domingo, 20 de agosto de 2017

Graça infinita

Graça infinita (Infinite jest), David Foster Wallace. Tradução de Caetano W. Galindo. 1136 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Leitores de ficção científica são muito desconfiados. Traumatizados por décadas de críticas nada favoráveis a suas histórias preferidas, aprenderam a desconfiar de toda e qualquer opinião, especialmente quando vem do mainstream e ainda mais quando é unânime. Os leitores de fc têm na ponta da língua uma ampla coleção de frases feitas usadas pelos críticos, entre as quais se destaca a máxima "Se é bom, certamente não é ficção científica". O trauma é tão intenso que, quando a crítica é favorável, a desconfiança é ainda maior. Porque, afinal, quem nunca entendeu absolutamente nada de fc certamente deve estar enganado. Fica valendo outro velho jargão: "Não li e não gostei" e o preconceito pela crítica acaba por tornar os fãs de fc igualmente preconceituosos. Deve ser por isso que Graça infinita, obra monumental do escritor novaiorquino David Foster Wallace (1962-2008) extremamente bem avaliada pela crítica, não despertou entusiasmo no meio dos fãs de fc quando de sua publicação no Brasil, ainda em 2014 pela Editora Companhia das Letras. O que é uma enorme e inaceitável injustiça porque, neste caso, as boas palavras da crítica em relação ao livro estão cobertas de razão. E o livro é mesmo ficção científica sem nenhuma sombra de dúvida. Mais do que isso: é muito provável que seja o melhor livro de fc já escrito. Mas aí já é o meu entusiasmo pessoal falando.
Graça infinita é um romance massivo de cerca de 600 mil palavras, publicado originalmente em 1996 nos EUA, considerado pela crítica americana como o último grande romance do século 20. Em termos de extensão, não é nenhuma novidade. Há dezenas de livros que têm essa dimensão e alguns são até maiores. Portanto, não é o tamanho do livro que conta aqui, embora ele seja ótimo também por isso. O que torna Graça infinita memorável é que se trata de uma literatura de alta octanagem, repleta de todo tipo de gadgets que a literatura pós-moderna já ousou aproveitar: citações, experiências formais, discursos descontrutivistas, solilóquios em fluxo de pensamento, linguagem não convencional, sexo, drogas, rock'n'roll e violência próprias da cultura popular deste início de século. Mas não só isso.
Há uma história em Graça infinita. Só não dá para saber com muita certeza quem é o protagonista porque a narrativa é de tal forma fragmentada e são tantos os personagens que algumas vezes parece que estamos lendo, de fato, uma coletânea de contos decapitados, passados todos no mesmo universo. Digo decapitados porque a maior parte dessas histórias não tem início e muitas delas também não têm fim.
De forma geral, o livro acompanha a vida dos três irmãos da família Incandenza: Orin, Hal e Mario. Orin, o mais velho, é  atleta profissional, jogador de futebol americano com sérios problemas para dormir. Hal é um gênio viciado em maconha que estuda no ATE, colégio voltado à formação de jogadores de tênis de alto desempenho; e o caçula, Mario, é um adolescente mentalmente deficiente e com um defeito congênito (sua cabeça é desproporcional ao corpo). O pai, James Incandenza – chamado pelos filhos de "Sipróprio" –, também ele um gênio da tecnologia ótica, fundador do ETA e cineasta experimental com uma extensa filmografia, suicidou-se alguns anos antes, mas sua herança maldita ecoa fortemente na vida dos filhos e da esposa, que os meninos chamam de "Mães". A família Incandenza vive em Boston, num futuro impreciso no qual a contagem dos anos é patrocinada por grandes corporações (no caso, estamos em AFGD que, por extenso, significa Ano da Fralda Geriátrica Depend) e os países da América do Norte foram politicamente unificados na Organização das Nações da América do Norte – Onan, para os íntimos – que passa por uma situação de instabilidade política com diversas comunidades terroristas lutando pela separação, como os violentos grupos canadenses Assassinos Cadeirantes e Frente de Libertação de Quebec, entre outros. Os grupos disputam a posse de uma arma chamada por eles de O Entretenimento, que nada mais é que uma das diversas versões de Graça infinita, filme produzido por James Incandenza que tem um nível de mesmerização tão potente que leva seus expectadores à morte. Cópias remetidas anonimamente já causaram baixas em cargos importantes do governo e uma exibição em rede do filme – essa sociedade futura é tão viciada em audiovisuais quanto a nossa – pode ser o ato que permitirá resultados efetivos na luta separatista. A curiosa apresentação gráfica do livro, que não tem nada escrito em sua capa, remete justamente ao cartucho de O Entretenimento.
Wallace elabora o cenário desse futuro com uma riqueza de detalhes que beira a de uma enciclopédia e torna o improvável extremamente convincente. Para coroar o capricho do autor, o livro contém um caderno de mais de 130 páginas, em corpo reduzido, com notas tão bem elaboradas que são peças literárias em si, como por exemplo o verbete que detalha a filmografia de James Incandenza, divertidíssima para quem aprecia boa ficção científica.
A obra de Wallace – que se suicidou em 2008 – dialoga com as de outros dois autores associados à literatura pós-moderna: Thomas Pynchon e China Miéville, que também trafegam pela ficção científica e o experimentalismo formal. A diferença entre eles é que Graça Infinita não é uma obra hermética e cifrada. Apesar das ousadas propostas formais e estilísticas, o texto é claro e acessível, focado em dramas explicitamente humanos: não é necessário ser um iniciado em fc ou em literatura pós-moderna para entender o que o autor diz. Talvez seja isso que tenha deixado os fãs de fc tão aborrecidos... azar deles.
Cesar Silva

