sexo selvagem e amor literalmente eterno. Nos anos 1980, especialmente depois de filmes como Fome de viver (The hunger, 1983), a liberação feminina chegou ao vampirismo. Antes relegadas a  situação de escravas do vampirão chefe, as vampiras ganharam autonomia e passaram a ter seu próprio séquito.
As editoras de romances só perceberam que estavam dormindo no ponto em 2001, quando foi lançado o primeiro volume da franquia Os sete, do escritor paulista André Vianco, que atraiu a atenção dos leitores e vendeu dezenas de milhares de exemplares. Desde então, antologias, novelas, romances, trilogias com histórias de vampiros, de autores brasileiros estrangeiros, têm brotados nas estantes como cogumelos. Porém, apesar da grande atividade no gênero, os escritores elegeram unanimemente o modelo dos vampiros humanizados, como os de Entrevista com o vampiro. Realimentados por outras franquias estrangeiras, a coisa só fez acirrar-se, ao ponto de o mito original do vampiro ter praticamente se perdido.
Enfim, uma luz, embora o termo não seja totalmente adequado.
A escritora paulista Martha Argel, uma especialista em ficção fantástica, resolveu que era hora de retomar o mito a partir de suas raízes primitivas. E o resultado foi o romance O vampiro da Mata Atlântica.
Martha iniciou a carreira de ficcionista escrevendo fc. Seus primeiros trabalhos saíram nos livros virtuais Lugar de mulher é na cozinha, antologia organizada pela própria Martha, e a coletânea individual Contos improváveis, ambas publicadas em 2000 pela editora Writers. Os vampiros começaram a predominar seu trabalho a partir do romance Relações de sangue (Novo Século, 2002), seguido da coletânea O vampiro de cada um (da autora, 2003). Marta afastou-se um tantos dos sugadores em 2005, com a coletânea virtual Olhos de gato (Writers) e, em 2006, com O livro dos contos enfeitiçados, ambos com histórias de fantasia de horror.
Enfim, retornou em grande estilo aos vampiros com O vampiro da Mata Atlântica, uma história que investe num monstro nada glamouroso, nascido do ódio, sem qualquer interesse além de matar e comer. Martha também inova ao estabelecer a origem do vampiro em uma mitologia diversa. Não há, neste vampiro, a convencional mordida que transmite o vírus maldito. Aqui, a maldição é literal, decorrente de suas próprias maldades humanas. Morto, renasce monstro faminto que assombra seu vilarejo localizado num remoto trecho na região do Alto Ribeira, até que este, abandonado pelos moradores, fica deserto e em ruínas. O lugar torna-se tabu e os demais habitantes da região não se aproximam dele.
Pelo menos até que dois pesquisadores universitários, Xavier Damasceno e Júlio Levereaux, aparecem por lá, contratados por uma empresa para realizar um levantamento ecológico na região, com vistas a implantação de uma área de preservação ambiental. Equipados e com muitos suprimentos, querem aproveitar a oportunidade para também realizar estudos pessoais sobre os animais nativos, que pode valer pontos acadêmicos importantes. Leveraux é apaixonados por mamíferos, especialmente morcegos, dos quais sabe tudo e mais um pouco, enquanto Xavier é ornitólogo, interessado nas raríssimas harpias, animais em grave risco de extinção que foram avistadas na área.
O tempo chuvoso dificulta a chegada ao local e fica claro aos cientistas que eles não vão conseguir sair de lá antes do fim das chuvas. Como não estão com pressa, montam acampamento nas ruínas do vilarejo e começam a explorar as ricas flora e fauna locais.
Embevecidos pela natureza exuberante e concentrados no trabalho, não percebem que algo não vai bem por ali. Antes que possam se proteger, o vampiro investe sobre Leveraux, deixando-o ainda vivo, mas fora de ação. Fica então a cargo do inseguro Xavier a responsabilidade por enfrentar a criatura, num jogo mortal que Xavier não tem a menor chance de vencer. O isolamento, a rusticidade do lugar, o clima instável e a falta de recursos favorecem em tudo ao predador, que se diverte com as pífias estratégias de Xavier para proteger a si e a seu colega ao longo de cada noite de terror.
A única esperança de Xavier é sua criatividade e uns parcos conhecimentos sobre a lenda dos vampiros que Leveraux lhe explicou rapidamente, durante o primeiro dia de pesquisas. Mas isso pode não ser o bastante.
Muito inteligentemente, Martha aproveitou sua própria experiência acadêmica como ornitóloga para construir a introdução da história. A primeira metade do romance mal toca no assunto dos vampiros. Ela a usa para apresentar os personagens e suas motivações pessoais, com grande sucesso. Uma antiga rivalidade entre os dois cientistas tempera o relacionamento, da mesma forma que a cuidadosa descrição da Mata Atlântica, muito bem conhecida pela escritora, e a descrição detalhada da metodologia de pesquisa dos cientistas ajuda a dar verossimilhança ao ambiente. Quando finalmente o monstro se revela, toda a incredulidade do leitor já foi desmontada. Ficamos rendidos ao horror daquela criatura improvável e completamente real, tanto nas assombradas noites de Xavier, como nos nossos próprios pesadelos.
Martha, que sempre teve um texto correto e técnico, ganhou uma consistência inédita neste romance devido a ter situado a história em um ambiente familiar às suas experiências pessoais. É inclusive pertinente supor que algumas das situações descritas sejam autobiográficas.
O volume flerta com o mercado paradidático ao inserir, depois da história, artigos instrutivos sobre a Mata Atlântica, a região do Alto Ribeira e seus animais, com atenção especial para os morcegos, é claro.
Também cabe aqui ressaltar o belo trabalho de direção de arte, com uma imagem fabulosa na capa assinada pelo respeitado designer Billy Argel, irmão da aurora, além de um acabamento gráfico perfeito, que é padrão nas edições da Idea.
Cesar Silva

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife. 176 páginas. Capa de Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2012.

