quarta-feira, 18 de abril de 2018

Regresso a Zero


Regresso a Zero (Retour à “0”), de Stefan Wul. Tradução de Maria Adelaide Correia Freire e Raul Correia. Capa de Lima de Freitas. 177 páginas. Lisboa: Editora Livros do Brasil, Coleção Argonauta no. 54, 1959. Lançado originalmente em 1956.


No cenário da ficção científica europeia, a coleção francesa Fleuve Noir exerceu grande importância, ao revelar vários autores de seu país e com histórias voltadas, pelo menos em sua fase inicial, às aventuras e space operas, num tom assumidamente pulp.
Regresso a Zero apareceu na Fleuve Noir em seu número 78, no ano de 1956, como o livro de estréia de Stefan Wul (1922-2003), pseudônimo usado por Pierre Pairaul. Wul acabaria por se tornar um dos mais populares escritores franceses de ficção científica.
Se Wul estreou e publicou o restante de sua obra nesta célebre coleção de seu país, faz todo o sentido que quase todos seus livros tenham sido traduzidos e publicados em língua portuguesa, na equivalente portuguesa da coleção francesa, a Argonauta. Além disso, Regresso a Zero é o livro de Wul com mais edições em Portugal. Saiu também como Regresso a “0”, no Clube do Livro e com o mesmo título pela editora Nova Era, ambos em 1977.
A aventura nos leva ao futuro do século 37 (!), com um conflito bélico prestes a acontecer entre a Terra e a Lua. É que desde há alguns séculos todos os condenados por crimes graves eram deportados para o satélite, sem possibilidade de retorno. Com isso os proscritos acabaram por colonizar a Lua, criando uma sociedade autoritária, machista e potencialmente agressiva, pois para os dirigentes mais idosos, o principal objetivo a ser atingido é se vingar dos terráqueos, com uma invasão em grande escala.
O serviço secreto da Terra descobre os planos e envia para a Lua um espião para sabotar os planos ou, se possível, criar canais de diálogo que possibilite um acordo de paz. Desta forma, o físico nuclear Jâ Benal se faz passar por um condenado e é enviado ao nosso satélite natural.
Mal chega e descobre que sua tarefa não será fácil. Isso porque os selenitas não acolhem, de saída, os recém-chegados. Deixa que eles lutem pela sobrevivência num lugar inóspito e desconhecido por pelo menos 15 dias. Caso resista, só então é admitido como membro da nova sociedade.
Jâ Benal pousa numa região difícil e tem de lutar bravamente para sobreviver a uma região pantanosa e contra algumas espécies, especialmente os gorn, pequenos animais – semelhantes a porcos – extremamente agressivos, inteligentes e carnívoros. Benal é tocaiado pelos gorns num labirinto com cavernas subterrâneas onde vivem, mas termina por se safar, mas não sem antes sofrer um sério ferimento na perna. Vale comentar que a Lua descrita por Wul não guarda nenhum compromisso com a realidade científica, mesmo da época, mas isso não diminui o prazer e o envolvimento com as situações descritas.
Como já havia passado os 15 dias e ciente de que o novo membro era um eminente cientista, o governo lunar o recolhe e procede a uma operação de emergência. E é aqui que o romance atinge o clímax da inventividade: uma equipe de cirurgiões é miniaturizado e enviado para o interior do corpo de Benal. As páginas da preparação da cirurgia e da aventura dos médicos é puro sense of wonder. Impossível não lembrar do clássico filme Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, 1966), dirigido por Richard Fleisher, e não especular de que possa ter sido inspirado no livro de Wul, escrito dez anos antes.
Pode até parecer estranho que tudo isso aconteça quando o tema principal é a disputa entre a Terra e a Lua pois, de fato, a missão de Benal só começa a ser efetivamente cumprida após estes interregnos iniciais, mas eles são os momentos mais inspirados do livro.
Benal é instalado com todas as condições para continuar seu trabalho de cientista, pois o governo lunar o quer como um aliado no desenvolvimento de suas armas para atacar a Terra. Até lhe entregam para viver em sua companhia uma linda loira, obviamente para amaciá-lo ainda mais.
O que Benal ignora é que o governo lunar sabe que ele é um espião, e quer saber até onde ele pretende ir com seus objetivos. Nira Slid, sua mulher, se apaixona por ele, e acaba por lhe contar tudo. Mas Benal não sabe mais como viver sem ela, e assim a toma como aliada para cumprir sua missão.
Primeiro ele procura Kam, cirurgião-chefe que o operou e um amante da paz para se aliar à sua causa, e buscar uma solução diplomática. Quando esta opção se revela infrutífera Benal parte para uma série de atos de sabotagem às instalações militares com o intuito de enfraquecer os objetivos bélicos dos selenitas.
O tema do uso da Lua como rival da Terra não é incomum no gênero, e certamente o romance mais conhecido é Revolta na Lua (The Moon of a Harsh Mistress, 1966), de Robert A. Heinlein (1907-1988), onde os lunares lutam por sua independência frente ao governo centralizador da Terra. Mas este Regresso a Zero segue uma linha mais despretensiosa, no qual o próprio título da obra só adquire significado no último capítulo por meio do desfecho da rivalidade entre terráqueos e selenitas.
Como um primeiro livro de uma carreira Regresso a Zero apresentou várias ideias interessantes que seriam desenvolvidas posteriormente, à exceção da cirurgia por miniaturização, uma verdadeira pérola de criatividade de realização narrativa. Assim, surge no livro temas como problemas ambientais na Terra, exploração do espaço, alteração da órbita de um corpo celeste, instrumentos de anti-gravidade, espécies alienígenas, colonização de um novo planeta e criação de uma nova civilização.
Embora trate de um tema sério de conflito político, suas possibilidades dramáticas nunca chegam a ser muito exploradas, pois o que conta mesmo é a criatividade e leveza da narrativa, mais preocupada em entreter, sem que isso possa significar, necessariamente, a diminuição de sua qualidade como obra literária. É que o foco é na aventura e no entretenimento, e nisso Wul se mostra exemplar.