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O Ataque do Tubarão de 5 Cabeças (5-Headed Shark Attack, EUA, 2017)


A produtora americana “The Asylum” é conhecida pelos seus filmes ruins. Porém, na maioria das vezes tão ruins que não divertem, sempre com histórias rasas, elenco amador e efeitos toscos com CGI vagabundo e inconvincente. Eles sempre estão contribuindo com a moda de filmes ridículos com tubarões assassinos, intensificada principalmente após o sucesso popular da franquia “Sharknado”, iniciada em 2013. São tantos filmes absurdos com essa temática que nem vale a pena um esforço para catalogação de tanta tranqueira lançada sem o mínimo de controle de qualidade. Em 30/07/2017, em parceria com o canal de TV a cabo “SyFy”, foi lançada mais uma bagaceira: “O Ataque do Tubarão de 5 Cabeças” (5-Headed Shark Attack), com direção do estreante Nico De Leon..
Uma ilha em Porto Rico tem sua rotina paradisíaca alterada após a ocorrência de várias mortes violentas no mar, que são creditadas para um imenso tubarão mutante com cinco cabeças, uma anomalia da natureza ávida pela carne humana. O dono inescrupuloso de um aquário, Thaddeus Marshall (Jeffrey Holsman) decide pressionar a bióloga marinha Dra. Angie Yost (Nikki Howard) junto com alguns jovens estagiários, para tentarem capturar o tubarão vivo, com o objetivo de exposição ao público e com isso alavancar os negócios com o aquário decadente, nem que signifique algumas perdas de vidas na caçada. Eles contam com a ajuda de um caçador experiente e mercenário, Red (Chris Bruno), e também com os esforços de salvamento da polícia local, representada pelo Capitão Sterling (Nicholas Nene).
A história é superficial, com conversas banais e tentativas mal sucedidas de piadas em meio às cenas de ataques do tubarão. Tudo apenas para preencher o tempo e que não funcionam, contribuindo ainda mais para nossa torcida pelo monstro. Os roteiristas não estão interessados em gastar energia com qualquer tipo de criatividade, utilizando clichês exaustivos de dezenas de filmes similares com tubarões comedores de gente. Para se ter uma ideia da bizarrice desse filme e da total falta de vontade dos realizadores em tentar inovar, nem que seja apenas um pouco, já tivemos anteriormente outros filmes praticamente iguais, apresentando tubarões de duas e três cabeças. São eles: “Ataque do Tubarão Mutante” (2-Headed Shark Attack, 2012) e “O Ataque do Tubarão de 3 Cabeças” (3-Headed Shark Attack, 2015), este último contando no elenco com o cultuado e veterano ator especialista em bagaceiras Danny Trejo, sendo ambos também produzidos pela “The Asylum”. Como não existe espaço físico suficiente para a colocação de mais cabeças no tubarão, talvez as 5 do monstro desse filme sejam o limite.
O filme é tão bagaceiro e seus realizadores tão desinteressados com o espectador, que o tubarão mostrado em boa parte do filme tem “apenas” 4 cabeças, provavelmente pela dificuldade de espaço físico, e somente depois de muitos ataques e mortes, veio a revelação do nascimento de uma quinta cabeça na cauda. A criatura mutante que estampa o pôster de divulgação não existe.
Em minha resenha do filme do tubarão com 3 cabeças, publicada tanto no blog “Almanaque da Arte Fantástica Brasileirahttp://almanaqueafb.blogspot.com.br/2015/08/o-ataque-do-tubarao-de-3-cabecas-3.html, como  no site “Boca do Infernohttp://bocadoinferno.com.br/criticas/2015/09/o-ataque-do-tubarao-de-3-cabecas-2015/), conclui o texto de forma tolerante com os produtores, que estavam entregando uma porcaria descompromissada com a coerência e talvez até certo ponto honesta com o público, que sabia o que iria consumir. Mas, depois de lançarem um tubarão com 5 cabeças, fica difícil manter qualquer tolerância. Existe uma competição entre os roteiristas sobre a mais ridícula, bizarra e absurda história de tubarão assassino, com os mesmos exageros de sempre e efeitos falsos de computação gráfica nas cenas supostamente sangrentas. Esse tema já está desgastante e cansativo.
Curiosamente, como homenagem ou simples brincadeira, tem uma citação da bióloga Dra. Yost sobre a cultuada série de filmes “Sharknado”, quando ela diz que os grandes tubarões brancos não atacam pessoas em barcos e ironizando se eles voassem através de tornados.
(Juvenatrix – 07/08/17)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

As Condenadas (The Gestapo´s Last Orgy, Itália, 1977)