Jorge Luiz Calife é um patrimônio da ficção científica brasileira. O nome do autor já se tornou marca de qualidade e sua literatura está entre as mais republicadas do gênero. Desde que a Devir Livraria o contratou, tem sido um dos autores brasileiros mais editados na casa, com uma linha quase que exclusiva para seus romances. A editora parece estar disposta a publicar sua obra completa, já tendo em catálogo a Trilogia padrões de contato (2009), reunindo os romances Padrões de contato, Horizonte de eventos e Linha terminal, mais a “prequência” Angela entre dois mundos (2011) e, publicado no finalzinho de 2012, a coletânea Trilhas do tempo, a segunda do autor. A primeira foi As sereias do espaço, publicada em 2001 pela editora Record.
Trilhas do tempo reúne textos que Calife escreveu para diversas revistas ao longo dos anos 1990, principalmente as masculinas EleEla e Playboy, o que a princípio pressupõe um livro com forte pendão erótico. Contudo, também aparecem textos vistos nas revistas Isaac Asimov Magazine e SciFi News Contos, ambas especializada em fc, e até uma novela inédita exclusiva da edição.
Ao todo são sete ficções, mais um posfácio e um levantamento cronológico para a série Padrões de contato, também escritos por Calife. A seleta é apresentada por Clinton Davisson, autor do romance Hegemonia: O herdeiro de Basten, que confessa ser fã de Calife e o cobre de elogios, como não poderia deixar de ser. Embora não o sejam necessariamente, todos os textos parecem inseridos no universo de Padrões de contato, pois dele guardam as mesmas característica e textura geral.
Abre a coletânea o conto “O primeiro voo para as estrelas”, originalmente publicado na revista EleEla em 1987. Conta a história da primeira viagem a um planeta distante, realizado por uma grande tripulação a bordo uma espaçonave convencional. A viagem é feita em velocidades relativísticas e, quando finalmente chega ao seu destino, encontra o lugar habitado por homens que chegaram lá muito antes deles.
“Trajetória de fuga”, publicado nem 1984 na mesma revista, conta a história de uma jovem e promissora atriz de cinema que, por causa de um defeito numa espécie de simulador de realidade virtual, tem sua alma absorvida por uma espaçonave e, dessa forma, avança imortalizada rumo ao infinito.
“A sereia do espaço”, primeiro publicado em 1992 na extinta Isaac Asimov Magazine, conta a aventura de uma jovem astronauta que, em missão burocrática nas luas de Netuno, tem um inesperado contato imediato com uma entidade alienígena que a modifica definitivamente. Tornada em uma trans-humana imortal, ela volta à Terra para resgatar seu amante e levá-lo em sua companhia para viajar eternamente pelas estrelas.
A história se repete em “A espada de Herschel”, noveleta assumidamente inserida na série Padrões de contato, releitura para o clássico 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke. Conta a aventura de uma adolescente em missão às luas de Saturno a bordo de uma espaçonave movida por bombas atômicas. Chegando lá, a garota, e somente ela, entra em um portal que a leva para mil anos no futuro, de onde volta em seguida para alertar a humanidade contra uma grande catástrofe cósmica que se aproxima. A primeira publicação desta novela aconteceu em 2001 na também extinta SciFi News Contos.
O conto seguinte é “Viagem ao interior do Halley”, que a Playboy publicou em 1985, explorando o interesse pela passagem do famoso cometa. Este é único conto pessimista de toda a antologia e provavelmente de toda a carreira do autor. Conta o destino de uma malfadada missão de salvamento ao Halley, prestes a se fragmentar e desaparecer para sempre. Calife sugere que a tragédia não foi um acidente, mas uma manobra calculada pela inescrupulosa megacorporação Norland (o que mais se aproxima de um vilão na saga de Padrões de contato), tão somente para explorar os recursos minerais do Halley em seu próprio benefício.
“A estrela e o golfinho” é uma noveleta inédita, também inserida na cronologia de Padrões de contato. Enquanto Angela Duncan faz sucesso intergaláctico como cantora de um conjunto musical, a Terra está sendo visitada por uma entidade alienígena que parece manipular a radiação solar. Este texto contrasta asperamente com o anterior, porque Calife parece ter se arrependido ao vilanizar a Norland. Num diálogo final, uma executiva da empresa, que nesta história já não é mais uma simples iniciativa privada, mas o governo central da humanidade, faz um discurso positivista que não soa muito bem.
O último conto do livro é “A derradeira paixão”, uma história quase mística, se é que podemos usar esse termo para descrever um texto de Calife. Publicada em 1984 na EleEla, conta também sobre uma tragédia, esta fortuita, causada pela incapacidade humana de entender completamente o universo – um conceito também pouco comum na ficção do autor. A bordo de uma nave capturada por um buraco negro, um casal de jovens amantes tem sua última relação sexual estendida pela eternidade por conta do efeito relativístico.
Completa o volume o ensaio “Arthur C. Clarke, mulheres nuas e a ficção científica”, no qual Calife contextualiza os textos reunidos na coletânea.
Apesar das tentativas explícitas, os textos de Calife aqui reunidos não são mais eróticos que a ficção científica corrente que lemos em toda parte. As longas e detalhadas descrições das espaçonaves e suas tecnologias, bem como a beleza estonteante dos fenômenos cósmicos frente às recatadas cenas de sexo e nudez feminina, revelam onde está a verdadeira paixão destes textos.
Trilhas do tempo é um tributo de Calife à ciência redentora e à imortalidade que um dia, ele acredita, a tecnologia permitirá de uma forma ou de outra.
Cesar Silva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O que vale é ser feliz?

Os Vendedores de Felicidade (The Joy Makers), de James Gunn. Francisco Alves Editora – Coleção Mundos da Ficção Científica, 1984. Tradução de Reynaldo Guarany, texto das orelhas de Fausto Cunha e ilustração de capa de Antonio Jeremias. 243 páginas.