– Marcello Simão Branco

domingo, 15 de abril de 2018

Magda

Magda, Rafa Campos Rocha. 144 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2016.

Por muito tempo restrita ao ambiente amador, publicada em fanzines e edições de autor, a ficção científica agora ocupa espaços bem mais evidentes, em editoras de porte com boa distribuição nas livrarias. Outra prova que o gênero deixou de ser o patinho feio do mercado é a frequência com que o gênero tem sido abordado pelas histórias em quadrinhos, com produções de porte sendo oferecidas com alguma regularidade, inclusive por autores brasileiros, o que há alguns anos era impensável. Isso é decorrente do crescimento do interesse pela arte, mas também do desenvolvimento de uma consciência do gênero entre os autores da nova geração, mais acostumados à tecnologia e aos apelos da cultura pop.
É por isso que temos a chance de ter publicado Magda, de Rafa Campos Rocha, pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia, novela gráfica de ficção científica de grande impacto visual, que trafega também pelas sendas do horror splatter, que é aquele que espirra sangue e vísceras para todos os lados.
Tudo começou quando cientistas brasileiros desenterraram uma rocha, que pensavam ser um meteorito. Ao partirem a pedra, libertaram um vírus poderoso do longínquo passado do planeta que, antes que se dessem conta, escapou do complexo e contaminou a sociedade, transformando pessoas em assassinos furiosos descerebrados literalmente sedentos de sangue humano. Rio de Janeiro e São Paulo se transformam em áreas de contenção, bombardeadas continuamente para evitar que a praga se alastre.
Contudo, não foi apenas o vírus que saiu daquele ovo. Ali também hibernava uma entidade que, ao ser despertada, invadiu o corpo de uma das cientistas - Magda - e com ela estabeleceu uma relação simbiótica. Magda passou a partilhar sua consciência com a invasora, a qual chama de Máquina, que lhe deu uma séria de poderes, mas cobra um preço alto por isso: a fome por sangue e carne humanos.
A história começa num campo de sobreviventes em algum lugar no interior do país, onde a praga dos transformados ainda não se estabeleceu. Os poucos transformados que ali aparecem tornam-se alimento de Magda, que mantém sua condição mutagênica em segredo dos membros da comunidade. Porém, a ausência de incidentes com os transformados chama atenção das forças armadas, que para lá enviam uma força de ocupação que pretende investigar o fenômeno. Instigada pela Máquina, Magda retorna para o local em que as coisas começaram, e o caminho será repleto de confrontos violentos, carnificina e desmembramentos.
Há ecos aqui de várias obras do cinema e da tv, como se pode perceber. A mais evidente é o seriado The walking dead, sucesso dos quadrinhos e da tv, que conta a história de um grupo de sobreviventes depois do apocalipse zumbi, mas também é forte a influência da franquia  de videogame e cinema Resident evil, e mais particularmente do filme de cinema Species  (A experiência, 2001). Apesar disso, Magda consegue sustentar independência autoral, na medida em que se apoia em cenários e maneirismos brasileiros (como não poderia deixar de ser), no estilo despojado, quase amador, dos traços do autor - que continuamente roubam do leitor a suspensão da incredibilidade - e o também evidente diálogo com "A metamorfose", de Franz Kafka: a máquina tem a aparência de uma barata enorme que muitas vezes assume a forma física da personagem.
Por trás dessa trama por si só subversiva, acontece o drama familiar entre Magda, sua amante e uma jovem que ambas têm como filha, e a velha falácia da maldição hereditária que vai dar tom humano à essa narrativa fantástica e grotesca.
O paulistano Rafa Campos Rocha é um artista experiente, professor de História da Arte, cenógrafo e artista plástico, publicou na PiauíFolha de S. Paulo, e Vice, entre outros. Magda é seu segundo álbum pela Quadrinhos na Cia; o primeiro foi Deus essa gostosa, de 2012.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dia das Mães Macabro (Mother´s Day, EUA, 1980)