Lançado em fita VHS no Brasil pela “Century Video”, “As Condenadas” é um filme italiano de 1977 que tem o sonoro título internacional “The Gestapo´s Last Orgy”, tradução literal em inglês do original “L´ultima Orgia Del III Reich”. É um obscuro “nazisploitation” repleto de sadismo e violência contra mulheres judias num campo de concentração alemão na Segunda Guerra Mundial, um local especial para receber as prisioneiras com o intuito de entreter os oficiais e soldados nazistas.Com direção de Cesare Canevari (1927 / 2012), a história apresenta uma bela e jovem mulher, Lisa Cohen (Daniela Poggi, creditada como Daniela Levy), que se encontra com o antigo amante num campo de concentração abandonado em ruínas, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele era o líder do presídio, Comandante Conrad von Starker (Adriano Micantroni, creditado como Marc Loud), que dirigia o lugar com crueldade, sendo responsável por torturá-la até que se tornasse sua amante.
Primeiramente, como ela sentia-se culpada pela morte dos pais, perdeu o interesse pela vida e reagia com frieza e sem emoções diante das torturas físicas e psicológicas. Depois, recuperou o desejo de viver e cedeu às imposições do comandante alemão. Porém, depois de engravidar e ver o destino terrível de seu filho com sangue judeu, Lisa espera o fim da guerra para reencontrar seu algoz, reviver o passado tenebroso e terminar o pesadelo.

“Vou destruir seu corpo e sua mente. E o único modo, o único de temer a morte, é ficando viva. E quando aquele momento, só quando aquele momento chegar, você morrerá.” – Comandante Conrad von Starker

O filme fez parte da lista de “vídeos nasty” por causa do conteúdo violento, sendo banido na Inglaterra, tanto que essa informação está estampada num dos cartazes originais, como forma de chamar a atenção do público. O fato pode ser explicado pelas inúmeras cenas perturbadoras de horror bizarro e violência contras as mulheres prisioneiras. Elas são espancadas e utilizadas como escravas sexuais para os soldados alemães estressados com os conflitos nos campos de batalha, e para satisfazer os sádicos oficiais que sentem prazer em infligir castigos dolorosos.
Entre as bizarrices incompatíveis com qualquer senso de racionalidade, temos uma mulher oferecida viva como alimento para cães raivosos, atos de coprofagia, estupros coletivos, execuções em câmera de gás e reservatório de ácido, mulheres penduradas de cabeça para baixo próximas de ratos famintos aguardando a refeição. Ou, podendo servir como um ápice para esse conjunto de atrocidades, uma mulher é embriagada e depois queimada no meio de um jantar de gala dos oficiais, onde o prato principal é carne humana de judeus executados e bebês recém-nascidos.
A violência apresentada nem é tão gráfica, existindo uma infinidade de outros filmes mais extremos e sangrentos. Porém, o que o aproxima de ser considerado perturbador são as várias cenas de conteúdo transgressor e que chocam pela crueldade.
Curiosamente, “As Condenadas” também possui outro título original igualmente estranho e incomum, “Calígula Reincarnated as Hitler”, numa referência ao cruel tirano e imperador romano Calígula, retornando dos mortos e reencarnando no ditador alemão Adolf Hitler.
      
“Quando o super-homem deseja se divertir, ele deve fazê-lo com o preço da vida dos outros.” – introdução do filme – palavras de Friedrich Niezsche (1844 / 1900), filósofo e poeta alemão conhecido pelos textos recheados de metáforas, ironias e aforismo. 

(Juvenatrix – 03/08/17)


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Medo de Palhaço (2016)


O site de Horror “Boca do Inferno” foi criado em 2001 por Marcelo Milici e é uma importante fonte de informações gerais e resenhas, principalmente de cinema. Um monstro eletrônico que, assim como a criatura alienígena “A Bolha” (The Blob) do filme “B” clássico de 1958, está sempre se alimentando, devorando cada vez mais conteúdos sobre o gênero fantástico, especialmente o Horror, crescendo de forma exponencial. Para se ter uma ideia, seu catálogo de resenhas possui a expressiva quantidade de aproximadamente 2650 filmes analisados, com os números cada vez aumentando mais, num colossal banco de análises sem paralelo na internet brasileira.
  Parte de sua equipe de redatores juntou esforços e como resultado foi lançado no final de 2016 o primeiro livro representante do “Boca do Inferno”. “Medo de Palhaço” publicado pela “Editora Évora” (São Paulo/SP), é uma enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop, falando sobre a coulrofobia (o nome técnico para o medo de palhaço) e abrangendo todas as mídias passando por cinema (principalmente) e televisão, além da literatura e dos quadrinhos (com textos especiais sobre os vilões “Coringa” e “Violador”).  
O livro é resultado de um trabalho extenso e de grande qualidade sobre o assunto abordado. Os destaques certamente ficam por conta das resenhas de cinema, a maior especialidade do site, com dezenas de análises muito bem escritas e informativas. Com seções especiais para os filmes mais lembrados dentro do tema, “Palhaços Assassinos do Espaço Sideral” (1988) e “It: Uma Obra-Prima do Medo” (1990). A produção geral do livro também é ótima, com uma bela capa chamativa, formato grande e acabamento caprichado.
Porém, uma falha é a falta de créditos da maior parte dos textos e de todas as resenhas, as quais deveriam ser identificadas por seus respectivos autores, utilizando-se uma legenda com as iniciais dos nomes, uma vez que o livro foi escrito por cinco pessoas.
O capítulo sobre o assassino em série John Wayne Gacy, um americano que gostava de atuar como palhaço e foi condenado pela morte de muitos jovens, possui logicamente um interesse e importância dentro do tema, mas o texto é extenso demais com excesso de informações cansativas sobre sua vida e os processos que enfrentou na justiça, até ser condenado e executado no corredor da morte por injeção letal. O capítulo poderia ser menor e mais dinâmico, eliminando muitos detalhes sem relevância.
Tem um pequeno erro de informação na resenha sobre “Slasher House” (2012), dizendo que o músico Blaze Bayley, que fez a voz de um demônio, foi o primeiro vocalista da banda inglesa de heavy metal “Iron Maiden”, porém tiveram outros vocalistas antes dele como Paul Di´Anno e até mesmo Bruce Dickinson, que saiu em 1993 dando seu lugar para Bayley, e que depois retornou em 1999 permanecendo até os dias atuais.
Outra pequena oportunidade de melhoria seria a menção do país de produção dos filmes analisados, logo na pequena ficha que inicia as resenhas. Além do fato de que algumas delas caíram na armadilha de citar datas futuras para eventuais lançamentos ou informações similares, e que já se tornaram passado no lançamento do livro. Sabemos que impedir que um texto torne-se datado é uma tarefa difícil, e talvez não registrar datas seja a solução.
Entretanto, independente dessas pequenas observações, o livro é uma referência de valor inestimável para qualquer tipo de pesquisa, estudo e catalogação sobre a origem, história e participação dos palhaços na cultura pop, em especial o cinema. Agregando imenso valor ao tema e ajudando a evidenciar a alta qualidade do conteúdo do portal de Horror “Boca do Inferno”, responsável pelo projeto, em parceria com a “Editora Évora”.
Que sejam bem-vindos mais títulos similares abordando outras fobias igualmente interessantes.