Sabe quando você pega um livro meio que por acaso na estante? Percebe que está lá há anos, tem um título interessante, uma capa bonita e é de um autor que, embora não tenha lido, sabe que é respeitado? Pois bem, tudo isso aconteceu comigo e me motivou a lê-lo no caso de Os Vendedores de Felicidade (The Joy Makers), do norte-americano James Gunn, publicado originalmente em 1961.
Este livro se insere na tradição das anti-utopias de sociedades construídas para serem perfeitas, de tal maneira que todos os problemas do homem seriam resolvidos. Mas não são. Nesse sentido, dialoga especialmente com Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley. Acredito que também é possível estabelecer conexões próximas com alguns contos e os dois romances de André Carneiro – Piscina Livre (1980) e Amorquia (1991) – com suas sociedades voltadas à imposição do prazer e do sexo.
James Gunn foi nomeado como Grande Mestre Nebula em 2006, o reconhecimento de  uma carreira de reputação sólida como crítico e acadêmico, tanto que venceu o Hugo com um celebrado estudo sobre um dos principais autores do gênero, Isaac Asimov: The Foundations of Science Fiction (1982), mas mostra-se também um autor talentoso e sensível nas três novelas que formam este romance fix-up.
Ainda era corrente nos anos 60 o expediente de juntar histórias antes publicadas de maneira independente em revistas do gênero na forma de livro. Por isso percebe-se uma certa desigualdade de estrutura como um todo, mas nada que comprometa, pois todas estão inseridas dentro de um mesmo universo ficcional conscientemente criado pelo autor.
A grande questão de Os Vendedores de Felicidade é a felicidade. Por que ela é tão importante? Por que temos tantas dificuldades em sermos felizes? E o que fazer para mantê-la quando a alcançamos?
Na primeira parte do livro, originalmente publicada como “The Unhappy Man”, um magnata egoísta é confrontado com o surgimento de uma organização que promete trazer a felicidade para as pessoas. Incomodado com o que acredita ser charlatanismo ele se submete a alguns dos testes, mas não se convence, embora tenha suas dores no corpo curadas por uma incrível cadeira com poderes medicinais. O que mais o desagrada é que a organização solicita que as pessoas que queiram adentrá-la têm de pagar uma quantia proporcional às suas posses e abandonar seu meio de vida, deixando tudo a cargo da Hedonics Inc. Ela cuida de tudo, de tal maneira que a pessoa não mais precisa ter preocupações materiais e pode viver, em tese, apenas para a busca do prazer e da alegria. Aos poucos toda a população é seduzida pela idéia do hedonismo, tanto que em 2003 é lançada a Declaração do Hedonismo, uma espécie de Declaração Universal dos Direitos do Homem. Com isso, ser infeliz se torna uma violação do sagrado direito – melhor dizendo, dever – de ser feliz. Depois de perder sua esposa e parte de sua indústria para a organização o magnata se vê em minoria, pede para voltar mas é rejeitado.
A segunda parte nos leva para um futuro mais distante. Em “The Naked Sun”, o mundo está completamente dominado pela doutrina hedonista, tratada de uma forma científica. A sociedade inteira responde ao chamado Conselho, que governa tudo e designa instrutores para cada bairro das cidades para que cuidem das eventuais infelicidades das pessoas. Isso porque nem todos estão preparados ou se adaptam a esta felicidade, pois ela se torna um fardo, ao destruir a criatividade e a motivação das pessoas. A história segue do ponto de vista de um destes instrutores, um sujeito que procura seguir os tais preceitos hedonistas à risca com seus pacientes. E isso o torna um problema para o Conselho, pois neste momento os sonhos e fantasias ministrados às pessoas passam pelo comércio de drogas e uma mecanização cada vez maior das atividades. Perseguido para ser lobotizado e trazido novamente à “felicidade”, ele não tem alternativa senão fugir para um dos planetas colonizados, para onde iam os rebeldes.
Na terceira história, “Name Your Pleasure”, estamos em Vênus. Duzentos anos depois da chegada dos colonos eles estão começando a ter os primeiros êxitos em seu processo de terraformização do planeta. É quando surgem seres em duplicata dos habitantes, ameaçando a harmoniosa convivência social baseada em princípios do hedonismo. Afora Vênus, também há colônias estabelecidas em Marte, Ganimedes e Calisto. Mas como a Terra está mais próxima, é enviado um emissário para procurar respostas e pedir ajuda ao que acreditam ser uma invasão extraterrestre. Ao chegar à Terra, ele a encontra vazia, com todas as construções em pé, tudo funcionando perfeitamente, mas sem as pessoas. Todos os seres que a habitam são robôs que desempenham as mais diferentes funções. É avistado por um ser de aparência humana, mas para descobrir que é um duplo – um androide – igual aos que há em seu planeta natal. Com isso percebe que a invasão vinha da própria Terra, pois já que as pessoas sucumbiram por “excesso de felicidade”, a organização impessoal e mecanizada que controla a Terra quer levar esta mesma felicidade para as outras colônias, já que foi programada para trazer a máxima satisfação a todos os seres humanos. Ele encontra uma mulher e com ela luta para impedir os planos. Chega a encontrar várias pessoas mantidas inconscientes flutuando dentro de uma câmara semelhante a um útero, como que em preparo para renascer em um momento adequado. As pessoas foram conduzidas por meio de ilusões sofisticadas a este estado original de satisfação de todo ser humano, a proteção do ventre materno. Sem saberem se, afinal, eles mesmos não estariam vivendo uma ilusão e na verdade imersos na mesma câmara uterina, abandonam o planeta, voltando para Vênus.
Como disse antes, falta certa harmonia de enredo entre as histórias, natural já que não é um romance no formato tradicional. Nesse sentido, está ausente também explicações mais completas e genéricas de como funcionaria a sociedade, embora elas sejam esboçadas implicitamente através das ações dos personagens. Mas tais opções de ordem metodológica não chegam a atrapalhar a força das histórias e do livro como um todo, que ainda tem cada capítulo iniciado por epígrafes sobre a felicidade, que são também um charme à parte.
Apesar de publicado há quase meio século Os Vendedores de Felicidade continua pertinente na sociedade atual, cada vez mais impessoal e hedonista, por conferir uma importância exagerada à beleza do corpo e à busca do prazer sem limites, numa deturpação da ideia de felicidade. Uma das razões é que ela não deve ser vista como um modelo único, destituído de valores morais e motivações de ordem ética que a embasem. Pois uma felicidade deste tipo não se sustenta. E ainda assim, afinal, mesmo uma verdadeira felicidade responderia aos nossos anseios? Será mesmo que viemos a este mundo para sermos felizes? Ou seria apenas a melhor parte daquilo que vivenciamos? No fim das contas, a lucidez maior está com um dos personagens, quando ele afirma que cada homem tem o direito de buscá-la à sua maneira, de escolher suas próprias ilusões.
Marcello Simão Branco

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo

A saga de Tajarê, Livro 1: A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Bráulio Tavares. 120 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2004.

