terça-feira, 24 de novembro de 2015

As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, Inglaterra, 1968)


A produtora inglesa “Hammer” também contribuiu significativamente para o sub-gênero do cinema de horror que aborda o satanismo. No final dos anos 60 e início da década seguinte, tivemos um período com ótimos filmes com propostas similares, como “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, e “Balada Para Satã”, de Paul Wendkos. Em 1968 foi lançado “As Bodas de Satã”, com direção do especialista Terence Fisher, o mais importante cineasta do cultuado estúdio, e com o ícone Christopher Lee no elenco. O roteiro é do renomado escritor Richard Matheson, a partir de um livro de Dennis Wheatley, cujas histórias serviram de inspiração para “O Continente Esquecido” (1968) e “Uma Filha Para o Diabo” (1976), ambos também da “Hammer”.
Ambientado em 1929, os amigos Duque Nicholas de Richleau (Christopher Lee) e Rex Van Ryn (Leon Greene) prometeram ao pai falecido do jovem Simon Aron (Patrick Mower), que cuidariam dele. E pensando nisso, e após sem vê-lo por alguns meses, eles decidem visitá-lo em sua casa, surpreendendo-o no meio de uma estranha reunião de uma suposta sociedade astronômica. Como profundo conhecedor de doutrinas e ciências ocultas, o duque desconfia dos misteriosos diagramas desenhados no chão de um grande salão no andar de cima da casa e após encontrar galinhas escondidas numa cesta como se estivessem prontas para o abate num ritual de sacrifício, ele acredita que Simon faz parte de uma seita demoníaca. Ele tenta retirar o jovem e outra garota, Tanith Carlisle (Nike Arrighi), da influência maligna dos seguidores do culto, uma vez que eles estavam sendo preparados para um batismo num sabbath, onde passariam a servir o diabo. Então, Nicholas e o amigo Rex, apaixonado por Tanith, juntam esforços com a sobrinha do duque Marie Eaton (Sarah Lawson) e seu marido Richard (Paul Eddington), e todos tentam salvar os jovens das forças do mal e das garras do líder satânico Mocata (Charles Gray), mestre em nível superior do culto demoníaco.
“Na magia não existe o bem e o mal. É somente uma ciência. A ciência de fazer com que ocorram mudanças por meio da vontade própria. A reputação sinistra que a acompanha não tem fundamento. É baseada em superstições, não em observações objetivas”. Essas são as palavras de Mocata, e segundo ele, não há motivos para se temer a magia. Porém, não é o que se vê no filme, principalmente em cenas onde dezenas de seguidores do culto se banham freneticamente com o sangue fresco de um bode abatido em sacrifício, ou quando surge a presença física do demônio Baphomet numa missa negra, uma aparição extremamente sinistra, de uma criatura meio homem e meio bode.
É curioso notar que o ator Christopher Lee, segundo o site “IMDB” (Internet Movie Database), afirmou que “As Bodas de Satã” é seu filme preferido da “Hammer”, e ele esteve em muitas produções do estúdio, interpretando personagens de todos os tipos, principalmente o vampiro Conde Drácula. E que ele insistiu bastante com os produtores para filmarem uma história de Dennis Wheatley. Porém, contrapondo um pouco o entusiasmo de Christopher Lee, o filme é bem exagerado na fantasia, com demônios surgindo envolvidos em névoas, através de rituais sombrios, e parece bem estranho ver o cultuado ator recitando energicamente palavras mágicas de uma oração para combater o poder das trevas. O desfecho também é bastante previsível, onde podemos imaginar com razoável antecedência os rumos das ações, culminando com o manjado confronto final entre o bem e o mal e a óbvia punição para os derrotados.
Entre os momentos de destaque certamente vale registrar uma cena tensa envolvendo uma aranha gigante, que ameaça o Duque e seus amigos quando estão no interior de um círculo desenhado no chão, participando de um ritual para combater o demônio e tentar libertar os jovens Simon e Tanith de sua influência maligna. O enorme aracnídeo peludo utilizado na cena é real, filmado numa perspectiva que o faz parecer bem maior e imponente, realmente passando uma sensação imensa de desconforto, mesmo para quem não sofre de aracnofobia. 
Lançado em DVD no Brasil pela “Cult Classic”, os letreiros de abertura do filme são ilustrados por diversos símbolos e imagens de magia negra, causando um efeito interessante e perturbador logo no início.
(Juvenatrix – 24/11/15)

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Terror no Triângulo das Bermudas (Bermuda Tentacles, EUA, 2014)


Com distribuição da dupla dinâmica dos filmes bagaceiros do cinema fantástico tranqueira do século XXI, “SyFy” (na televisão a cabo) e “The Asylum” (em DVD e Blu-Ray), “Terror no Triângulo das Bermudas” não desaponta seus distribuidores, pois é mais uma porcaria colossal. A história é extremamente banal, explorando o exaustivo clichê sobre os mistérios do famoso “Triângulo das Bermudas”, e os efeitos especiais em CGI incomodam de tão exagerados e artificiais. O elenco é repleto de atores inexpressivos, exceto pelas presenças curiosas do experiente John Savage como o Presidente americano DeSteno, e pela agora veterana Linda Hamilton (a Sarah Connor de “O Exterminador do Futuro”, 1984). Ela que está em final de carreira e sem opções para ter que aceitar o papel de uma militar austera, a Almirante Linda Hansen, que fica o tempo todo falando grosso, dando ordens e fazendo pose de durona . A direção é de Nick Lyon, de outras porcarias como “A Invasão Zumbi” (2012).
O avião “Força Aérea Um” que transporta o presidente dos Estados Unidos (Savage), enfrenta uma forte tempestade e antes de explodir no ar, uma cápsula com o presidente é ejetada, caindo no mar na região do Triângulo das Bermudas, indo parar no fundo do oceano. Paralelamente, uma frota de navios da Marinha, sob o comando rígido da Almirante (Hamilton), é atacada por monstros com tentáculos imensos (daí o título original) de origem alienígena. Enquanto enfrentam a ameaça dos monstros, uma equipe de resgate liderada pelo Chefe Trip Oliver (Trevor Donovan) parte num pequeno submarino experimental para tentar localizar a cápsula com o presidente. Além de outros soldados, a equipe ainda conta com a consultoria de apoio técnico da engenheira Tenente Plummer (Mya Harrison) e o piloto do submarino, o Tenente Comandante Barclay (Richard Whiten). No fundo do mar, eles encontram uma caverna gigantesca com um cemitério de aviões e navios que estavam desaparecidos, numa especulação sobre o mistério do Triângulo das Bermudas. Eles teriam sido capturados para fornecerem energia com seus combustíveis para um posto avançado alienígena oculto nessa caverna subaquática. Os sempre heróis americanos precisam superar dois desafios, encontrar e salvar a vida do presidente, e vencer uma batalha contra uma ameaça de invasão alienígena.
“Terror no Triângulo das Bermudas” é um filme muito ruim, exagerado na computação gráfica e extremamente previsível. Mas, o pior de tudo mesmo é o roteiro com ideias já vistas centenas de vezes antes, com os mesmos clichês irritantes. Se não fosse a história patética, poderíamos até tentar com certo esforço nos divertir com as características bagaceiras como os monstros em CGI, as mortes sangrentas, a gigantesca nave alienígena, e com a atriz veterana Linda Hamilton nitidamente deslocada num papel de militar sisuda. Porém, é difícil aguentar os discursos americanos sobre heroísmo, exaltação do ego e atos de bravura com sacrifícios para o bem da humanidade. Aliás, se não fossem por eles, nosso planeta indefeso estaria condenado à destruição.
(Juvenatrix – 18/11/15)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar

A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio sobre a representação do outro na antropologia e na ficção científica brasileira, Edgar Indalecio Smaniotto. 196 páginas. Editora Corifeu, Rio de Janeiro, 2007.

Um dos filões editoriais que tem sido atacado com entusiasmo pelos fãs brasileiros de ficção científica e fantasia é o dos estudos acadêmicos. Há até pouco tempo, contavam-se nos dedos de uma única mão os livros de não-ficção disponíveis em língua portuguesa sobre o gênero.
Os títulos históricos, publicados ao longo do século 20, geralmente tratavam da produção estrangeira, sendo que o mais importante texto sobre a ficção científica produzida no Brasil foi, por muito tempo, o prefácio escrito por Fausto Cunha para a edição brasileira de No mundo da ficção científica (Science fiction reader's guide), de L. David Allen (Summus Editorial, SD).
Em 2007, os leitores interessados nesse tipo de literatura puderam compartilhar das conclusões de A fantástica viagem imaginária de Augusto Emílio Zaluar, publicado pela Editora Corifeu, dissertação de mestrado de Edgar Indalecio Smaniotto sobre a vida e a obra do escritor luso-brasileiro Augusto Emílio Zaluar que, em 1875, teve publicado em dois volumes o romance O Doutor Benignus, obra considerada como um dos primeiros exemplos da ficção científica brasileira. A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNESP de Marília, orientada pela Professora Doutora Christina de Rezende Rubim, que também assina o prefácio do volume.
Smaniotto é um jovem professor que atua no ensino fundamental da cidade de Marília, onde nasceu e reside. Também é colaborador frequente das publicações do fandom brasileiro, geralmente com textos de análise literária.
O trabalho está dividido em seis partes principais. As duas primeiras são “Augusto Emílio Zaluar: Esboço de uma trajetória” e “Entre o relato de viagem e a moderna antropologia”, e dizem mais respeito ao homem Zaluar, sua biografia e sua participação da vida político-cultural na capital do Império Brasileiro. Neles, sabemos que Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudo em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Porém, como não havia possibilidade de se sustentar exclusivamente da escrita em seu país natal, em 1850 Zaluar migrou para o Brasil e se aqui estabeleceu como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro e o seu lugar no mundo. Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois Zaluar faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania que está cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia. O conhecimento de Zaluar a respeito do trabalho de campo dos antropólogos está retratado no romance na figura de William River, personagem sequestrado por uma tribo de índios caiapós na Ilha do Bananal, destino final da expedição de Benignus.
Na terceira parte, “A origem do homem: monogenismo e poligenismo”, descobrimos que Zaluar compartilhava da teoria de que o homem teria se originado na América – especialmente no Brasil – e que tinha confiança que mais cedo ou mais tarde essa teoria seria confirmada. Por isso seu personagem em O Doutor Benignus vai encontrar um crânio humano fossilizado, preservado numa providencial caverna no planalto central.
Até aqui, a leitura da dissertação de Smaniotto é conquistada a duras penas. O texto é truncado e repleto de citações e notas de rodapé, algumas bastante longas. Embora o tema não seja enfadonho, não parece ao leitor que se trata de um trabalho sobre ficção fantástica pois, até aqui, o que se falou esteve principalmente associado à pessoa de Zaluar. Entretanto, na segunda metade, o texto ganha contornos pungentes na medida em que Smaniotto aborda os temas que levaram os estudiosos a classificarem o romance de Zaluar com ficção científica de fato.
A teoria da habitabilidade dos mundos é o tema  da quarta parte do estudo, “Seres imaginários do espaço”. Aqui aparece a fascinação de Zaluar pelas teorias do cientista francês Camille Flammarion sobre a habitabilidade dos outros planetas dos Sistema Solar, e até mesmo do Sol e das estrelas, misturando ciência com doutrinas espiritualistas numa real antecipação do que viria a ser a popular ideia dos discos voadores, muitas décadas depois. Mas o trecho em que Benignus trava contato com um habitante do Sol – um ser feito de luz e energia radiante –, tudo acontece durante um sonho do sábio, depois de adormecer sobre os restos calcinados de um meteorito recém-precipitado. É curioso notar que a expedição de Benignus foi proposta principalmente para comprovar que o Sol seria habitado, e Zaluar argumenta que seu personagem teria essa certeza apenas por observar as manchas do Sol por seu telescópio. Sendo essas manchas, na interpretação do autor, fenômenos similares ao olho de um furacão, na sua lógica, a superfície do Sol seria fria e, portanto, habitada. Simples assim. Comprovada a habitabilidade do Sol, fica também comprovada a habitabilidade de qualquer outro astro.
A ficção de Zaluar frente a seus contemporâneos Júlio Verne e H. G. Wells é tema em “Estabelecendo comparações: o Doutor Benignus diante do romance científico europeu”. Nesta parte encontra-se o melhor do estudo para o leitor interessado em ficção científica. Smaniotto faz um relato rápido sobre a influência explícita de Júlio Verne na prosa de Zaluar, especialmente quando este insere um balão na sua história, a moda de Cinco semanas em balão, de Verne. Smaniotto observa ali a antecipação da dirigibilidade dos balões, tecnologia que só seria conquistada no início do século 20 por Alberto Santos Dumont. Apesar de ser uma interpretação romântica e uma forma de dar a Zaluar um arremedo da autoridade verniana, é um exagero. Zaluar definitivamente não deu dirigibilidade alguma ao seu balão em O Doutor Benignus, que só chegou aonde chegou – e no momento mais que oportuno diga-se de passagem – por conta de uma tempestade que o carregou na direção certa. Pelo menos neste caso, Zaluar não antecipou nada.
Mas as melhores sacadas de Samniotto estão nas comparações com Wells, especialmente na análise das diferenças culturais na representação do alienígena. Para Wells, o alienígena é um agressor, uma força de ocupação que humilha a arrogância britânica, enquanto que para Zaluar o alienígena é um ser espiritualmente evoluído que traz uma mensagem pacífica e edificante, e reconhece a promessa de um futuro glorioso para o país.
Smaniotto prepara o fechamento de seu trabalho na sexta e última parte, intitulada “A formação de um mito cultural: o alienígena na literatura brasileira”. Aqui, Smaniotto cita principalmente Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da brasilianista Elisabeth Ginway (Devir, 2005) e Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, de Roberto de Sousa Causo (UFMG, 2003), como referências para concluir que o mito do alienígena é uma característica da ficção científica brasileira, na medida em que valida todos os demais componentes da mítica nacional, colocando O Doutor Benignus numa posição de importância para as letras e especialmente para os estudiosos da ficção científica no Brasil.
Cesar Silva

