sexta-feira, 17 de março de 2017

Uma Introdução aos Prêmios de Ficção Científica e Fantasia

Marcello Simão Branco

Quem disse que é só o cinema americano que tem o seu Oscar? Se a festa maior do cinema acontece no último domingo de fevereiro, a da ficção científica dos Estados Unidos acontece no primeiro domingo de setembro, com a entrega do Hugo. Assim como a Sétima Arte, a Arte do Amanhã também tem vários prêmios de diferentes matizes.
Se no cinema americano o Oscar foi instituído em um momento decisivo, em 1928, com o surgimento dos filmes falados, com relação à ficção científica americana deu-se um fenômeno semelhante.
Era o início dos anos 1950, e o gênero começava a ganhar ares industriais, passando do ambiente dos pulp magazines (revistas baratas vendidas em bancas de jornais e supermercados), para a das grandes editoras, que começavam a publicar regularmente os primeiros livros de ficção científica, aproveitando os autores mais populares dos anos 1940, na chamada Golden Age: Isaac Asimov (1920-1992), A.E. Van Vogt (1912-2000), Robert Heinlein (1907-1988) e Frederik Pohl (1919-2013).
É nesse clima de expansão comercial que surgem os primeiros prêmios voltados à ficção científica. O primeiro deles foi o International Fantasy Award (IFA), criado na Inglaterra, por um grupo de fãs e escritores em 1951. Escolhiam os vencedores alguns nomes importantes da ficção científica britânica. A primeira obra vencedora foi o romance Só a Terra Permanece (Earth Abides), do escritor americano George R. Stewart (1895-1980), um clássico.
Mas o IFA acabou superado por aquele que viria a ser o prêmio mais popular da ficção científica em todo o mundo, o Hugo. Ele foi criado em 1953 pelo fã Hal Linch e apresentado na Convenção Mundial de Ficção Científica daquele ano, na Filadélfia. O primeiro vencedor é outra obra clássica da ficção científica, O Homem Demolido (The Demolished Man), de Alfred Bester (1913-1987). A partir de 1955 na WorldCon realizada em Cleveland até o prêmio a ser entregue este ano em San José (California), o Hugo vem sendo entregue todos os anos aos melhores e mais populares da ficção científica em língua inglesa.
A exemplo do Oscar, o Hugo - com o troféu ao lado -, é entregue em várias categorias, tais como romance, novela, conto, filme, editor, ilustrador etc., refletindo mais tendências populares do que propriamente critérios artísticos. Também como o principal prêmio do cinema, seu nome deriva de uma homenagem carinhosa. Só que ao contrário do Oscar, que ninguém sabe realmente quem foi, o Hugo lembra a figura do editor Hugo Gernsback (1884-1967). Ele foi o sujeito que publicou a primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica em todo o mundo, Amazing Stories, a partir de 1926 e também cunhou o termo “science fiction”.
Os vencedores em cada categoria são escolhidos por eleição dos fãs, votando tanto aqueles que comparecem às WorldCons, tanto aqueles que mandam seus votos por correspondência. A partir do ano 2000 passou a ser aceito votos enviados pela Internet. Nos últimos anos o Hugo tem enfrentado polêmicas relacionadas a grupos ou escritores que dizem representar minorias e, por se sentirem prejudicados, adotam ações de lobby ou sabotagem para prejudicar o prêmio. Mesmo assim ele segue inabalável como o mais representativo do campo da FC.

Escritores
Se o Hugo é o prêmio dos fãs, surge em 1965 um prêmio mais rigoroso quanto à escolha dos vencedores. É o Prêmio Nebula, criado pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFFWA), uma associação de escritores norte-americanos. Votam no Nebula apenas os autores associados e as categorias são apenas literárias: Melhor romance, novela, noveleta, conto e, mais recentemente, roteiros de cinema e televisão. O primeiro vencedor do Nebula, foi um dos clássicos absolutos da ficção científica, Duna, de Frank Herbert (1920-1986), que também conquistou o Hugo no mesmo ano.
A partir de 1974 o Nebula passou a ser entregue também a um escritor com destacada carreira e influência dentro da ficção científica, o chamado Grande Mestre, rebatizado posteriormente como Damon Knight Memorial Grand Master, em homenagem ao escritor e crítico Damon Knight (1922-2002), também agraciado com o título em 2002. O primeiro homenageado foi Robert Heinlein (1907-1988). Arthur C. Clarke (1917-2008), Isaac Asimov e Ray Bradbury (1920-2012) também já ganharam. No total 33 autores já foram lembrados, e em 2017 o prêmio será entregue para Jane Yolen, autora ainda inédita no Brasil.  