Romance de aventura mitológica e especulativa de Roberto de Sousa Causo, escritor nascido em São Bernardo do Campo que desde muito jovem optou pelos temas fantásticos, principalmente a ficção científica. São seus livros a antologia A dança das sombras (Caminho Editorial, Lisboa, 1999), o romance Terra verde (editora Cone Sul, São Paulo, 2000) e o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (editora UFMG, Belo Horizonte, 2003).
A sombra dos homens reúne dois contos já vistos na revista Dragão Brasil (ed. Trama) mais uma noveleta inédita, resultando num dos poucos exemplos autênticos de fix-up na literatura fantástica brasileira, uma vez que não é comum no Brasil a publicação avulsa de contos em revistas (fix-up é um romance que resulta da compilação de contos originalmente independentes que, justapostos, formam uma trama única e coerente).
Tajarê, o protagonista da história, é um índio sul americano que vive numa época pré-cabralina. Dotado de poderes espirituais e mágicos, Tajarê é usualmente convocado pelas forças da natureza para dar cabo de qualquer ameaça à integridade da mesma, as quais sempre atende embora não aprecie o uso da força que tem de lançar mão para cumprir a tarefa, principalmente quando por conta disso possam acontecer mortes. Portanto Tajarê é um herói infeliz na sua condição de protetor.
A história do primeiro conto, que dá nome ao livro, inicia-se quando Tajarê é convocado a defender sua terra de invasores perigosos vindos de outro continente. O índio é conduzido pelos seres mágicos até uma praia, onde vê desembarcar um grupo pequeno de guerreiros vikings. Eles protegem Sjala, sacerdotisa que pretende localizar e libertar o deus Loki que está aprisionado em algum lugar na Amazônia. Fazendo uso de seus atributos físicos surpreendentes, Tajarê derrota todos os guerreiros vikings e captura a sacerdotisa, pela qual se apaixona.
O segundo conto é o mais curto do livro. "A Benção das Águas" é a narrativa de um monólogo interior de Sjala. Algum tempo adiante e ainda cativa, ela vive com Tajarê em sua aldeia e dele espera um filho. Apesar de ser prisioneira e sentir um amor paradoxal por seu captor, a sacerdotisa espera a oportunidade ideal para escapar e cumprir a missão que a trouxe para tão longe de sua terra.
A noveleta a seguir é divida em duas partes. A primeira, chamada "Sangue no Grande Rio", mostra exatamente o momento em que a oportunidade da fuga se apresenta a Sjala, anos mais tarde. Niadorã, o filho de Sjala e Tajarê, já é um curumim crescido. Ao pressentir o ataque de uma onça ao seu filho, Sjala usa seus poderes para salvá-lo, irritando a tribo que já não via com muito gosto a presença da cativa branca entre eles. A decisão do chefe tribal, aproveitando a presença de uma comitiva comercial de guerreiras brancas — as ferozes icamiabas — é o banimento de Sjala, que é entregue às amazonas.
Tajarê, que não estava na aldeia, retorna quando o fato já está consumado. Tomado de angústia, parte imediatamente em busca da mãe de seu filho. Depois de uma perseguição exaustiva muitos quilômetros rio acima e com a ajuda de algumas entidades mágicas da natureza, Tajarê ataca o barco das icamiabas que leva Sjala, mas as guerreiras reagem fazendo uso de atributos mágicos, ferindo o guerreiro gravemente. Ainda assim, Tajarê insiste na batalha mas, no momento em que imaginava ter conseguido resgatar Sjala, ela se transforma numa garça e literalmente foge de seus braços, voando em direção da aldeia fortificada das icamiabas, a montante do grande rio. Tajarê não sabe que, apesar de todo o seu amor por ele e Niadorã, Sjala agora está decidida a cumprir sua missão original: libertar Loki e promover o Ragnarok.
A segunda parte da noveleta, chamada "Olhos de fogo", arremata o volume em grande estilo, não deixando nada a dever aos grandes momentos de ação dos grandes livros estrangeiros de fantasia. Sjala, ainda transformada em garça, chega a aldeia das icamiabas, uma cidadela fortificada construída sobre o rio. É recebida pelas guerreiras com um misto de desconfiança e fascinação. As amazonas, que dizem ser descendentes dos atlantes, dominam uma série de instrumentos de tecnologia desconhecida, trunfos contra os muitos inimigos que têm. Mas agora cobiçam o talento de se transformar em ave demonstrado por Sjala que, por isso, é aprisionada até que se recupere o bastante para ensinar-lhes o encanto. Mesmo contida pela magia da cidadela, Sjala elabora um novo plano de fuga, convocando mentalmente para ajudá-la o monstro do mar Kraken. Enquanto as icamiabas esperam que a sacerdotisa viking se recupere, Tajarê planeja o ataque definitivo à cidadela. Para isso, usa todos o expediente de magia que tem a sua disposição, arregimentando um grande número de entidades da natureza, entre elas o poderoso Mboitatá, uma gigantesca cobra que lança fogo pelos olhos. Mas nada lhe será dado sem um preço, e Tajarê sabe que pode não sobreviver a esse custo. Mas seu amor a Sjala e a Niadorã fala mais alto; com o coração apertado pelas mortes que irá causar, Tajarê aceita seu destino, seja qual for.
Causo mostra competência na construção deste enredo, que é dramático sem ser piegas e violento sem ser gratuito. Explora com competência uma mancheia de lendas e mitologias indígenas, dando ao livro um sabor brasilianista poucas vezes visto na fc&f. O excesso de ufanismo que isso poderia sugerir é compensado com referências à mitologia nórdica que, felizmente, não sobressaem. A forma como o autor aproveitou uma variedade de animais nativos da Amazônia, incorporando-lhes atributos mitológicos, é uma das melhores qualidades da obra. Não é definitiva, mas dá um bom exemplo aos demais autores brasileiros das ricas possibilidades ainda por explorar.
Entretanto, apesar do que a apresentação gráfica do volume sugere, com a ilustração de capa assinada por Lourenço Mutarelli, ilustrações e vinhetas gráficas do próprio autor ao longo de todas as páginas internas, e a própria narrativa de fantasia heróica, A sombra dos homens não é um livro infantojuvenil. O texto não apresenta leitura fácil, com a fluidez adequada para crianças e jovens, pois Causo elaborou uma estrutura linguística criativa para modular a identidade dos diversos personagens e culturas, usando palavras incomuns e construções gramaticais exóticas em maior ou menor grau conforme a "indianização" dos mesmos. Resultou, mas esse instrumento exige uma concentração de leitura que pode dificultar a aceitação do texto por leitores pouco tolerantes. A complicada gramática criada pelo autor não é muito elegante, além de ser contraditória em si. Uma língua que não gerou a ideia de uma primeira pessoa do singular não iria permitir insigts de individualidade por parte de seus interlocutores.
Um problema adicional que pode incomodar o leitor exigente é a falta de profundidade do protagonista. Uma vez que Tajarê segue o arquétipo do herói, isso já lhe dá dificuldades para ser "redondo", pois um arquétipo que ganha profundidade deixa imediatamente de ser um arquétipo. Mas o mais visível é que, apesar de ser obviamente um índio, Tajarê não apresenta nacionalidade específica. É um índio genérico, que tanto poderia ser Tupi-Guarani, Tapajó, Xavante ou Caiapó. É de esperar que, aos olhos dos homens brancos, os índios pareçam todos iguais, mas eles não são. Elaborar um índio brasileiro autêntico é tão difícil quanto um viking, talvez mais. Isso não implicaria em conspurcar o arquétipo do protagonista, pois os traços culturais indígenas mais visíveis estão na arquitetura das moradias, na religião, na língua, nos costumes sociais e alimentares, etc. Causo deu pouca atenção a isso, infelizmente, passando muito rápido pelas descrições que poderiam colaborar no estabelecimento dessa identidade, dando ainda ao trabalho alguma profundidade antropológica. Esse descuido não atrapalha a narrativa, mas enfraquece o valor da obra, que poderia ter sido muito enriquecida por uma pesquisa mais profunda.
Ainda assim, superada a dificuldade inicial com a gramática heterodoxa, A Sombra dos Homens é um trabalho que se lê com prazer e que se reveste de dimensão significativa no panorama da FC&F brasileira; um trabalho que deve ser lido e discutido por suas muitas contribuições e sugestões ao gênero.
Ainda vale ressaltar a introdução luxuosa que o jornalista, compositor e escritor Braulio Tavares cedeu ao volume, um ensaio sobre o mito do herói, o herói realista, o herói brasileiro e o aproveitamento que Roberto Causo faz disso no texto que se segue.
Cesar Silva

Quintessência, Flávio Medeiros Jr.