A produtora “Troma”, especializada em filmes bagaceiros de horror, lançou em 1980 a divertida tranqueira “Dia das Mães Macabro” (Mother´s Day), dirigida por Charles Kaufman, irmão do fundador da produtora, Lloyd Kaufman.
Três amigas da época da escola, unidas por uma irmandade, se encontram para um passeio de diversão descompromissada. Jackie (Deborah Luce), Abbey (Nancy Hendrickson) e Trina (Tiana Pierce) decidem ir para um local isolado numa floresta, aproveitando um final de semana para sair de suas rotinas diárias e se afastar dos problemas, relembrando os bons momentos do passado na escola. Porém, logo a diversão se transforma em tensão e medo depois que são surpreendidas por dois irmãos psicopatas, Ike (Frederick Coffin, creditado como Holden McGuire) e Addley (Michael McCleery, creditado como Billy Ray McQuade). Eles moram com sua mãe insana e autoritária, interpretada por Beatrice Pons (creditada como Rose Ross), numa cabana no meio do mato.
Os irmãos lunáticos sequestram as garotas e iniciam uma série de torturas físicas e psicológicas, carregadas de violência e perversidade, para satisfazer, além de seus próprios desejos pessoais, também a mãe maluca, que se diverte com o sofrimento das moças capturadas.
É verdade que os primeiros 30 minutos do filme são arrastados, perdendo muito tempo com futilidades envolvendo as três moças, mas depois que elas são capturadas pelos psicopatas assassinos, as ações ganham intensidade com as torturas e violência, espalhando sangue. Além também do plano de fuga e vingança das moças contra seus algozes, que apesar dos inevitáveis clichês, gerou um ritmo tenso com as perseguições e confrontos sangrentos.
Tanto os atores que interpretaram os irmãos sádicos, quanto principalmente a veterana Rose Ross (na verdade, Beatrice Pons), como a mãe perversa, tiveram ótimas atuações, convencendo com seus personagens insanos e ameaçadores, contribuindo significativamente para tornar “Dia das Mães Macabro” mais um exemplo de filme divertido de horror bagaceiro.    
Curiosamente, a primeira vez que vi o filme foi em 1985 através de uma fita “alternativa” de vídeo VHS, um nome diferente na época para “pirata”, e a experiência registrou algumas cenas definitivamente em minha memória, como a decapitação do início e as mãos severamente dilaceradas de uma das garotas, por causa do atrito de uma corda.
Em 2010 tivemos uma refilmagem com o título nacional “Dominados Pelo Ódio”, dirigido por Darren Lynn Bousman e com Rebecca De Mornay no papel da mãe perversa.
(Juvenatrix – 05/04/18)


quinta-feira, 29 de março de 2018

A Criatura do Cemitério (Graveyard Shift, EUA / Japão, 1990)