sábado, 14 de novembro de 2015

O Filme Essencial sobre os Mistérios da Existência

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), Suécia, 1957, 95 minutos. Direção e roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça Pintura sobre a Madeira (1954). Com Max Von Sidow, Gunnar Björnstrand, Bengt Ekerot, Nils Pope, Bibi Andersson, Inga Gill, Erik Strandmark, Gunnel Lindblom, Anders Ek, Bertil Anderberg, Gunnar Olsson e Inga Landgre. Disponível em DVD pela Versátil Home Video.

O cineasta e dramaturgo sueco Ingmar Bergman (1918-2007), é mundialmente reconhecido como um dos mais influentes cineastas já surgidos. Destacou-se como tema recorrente de sua obra uma busca transcendente, metafísica, sobre as razões da existência humana e sua eventual ligação com algo além, Divino. Pois bem. Em O Sétimo Selo (1957), esta questão básica da vida é colocada de uma forma frontal, crua e perturbadora, como poucas vezes vista no cinema. E, para inserir e justificar o comentário desta obra dentro do gênero Horror, o fato é que Bergman, em primeiro lugar, trata de um tema que é horror em estado puro: a morte que espreita cada um de nós. E em segundo, de uma forma mais direta, pois cobre a narrativa com elementos fantásticos. Não o fantástico por si mesmo, mas como um eficiente recurso de parábola alegórica, conferindo uma forte impressão às questões refletidas. E chama a atenção também, o fato deste filme ser um dos poucos de sua filmografia a abrir mão de um tratamento essencialmente realista para os temas transcendentes que aborda.
Filmada em belíssimo preto e branco, a história se passa na Idade Média, contando a trajetória de regresso de um cavaleiro, Antonius Block (numa interpretação marcante de Max von Sydow) e seu escudeiro Jons, das Cruzadas, onde pela lâmina de suas espadas haviam subjugado ‘infiéis’ em nome do Deus cristão. Deprimidos e cansados, apreendem a inutilidade de suas ações, buscando algum sentido para toda aquela matança e para o mundo sombrio que testemunhavam. Uma época de perseguições religiosas, com pessoas sendo rotineiramente queimadas vivas em praças públicas, além da terrível chegada da Peste Negra (a peste bulbônica, transmitida por ratos contaminados por pulgas infectadas).
Assim, o mundo estava imerso no medo, na superstição e na presença cotidiana da morte, que a todos poderia levar de uma hora para outra. A peste matava de maneira rápida e dolorida e ceifou nesta época simplesmente um terço da população da Europa. Em termos percentuais foi a maior tragédia da história humana até os dias de hoje.
Bergman foi fundo no tema da procura de um sentido para a vida, em um ambiente tão sombrio e macabro. O cineasta afirmou certa vez em uma entrevista que “neste filme, o cavaleiro regressa da cruzada como, em nossos dias, um soldado volta da guerra. Na Idade Média, os homens viviam sob o terror da peste. Hoje vivem sob o terror da bomba.” Estava-se, então, em plena Guerra Fria, sob o possível holocausto nuclear. Desta maneira, O Sétimo Selo pode ser interpretado como uma alegoria do século XX e do mundo que ainda vivemos neste início do século XXI, em forma de lenda medieval. “O tema é bastante simples” – completa o diretor –, “o homem e sua procura eterna de Deus, tendo apenas a morte como única certeza.”
Ao participar das Cruzadas e testemunhar aquele mundo intolerante e degradado, o cavaleiro Block quer uma explicação, seja qual for, para entender que aquilo que fez e está presenciando não é uma completa perda de tempo. Em suma, ele deseja saber, e não crer.
Numa das sequências explicitamente fantásticas – que irá se repetir por todo o filme –, Block encontra a Morte, à beira de uma praia deserta. Com rosto cadavérico, sob uma longa túnica negra e carregando a temível foice em uma das mãos, Ela se anuncia para levá-lo deste mundo. Mais surpreso por poder vê-la do que pelo que isso significa, Block propõe um acordo: um jogo de xadrez. Caso ele vença, a Morte lhe daria mais alguns anos de vida. A proposta é aceita e eles vão, por todo o filme, travando um insólito duelo. Mesmo com toda a bagagem de espectador de filmes de horror, esta presença da Morte, personificada de uma maneira tão verdadeira, em um mundo tão incerto e dilacerado, realmente impressiona, não pelo medo em si, mas pelas implicações do que a Morte realmente representa na vida de cada um de nós.


Este filme, que não é de horror em termos estritos, é muito efetivo no sentido de despertar no espectador sentimentos centrais e incômodos: como a dúvida sobre a razão da vida e a inevitabilidade da morte. Onde Deus entra nisso? Conforme o próprio Block descobre, não há uma resposta definitiva. Ao invés, apenas o aumento da dúvida, da angústia, especialmente em três momentos. Primeiro, quando ele se aproxima da jovem ‘bruxa’ que será queimada e lhe interroga, esperando encontrar Deus através do Diabo, mas no olhar da torturada não vê nada além do medo. Depois, quando descobre que um dos principais fundamentos da religião é a semeadura do medo. Um homem contaminado pela peste pergunta a Jons se ele, de alguma forma, pode aliviar sua dor. Em tom áspero, o escudeiro diz que se o homem sente medo, deve correr para os braços dos padres. “Talvez eles possam ter alguma explicação”. Mas esta suposta explicação é definitivamente desconsiderada, quando Block – numa cena antológica, de tantas –, pergunta à própria Morte, qual o sentido da vida. “Onde está Deus?” Para o seu choque, a Morte diz nada saber. Fria como uma máquina, apenas está ali para executar seu trabalho: retirá-lo do mundo. Bergman nos coloca aí diante da temível condição do “nada”.
Este é um dos filmes mais profundos que já assisti. E suas discussões existenciais são ainda emolduradas por um estilo brilhante, com a intensidade dramática já inerente ao tema, sendo ampliada pela interpretação dos atores, pelo roteiro enxuto e cortante, pela cenografia fiel à época, nas composições e tomadas de câmara experimentais, além da música ora sussurrante, ora impactante que pontua as diferentes situações da obra.
Mas o filme não termina como uma reflexão pessimista da condição humana, que a nada restaria a não ser se corroer de dúvida ante a fatalidade da morte. Isso porque, uma espécie de esperança é vislumbrada, na presença do jovem casal de artistas e seu bebê. O amor partilhado e a valorização de fatos simples e solidários conferem, assim, uma espécie de significado concreto à nossa breve passagem pela Terra. E se na primeira vez que vi o filme, deixei a sala cheio de dúvidas e melancolia, ao revê-lo outras vezes, sinto-me existencialmente reconfortado, ao compreender um pouco melhor a réstia de esperança concreta que Bergman transmite, especialmente na ambígua e até lírica cena final desta obra-prima.