Quintessência, Flávio Medeiros Jr. 232 páginas. Selo Monções, Publigraph Editorial, Belo Horizonte, 2004.

Flávio César de Medeiros Júnior, médico oftalmologista natural de Belo Horizonte, não era conhecido no fandom até pouco antes de lançar seu livro de estreia, o romance de ficção científica Quintessência, pela Publigraph Editorial, através do selo Monções.
Quintessência é mais propriamente uma ficção policial, embora a fc se apresente de forma importante. O personagem principal é o investigador de polícia Tomas Rizzatti, designado para investigar um crime tão bárbaro quanto misterioso: um atirador não identificado abriu fogo no corredor de um shopping center, assassinando várias pessoas e suicidando-se em seguida com uma bomba incendiária. Rizzatti já havia investigado um crime semelhante alguns anos antes, o que somente contribui para acirrar o mistério: dois crimes muito similares cujos autores morreram sem serem identificados. Porém, Rizzatti é experiente e consegue localizar algumas pistas, como o carro do terrorista, abandonado numa rua próxima ao shopping, um modelo em especial que é moda entre os policiais. Surge então Fernando Grogorovicz, agente da Interpol enviado para acompanhar o caso. Há um clima de competitividade entre os policiais e o seguimento das investigações parece apontar o próprio Rizzatti como mandante do atentado. Aos poucos, Rizzatti se vê cada vez mais enrolado e tem de desaparecer para prosseguir com sua própria investigação, que vai levá-lo a revelações pessoais dramáticas e a um torvelinho de situações violentas na trilha de um super-terrorista internacional.
Medeiros, que se tornou um autor elogiado no fandom, já demonstra aqui um bom domínio da narrativa de ação. Não faltam perseguições de automóveis, correrias no metrô, tiroteios em hotéis de luxo e tudo o que estamos habituados a esperar de um policial movimentado.
Mas e a fc, onde entra nisso?
Para começar, a história passa-se em algum momento na segunda metade do século 21, portanto, a tecnologia está mais sofisticada e o ambiente sócio-político é ligeiramente diverso do atual: o degelo polar causou a inundação das grandes cidades litorâneas de todo o mundo e Belo Horizonte, onde se passa a história, foi uma das grandes cidades brasileiras que conseguiu manter-se a salvo das misérias futuristas. Mas este cenário é apenas circunstancial e a mesma história poderia ser perfeitamente instalada no presente, num tecnotriller sem necessidades extrapolativas. O que legitima o romance como fc é a especulação sobre a genética, uma área de pesquisa científica de ponta no Brasil, que nunca interessou muito aos autores brasileiros de fc, exceção feita ao romance O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro. Entretanto, os parentescos mais próximos de Quintessência são mesmo os filmes de cinema de ação e espionagem e as histórias em quadrinhos de aventura.
O que livra Quintessência do pastiche é a habilidade do autor em construir um cenário brasileiro futurista plausível. Medeiros usou e abusou de referências geográficas reais, incluindo ruas e logradouros de sua cidade, que podem ser identificados pelos leitores que a conhecem. É possível que essa qualidade especial do autor advenha justamente do fato dele não ter sido catequizado pela filosofia de uma fc&f "sem referências bairristas" abraçada por boa parte dos autores do fandom.
Quintessência é recomendável para quem gosta de histórias com muita ação e será apreciado também pelos fãs de fc, que irão identificar no modelo alguma similaridade com a narrativa de vários autores da Golden Age, que apreciavam fazer fc a partir de tramas policiais. E a ficção policial tem, no Brasil, rejeição muito menor do mainstream. É um bom caminho para ser seguido.
Cesar Silva

A Máscara do Mágico (The Mad Magician, 1954)


Produção em 3-D com fotografia em preto e branco, trazendo Vincent Price, um dos maiores astros do Horror de todos os tempos. A direção é do alemão John Brahm, com carreira mais associada às séries de TV, e o roteiro é de Crane Wilbur, que também escreveu o anterior “Museu de Cera” (53), igualmente com Price.
“A mágica é a ciência da ilusão, a arte de dirigir pensamentos”, é o que diz o criativo artista Don Gallico (Price), especialista em construir dispositivos e engenhocas na produção de ilusionismo para mágicos. Porém, quando ele decide ter seu próprio espetáculo de mágica, é impedido por questões contratuais, sendo obrigado a passar suas ideias e criações para o inescrupuloso empresário Ross Ormond (Donald Randolph) e o mágico rival Rinaldi (John Emery). Frustrado por perder o trabalho e a esposa interesseira, Claire (Eva Gabor), e uma vez sedento por vingança, Gallico utiliza sua invenção com máscaras que retratam com perfeição o rosto das pessoas (daí o título nacional), e planeja eliminar seus adversários. Os assassinatos misteriosos despertam a atenção da polícia, com as investigações sob o comando do Tenente Alan Bruce (Patrick O´Neal), namorado da bela assistente de palco Karen Lee (Mary Murphy). O detetive ainda recebe a colaboração de uma observadora escritora de livros de mistérios e assassinatos, Alice Prentiss (Lenita Lane), que se envolve com o caso ao se aproximar do mágico louco.
Filme curto com apenas 72 minutos, mais considerado um thriller policial com elementos de horror, onde Vincent Price, como sempre graças ao seu carisma único, rouba toda a atenção para si, como um mestre dos disfarces num plano maquiavélico de vingança. Algo já característico em muitas de suas interpretações como vilão em filmes como o já citado “Museu de Cera”, ou nas cultuadas preciosidades dos anos 70, os dois episódios com o Dr. Phibes e em “Teatro da Morte”, também conhecido como “As Sete Máscaras da Morte”.
Curiosamente, “A Máscara do Mágico” foi exibido em 3-D nos cinemas em seu lançamento na década de 50, e também é considerado como o primeiro filme exibido nesse formato na televisão americana em 1987, sendo necessária a utilização de um óculos especial para experimentar os efeitos tridimensionais.
(Juvenatrix - 22/02/15)