Medo de Palhaço” (2016)
Organizado por Marcelo Milici, com textos diversos e resenhas de Filipe Falcão, Gabriel Paixão, Matheus Ferraz, Rodrigo Ramos e Marcelo Milici (equipe do site de Horror “Boca do Inferno” – www.bocadoinferno.com.br
Editora Évora (São Paulo/SP)
Formato: 210 x 280 mm
270 páginas

(Juvenatrix - 28/07/17)


terça-feira, 25 de julho de 2017

Brasil, Potência Interplanetária: As Crônicas das Viagens, de L. Sprangue de Camp

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

As Crônicas das Viagens é um universo ficcional criado pelo escritor norte-americano Lyon Sprague de Camp (1907-2000). Nesse universo ficcional, o Brazil (grafado com Z) é a potência dominante na Terra, inclusive é a nação que controla a corporação semiestatal Viagens Interplanetárias, única empresa terrestre que tem tecnologia para fazer viagens entre os diversos mundos habitados nesse universo ficcional.
L. Sprague de Camp utiliza diversas palavras em português em seus contos de As Crônicas das Viagens para dar o ar de dominação cultural do Brasil, como ocorre atualmente com relação aos EUA, que, por ser a potência dominante, impõe o inglês como língua “universal”. Esse recurso estilístico dá maior realismo ao cenário desenvolvido. Na tradução brasileira, as palavras que originalmente estavam em português são marcadas com asterisco.

L. Sprague de Camp 


Neste texto resenharemos os dois livros publicados em português que reúnem as Crônicas das Viagens: “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, ambos traduzidos por Cézar Tozzi e publicados pela Francisco Alves em 1976 e 1977, respectivamente, na coleção Mundo Fantástico (ressaltamos que esse é o material disponível no Brasil, sendo que o autor escreveu outras obras nesse mesmo cenário). “Os Dentes do Inspetor” corresponde ao segundo volume da coleção, e “Construtores de Continentes” ao quarto volume, sendo que o volume três da coleção é a coletânea “Contos da Taberna”, de Arthur C. Clarke. Ambas as coletâneas contam com a mesma introdução, escrita por Isaac Asimov.
Nessa introdução, Asimov relata seu primeiro encontro com L. Sprague de Camp, sendo Asimov um escritor iniciante, e Sprague de Camp um escritor já reconhecido. Asimov descreve Sprague como dotado de uma “erudição exótica e heterogênea”... “um historiador de quase tudo”... “capaz de escrever com graça e competência tanto sobre o mito de Atlântida, magia ou feitiçaria, a malograda era industrial dos tempos helênicos ou a Itália ostrogoda, armamento naval ou falsificações, sob a forma de história aprazível ou romances históricos com excelente base de pesquisa”.
Asimov chama a atenção também para o fato de Sprague ser linguista e foneticista, tendo publicado artigos nessa especialidade científica, além de ter escrito sobre outros temas, como dinossauros e lei de patentes (nos contos “Moto-contínuo”, “Acabou” e “Vam’bora!”, aqui resenhados, Sprague faz uso de seu domínio sobre leis de patentes).
No decorrer da II Guerra Mundial, juntamente com os também escritores de ficção científica Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, Sprangue de Camp trabalhou como pesquisador para Philadelphia Naval Yard, já que era engenheiro aeronáutico, enquanto Heinlein era formado na Academia Naval, e Asimov também era cientista. Essa concentração de três grandes escritores de ficção científica no mesmo lugar de trabalho no decorrer da Guerra gerou diversas histórias sobre trabalhos com “armas secretas”, que sempre eram desmentidas pelos autores — que estavam envolvidos em atividades bem mais corriqueiras (Ver: https://www.kirkusreviews.com/features/asimov-de-camp-and-heinlein-naval-aviation-experim/. Acesso em 14/12/2014).



Robert A. Heinlein, L. Sprague de Camp e Isaac Asimov, numa base da US Navy1944.