O escritor Stephen King é recordista em histórias adaptadas para o cinema, num trabalho difícil de catalogação pela grande e variada quantidade. Infelizmente, muitas delas tiveram resultados ruins, mas por outro lado, também tivemos filmes bem divertidos como é o caso de “A Criatura do Cemitério” (Graveyard Shift, 1990), baseado em conto que foi publicado na antologia “Sombras da Noite”.
Com direção de Ralph S. Singleton (em seu único trabalho no cinema, sendo mais conhecido como produtor), a história se passa numa pequena cidade americana que tem uma importante atividade comercial com a produção de tecidos num moinho, supervisionada pelo arrogante Sr. Warwick (Stephen Macht), que contrata o recém-chegado John Hall (David Andrews), um pacato viúvo à procura de trabalho.
O que ele não sabe é que o moinho é uma fábrica velha infestada de ratos, vizinha de um cemitério macabro, e que esconde um porão cheio de ambientes abandonados. E as coisas se complicam quando ele e outros funcionários como seu par romântico, a mocinha Jane Wisconsky (Kelly Wolf), e os colegas Danson (Andrew Divoff), Brogan (Vic Polizos), Carmichael (Jimmy Woodard) e Ippeston (Robert Alan Beuth), são convidados para fazer um trabalho especial de limpeza no porão para ativar uma nova produção, e precisam enfrentar além dos ratos famintos, uma imensa criatura assassina que quer provar o sabor de suas carnes e sangue.
“A Criatura do Cemitério” é o exemplo típico de um filme bagaceiro divertido, com produção de baixo orçamento, e com um monstro mutante gosmento concebido pelos antigos efeitos especiais dos anos 80- 90 do século passado, sem a artificialidade da moderna computação gráfica. Em seu roteiro temos as esperadas mortes sangrentas, perseguições, claustrofobia, situações de tensão e confrontos, aliados com uma infestação de ratos, esqueletos e cadáveres de um cemitério. E, de brinde, a sua história básica é inspirada num conto do mestre Stephen King.
O cultuado ator Brad Dourif, conhecido pela voz do boneco assassino Chucky, além de diversos outros filmes de horror, faz o papel de Cleveland, um insano exterminador de ratos, obcecado com sua tarefa de eliminar os roedores. Sua atuação é ótima, sendo um dos destaques do elenco, juntamente com Stephen Macht, que faz o chefe Warwick, um sujeito desonesto e carrasco com os funcionários.
Os cenários são ótimos, mostrando de forma convincente uma fábrica têxtil suja, cheia de bagunça, equipamentos velhos e com dezenas de ratos se movimentando livremente pelos corredores, tubulações e orifícios, além de um porão úmido, depressivo, evidenciando abandono e sujeira, escondendo passagens ocultas para outros ambientes ainda mais obscuros.
Não faltam mortes violentas, brutais, dolorosas, com sangue, mutilações e vísceras espalhadas, em ataques ferozes de uma “criatura do cemitério” ávida em experimentar a carne humana dos invasores de seu território. Recomendado como um filme de horror simples e de diversão garantida.
(Juvenatrix – 28/03/18)

sábado, 24 de março de 2018

The Black Cat (Il Gatto Nero, Itália, 1989)