Desafio ao Além (The Haunting, 1963)


“Uma casa má e velha, do tipo que algumas pessoas chamam de assombrada. É como um país não descoberto esperando ser explorado. Hill House se manteve por 90 anos e poderá se manter por mais 90. O silêncio cobre sólido a madeira e a pedra de Hill House, e seja o que for que andou lá, andou sozinho”
Esse é o prólogo de “Desafio ao Além”, produção em preto e branco dirigida por Robert Wise, o mesmo cineasta de “O Túmulo Vazio” (45), “O Dia Em Que a Terra Parou” (51) e “O Enigma de Andrômeda” (71), entre outros. O roteiro de Nelson Gidding é baseado no livro “Assombração na Casa da Colina” (The Haunting of Hill House), escrito em 1959 por Shirley Jackson.
O antropólogo Dr. John Markway (Richard Johnson) aluga uma misteriosa e imensa mansão chamada “Hill House” por alguns dias, com o objetivo de realizar estudos e pesquisas sobre os estranhos fenômenos que dão fama de assombrada para a casa. Ele convida duas mulheres para participar da missão, Eleanor Lance (Julie Harris), que tem alguns distúrbios psicológicos decorrentes de muitos anos de sofrimento ao cuidar de sua mãe doente, e Theodora (Claire Bloom), que possui poderes extra-sensoriais. Completa o time o herdeiro da mansão, o jovem Luke Sanderson (Russ Tamblyn), cético e piadista, cujo único interesse é conhecer melhor o imóvel que fará parte de seu patrimônio. A ideia do cientista é coletar informações e provas da existência do sobrenatural, mas não imaginava que o grupo teria que lutar para manter a sanidade no ambiente sombrio da mansão, conhecida por sua história de tragédias, mortes e loucura.
Não falta o casal de sinistros caseiros, o Sr. Dudley (Valentine Dyall) e esposa (Rosalie Crutchley), que alerta os visitantes do perigo noturno de Hill House, algo que se transformaria num clichê muito explorado posteriormente. As hipóteses que poderiam explicar as perturbações da casa como o movimento de águas subterrâneas, eletricidade, pressão do ar, manchas solares, tremores de terra, foram substituídas por batidas grotescas e aterradoras nas paredes e portas, gritos e sussurros, além de ambientes misteriosamente frios e tétricos. “Desafio ao Além” é um exercício de puro horror insinuado, onde não se vê os fantasmas ou uma única gota de sangue, mas os efeitos de luz e sombra, sons sinistros e a cena da “porta.que respira”, que tornou-se famosa, promovem um perturbador estado de desconforto, acentuado pela ótima performance do elenco aterrorizado, principalmente a dupla de mulheres convidadas pelo cientista.
Curiosamente, tivemos uma refilmagem em 1999 com Liam Neeson, Catherine Zeta-Jones e Owen Wilson, que recebeu o título nacional de “A Casa Amaldiçoada”. Sua história abandonou o horror psicológico e sugerido do clássico de 1963, priorizando as cenas gráficas com mortes violentas e sangue. E em 1973 foi lançada a preciosidade “A Casa da Noite Eterna” (The Legend of Hell House), com roteiro do especialista Richard Matheson baseado em sua obra homônima, e com Roddy McDowall liderando o elenco. A história é bem similar à obra-prima de Robert Wise, porém com um horror mais explícito. Mas, o resultado é igualmente interessante e recomendável, juntando-se ao clássico dos anos 60 e situando-se entre os mais representativos filmes do sub-gênero de casas assombradas de todos os tempos.
(Juvenatrix - 03/01/15)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As Cavernas de Aço, Isaac Asimov

As Cavernas de Aço (The Caves of Steel), Isaac Asimov. Introdução de Isaac Asimov. 300 páginas. São Paulo: Editora Aleph, 2ª edição, 2014 [2013]. Tradução de Aline Storto Pereira.