Não demorou muito para a indústria editorial americana explorar o filão dos autores e obras vencedores do Hugo e Nebula. Livros que vencem estes prêmios têm edições extras, seus autores são mais bem pagos, editam-se várias antologias com os contos vencedores de ambos os prêmios. E, de mais a mais, não deixa de ser um critério objetivo de qualidade para o leitor na hora de escolher que livro de ficção científica levar para casa.
Sendo a sociedade americana extremamente competitiva e diversificada, não demorou em surgir outros prêmios, de características mais específicas. Entre eles, podemos citar, o World Fantasy Award, um equivalente do Hugo para o gênero fantasia; dois prêmios que levam o nome de John W. Campbell, Jr (1910-1961), o mais influente editor da história da FC dos EUA: o John Campbell Award, entregue ao autor revelação do ano, e o John Campbell Memorial Award, para o melhor romance de FC do ano nos EUA, agraciado pela Kansas Science Fiction and Fantasy Society; o prêmio entregue pela principal revista sobre ficção científica no mundo, a Locus, que leva o seu nome; além de dois prêmios britânicos tradicionais, entregue por associações de fãs e escritores: British Science Fiction e o British Fantasy.
E sem esquecer de citar os prêmios que recebem nomes de escritores consagrados, como Philip K. Dick, Arthur C. Clarke e Theodore Sturgeon. O primeiro para o melhor romance em formato pocket (bolso) publicado anualmente nos Estados Unidos; o segundo para o melhor romance publicado na Grã-Bretanha; e o terceiro para o melhor conto norte-americano do ano.

Cinema
Mas se estamos falando dos prêmios literários, é importante lembrar que existem também prêmios para o cinema de ficção científica, tal como o Saturno - com o troféu ao lado -, e o Avoriaz, este entregue no festival espanhol de cinema de mesmo nome. Mas a referência principal no cinema também é o Hugo. A categoria “Dramatic Presentation”, que representa séries de TV e filmes para o cinema é a mais concorrida e votada todos os anos.
Algumas obras seminais que mudaram o destino do gênero na TV e cinema ganharam o Hugo, tais como a série Além da Imaginação (por três anos), Jornada nas Estrelas (clássica, dois anos), 2001: Uma Odisséia no Espaço, Guerra nas Estrelas, Os Caçadores da Arca Perdida, Blade Runner, Truman Show e, no ano passado, Perdido em Marte, como longa-metragem, e um episódio da série Jessica Jones.
Mas não é só nos States e no Reino Unido que os prêmios de ficção científica proliferaram. Países como França, Austrália, Rússia, Itália, Espanha e Japão também entregam prêmios importantes no ambiente local de sua produção literária de ficção científica.