O cineasta Luigi Cozzi é um nome lembrado no cinema fantástico italiano, por seus filmes bagaceiros como “Starcrash” (1978), “Alien – O Monstro Assassino” (1980) e “Paganini Horror” (1989), entre outros. Também em 1989 ele dirigiu e escreveu o roteiro (sob o pseudônimo Lewis Coates), da tranqueira “The Black Cat” (Il Gatto Nero), que recebeu o título picareta alternativo internacional “Demons 6: De Profundis”.
Na história, o diretor de cinema Marc Ravenna (Urbano Barberini) e seu sócio, o roteirista Dan Grudzinski (Maurizio Fardo, não creditado), envolvem-se num projeto para a realização de um grande filme de horror, inspirados pela lenda da bruxa Levana, a terceira de três deusas da dor, também conhecida como “mãe das lágrimas”, uma criatura maligna saída das profundezas (“De Profundis”). Marc é casado com a atriz Anne Ravenna (Florence Guérin) e Dan é o namorado da atriz Nora (a inglesa Caroline Munro, um rosto conhecido por vários filmes bagaceiros divertidos do gênero fantástico como “Drácula no Mundo da Minissaia”, 1972, “No Coração da Terra”, 1976, e “O Maníaco”, 1980).
Para conseguir financiamento para o projeto, eles recorrem ao famoso produtor Leonard Levin (Brett Halsey), um arrogante homem de negócios que decide fazer o filme com seu dinheiro. Porém, ninguém esperava que a bruxa Levana se materializasse e por não querer a produção do filme, passasse a aterrorizar Anne com pesadelos perturbadores, além de espalhar sangue e mortes aos envolvidos direta ou indiretamente na realização do filme, como a babá Sara (Luisa Maneri) ou a estudiosa de ocultismo Esther Semerani (Karina Huff).
“The Black Cat” ou “Il Gatto Nero” tem inspiração no conto “O Gato Preto”, de Edgar Allan Poe, e o roteiro de Luigi Cozzi mostra uma história exagerada na fantasia, com exercícios de metalinguagem (filme dentro de filme) e cujo resultado final não empolga muito. Tudo é muito datado dos anos 80, desde a trilha sonora aos efeitos bagaceiros de raios coloridos saindo dos olhos e mãos da bruxa. Tem até bons momentos de cenas “gore”, com tripas saindo de televisão, corpo explodindo, sangue e vômitos espalhados, além da interessante caracterização da bruxa, numa época sem CGI. Mas, o sangue derramado é insuficiente para garantir um interesse maior, já que a história é bem fraca. 
Curiosamente, o cineasta independente gaúcho Felipe M Guerra lançou um documentário em 2016 sobre a obra de Luigi Cozzi, que recebeu o título “FantastiCozzi”, trazendo depoimentos do diretor e trechos de seus filmes.
Outras curiosidades incluem citações em diálogos sobre o poeta dos malditos “Baudelaire” e do diretor Dario Argento e seu filme mais cultuado, “Suspiria” (1977), sobre a bruxa “Mãe dos Suspiros”.
Ainda tem a participação não creditada do cineasta Michele Soavi (de “O Pássaro Sangrento”, 1987, “A Catedral”, 1989, e “Pelo Amor e Pela Morte”, 1994), fazendo o papel de um diretor de cinema.
A atriz Giada Cozzi fez o papel da adolescente Sybil, uma espécie de fada mirim que orienta a perseguida atriz Anne a combater o mal da bruxa Levana. Ela é filha do diretor Luigi e participou de alguns filmes dele em 1989.
(Juvenatrix – 23/03/18)

sábado, 17 de março de 2018

Ogroff / Mad Mutilator (França, 1993)