Acredito que esse tipo de história de envolvimento de escritores de ficção científica com o aparato técnico-militar foi aproveitado no romance Invasão, de Larry Niven e Jerry Pournelle (Francisco Alves, 1989), em que, perante uma invasão extraterrestre, o governo americano utiliza escritores de ficção científica como consultores. Futuramente resenharemos esse romance nesta coluna.
L. Sprague de Camp também escreveu biografias, dentre as quais se destacam Lovecraft: a Biography (1975) e Dark Valley Destiny: the Life of Robert E. Howard (1983). Em conjunto com Lin Carter, Camp deu continuidade ao legado de Robert E. Howard, criador do personagem Conan, o Bárbaro; seja publicando as histórias originais de Howard ou completando histórias inacabadas. No Brasil, as histórias de Conan, com introdução e notas explicativas realizadas por L. Sprangue de Camp, foram publicadas pela editora Mercuryo (selo Unicórnio Azul) na coleção de livros de bolso Conan, Espada e Magia em 1995.
Os dois livros que resenhamos neste texto, “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, reúnem sete contos e uma novela no universo ficcional das Crônicas das Viagens. Os dois são a tradução da edição americana “The Continent Makers and Other Tales of the Viagens”, de 1953, publicado pela Twayne Publishers.
Na resenha a seguir, após o título de cada conto, consta a data fictícia em que se desenvolve a história. Entre parênteses consta o título original, a data de publicação nos Estados Unidos e o planeta em que se desenvolve a trama principal. Dividiremos o texto a seguir em duas partes, de acordo com o material publicado em cada livro, sendo que a introdução de Isaac Asimov se repete em ambos os livros.




L. Sprangue de Camp. Os Dentes do Inspetor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Constam desse volume seis contos, que resenhamos a seguir:

Os dentes do inspetor – 2054-2088 D.C. (The Inspector's Teeth – 1950 – Planeta Terra): inicia-se com uma reunião que pretende criar um Conselho Interplanetário entre as espécies alienígenas; o objetivo é impedir guerras interplanetárias. Para tanto, a Terra, cuja potência dominante é o Brasil, pretende inicialmente estabelecer um tratado com os osirianos, espécie inteligente do planeta Osíris, que tem domínio tecnológico semelhante ao terrestre. Os osirianos são descritos como pequenos dinossauros. A trama se desenvolve em torno de Hithafea, embaixador sha’akhfiano (como os osirianos se autodenominam), cuja experiência de estudante universitário na Terra será decisiva para a criação do Conselho Interplanetário. Um bom conto, mas não o melhor do livro. Acredito que a escolha desse conto para dar título ao livro tenha sido muito mais por ter o melhor título da coletânea.

Traje de verão – 2114-2140 D.C. (Summer Wear – 1950 – Planeta Osíris): é uma história muito divertida, com um final muito interessante, ao tratar da questão de como trocas culturais ocorrem em mão dupla. A história é centrada na disputa entre dois comerciantes terrestres que apelam a todo tipo de trapaça para atingir seu objetivo: criar uma demanda artificial para um produto totalmente inútil aos osirianos. Qualquer relação com as campanhas de marketing que incentivam o gosto com bugigangas inúteis não é mera coincidência.

Acabou – 2114-2140 D.C. (Finished – 1949 – Planeta Krishna): ocorre em uma época em que o Conselho Interplanetário está solidamente constituído. O Conselho mantém um forte bloqueio tecnológico ao planeta Krishna, que apresenta desenvolvimento social e tecnológico comprável ao da Europa Medieval. Uma vez que os krishnianos são extremamente belicosos, o Conselho Interplanetário pretende impedir uma revolução industrial nesse mundo que possa levar krishnianos a terem armamentos capazes de ameaçar a paz na Galáxia. Assim, a corporação Viagens Interplanetárias desenvolve uma estratégia minuciosa para impedir a contaminação tecnológica em Krishna, que envolve não apenas impedir a importação de produtos industrializados, como também de literatura técnica. Na história acompanhamos as peripécias do príncipe Ferreian, de uma das várias nações de Krishna, para obter acesso à tecnologia terrestre. Outro conto que apresenta um final bastante interessante, que mais uma vez remete à importância que mudanças culturais podem ter no desenvolvimento social, econômico e tecnológico de um povo. Talvez o melhor conto da coletânea, com direito a uma empolgante descrição de batalha naval. Aqui temos também uma cidade terrestre em Khishna, de nome Novarecife, e uma espaçonave chamada Maranhão, mais uma vez demostrando o domínio do Brasil.

O apito de Galton – 2117 D.C. (The Galton Whistle – 1951 – Planeta Vishnu): em um mundo com duas espécies inteligentes, os dzlierianos, descritos como centauros, e os romelianos, espécie de gorila de seis membros, ambas as espécies se encontram ainda, comparadas à cultura terrestre, na idade pré-histórica, vivendo em tribos. O contato com os terrestres é feito sem que se permita contaminação tecnológica, até que o terrestre Sirat Mongkut, um siamês, é tomado por um deus pelos nativos dzlierianos e elabora um esquema para armar a tribo que o venera e se tornar líder de todo um planeta. Tudo envolvendo um simples apito. A cidade humana neste mundo se chama Bembom.