Brasil
Mas e nós? No Brasil, os prêmios de ficção científica também existem e vieram a refletir o desenvolvimento do gênero no fim dos anos 1980. Assim surgiu o Prêmio Nova, criado pelo fã e escritor Roberto de Sousa Causo em 1987. O objetivo foi homenagear os trabalhos de destaque em cada ano e incentivar a competição e o aprimoramento entre os escritores, editores e ilustradores de ficção científica no Brasil. Desta forma, o Nova mudava o número de categorias quase todos os anos e também o critério de votação, refletindo o que se produzia em termos de ficção científica brasileira. Embora restrito à comunidade de fãs, o Nova durou dez anos – até 1996 – é uma tradição em nossa história, além de ter legado um herdeiro nos dias atuais, o Prêmio Argos.
Entregue pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), entre 2000 e 2003, é escolhido pelo voto dos sócios foi o primeiro e único prêmio brasileiro de ficção científica, que remunerou os vencedores – em suas duas primeiras edições. Depois de ausente alguns anos retornou em 2012 e mantém-se ativo no momento.
Outros prêmios foram criados e descontinuados. Ainda nos anos 1990, o fanzine Megalon promoveu a entrega do Prêmio Tapìraì, entre 1992 e 1994, votado pelos leitores da publicação; também originário dos anos 1990, o Prêmio SBAF, da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, era concedido a uma pessoa em particular por serviços relevantes para o desenvolvimento da ficção científica no Brasil. Não era concedido  necessariamente todo ano, mas apenas quando seu júri entendia que alguém havia se destacado o suficiente. O último premiado foi o escritor Roberto de Sousa Causo, em 2003,  com seu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (1875-1950). De certa forma, anda que não oficialmente, este prêmio foi substituído pela seção de entrevista “Personalidade do Ano”, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, edição coordenada por Marcello Simão Branco e Cesar Silva, publicado entre 2004 e 2013.
 Alguns outros prêmios foram extemporâneos como o Prêmio Fantasticon, entregue apenas em 2011, durante o simpósio literário de mesmo nome; o “Melhores do Ano”, em votação realizada apenas na internet, entregue em 2010; o Codex de Ouro, de caráter bianual, também apurado no ambiente da internet. Sua última premiação foi em 2015.
Se no Brasil os prêmios não tem repercussão comercial e nem chegam a incentivar a carreira dos vencedores, tem sim sua importância, no sentido de fazer um registro do melhor da produção do gênero entre nós, ao longo dos anos. Além de revelar as tendências temáticas premiadas no gosto do leitor brasileiro e estimular uma pequena, mas renhida competição em algumas categorias já tradicionais, como ficção curta e fanzine. É pouco? Em termos de mercado profissional, sem dúvida. Mas em termos de instituição de uma tradição e reconhecimento do trabalho entre os brasileiros que produzem ficção científica e gêneros afins, é um serviço vital e que deve ser mantido e aperfeiçoado, e ampliado com a criação de mais prêmios.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sagas 5: Revolução

Sagas, Volume 5: Revolução,  Cesar Alcázar e Duda Falcão, orgs. 96 páginas. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2014.

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heroica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.
Cesar Silva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Maldição da Casa do Diabo (The Fall of the House of Usher, EUA, 1979)