-- Marcello Simão Branco

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Gangsters na Lua (Moon Zero Two, Inglaterra, 1969)


Um western ambientado no espaço sideral, mais precisamente na nossa Lua, com tiroteios e brigas típicas desse subgênero do cinema. Essa é a ideia básica de “Gangsters na Lua”, o único filme com história futurística da produtora inglesa “Hammer”, mais conhecida por seus filmes coloridos góticos, evidenciando o vermelho vivo do sangue, e pela revitalização dos antigos monstros clássicos da produtora americana “Universal”. Só que, ao invés de vampiros, lobisomens, múmias e a criatura de Frankenstein, temos foguetes e naves espaciais, uma cidade lunar, asteroides e equipamentos tecnológicos de 2021, ano em que se passa a história e que segundo o roteiro as viagens para planetas como Marte e Vênus já são regulares.
A direção é de Roy Ward Baker, que tem outros trabalhos na “Hammer” como “Uma Sepultura Para a Eternidade” (1967), “Os Vampiros Amantes” e “O Conde Drácula” (ambos de 1970), entre outros. O elenco é liderado pelo experiente ator americano James Olson, rosto conhecido por participações em várias séries de TV e pelo filme de FC “O Enigma de Andrômeda” (1971).
Num futuro próximo, a humanidade colonizou a Lua e construiu uma cidade. Lá também existem regiões disponibilizadas para mineiros explorarem os recursos naturais. Nesse cenário de um ambiente sem oxigênio nem vegetação e onde em metade do mês não há luz solar, um ex-astronauta e agora especialista em resgate de satélites, Capitão William H. Kemp (James Olson), juntamente com seu parceiro, o Engenheiro Korminski (Ori Levi), se envolvem com um grupo de gangsters. Os criminosos são liderados pelo milionário excêntrico J. J. Hubbard (Warren Mitchell) e entre os capangas ainda temos o Sr. Whitsun (Dudley Foster) e o brutamontes Harry (Bernard Bresslaw). Eles contratam os serviços da dupla para resgatar um asteroide no espaço, rico em safira, um minério valioso, e escondê-lo numa região remota da Lua. O local escolhido é uma mina na face oculta, de propriedade do irmão da bela jovem Clementine Taplin (Catherine Schell). Porém, a mulher está procurando justamente a ajuda do Capitão Kemp para encontrar o irmão desaparecido, iniciando um conflito de interesses entre todos e envolvendo uma investigação policial da responsável pela lei na Lua, a bela Elizabeth Murph (Adrienne Corri).
“Gangsters na Lua” é uma daquelas bagaceiras divertidas com história exagerada, um “western espacial” sem compromisso com a lógica, com direito a tiroteios bizarros e dançarinas de salão com roupas coloridas e penteados extravagantes. Os efeitos especiais são toscos e divertidos, com maquetes de naves e bases lunares, com os atores pendurados por cabos simulando movimentos no espaço. Entre as várias curiosidades, podemos citar a presença do eterno ator coadjuvantes dos filmes da “Hammer”, Michael Ripper, que não poderia ficar de fora e tem uma participação rápida como um jogador de cartas que está se divertindo no bar lunar. Outra curiosidade interessante é o monumento localizado onde o astronauta americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez na Lua, numa homenagem para esse feito histórico da humanidade e que ocorreu poucos meses antes do lançamento do filme em 1969. E a abertura do filme com uma animação descontraída onde é mostrada a disputa entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética pela conquista da Lua, satirizando a corrida espacial que agitou com muita intensidade e tensão o mundo no final dos anos 60 do século passado.
(RR – 12/11/15)

domingo, 8 de novembro de 2015

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, EUA, 1974)


O filme que verão é baseado na tragédia que assolou um grupo de cinco jovens, especialmente Sally Hardesty e seu irmão inválido Franklin. Foi mais trágico devido ao fato de serem jovens. Mas, se eles tivessem vivido muito, muito longas vidas, jamais teriam esperado ou desejado ter visto a loucura e o macabro que viram naquele dia. Para eles, um passeio de carro num verão à tarde tornou-se um pesadelo. Os acontecimentos daquele dia guiaram o descobrimento de um dos mais bizarros crimes nos anais da história norte americana, O Massacre da Serra Elétrica”.

           Com essa introdução narrada por John Larroquette, alertando o espectador dos terríveis eventos que viriam a seguir, tem início um dos filmes mais insanos da história do cinema de horror. Não poderia ser melhor ou mais apropriada a definição de perturbador para “O Massacre da Serra Elétrica”, filme de baixo orçamento dirigido de forma independente em 16 mm por Tobe Hooper em 1974. Principalmente por evidenciar vários motivos esclarecedores para a escolha de tal adjetivo. Basta citar algumas cenas grotescas como um psicopata demente pendurar uma jovem viva e aterrorizada num gancho como se fosse um animal a ser abatido num matadouro; ou a violência crua do assassinato de um jovem através do golpe de uma pesada marreta em sua cabeça, com seu corpo se debatendo em horríveis espasmos do sistema nervoso, seguindo o mesmo método brutal com que se abate um boi ou porco; ou ainda o momento em que outro jovem paraplégico em uma cadeira de rodas é surpreendido pelo maníaco e retalhado através da ação devastadora, sangrenta e altamente dolorosa de uma moto-serra.

            É verdade que cenas como essas, ou muito piores ainda, foram exploradas à exaustão em uma infinidade de filmes produzidos posteriormente, tendo o auxílio do crescente desenvolvimento dos efeitos especiais que conseguiram simular situações muito próximas da realidade, obtendo-se verdadeiros espetáculos “splatter” de carnificinas. Porém, duas questões devem ser expostas e analisadas. Primeiro, é o fato de “O Massacre da Serra Elétrica” ter sido produzido no distante ano de 1974, numa época com menos violência no cinema (tanto que o filme chocou fortemente o público e sua exibição permaneceu proibida por vários anos em muitos países, inclusive o Brasil). Segundo, porque o verdadeiro horror é justamente aquele onde não há o exagero de se mostrar sangue e vísceras explicitamente, funcionando muito melhor em situações sugeridas, intensificando o medo no espectador. E o filme mostra uma violência grotesca sem no entanto apelar para a exibição de sangue em excesso, investindo mais na incrível insanidade de uma família depravada canibal, desprovida de humanidade.