A fábrica dos biscoitos em feitio de animais – 2120 D.C. (The Animal-Cracker Plot – 1949 – Planeta Vishnu): estamos novamente em Vishnu, um mundo em que duas espécies, os dzlierianos e os romelianos, vivem em guerra pelo seu controle. Tudo tende a piorar quando o trambiqueiro terrestre Darius Koshay abre uma fáabrica de biscoitos e incentiva o início de uma guerra mágica entre os nativos. Caberá ao xenólogo (um antropólogo de alienígenas) Luther Beck resolver a questão e, para tanto, entender a cultura dos nativos.

Vam’bora! – 2135-2148 D.C. (Git Along! – 1950 – Planeta Osíris): dois trapaceiros terrestres tentam introduzir um parque temático ao estilo faroeste entre os osirianos, mas, como sociedade entre trapaceiros não tem vida longa, o empreendimento se transforma em disputa, e tudo se complica quando os nativos começam a tomar as narrativas ficcionais sobre o Velho Oeste como modelo de legislação penal. Um ótimo conto que também trabalha muito bem com a apreensão de sistemas culturais. Com esse trabalho se encerra a primeira parte das Crônicas das Viagens.



L. Sprangue de Camp. Construtores de Continentes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Nesse volume temos a segunda parte das Crônicas das Viagens – um conto e uma noveleta.

Moto-contínuo – 2137 D.C. (Perpetual Motion – 1950 – Planeta Krishna): outro conto que se passa no mundo medieval de Krishna, em que o bloqueio tecnológico atraiu os mais diversos tipos de espertalhões terrestres que pretendem quebrar o bloqueio e obter lucro. Aqui acompanhamos o trambiqueiro profissional Felix Borel tentando introduzir a loteria em uma comunidade krishniana governada por uma ordem religiosa de cavalaria (ao estilo Ordem dos Templários). Mas, como os nativos estão interessados mesmo em tecnologia, Felix Borel arma todo um esquema, se utilizando da famosa lenda tecnológica terrestre da máquina de moto-contínuo, para arrancar algum dinheiro dos nativos. Um conto muito bom, no qual vale destacar a excelente narrativa do autor dos duelos de cavalaria.

Construtores de Continentes – 2153 D.C. (The Continent Makers – 1951 – Planeta Terra): imagine uma Terra superpopulosa, se é que precisamos imaginar, em que se torna possível erguer um continente no meio do oceano Atlântico Sul, entre Brasil e África. Parece uma boa ideia, principalmente se a humanidade já dispõe de conhecimento tecnológico para realizar tal proeza sem maiores riscos. Acontece que tudo poderia se resumir a um pacato empreendimento científico, se não fosse uma conspiração envolvendo extraterrestres para dar um novo rumo ao megaprojeto de engenharia.
Aqui temos uma novela, portanto com muito mais páginas, em que o autor descreve com maiores detalhes a geopolítica terrestre, tendo o Brasil como superpotência, em meio a uma história de espionagem e intrigas interplanetárias e com direito a um romance entre uma alienígena e um cientista terrestre.
Além dos osirianos, nesse texto são apresentados os seres de Thot, descritos como sendo uma espécie de “macaco-rato” de “pouco mais de um metro”, o que lembra o fiel amigo de Perry Rhodan, Gucky.
A ação se desenvolve em três diferentes cenários, sendo um deles a cidade do Rio de Janeiro, descrita como a “mais bela metrópole do mundo”; entretanto, L. Sprangue de Camp não deixa de fazer críticas a um elemento sensível da cultura institucional brasileira, a burocracia. Em certo momento da trama, as personagens precisam fazer uma via sacra entre diversas instituições policiais brasileiras para conseguir ajuda. É difícil para os personagens entender a existência de tantas forças policiais em um único país, sendo que todas evitam tomar providências, por julgar que a área de atuação seria de outra força policial, e não dela mesmo. A mais longa e também melhor história dos dois livros.

Se existe uma moral nos trabalhos de L. Sprague de Camp reunidos nesses dois livros, é que não importa a boa vontade dos governos em tentar não contaminar tecnológica e culturalmente espécies alienígenas com a cultura terrestre, pois os próprios terrestres serão os primeiros a tentar quebrar esse tipo de bloqueio para obter algum lucro exportando suas tecnologias e cultura.
Apesar de serem encontradas apenas em sebos, vale muito a pena ler essas duas seleções de trabalhos de Sprague de Camp.


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Publicado anteriormente na revista Perry Rhodan, da SSPG. 

domingo, 23 de julho de 2017

Maciste no Inferno (Maciste all´inferno, Itália, 1962)


Uma mistura de horror gótico com herói justiceiro, numa aventura literalmente pelo inferno para salvar um vilarejo da maldição de uma bruxa