    Isaac Asimov (1920-1992) foi um dos mais populares escritores de ficção científica do século XX. Escreveu com consistência a maior parte de sua carreira, com uma larga produção de contos e romances (ele chegou a ser reconhecido como um dos autores mais prolíficos do mundo) concentrada em três ou quatro séries que ele buscou fundir, a partir de 1982.
    As Cavernas de Aço (The Caves of Steel; 1953) e O Sol Desvelado (The Naked Sun; 1957) formam uma unidade dentro da sua série sobre robôs  que inclui as histórias do famoso Eu, robô (1950) –, por terem o mesmo protagonista, o detetive Elijah "Lije" Bailey.
    No texto introdutório à nova edição de As Cavernas de Aço, Asimov comenta que o famoso editor John W. Campbell, Jr. não acreditava que seria possível uma mistura eficiente de ficção científica e mistério (aquele tipo de ficção de crime que gira em torno da descoberta do autor de um assassinato, também conhecida como "who-done-it"). "Campbell tinha dito muitas vezes que um mistério de ficção científica era um contrassenso", Asimov escreveu, "que os avanços da tecnologia poderiam ser usados para tirar os detetives de apuros de um modo injusto e que, portanto, os leitores seriam ludibriados".
    Mas Horace Gold, editor da concorrente de Campbell, a revista Galaxy, pediu a Asimov um romance que apareceria em partes na sua publicação, e lançou a ideia: "Você gosta de mistérios. Coloque um assassino nesse mundo e faça com que um detetive o resolva com um parceiro robô." Asimov topou o duplo desafio - escrever o romance para Gold, e provar que Campbell estava errado. (Nessa altura de sua carreira, era importante para o escritor estar livre de uma associação estrita com Campbell, que havia se envolvido com ideias que Asimov achava serem mais pseudocientíficas do que científicas.)
    No futuro de As Cavernas de Aço, a humanidade encontra-se dividida entre os habitantes da Terra e os dos mundos coloniais (os Siderais). Trata-se de um ponto decisivo na expansão da espécie humana pela galáxia rumo à formação do Império Galáctico que os leitores já tinham visto nas histórias da fabulosa space opera de Asimov, a série Fundação (também disponível no Brasil pela Editora Aleph).
    A Terra desse futuro tem nove bilhões de habitantes, concentrados em grandes cidades subterrâneas que racionalizam os transportes, a produção e o consumo de recursos. A história se passa em Nova York, e a caracterização da vida nessa metrópole futura deixa claro que não existe muita latitude nem mobilidade entre as classes sociais. É uma vida apertada, controlada por um burocrático sistema de classificação profissional (com cada nicho dando acesso a mais recursos e privilégios), e há uma grande má vontade quanto aos Siderais e também quanto aos robôs que, as pessoas sentem, podem expulsar os profissionais dos seus nichos.
    Casado com uma nutróloga chamada Jessie (de "Jezebel"), Elijah Bailey é um detetive de polícia encarregado de investigar um assassinato na segregada instalação de uma representação de Siderais, em Nova York. É a primeira vez que um fato como esse ocorre, e a resolução do crime é importante para a continuidade das relações entre a Terra e os Siderais, algo que o Comissário de Polícia da cidade, Julius Enderby, faz questão de deixar claro ao herói. O fato que causa maior tensão junto ao detetive, porém, é a imposição pelos Siderais de um parceiro que deverá acompanhá-lo  o robô R. Daneel Olivaw.
    Grande parte das peripécias do romance gira em torno da necessidade de manter Olivaw incógnito perante essa população hostil aos robôs  e ao contrário de todos os robôs na Terra, tem a perfeita aparência de um ser humano. Descobre-se, inclusive, que há um grupo secreto de oposição aos robôs seguindo cada passo da dupla. E como o romance faz parte da série Robôs de Asimov, o comportamento de Olivaw em face das famosas Três Leis da Robótica é muito importante. O leitor também fica sabendo que Olivaw foi construído pela vítima do assassinato, o cientista Roj Nemennuh Sarton, que lhe deu a sua aparência. Sarton tinha grandes planos para o futuro do relacionamento dos terranos com os Siderais, envolvendo aquilo que o povo da Terra mais teme, uma aproximação maior com os robôs. Isso dá um potencial fundo político ao crime.
    Asimov lida perfeitamente tanto com a dinâmica particular da série quanto com os elementos do romance de mistério  as pistas, as motivações e as condições do crime. Entre tais condições, está o fato de todas as entradas para as instalações Siderais serem controladas, excetuando as que dão para a superfície. Mas os humanos desse futuro, tendo nascido e crescido nos subterrâneos, não são mais capazes de sair ao ar livre  conceito que mais tarde Robert Silverberg desenvolveria em sua ótima mas pouco lembrada distopia Mundos Fechados (The World Inside), de 1971, um romance sobre sexualidade e superpopulação.
    Além da conhecida habilidade de Asimov para lidar com questões de lógica e o seu talento insuperável para a exposição do assunto, em As Cavernas de Aço ele demonstra muita sensibilidade na caracterização de Elijah Bailey. O personagem é descrito como um policial experiente, mas no início ele mete os pés pelas mãos e sofre um embaraço atrás do outro. Num outro nível, Asimov precisa demonstrar que Bailey é um profissional competente e um marido sensível, sereno diante das ansiedades de Jessie, também elas importantes para a trama. Nessa dinâmica doméstica, bastante simples e verdadeira, metida no cenário futurista e distópico, há igualmente uma sutileza que impressiona. É possível ainda ver algo dessa domesticidade corriqueira inserida num futuro sombrio  e do clima de paranoia  no relacionamento de Rick Deckard e sua mulher em O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep?; 1968), de Philip K. Dick (1928-1982), recentemente republicado pela Aleph como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?
    As peripécias do romance de Asimov incluem uma investigação do próprio Daneel Olivaw personagem que se tornaria importante na fusão da série dos Robôs com a da Fundação , com Bailey trazendo a Nova York o robopsicólogo Hans Falstolfe, para testá-lo (situação que lembra um pouco o exame "Voigt-Kampff" aplicado por Deckard nos androides do romance de Dick). O leitor fica sempre em dúvida se o detetive está no caminho certo desta vez, ou se vai aprontar mais uma trapalhada. Seus tropeços não apenas ajudam a caracterizá-lo, mas retardam o desenvolvimento do enredo para que Asimov possa caracterizar o seu mundo futuro das cidades enclausuradas talvez demonstrando aí um dos problemas da fusão da ficção científica futurista com a ficção de crime: a necessidade de maior espaço para caracterizar as condições sociais e físicas em que o crime e a investigação ocorrem.
    Com um final irônico que lembra aquele do posterior No Calor da Noite (In the Heat of the Night; 1965)  ficção de detetive de John Ball, levado ao cinema em 1967 com Sidney Poitier e Rod Steiger no elenco (e direção de Norman Jewison) , As Cavernas de Aço foi um dos livros mais vendidos de Asimov, e dizem que teria inspirado a série Almost Human (2014), a nova e malfadada aventura de J. J. Abrams na televisão. O romance de Asimov já tinha sido adaptado diretamente em 1964 e 1989 pela BBC, TV e rádio outra certificação de que a história funciona plenamente como um mistério, esse gênero tão britânico.
    Lije Bailey é um homem integrado às rígidas circunstâncias sociais em que está inserido, o que talvez seria conformista demais para um herói de ficção de detetive. As ansiedades familiares e a lembrança da carreira fracassada de seu pai no Departamento de Polícia ajudam o leitor a compreender as razões da sua adesão.  O mais importante porém é que a própria visão de mundo de Bailey se transforma ao longo da narrativa  e a de J. Daneel Olivaw também. Sem fanfarra, Asimov deixa claro que, assinalados por essas mudanças, os dias dos humanos da Terra restritos às suas tocas estão contados. A qualidade de mestre de Asimov se expressa nesse imbricamento pleno mas sutil entre a transformação individual e a mudança das condições históricas.
    Não é à toa que Isaac Asimov é um autor privilegiado dentro do programa de publicação de clássicos da ficção científica, mantido pela Editora Aleph.
Roberto de Sousa Causo

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mito e Horror em H.P. Lovecraft

A totalidade pelo horror: O mito na obra de Howard Phillips Lovecraft, Caio Alexandre Bezarias. Prefácio de Raul Fiker e apresentação de Marcos César de Paula Soares. 154 páginas. Editora Annablume/Fapesp, 2010.