           A história é sobre um grupo de cinco jovens, sendo dois casais formados por Sally Hardesty (Marilyn Burns) e seu namorado Jerry (Allen Danziger), e Pam (Teri McMinn) e Kirk (William Vail), além do irmão inválido de Sally, Franklin Hardesty (Paul A. Partain). Eles decidem fazer uma visita à antiga casa, agora abandonada, onde Sally e Franklin viveram a infância, numa pequena cidade do interior do Texas. E também eles queriam verificar no cemitério local se não havia violação do túmulo de seus ancestrais, pois haviam recebido notícias sobre saqueamentos e profanações das tumbas. Eles embarcam numa van e percorrem uma estrada onde dão carona a um misterioso homem, “Hitchhiker” (Edwin Neal), que mostra-se perigoso e imprevisível. Porém, o pior ainda estava por vir quando são surpreendidos e atacados por uma família sádica de necrófilos formada, além de “Hitchhiker” (Caronista), também por seus dois irmãos, “Old Man” (Jim Siedow), um gourmet lunático e “Leatherface” ou “Rosto de Couro” (Gunnar Hansen), um gigante deficiente mental que usa uma máscara formada por retalhos de pele humana retirados de suas vítimas. Eles ainda mantém vivo seu avô “Grandfather” (John Duggan), um velho meio zumbi e inofensivo, que é alimentado com sangue humano.

O diretor Tobe Hooper teve seu nome eternamente associado ao filme, que aliás, foi seu primeiro trabalho no gênero horror. Nascido em 1943 em Austin, Texas, sua carreira a partir de então foi marcada pela instabilidade, alternando entre filmes ótimos e interessantes e também medíocres e descartáveis. Seu nome é muito lembrado por dirigir o divertido “Poltergeist, o Fenômeno” em 1982, escrito e produzido pelo popular Steven Spielberg, e outros filmes importantes em sua filmografia de destaque são “Eaten Alive” (1976), “Salem’s Lot” (1979), “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (The Funhouse, 1981) e “Força Sinistra” (Lifeforce, 1985). E o mais incrível é que Hooper dirigiu “O Massacre da Serra Elétrica 2” em 1986 e conseguiu “destruir” toda a essência e atmosfera de um horror perturbador que ele próprio criou e que envolveu o filme de 1974, fazendo agora uma mistura de horror explícito, sangue em profusão e vísceras expostas, com elementos de comédia num resultado insatisfatório, onde prevalece apenas um bom trabalho com os efeitos especiais.

Com roteiro escrito pela dupla Tobe Hooper e Kim Henkel, “O Massacre da Serra Elétrica” teve inspiração no famoso “serial killer” Ed Gein para criar a família canibal e principalmente o psicopata demente “Leatherface”. Gein foi um assassino que aterrorizou a pequena cidade de Plainfield, Winsconsin, durante a década de 1950, matando várias pessoas brutalmente e utilizando suas peles e ossos para uma coleção particular de objetos bizarros. Outros filmes também utilizaram o caso do conhecido psicopata para compor parte de seus argumentos como o clássico “Psicose” (1960), dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, além de “Deranged” (1974), e o moderno “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme e com Anthony Hopkins. Ainda teve outro filme baseado inteiramente na vida do assassino intitulado “Ed Gein”, lançado em 2001.

O elenco é formado por nomes desconhecidos e a maioria não teve continuidade notória em suas carreiras, acabando por ficarem eternizados no gênero por seus envolvimentos com o “O Massacre da Serra Elétrica”. O grandalhão ator Gunnar Hansen nasceu em Reykjavik, Islândia, em 1956, e ficou para sempre como o primeiro e original “Leatherface”. Marilyn Burns também nasceu em 1956, só que é americana de Cleveland, Ohio. Chamada por Hooper, participou também de “Eaten Alive” e da produção para a TV “Helter Skelter” (1976), baseado na vida do assassino Charles Manson. Ela teve também uma pequena ponta como uma homenagem em “O Retorno do Massacre da Serra Elétrica”, quarta parte da série, filmada em 1994. Curiosamente, tanto Marilyn Burns quanto seu colega de elenco Edwin Neal (que interpretou “Hitchhiker”) estiveram também juntos num filme obscuro lançado em 1985 chamado “Future-Kill”, dirigido por Ronald W. Moore, e cuja história mostra os confrontos mortais entre grupos rivais de rebeldes numa cidade futurista tomada pela anarquia.

Comparado com dezenas de outras boas produções realizadas posteriormente, o filme de Tobe Hooper realmente tem um ritmo mais lento, com menos ação e principalmente pouca exibição gratuita de “sangue”. Mas “O Massacre da Serra Elétrica” é o filme que introduziu no cinema o psicopata “Leatherface”, o qual está figurando agora na galeria dos imortais monstros modernos ao lado de Michael Myers (“Halloween”), Jason Voorhees (“Sexta-Feira 13”) e Freddy Krueger (“A Hora do Pesadelo”), e o filme inegavelmente possui cenas perturbadoras, de uma violência crua e brutal.

Vários são os destaques dessa preciosidade do cinema fantástico. A abertura com uma seqüência de flashes macabros destacando pedaços de cadáveres decompostos e profanados num cemitério. O desfecho com “Leatherface” furioso dançando como um verdadeiro maníaco, fazendo acrobacias com sua feroz moto-serra rasgando o ar em movimentos bruscos. E principalmente a perseguição insana onde “Leatherface” corre à noite numa floresta atrás da jovem Sally Hardesty com sua moto-serra zunindo e sedento para destroçar o corpo da mulher. A cena demora tanto tempo, em vários intermináveis minutos, que praticamente nos obriga a torcer para que ela seja logo capturada e termine assim a agonia e tortura no espectador de tanta correria e gritos alucinados de puro desespero. É totalmente compreensível que a personagem corra por sua vida e grite de forma selvagem, pois afinal ela está sendo perseguida por um demente que pretende esquartejar seu corpo e fazê-la sentir a terrível dor de uma serra cortando sua carne e músculos, jorrando seu sangue em profusão para todos os lados, numa morte torturante e coberta de um grau tão elevado de violência que torna-se difícil imaginar a intensidade da dor.

“O Massacre da Serra Elétrica” foi lançado em DVD no Brasil com preço popular e distribuição em banca de jornais, encartado na revista “DVD News” número 38 (Abril de 2003), da “Editora NBO”, e é interessante notar que a revista não fez nenhum comentário sobre o filme, sem publicar algum artigo ou qualquer citação mínima, mostrando um evidente descaso com o filme. O material extra do DVD inclui “cenas não aproveitadas”, “trailer de cinema”, “erros de filmagens”, “notas de produção”, “galerias de fotos”, “posters promocionais”, “sinopse” e “biografias do elenco”, porém tudo muito superficial e sem grandes atrativos.
Em vídeo VHS, o filme original foi lançado duas vezes no Brasil, a primeira pela “Europa Home Vídeo” e depois pela “Reserva Especial Vídeo”, e ambas as versões são raridades atualmente.