N. G. Mount (creditado como Norbert Georges Mount) é um francês que brincou algumas vezes de diretor, roteirista, produtor e ator de filmes bagaceiros de horror e ficção científica. Em 1993 ele lançou a porcaria colossal “Dinosaur From the Deep”, a qual já escrevi uma breve resenha alertando sobre sua ruindade extrema, apesar da curiosidade de ter no elenco o diretor cultuado Jean Rollin.
Porém, dez anos antes, ele havia lançado um filme mais bagaceiro ainda. Trata-se do bizarro “Ogroff”, que também recebeu o título inglês “Mad Mutilator”. Praticamente não tem roteiro, pois a história é uma bagunça sem qualquer coerência e nada funciona no filme. O elenco é péssimo, os efeitos são toscos, falsos e inconvincentes, a trilha sonora é irritante, não existe continuidade e a produção geral é extremamente amadora.
Trata-se de uma mistura de “slasher”, “zumbis” e “vampirismo”. Ogroff é um lenhador psicopata mascarado assassino que mora numa cabana isolada na floresta. Ele é interpretado pelo próprio N. G. Mount e utiliza um machado alternando com uma motosserra para chacinar suas vítimas. Os mortos também não querem permanecer enterrados e saem de suas covas rasas. E um vampiro interpretado pelo veterano Howard Vernon (de vários filmes de Jesus Franco) tem uma participação rápida.
É até difícil registrar a sinopse, pois como já mencionado, não tem história. O assassino que vive no meio do mato está sempre procurando aleatoriamente oportunidades para matar pessoas desavisadas que invadem seu território. Entre as vítimas, tem uma família que pára o carro numa estrada e um grupo de jovens que está se divertindo na floresta, jogando xadrez. Em paralelo, os mortos decidem sair de seus túmulos, entrando em confronto com o psicopata mascarado, e um vampiro resgata uma mocinha fugitiva das atrocidades, e decide experimentar seu sangue.
Tem até uma criança brutalmente esquartejada, além de braços e pernas decepados, mutilações, vísceras e sangue falso para todos os lados. Mas, tudo filmado de forma tão amadora que não funciona nem como filme bagaceiro. O diretor se inspirou claramente em “A Noite dos Mortos-Vivos”, “Sexta-Feira 13”, “O Massacre da Serra Elétrica” e outros similares, apenas validando sua condição de fã dessas obras importantes do cinema de horror. Mas, em relação ao seu filme, ele não conseguiu agregar nada ao gênero.
A trilha sonora é horrível e irritante, com sons da floresta, pássaros e água corrente, tudo tão exagerado que incomoda. Entre as inúmeras cenas patéticas, podemos citar algumas como o assassino se masturbando com um machado; o descarte de um carro jogado num rio (na verdade é um carrinho miniatura de brinquedo que afunda numa pia de água, numa cena hilária); uma luta pessimamente coreografada entre o assassino e seu machado, com outro homem e sua motosserra; a mocinha perseguida e lutando para não morrer de forma violenta, decidindo se relacionar sexualmente com o psicopata, dormindo com ele. Além dessas bizarrices, tem uma cena onde o assassino sai de dentro do porta-malas de um carro, de forma totalmente aleatória, e surpreende o motorista, que tem uma morte sangrenta.
Todos os personagens não têm nome, nem função no filme, eles surgem do nada apenas para morrer dolorosamente nas mãos do psicopata da floresta. Aliás, o assassino esquarteja suas vítimas para depois fornecer os restos dos cadáveres como alimento para zumbis que ele mantém no porão de sua cabana. Além disso, os mortos também saem de suas sepulturas aleatoriamente, apenas para caminhar errantes por uma estrada deserta no meio do bosque, e perseguir os vivos.
São 90 minutos de duração que parecem intermináveis, numa dificuldade enorme em agüentar assistir até o final. Ficaria bem melhor se fosse apenas um curta metragem de não mais de 15 minutos, compilando algumas cenas razoáveis de violência, mesmo que mal feitas, e com a inclusão de um roteiro.
“Ogroff” é um exemplo de filme bagaceiro que não diverte e apenas passa para o espectador a desconfortável sensação de perda de tempo depois de assistir. Não tem história e os efeitos são tão ruins que um grupo de estudantes adolescentes, igualmente sem dinheiro, consegue reproduzir provavelmente melhor. 
(Juvenatrix – 17/03/18)

A guerra de mundos

A guerra dos mundos (The war of the worlds), H. G. Wells. Ilustrações de Henrique Alvim Corrêa. Tradução de Thelma Médici Nóbrega. Editora Companhia das Letras/Objetiva, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016. (Edição original de 1898).