Maciste é um herói justiceiro similar ao popular Hércules, que defende os pobres, fracos e oprimidos contra as forças do mal. Extremamente forte e musculoso, ele é interpretado pelo ator italiano Adriano Bellini (creditado com o manjado pseudônimo americano Kirk Morris) em vários filmes com o mesmo personagem. Em “Maciste no Inferno” (Maciste all´inferno), produção italiana de 1962, sua aventura para salvar os aldeões de um pequeno vilarejo, livrando-os de uma maldição lançada por uma bruxa executada na fogueira, o leva literalmente para um passeio no inferno. Combatendo animais violentos como um leão, uma cobra enorme, uma águia carniceira e uma manada de bois ferozes, além de um homem gigante, em efeitos extremamente toscos e bizarros.
Com direção de Riccardo Freda (com o pseudônimo Robert Hampton), a história mistura elementos de horror gótico com filmes épicos de fantasia. Um jovem casal formado por Charley Law (Angelo Zanolli) e Martha Gaunt (Vira Silenti) muda-se para um castelo sinistro na Escócia, e são mal recebidos pelos aldeões do vilarejo próximo, que decidem hostilizá-la com tochas e ferramentas cortantes acusando-na de ser uma descendente de uma bruxa queimada na fogueira da inquisição em 1515, e que havia prometido vingança e maldição aos seus executores, sob o comando do juiz Edgar Parris (Andrea Bosic).  
Maciste aparece do nada e salva a mulher do linchamento, mas não consegue impedir que ela seja julgada por um tribunal inquisidor e condenada à morte na fogueira por suposta bruxaria. Para tentar impedir a execução, Maciste vai para o inferno em busca da bruxa. No caminho, enfrenta animais ferozes, encontra pessoas sofrendo torturas infindáveis de monstros e demônios, remove pedras gigantescas com as mãos, nunca usa armas e ao atravessar uma porta de fogo encontra uma bela e misteriosa mulher, Fania (Hélène Chanel), que tenta ajudá-lo em sua missão.
O filme desperta algum interesse em seu primeiro ato, ao explorar elementos sempre atraentes do horror gótico, com um castelo sombrio repleto de morcegos, aldeões supersticiosos e uma bruxa queimada na fogueira, amaldiçoando seus executores. Depois, quando surge o herói justiceiro sem camisa, com suas boas intenções de mocinho, numa improvável viagem ao inferno, a história mudou de rumo e inevitavelmente seguiu em direção ao tédio. Nem os efeitos toscos de um filme bagaceiro, nas lutas com animais falsos (ou grandes bichos de pelúcia), ou as pedras de isopor do inferno, conseguiram minimizar a sensação de sonolência no espectador. Seguem as palavras do próprio Maciste, que fala pouco e fica o tempo todo demonstrando ações de força bruta: “Meu destino é ajudar as pessoas que sofrem pela opressão e crueldade ao redor do mundo”. Dessa forma, os elementos de horror gótico do início do filme deram lugar para uma aventura simples e patética de um herói fazedor de justiça.
Entre as curiosidades, vale citar:
* enquanto Maciste está no inferno, temos várias cenas simulando imagens do passado, reproduzindo suas aventuras anteriores como uma luta contra um ciclope e contra um exército tirano chinês.
* Nos Estados Unidos o filme recebeu o título “The Witch´s Curse”.
* As cenas ambientadas no inferno foram filmadas numa região de cavernas na cidade italiana de Bari, e são bem interessantes, independente da história trivial do filme.
* Em 1961 teve outro filme italiano similar, “Hércules no Centro da Terra” (Hercules in the Haunted World), dirigido por Mario Bava e com Christopher Lee, sobre a aventura do fortão Hércules no submundo, um lugar que podemos chamar de inferno.
* Outros filmes do ator Kirk Morris creditado como Maciste: “O Triunfo de Maciste” (1961), “Hercules in the Valley of Woe” (1961), “Colossus and the Headhunters” (1963), “Atlas Against the Czar” (1964) e “Hércules, o Invencível” (1964).
(Juvenatrix – 23/07/17)


sábado, 22 de julho de 2017

A Luz e as Trevas

A Luz e a Trevas (Lest Darkness Fall), L. Sprague de Camp. Capa: A. Pedro. Tradução: Eurico Fonseca. Lisboa: Edição Livros do Brasil, Coleção Argonauta, no. 361. 195 páginas, 1987.