Passou-se doze anos e esse grande clássico do cinema de horror inevitavelmente deu origem a uma franquia composta por vários filmes descartáveis e desnecessários, imensamente inferiores ao precursor da série. Foram mais três continuações, “O Massacre da Serra Elétrica 2” (1986), também de Tobe Hooper, “Leatherface: O Massacre da Serra Elétrica 3” (1990), de Jeff Burr, e “O Retorno do Massacre da Serra Elétrica” (1994), de Kim Henkel, um dos roteiristas do filme original. Todos os três foram lançados em vídeo VHS no Brasil.

Em 1988 foi produzido um filme bizarro lançado aqui no Brasil em vídeo VHS pela “AB Vídeo” com o nome de “O Massacre da Serra Elétrica 3” (Hollywood Chainsaw Hookers), de Fred Olen Ray, com o ator que interpretou o “Leatherface” no original, Gunnar Hansen. Porém, o filme nada tem a ver com o clássico de Hooper e teve o título nacional escolhido de forma totalmente equivocada, confundindo os fãs brasileiros e demonstrando o péssimo tratamento que os filmes de horror recebem ao chegar no país, numa incompetência que incomoda.

E como os executivos da indústria de cinema americano, incluindo os roteiristas de plantão, estão com uma incrível escassez de ideias (ou melhor, uma vergonhosa falta de vontade de criação), no final de 2003 foi lançada nos Estados Unidos uma refilmagem do filme de 1974 (no Brasil, somente chegou aos nossos cinemas no final de Fevereiro de 2005, e que teve uma continuação lançada em 2006 diretamente no mercado de vídeo, sendo na verdade uma pré-seqüência, apresentando eventos anteriores, dirigida por Jonathan Liebesman). A nova versão de “O Massacre da Serra Elétrica” tem direção de Marcus Nispel, roteiro de Scott Kosar e traz no elenco a bela Jessica Biel como a mocinha que grita histericamente, e Andrew Bryniarski no papel do psicopata “Leatherface” (cujo personagem, depois de Gunnar Hansen, passou a ser maltratado por Bill Johnson, R. A. Mihailoff e Robert Jacks nos filmes seguintes).

Depois, em 2013, ainda veio mais um filme, dessa vez aproveitando a popularidade das exibições em 3D, “O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua” (Texas Chainsaw 3D), com a história se iniciando com uma continuação exata de onde termina o clássico dos anos 70. Após a família canibal de “Leatherface” ser dizimada num incêndio criminoso, as ações passam para muitos anos à frente onde uma garota, Heather Miller (Alexandra Daddario), recebe uma notificação informando que herdou uma casa numa região rural no Texas. Ela parte então para lá acompanhada de alguns amigos, não imaginando os horrores que a aguardavam obrigando-a a lutar pela vida. Tem sangue e cenas violentas, mas, é só isso, pois o roteiro é ruim e cheio de falhas, não conseguindo estabelecer aquele clima sombrio tão evidente no filme original.

                A franquia em torno de “O Massacre da Serra Elétrica” ainda inclui um vídeo game lançado em 1983 e dois documentários produzidos diretamente para o vídeo. “The Texas Chainsaw Massacre: A Family Portrait” (1988) foi dirigido e escrito por Brad Shellady, trazendo depoimentos dos atores do filme original, entre eles Gunnar Hansen, Edwin Neal, John Duggan e Jim Siedow, além da presença do famoso colecionador Forrest J. Ackerman, editor da revista “Famous Monsters of Filmland”. E o documentário inglês com cenas de bastidores “The Texas Chainsaw Massacre: The Shocking Truth” (2000), com direção e roteiro de David Gregory, narração de Matthew Bell e com a participação de vários nomes envolvidos com os filmes como Tobe Hooper, Kim Henkel, Marilyn Burns, Gunnar Hansen, Paul A. Partain e Edwin Neal.

Algumas informações interessantes e que servem como curiosidade em torno de “O Massacre da Serra Elétrica” são por exemplo o valor do orçamento do filme ser de apenas US$ 140 mil (e atualmente essa cifra é inexpressiva, com os valores girando em torno de dezenas de milhões de dólares). O mais incrível é ainda o faturamento obtido nas bilheterias, algo como US$ 40 milhões, ou seja, quase trezentas vezes o valor investido, comprovando seu inegável sucesso e alta lucratividade. As filmagens ocorreram em “Austin”, uma pequena cidade do Texas onde nasceu o diretor Tobe Hooper. A atriz Marilyn Burns foi uma das primeiras e mais autênticas “scream queen” do cinema, gritando histericamente a maior parte do tempo, fugindo da lâmina cortante de uma moto-serra. O cineasta Hooper foi muito convincente ao filmar as expressões faciais do mais puro horror da personagem Sally, focalizando um perturbador enquadramento de seus olhos desesperados e de sua boca escancarada gritando por socorro. Esse recurso foi muito utilizado em vários filmes seguintes, sempre obtendo bons resultados. O psicopata “Leatherface” aparece pela primeira vez no filme apenas após 35 minutos, e imediatamente ele coloca sua marreta e moto-serra em ação, protagonizando um tormento que seguiria até o fim do filme. Imaginem se ele aparece desde o início... No primeiro filme da franquia ele é claramente um retardado mental, que parece agir por impulso e descontrole matando sem plena consciência do que está fazendo, quase como uma vítima do próprio ambiente depravado em que vive. Porém, nos filmes seguintes o psicopata mudou suas características tornando-se um “serial killer” consciente e que planeja suas ações assassinas. O personagem “Old Man” da família canibal, recebeu o nome de “Cook” (Cozinheiro) na continuação de 1986, e foi interpretado pelo mesmo ator Jim Siedow nos dois filmes. Aliás, nessa mesma sequência a família de insanos recebeu mais um membro, “Chop Top” (Bill Moseley), o irmão gêmeo de “Hitchhiker” que estava num sanatório, e os efeitos de maquiagem ficaram a cargo do especialista Tom Savini, largamente conhecido por seus trabalhos em filmes como “Sexta-Feira 13” (1980) e “Dia dos Mortos” (1985).

Um último detalhe que merece registro é um grande equívoco cometido pelos responsáveis em nomear os filmes que chegam ao Brasil. O correto e ideal seria traduzir o original para algo como “O Massacre da Moto-Serra no Texas”, pois o instrumento utilizado por “Leatherface” para retalhar suas vítimas parece ser uma moto-serra movida por combustível líquido e não elétrica como sugere o título nacional escolhido. E curiosamente o nome original estava previsto para ser “Leatherface” ou “Headcheese”, e somente perto do lançamento do filme é que foi escolhido o título definitivo de “The Texas Chainsaw Massacre”. Quando eu assisti pela primeira vez em 1987, através daquelas chamadas fitas de vídeo “alternativas” que infestavam as locadoras ainda carentes de lançamentos oficiais no mercado brasileiro, o nome que foi dado ao filme foi “Chacina e Massacre no Texas”.