Em 2016 comemoram-se os 150 anos do nascimento do escritror britânico Herbert George Wells (1866-1946), mais conhecido com H. G. Wells, considerado o pai de ficção científica, autor de grandes clássicos do gênero, como A máquina do tempo (1895), O homem invisível (1897) e A ilha do Dr. Moreau (1896), entre muitos outros. Mas seu romance mais importante é, sem dúvida, A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1898), que recebeu das editoras Companhia das Letras/Objetiva em seu selo Suma das Letras, uma edição comemorativa extremamente bem cuidada, com tradução de Thelma Médici Nóbrega.
O luxuoso tratamento gráfico e editorial, a começar da capa dura com laminação fosca, relevo seco e papel pólen nas 312 páginas do miolo, revela sua natureza realmente especial no conteúdo, que traz um prefácio assinado por Braulio Tavares (parte dele pode ser lido no Blog da Cia das Letras), com um levantamento histórico e bibliográfico do autor, repleto de informações pitorescas, bem como a longa e igualmente instigante introdução de autoria do também britânico Brain Aldiss, outra sumidade do gênero. Mas não fica nisso. O grande diferencial da edição são os cerca de 30 desenhos de Henrique Alvim Corrêa, artista brasileiro que produziu estas artes para a primeira edição belga do romance, publicada em 1906. A edição brasileira não mantém a mesma qualidade na definição das imagens originais (que podem ser apreciadas em diversos saites na internet, basta pesquisar) mas, mesmo assim, é um privilégio poder apreciá-las na forma similar a que foram apresentadas originalmente aos leitores.
A história é bastante conhecida. Depois de esgotarem os recursos naturais de seu planeta natal, a civilização marciana empreende uma migração em massa para a Terra, com objetivo de aqui se estabelecer. Dotada de grande avanço científico e tecnológico, os invasores facilmente dominam o planeta e iniciam a transformação do ambiente para seus próprios padrões, eliminando o incômodo humano no processo. A narrativa parte do ponto de vista de um cidadão comum, morador de Winchester, na Inglaterra, que, no ano de 1894, ao lado de outros moradores locais, testemunha a aterrissagem de uma das primeiras espaçonaves marcianas, a partir de onde todo o horror começa.
Não se trata de uma história convencional dentro do subgênero das invasões que ela mesma inaugurou. É uma narrativa de horror, repleta de descrições vívidas e muita desesperança. Wells não estava ali propondo apenas uma obra de ficção para entreter adolescentes. Na época em que escreveu, esse objetivo não existia no gênero*. Tinha sim um alvo maduro e evidente, que era a política colonialista que o império britânico imprimia ao mundo de seu tempo, algo similar ao que fazem hoje os impérios neocoloniais, impondo sua presença em territórios estrangeiros à força de poder bélico superior. Do mesmo modo que as populações invadidas de hoje reagem com ações que o ocidente convencionou chamar de "terrorismo", em A guerra dos mundos a humanidade tenta, com seus parcos e insignificantes recursos, resistir à presença alienígena, sem qualquer efeito. A invasão é completa e irresistível, e a humanidade parece viver seus últimos dias. O que vai decretar o desfecho da história é inesperado, algo sob o qual nem homens nem marcianos detêm qualquer controle. Mais uma vez, Wells estava coberto de razão.
A edição ainda traz, em suas páginas finais, uma entrevista com o autor e o cineasta Orson Welles – cuja adaptação da obra para o rádio 1938 causou pânico nos EUA. Welles certamente ajudou a construir a fama que A guerra dos mundos tem hoje, que depois recebeu adaptações para diversas mídias, e pelos menos duas grandes produções cinematográficas em Hollywood, uma de 1953 e outra de 2005, cada qual com uma leitura própria da obra vista a partir do território americano. Na verdade, A guerra dos mundos já assume o formato de um universo compartilhado, pois há dezenas de obras que dão versões em cores locais à invasão marciana de Wells, com fatos ocorridos em paralelo ou na seuência, como na ótima noveleta "A vitória dos minúsculos", em que o escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo narra, em estilo machadiano, a chegada dos marcianos ao Rio de Janeiro, e na novela "Não estamos divertidos", na qual o escritor português João Manuel Barreiros conta uma missão de contra-ataque da Terra a colônia marciana na Lua, que sobreviveu ao holocausto.
Ou seja, ainda que seja um clássico obrigatório, nunca foi tão oportuno adquirir, ler e reler esta que é, sem dúvida, o que se pode chamar de uma edição definitiva para A guerra dos mundos.
Cesar Silva

* O conceito de literatura segmentada só viria a ser instalado na fc no período da normatização editorial das literaturas de gênero, promovida pelo editores pulp, nos anos 1930/1940, nos EUA, com objetivos unicamente comerciais.