O cultuado escritor americano Edgar Allan Poe (1809 / 1849) teve uma grande quantidade de seus contos transformados em filmes. “A Queda da Casa de Usher” é uma das histórias mais filmadas, com diversas versões. Entre as principais temos a produção francesa muda em preto e branco “La chute de la maison Usher”, dirigida por Jean Epstein em 1928, e a preciosidade “A Casa de Usher”, também conhecido por aqui como “O Solar Maldito” (1960), dirigido por Roger Corman e com o lendário Vincent Price. Porém, temos também outra versão, produzida especialmente para a televisão em 1979, fazendo parte do programa “Classics Illustrated”, sobre grandes obras literárias adaptadas para filmes, que recebeu o sonoro nome no Brasil de “A Maldição da Casa do Diabo” (The Fall of the House of Usher) quando lançado em vídeo VHS pela “Alvorada”.
Com direção de James L. Conway, essa versão televisiva apresentava o grande ator Martin Landau, dono de um currículo imenso com quase 180 filmes, no papel de Roderick Usher, um dos últimos remanescentes de uma antiga família proprietária de uma mansão gótica amaldiçoada, localizada numa região inóspita e evitada por todos chamada “Ravenshead Lake”, com um lago de águas podres, sem vida, cercado por uma floresta morta envolta em névoa espessa, transmitindo medo e insegurança constantes.
Com história ambientada em 1839, Roderick Usher é um homem portador de uma doença misteriosa hereditária e incurável que o torna extremamente sensível nos cinco sentidos, enfrentando dolorosas torturas por causa de ruídos e claridades, vivendo a maior parte do tempo enclausurado em seu quarto. Ele vive com sua irmã Madeleine (Dimitra Arliss), também terrivelmente doente e sofrendo de insanidade. A mansão centenária esconde segredos obscuros do passado da família Usher, envolvendo práticas de magia negra, bruxaria, idolatria satânica, rituais demoníacos, torturas e sacrifícios humanos, e suas imensas estruturas de pedra e madeira estão decadentes, mal conservadas, cheias de enormes rachaduras e em constante movimentação, ameaçando cair o tempo todo (daí o título do filme). Além deles, também é morador o mordomo Thaddeus (Ray Walston), que faz de tudo no mausoléu macabro, desde cozinhar até inspecionar as diversas salas e quartos imensos, com direito a passagens e túneis secretos para todos os lados. Seus antepassados sempre serviram a obscura família Usher, e ele sente-se preso ao sinistro lugar.
Para tentar ajudá-lo a impedir a queda da casa, Roderick chama seu único amigo de infância e que se formou em arquitetura e engenharia, Jonathan Cresswell (Robert Hays), que decide visitá-lo juntamente com sua recém esposa Jennifer (Charlene Tilton). Porém, após a chegada do casal as coisas sem complicam, a saúde dos irmãos amaldiçoados piora, a loucura se instaura no ambiente, passando uma atmosfera de horror, e mesmo com as tentativas de reforçar as estruturas da casa, suas paredes tremem assustadoramente, ameaçando a vida de todos.
Só pela história inspirada na obra de Edgar Allan Poe (mesmo já filmada várias vezes) e pela presença do ator Martin Landau, já vale a conferida desse filme que é especialmente indicado para os fãs do cinema de horror gótico, com o clima característico das produções inglesas da “Hammer”. Essa versão de “A Queda da Casa de Usher”, com esse título nacional oportunista envolvendo as palavras “maldição” e “diabo” no nome, não é tão famosa e cultuada quanto principalmente a versão da dupla dinâmica formada pelo cineasta Roger Corman e o ator Vincent Price. Porém, a diversão está garantida com todos os elementos típicos do horror gótico, e pela interessante história de loucura e maldição familiar. Com carruagens, floresta fantasmagórica, aldeões supersticiosos, mansão assombrada, ambientes escuros iluminados por velas, vultos ameaçadores ocultos nas sombras, gemidos agonizantes, mortos que levantam do caixão, instrumentos medievais de tortura usados para matar, e atmosfera sufocante do poder das trevas.  