L(yon) Sprague de Camp (1907-2000) é mais conhecido no Brasil por imaginar o nosso país como a principal potência espacial no futuro, na série Crônicas das Viagens, com dois livros publicados aqui que englobam todos os oito contos da série: Os Dentes do Inspetor (The Continent Makers Other Tales of the Viagens) e Construtores de Continentes (The Continent Makers Other Tales of the Viagens). São os números 2 e 4 da Coleção Fantástica, da Francisco Alves Editora, lançados nos anos de 1976 e 1977 respectivamente, sob a edição de José Sanz.
Mas sua obra mais conhecida é Lest Darkness Fall. Publicada originalmente como uma noveleta na revista Unknown em dezembro de 1939, ganhou forma definitiva em 1941 quando foi expandido para um pequeno romance. Causou grande impacto nos anos 1940, e mesmo com o autor tendo uma carreira posterior longa e prolífica é a sua obra mais celebrada e republicada. Em 1989, por exemplo, apareceu na prestigiosa série “The Masterpieces of Science Fiction”, da The Easton Press.
Isso apesar de Lest Darkness Fall não ser uma história propriamente identificada com os temas mais comuns da época - a Golden Age -, como os impérios interestelares, contatos com alienígenas, robôs e cientistas loucos, pois trata, de um modo bem particular, do impacto do uso dos avanços tecnológicos nos valores e costumes de uma sociedade.
Estamos na Roma do século VI, ano de 535, pouco tempo depois do Império do Ocidente ter caído e estar sob a posse dos godos – um dos povos identificados com os alemães contemporâneos. L. Sprague de Camp traça um amplo painel da vida desta época, mas a narrativa está longe de ser um relato mais calcado numa historiografia tradicional. Vejamos porque.
Martin Padway é um arqueólogo norte-americano em viagem de trabalho a Roma que, sob uma tempestade, de forma inexplicável recua 14 séculos no tempo. Seu amigo Tancredi há pouco lhe explicara uma teoria de que seria possível escorregar aos eventos passados, pois a História seria uma teia em quatro dimensões e que, em pontos fracos poderia haver uma conexão involuntária com outras épocas. Padway se mostra descrente de tal argumento, mas pouco depois de se despedir do amigo, se vê ele próprio como vítima desta teoria.
O que fazer na Roma do século VI? Foi um período de grande decadência e perda de relevância política, após o fim do Império ocidental e as invasões de vários povos bárbaros. Ele rapidamente procura por pessoas que possam ajudá-lo a sobreviver numa época completamente diferente da sua. Mas para Padway apenas em parte, já que ele, como estudioso de História, tinha sólidos conhecimentos sobre este período que antecede a Idade Média. Fala, inclusive, um pouco de latim, podendo, assim se comunicar com relativa habilidade. Conhece, entre outras pessoas, um banqueiro sírio que lhe empresta algum dinheiro para que possa se manter.
Embora seja um homem culto, Padway revela um talento incomum para a ação e o empreendimento. Sem nenhum pudor ou preocupação começa a introduzir mudanças na vida cotidiana, com a inclusão de novas tecnologias, da qual tira o seu sustento. De início com a destilação de bebidas, para depois ir mais além por meio de técnicas modernas de contabilidade, e os algarismos árabes. Com isso parte para suas criações mais ambiciosas: a construção de máquinas tipográficas – antecipando Gutemberg em cerca de 1000 anos –, o que lhe permite publicar um jornal semanal e, uma rede de comunicação por telégrafos, mas sem a eletricidade. Assim procurou difundir e democratizar o conhecimento e aperfeiçoar as comunicações a longas distâncias. De fato, duas das criações mais importantes para forjar uma civilização mais livre e integrada.
Como o próprio título sugere – A Fim de que Não Caiam as Trevas – Padway teve por objetivo, com suas inovações tecnológicas, evitar a queda do Ocidente nas assim chamadas trevas do obscurantismo medieval. É fato que tais mudanças sugerem fortemente que isto vá acontecer mas, penso que as decisões do arqueólogo se deram também num sentido mais pragmático, de alguém que buscou alternativas concretas e criativas para viver num mundo de costumes muito diferentes do dele. Mas em nenhum momento ele se pergunta se ao mudar o futuro ele mesmo não estaria com sua existência ameaçada.
Mais do que o tema em si e suas possíveis consequências o diferencial de A Luz e as Trevas é o texto ágil, além do tom coloquial e levemente humorístico. Martin Padway, neste novo século, é chamado de Martinus Paduei, e ganha a alcunha de “misterioso”, pois além de apresentar várias invenções aos italianos e godos, ainda demonstra prever o futuro, em algumas situações que lhe possa trazer vantagens imediatas. Como não poderia deixar de ser nesta época, é acusado de feitiçaria e preso, e só se livra dos possíveis destinos desta época, a excomunhão, as masmorras ou a fogueira, porque suborna um bispo influente.
Por tudo isso Martinus acaba sendo objeto de admiração e desconfiança, mas tem a prudência de cercar-se de algumas pessoas fiéis que estão sempre do seu lado, como o banqueiro Thomasus, o guarda pessoal Fritharik e o fazendeiro Nevitta. Devido ao seu gênio, Martinus prospera e por antever uma guerra dos godos com o Império Romano do Oriente, sob a liderança do imperador Justiniano, passa a agir politicamente para proteger seus negócios, tornando-se mesmo questor do titubiante rei godo de Roma, Thiudahad.
A narrativa é recheada de momentos inspirados e divertidos, personagens interessantes e espirituosos, e traz uma boa contextualização histórica dos valores e costumes da Itália do século seis. Todas estas virtudes tornam a leitura extremamente agradável, mostrando um autor seguro de sua prosa, na construção de personagens e timing para uma obra que, no fundo, não procura se levar muito a sério. Uma FC pulp da melhor qualidade.
Esta última característica, por sinal, ecoa muitas das histórias de FC dos anos 1930 e 1940, no qual o eixo condutor, por assim dizer, encontra-se na ação dos acontecimentos e não em possíveis reflexões dos acontecimentos em si. Isso, de certa forma, alivia um possível questionamento crítico que se poderia fazer a Martin, ou melhor, Martinus, já que ele conscientemente altera a História e não vê problema algum nisso – e sendo um arqueólogo! Chama a atenção de que em nenhum momento ele pensa em voltar ao século XX, se adaptando de forma resignada, mas não melancólica, em viver fora de sua época, não vendo mais suas pessoas queridas e compartilhando dos valores e costumes de sua época.
A Luz e as Trevas é uma FC histórica motivada pelo recurso da viagem no tempo, e tornou-se muito influente, tendo inspirado outras narrativas semelhantes e até continuações por outros autores. É mesmo considerada uma das precursoras contemporâneas do subgênero da História Alternativa, que viria a se desenvolver com vigor a partir da segunda metade do século XX. Além disso, o romance é também um representante do que de melhor a ficção pulp produziu nos anos 1930 e 1940, a despeito da pouca consideração que esta vertente literária tem até os dias de hoje. Isso porque, temos uma história inteligente, agradável e despojada, que faz deste livro um momento singular da ficção científica.


– Marcello Simão Branco