Enfim, um filme indispensável que costuma freqüentar qualquer lista de “TOP 10” promovida por especialistas e fãs do cinema de horror, e certamente o filme se destaca na minha lista pessoal de preferências.

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, Estados Unidos, 1974). Vortex. Duração: 82 minutos. Direção de Tobe Hooper. Roteiro de Kin Henkel e Tobe Hooper. Produção de Kim Henkel, Tobe Hooper, Jay Parsley, Lou Peraino e Richard Saenz. Fotografia de Daniel Pearl. Música de Wayne Bell e Tobe Hooper. Direção de Arte de Robert A. Burns. Edição de Larry Carroll e Sallye Richardson. Elenco: Marilyn Burns (Sally Hardesty), Allen Danziger (Jerry), Paul A. Partain (Franklin Hardesty), William Vail (Kirk), Teri McMinn (Pam), Edwin Neal (Hitchhicker), Jim Siedow (Old Man), Gunnar Hansen (Leatherface), John Duggan (Grandfather), Robert Courtin, William Creamer, John Henry Faulk, Jerry Green, Ed Guinn, Joe Bill Hogan, Perry Lorenz, John Larroquette (narrador da introdução).

(Juvenatrix - 23/12/2005)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A Hora das Criaturas (Critters, EUA, 1986)


Em meados dos anos 80 do século passado, surgiu uma moda aqui no Brasil em chamar os filmes de horror e ficção científica que chegavam por aqui com o início “A Hora...”. E aí vieram “A Hora do Espanto” (vampiros), “A Hora do Lobisomem”, “A Hora dos Mortos-Vivos” (Re-Animator), “A Hora do Pesadelo” (Freddy Krueger), “A Hora da Zona Morta” (outra história de Stephen King), “A Hora do Calafrio” (o slasher “Savage Weekend”), etc. Teve também “A Hora das Criaturas” (1986), trabalho de estreia do cineasta Stephen Herek e que até virou franquia com mais outros três filmes (continuações em 1988, 91 e 92).
Na história, algumas pequenas criaturas peludas de uma raça alienígena com dentes pontiagudos, que soltam espinhos pelas costas e se movimentam rolando como bolas, fogem de uma prisão num asteroide, roubando uma nave estelar em direção ao nosso planeta. Eles aterrissam na área rural de uma pequena cidade americana e são perseguidos por dois caçadores de recompensas que possuem cabeças verdes sem feições, e que podem copiar o rosto de qualquer ser humano. Os alienígenas adoram fazer arruaças e comer descontroladamente, e decidem atacar a casa da fazenda da família Brown, formada pelo pai e mecânico de carros Jay (Billy Green Bush), a mãe Helen (a agora veterana e experiente Dee Wallace Stone, que esteve em “Quadrilha de Sádicos”, “Grito de Horror”, “E.T. – O Extraterrestre” e “Cujo”), e o casal de filhos adolescentes, April (Nadine Van Der Velde) e Brad (Scott Grimes). Ainda tem o mecânico ajudante Charlie McFadden (Don Opper), que gosta de ficar bêbado e falar sobre suas premonições com a chegada de alienígenas na Terra. Todos eles terão que lutar contra o ataque das criaturas do espaço e precisarão contar com a ajuda dos estranhos caçadores de recompensas para eliminar a ameaça.    
“A Hora das Criaturas” foi produzido pela “New Line” e também é conhecido no Brasil apenas como “Criaturas”. É uma pequena pérola do cinema fantástico bagaceiro da divertida década de 1980. Uma época sem a artificialidade da computação gráfica, que está sendo usada em exagero nos dias atuais, eliminando parte da magia que o cinema sempre teve com o horror gráfico de sangue falso e bonecos animatrônicos que simulavam monstros movimentados por complexos sistemas com a combinação de mecânica, pneumática, hidráulica e eletrônica.
O filme tem elementos de humor negro, tanto que é normalmente considerado como horror e comédia, e as criaturas alienígenas são extremamente carismáticas, mesmo sendo ameaçadoras e perigosas em ataques violentos contra animais e humanos. 
Curiosamente, os bichos alienígenas de “Critters” possuem grande semelhança conceitual e de forma proposital com as criaturas de “Gremlins” (1984), que já fazem parte da cultura popular. Outra curiosidade é a presença de um ainda jovem Billy Zane (que interpretou Steve Elliot, o namorado da garota April), em um de seus primeiros trabalhos de uma carreira bem sucedida posteriormente, com participações em filmes famosos como “Titanic” (1997). E também do veterano M. Emmet Walsh (que fez o papel de Harv, o xerife bonachão da cidadezinha), um rosto conhecido por seu imenso currículo com mais de 200 créditos. 
(Juvenatrix - 03/11/15)

O fantasma do apito, Miguel Carqueija

O fantasma do apito, Miguel Carqueija. 118 páginas. Apresentação de Marcello Simão Branco. Coleção Scarium Fantástica, volume 2. Edições Scarium, Rio de Janeiro, 2007.