A partir desta primeira década do século XXI o ambiente universitário brasileiro passou a conviver com uma nova tendência: a de trabalhos acadêmicos sobre temas e autores alternativos ou marginais ao cânone literário. Claro que é uma tendência minoritária, mas com certa regularidade. Provavelmente deve ter sido efeito primeiro do surgimento de uma nova geração de estudantes e pesquisadores, que buscaram refletir sobre os seus interesses mais próximos e influentes; e em segundo lugar, pela aposentadoria de uma geração de acadêmicos, tradição literária mais conservadora. Dentro deste contexto, um dos trabalhos mais representativos e interessantes é A totalidade pelo horror: O mito na obra de Howard Phillips Lovecraft, originalmente uma dissertação de mestrado defendida no Departamento de Letras, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2006, e que em 2010 finalmente foi publicada como livro.
É emblemático também que esta obra aborde justamente um dos maiores outsiders da literatura do século XX, um sujeito tão admirado por seus escritos quanto incompreendido por sua personalidade, num dos casos mais contundentes de confusão entre estes limites. Claro, estamos falando de H.P. Lovecraft (1890-1937).
Lovecraft viveu toda a sua vida numa área restrita do Nordeste dos EUA, descendente de duas famílias que teriam sido originárias dos primeiros imigrantes que vieram para a Nova Inglaterra, puritanos religiosos e homogêneos social e culturalmente. O autor nunca escondeu a nostalgia dos seus antepassados e seu estilo de vida que em tudo diferia do momento histórico que ele presenciou: a transformação radical do modo de vida rural para o urbano, com uma enorme e rápida industrialização, além de uma intensa imigração, como parte deste processo de desenvolvimento econômico, que trouxe para o país pessoas das mais diferentes paragens e costumes estranhos. E esta nostalgia foi aprofundada pelas dificuldades econômicas e familiares que o autor enfrentou, tornando-se quase que um recluso que passava a maior parte do tempo escrevendo rodeado por dezenas de gatos.
Estas peculiaridades de sua vida tornaram-se um ingrediente a mais para a compreensão de sua obra, tão diferente, original e recheada de polêmicas e muita influência em fãs e autores que o cultuam e imitam até hoje, inclusive no Brasil.
Nesse sentido é que a obra de Caio Bezarias se destaca do ponto de vista do conteúdo. Pois analisa o autor e a criação de seu mito – as histórias do ciclo de Cthulhu – de uma perspectiva desmistificadora tanto com respeito à personalidade do homem, como de sua obra. Mostra sim que ambas estão intimamente imbricadas, mas procura interpretá-las com mais sofisticação e refinamento do que a que encontramos costumeiramente.
Colin Wilson na excelente introdução ao seu romance neo-lovecraftiano, Parasitas da mente (1977), argumenta que o fascínio que Lovecraft exerce advém de sua obsseção pelo terror e pelo repulsivo, explícito tanto pela intensidade imagética quanto pelo estilo adjetivado e barroco do seu texto. Para além do reconhecimento de um outsider de seu tempo, a exemplo de outros em outras épocas, o romântico Lovecraft levou às últimas consequências criativas sua rejeição e desajuste ao mundo que vivia.
A esta moldura social e literária construída por Wilson podemos contrapor a visão mítico e histórica de Bezarias, que inicia seu trabalho com a vinculação de Cthulhu e os outros deuses dos Grandes Antigos através da ideia do mito original e fundador. Os tempos imemoriais, antiquísssimos e muito antes do surgimento da humanidade seriam cosmogônicos. Este seria o mais profundo, pois daria origem e conformação aos demais e teria uma explicação fundante das raízes do mundo. Bezarias mostra, com exemplos do próprio Lovecraft e de autores que estudaram os mitos, como Cthulhu é um mito deste tipo e porque isso ajuda a entender suas características fatalistas e niilistas, entre outras.
Por tudo o que se sabe, o mundo ideal para Lovecraft era o dos colonos norte-americanos, com suas fazendas e modo de vida puritano – mas não religioso no seu caso, já que ele era racionalista e ateu –, e composto por seus iguais em termos culturais: brancos e falantes da língua inglesa. Tudo o que destoasse deste quadro sócio-cultural seria desagregador e ameaçador. O livro analisa de forma instigante como este mundo idealizado foi desafiado e modificado pela transformação dos EUA numa potência industrial, e de como sua profunda negação rendeu os frutos literários de sua obra de reação ao status quo. Cthulhu e Os Grandes Antigos, descobertos por infelizes pesquisadores que defendiam o modo de vida puritano, representam esta desordem industrial e cultural, horrenda ao ponto de significar o fim da própria humanidade. Se podemos entender as características da obra de Lovecraft através de sua identidade, outro caminho seria a dos efeitos da pobreza em sua vida. Wilson percorre com mais atenção esta seara.
Como sublinha Bezarias, a despeito desta crítica ao mundo em transformação sugerir, em tese, uma prosa de estilo mais modernista, duvidando mesmo das certezas racionais que este mundo sugere, em termos literários Lovecraft conservava uma forma bastante conservadora, realista, não modernista. Ou seja: ele usava um estilo tradicional que, numa primeira visão, se prestaria a uma concordância com a realidade, para rejeitá-la radicalmente. Certamente um paradoxo que ajuda a tornar os escritos de Lovecraft ao mesmo tempo mais regressivos, críticos e libertadores de qualquer tendência: seja ela artística, seja ela social. Por esta linha, Bezarias recompõem em outro nível a crítica muitas vezes apressada ao estilo adjetivado e em primeira pessoa de Lovecraft, que seria pura e simplesmente deficiente. Pois ele poderia ser visto como parte desta rejeição, explicitando subjetivamente a incompreensão, o desconforto e o medo, através dos personagens.
A análise de Bezarias sobre a função utópica das histórias do ciclo também é muito interessante, ao mostrar que a volta dos Grandes Antigos de seu sono eterno, representaria a desordem suprema, o caos em seu sentido mais absoluto, destruindo a civilização. Seria a confirmação em estado mais acabado das rejeições que Lovecraft tanto aponta: o horror representado pela industrialização, urbanização e miscigenação cultural. Para Bezarias estaríamos diante de uma distopia: este mundo rejeitado por Lovecraft já seria distópico, mas o seu limite seria niilista, pois levaria o retorno de Cthulhu e seu panteão, trazendo o caos, ao fim da humanidade ou da civilização.
Em seu conjunto, A totalidade pelo horror é um título adequado, pois expressa a intenção da obra: a tentativa de compreender a realidade por uma lógica que a rejeita e por isso é mais bem expressa pelo horror. Nesse sentido, no delírio criativo de Lovecraft vislumbra-se o potencial de suas virtudes críticas e os limites niilistas e reacionários de sua visão de mundo.
Nesta análise de cunho acadêmico e no âmbito dos estudos culturais, Bezarias traz uma contribuição relevante tanto para o ambiente acadêmico, como para a comunidade de leitores e escritores de ficção científica e horror do país, ainda tão carentes de boas obras de não-ficção, em especial a que trate de estudos de autores e aspectos de sua obra. Mas se o mito de Cthulhu é, por assim dizer, dissecado e de forma coerente com o objetivo proposto, acaba por transparecer uma espécie de “deshorrorização” do primeiro plano da obra de Lovecraft, a do horror e mais especificamente do “horror cósmico” em si, por seus efeitos próprios de estilo e seus significados de ameaça oculta e irresistível ao mundo cotidiano. Como observou Wilson, tais características são as grandes responsáveis pelo inegável fascínio que a obra de Lovecraft continua a transmitir através de gerações de leitores e aficcionados.
Marcello Simão Branco