Debaixo de chuva, três garotas se encontram na porta da escola aonde vão estudar. Elas nunca se viram antes, mas a breve viagem numa espécie de teleférico que leva à porta da escola desperta entre elas uma cumplicidade que será seu principal apoio nestes primeiros dias de aula. Isso porque, mal desembarcam no saguão, são acuadas pelo bedel que é extremamente rude com as estudantes. Tudo porque algum espertinho soprou um apito estridente na densa floresta que circunda a escola e ele acredita que foi uma entre as novas alunas.
Depois da má recepção, as garotas são acomodadas num mesmo quarto e passam a se conhecer melhor. Na hora da refeição, acabam se indispondo com um estudante por causa de uma sopa de tomates, sem maiores repercussões. Porém, durante a noite, o estudante é assassinado e, mais uma vez, a suspeita recai sobre as garotas.
Apesar da animosidade explícita da diretora da escola, as meninas são defendidas pela investigadora de polícia que acompanha o caso. Mais tarde, ela vai revelar ser clarividente e que reconheceu a inocência das meninas, especialmente o potencial de clarividência de uma delas.
Mas os problemas não terminam. Outros assassinatos acontecem, sempre fazendo acreditar que as garotas estão, de alguma forma, envolvidas. Mais policiais entram em cena e a pressão sobre elas fica cada vez maior. Somente as próprias meninas podem resolver o mistério do apito, que tudo indica ser um aviso do assassino antes de cometer os crimes. Um assassino acima de qualquer suspeita.
Esta é a história da novela O fantasma do apito, de autoria do escritor Miguel Carqueija, volume 2 da Coleção Scarium Fantástica.
Seguindo a característica que tem dominado seus trabalhos, o autor investe em protagonistas femininas para contar uma história de coragem e amizade no meio de um cenário antagônico e lúgubre. Fica clara a influência da série Harry Potter neste trabalho, que procura sustentar o mesmo clima gótico daquela série. Isso exigiu que o autor reinventasse a realidade, instalando a trama numa alternativa em que a história do Brasil caminhou de forma diferente. Apesar de recursos modernos e detalhes tecnológicos próprios do nosso tempo, predominam cenografias do castelo decadente onde a escola se instala, com ambientes escuros e passagens secretas empoeiradas, truques de magia, carruagens, dirigíveis etc.
No aspecto estrutural, a história tem um objetivo claramente infantojuvenil. O vilão, bem como o detetive Anselmo (personagem que cumpre um contraponto cômico) cumprem bem seus papéis esquemáticos apesar de um tanto estereotipados, especialmente o vilão, mas a impressão final é que isso foi um truquezinho do autor para emular o realismo farsesco das histórias em quadrinhos.
Sobre as protagonistas, o autor não se aproveitou bem do fato de ter três pessoas independentes. Em muitos aspectos, as meninas se parecem demasiadamente, falam da mesma maneira e pensam de modo similar. É impossível reconhecê-las apenas pelos diálogos e, ao final de história, ainda não conseguimos identificá-las claramente, mas isso pode ser superado nas sequências da história, uma vez que o autor divulga que voltará ao universo de O fantasma do apito desenvolvendo mais detalhadamente a estrutura histórica alternativa do mesmo.*
O volume tem a apresentação de Marcello Simão Branco, que sintetiza brilhantemente o trabalho no trecho reproduzido a seguir:

“Neste novo trabalho ficcional, Carqueija demonstra desenvoltura com a construção do enredo – que se situa entre o suspense e o sobrenatural –, com a criação e aprofundamento das personagens e com o desenrolar da trama. Cheia de reviravoltas e surpresas que prendem o leitor a cada fim de capítulo, no mais tradicional e eficiente recurso do folhetim.”

Branco ainda faz um breve apanhado da carreira do autor e eu aproveito para lembrar os seus livros mais recentes: A âncora dos argonautas (Coleção Fantástica, Hiperespaço, 1999), A Esfinge Negra (Nova Coleção Fantástica, Hiperespaço, 2003), As luzes de Alice (Hiperespaço, 2004) e A face oculta da galáxia (Editora Casa da Cultura, 2006).
Carqueija é um escritor voluptuoso, que produz em quantidade e participa com frequência das publicações e editoras dispostas a receber colaborações, sem qualquer preconceito. Embora suas últimas histórias sejam todas mais ou menos do mesmo tipo – aventuras na linha infanto juvenil com protagonistas femininas envolvidas em eventos de magnitude muito além delas mesmas, que sobrevivem aos percalços por graça da sua integridade destemida – atestam um amadurecimento estilístico que qualifica o autor alguns degraus acima dos muitos contos que publicou nos fanzines brasileiros ao longo dos últimos 30 anos.
A boa recepção dos textos de Miguel Carqueija em vários públicos, certamente é um facilitador quando se trata de convencer um editor a investir nos seus livros mas, mesmo assim, ainda lhe falta um livro por editora comercial, com grande tiragem e bem distribuído. Não tenho dúvidas que entre os muitos autores de fc&f atuantes no ambiente dos fãs, Carqueija é aquele que reúne as melhores condições para conquistar bons resultados comerciais no mercado editorial. Só lhe falta um editor que também perceba isso.**
Cesar Silva 
* A sequência da história apareceu em 2009 com a novela Tempo das caçadoras (Scarium).
** Como não podia deixar de ser, Miguel Carqueija passou os últimos anos em plena produção autoral e editorial, conquistando a publicação de dois romances de grande porte: Farei o meu destino (Giz, 2008) e O estigma do Feiticeiro Negro, com Melanie Evarino (Ornitorrinco, 2012).

domingo, 1 de novembro de 2015

Espantalho Assassino (Scarecrow, EUA / Canadá, 2013)


Mais um representante do cinema fantástico bagaceiro do início do século XXI, “Espantalho Assassino” é uma produção em parceria entre Canadá e Estados Unidos, feita para a televisão, e exibida regularmente no canal “SyFy”. A direção é de Sheldon Wilson, que tem o interessante “Terra Rasa” (Shallow Ground, 2004) no currículo.
O professor Aaron Harris (Robin Dunne) reúne um grupo de estudantes para cumprir uma tarefa punitiva, visitando uma antiga fazenda abandonada para recolher os restos de um espantalho num campo de milho, o qual seria reaproveitado para a realização de um tradicional festival de espantalhos numa pequena cidade. A fazenda é de propriedade da família de Kristen (Lacey Chabert), ex-namorada do professor, e é conhecida por histórias de assombração com uma lenda de um espantalho sobrenatural que se alimenta do sangue de suas vítimas. Quando o grupo de estudantes chega ao local, logo descobre que o horror é real e eles precisam lutar por suas vidas contra os ataques violentos de uma entidade maligna que habita as plantações.
A ideia básica do filme é um imenso clichê, pois os espantalhos já foram excessivamente explorados pelo cinema de horror, devido suas características típicas de criaturas assustadoras. Eles são confeccionados justamente com esse objetivo, impedir que animais, principalmente pássaros, destruam plantações nas fazendas. E no caso específico desse “Espantalho Assassino”, que apresenta um monstro não humano sedento de sangue, não há novidades, apenas mais do mesmo, numa história forçada e claramente manipulada para facilitar o trabalho preguiçoso do roteirista Rick Suvalle. O grupo de estudantes patéticos existe apenas e exclusivamente para servir de alimento para o espantalho sobrenatural.
São correrias, gritarias, perseguições e um desfile de futilidades que não agregam na tentativa dos realizadores em despertar a atenção do espectador. Além do uso exagerado de CGI vagabundo na concepção da criatura, tornando-a artificial demais e eliminando qualquer eventual carga dramática que existiria se fosse um espantalho interpretado por um ator de carne e osso fantasiado. 
Talvez as únicas coisas que possam se salvar e até divertir um pouco os menos exigentes, sejam as várias cenas sangrentas com mortes violentas repletas de feridas e escoriações profundas, com razoáveis doses de sangue escorrido. No mais, é apenas outro filme convencional dentro do tema e condenado ao esquecimento. Um filme com espantalhos assassinos que é bem mais interessante e recomendado é “A Maldição dos Espantalhos” (Scarecrows, 1988), que também é conhecido por aqui como “Espantalhos”, lançado em VHS, numa saudosa época sem a artificialidade da computação gráfica.
(Juvenatrix – 01/11/15)