“Todo ato abominável de degradação e horror, aconteceu aqui neste vil abismo do pecado” – Roderick Usher, sobre uma sala secreta para a prática de magia negra.

(Juvenatrix – 27/02/17)

Distrito Federal

Distrito Federal, Luiz Bras. Capa e ilustrações internas de Teodoro Adorno. 282 páginas. São Paulo: Patuá Editora, 2014.

Desde que surgiu para o cenário da ficção científica brasileira, no início dos anos 2000, Nelson de Oliveira tem se notabilizado pela ousadia editorial e criatividade literária. Tornou-se mesmo uma liderança intelectual em nosso campo.
Editou a série “Portal”, com contos de ficção científica de autores mais vinculados ao mainstream. Rendeu seis edições e o livro Todos os Portais: Realidades Expandidas, em 2012. Como parte desta intenção de aproximar os autores do mainstream da FC e, com isso, procurar dar mais visibilidade e reconhecimento, organizou para a Record a antologia Futuro Presente, em 2009.
Em termos ficcionais adotou os pseudônimos de Luiz Bras, como escritor, e Teo(doro) Adorno, como ilustrador, para criar novas personas junto à nossa FC, com uma outra identidade, principalmente como escritor. Sua maior realização ainda é a coletânea Paraíso Líquido (2010), notável ao aliar um estilo literário de qualidade incomum para a ficção científica brasileira com a elaboração de temas complexos e de fronteira da pesquisa científica. É, até o momento, o melhor livro brasileiro do gênero neste século XXI.
A despeito disso, Distrito Federal também é uma contribuição ímpar. Principalmente pela moldura adotada. Um livro escrito em forma de rapsódia é incomum não só para a nossa FC – no geral bem conservadora quanto ao estilo – no sentido de uma história, linear ou não que aborda no conjunto alguns assuntos predominantes e recorrentes, que vem e vão ao longo das páginas. Na literatura brasileira uma referência importante neste formato é Macunaíma (1928), de Mário e Andrade (1893-1945).
Em Distrito Federal lê-se um poema, depois outro, lê-se uma, duas, três páginas. E o leitor desfruta, antes de mais nada, de um prazer poético requintado e caprichado. Para quem aprecia, especialmente, poesia, pode-se saborear as estrofes e passagens de maneira quase aleatória. Sim é possível ler o livro de forma solta, sem preocupação com uma linha narrativa. Embora Bras não tenha na poesia a principal fonte de sua expressão literária, é talentoso o suficiente para conduzir a narrativa sem deixar a leitura dispersar. Pois é intenção de Bras conduzir o leitor por uma linha narrativa encadeada, ainda que rapsódica.
O assunto principal do livro, como o próprio título sutilmente sugere é a política. Mas o lado menos virtuoso. Estamos no Distrito Federal, capital da República Federativa do Brasil, e o tópico central do livro é a corrupção. Mal que assola o Brasil desde há muito tempo e que vem ganhando as manchetes de forma crescente e cotidiana nos últimos anos.
O romance rapsódico retrata os vários tipos de subterfúgios e ações para se desviar da lei e do interesse público, ao comentar, de forma indireta, alguns dos vários escândalos dos últimos anos, entre eles os anões do orçamento (1993) e o mensalão (2005).
À parte o tema da corrupção a obra é permeada com algumas reflexões sobre outro grande problema nacional, a dilapidação do nosso ecossistema. Para ilustrar o imaginário em torno da questão o Curupira e o Saci-Pererê assumem mesmo uma tarefa contra o corrupto civilizado, possuindo algumas pessoas como seus instrumentos de vingança.
Pois em Distrito Federal a corrupção é o mal maior, com desdobramentos sobre todos os outros assuntos. Para combatê-lo é preciso ir direto ao ponto, à margem das imperfeições das leis e da morosidade das regras institucionais. Pois neste ambiente civilizado viceja, na verdade, a injustiça e o privilégio. Mas o que é ir direto ao ponto? Simples, partir para a violência, “fazer justiça com as próprias mãos”. Os que defendem os meios legais são chamados de obtusos, cidadãos que tem uma postura entre o ingênuo e conformado e, por isso, cúmplices não intencionais da malversação dos recursos públicos por políticos desonestos e imorais. A violência é defendida e deflagrada com a morte violenta dos corruptos: esquartejamento e decapitação expostos publicamente é o recurso mais utilizado, e passa a ganhar adeptos com a criação de gangues de caçadores de corruptos pelo país afora. Num contexto como este viveríamos a falência do Estado democrático num caminho que levaria ou à anarquia ou a uma ditadura.
É claro que a obra não defende “o olho por olho, dente por dente”, ao realizar mais um expediente de provocação ao leitor e ao mesmo tempo quase que um panfleto de desabafo ante a uma corrupção mostrada como generalizada. Talvez o cerne subjacente da provocação, digamos assim, é uma postura hipócrita de muitos segmentos da sociedade, ao se condenar mais uns do que outros, e relativizar uns atos de corrupção, com outros, a depender, em boa medida, da ideologia de quem o pratica. Mesmo assim incomoda. Primeiro ao circunscrever a corrupção apenas no ambiente da política institucionalizada. Ora, os atos lesivos ao interesse público só se disseminam porque fazem parte de um substrato sociocultural. A corrupção antes de se manifestar na política institucionalizada é praticada em todos os segmentos (privados) da sociedade. Este é um argumento clássico dos estudos sociais brasileiros. Confundimos o interesse público com o privado. Mas o livro passa uma ideia de que o mal estaria na classe política; sem a corrupção no ambiente público, teríamos um país mais próspero, uma sociedade mais civilizada e, por consequência, com cidadãos mais éticos. Impressão certa ou não, não há como concordar com tal reducionismo. Esta solução nos colocaria num contexto policialesco de tons fascistas. Afinal, quem é o senhor do que é certo e o que é errado? Existiria alguém moralmente superior?
O fato é que o Brasil de 2015 para cá, a partir dos escândalos investigados pela Operação Lava Jato, tem depurado, de forma inédita, corruptos graúdos como nunca se viu, mas levou de roldão uma presidente da República honesta e eleita com mais de 54 milhões de votos. Em consequência, temos hoje uma democracia menos robusta e segura do ponto de vista de sua estabilidade.
Como dito, o contexto da rapsódia se alterna entre a crítica ao desmatamento ambiental e a crítica à corrupção política, com prevalência desta última, com uma ficção científica que se manifesta na linguagem tecnológica, pós-humana como se convencionou chamar de uns tempos para cá, neste século XXI. Afora o Distrito Federal como centro político, também temos o Distrito Federal como a representação de um videogame de realidade virtual ultrassofisticado que seria livre, porque gerenciado de forma quase sensiente por uma inteligência artificial. Este ambiente virtual vai, aos poucos, se sobrepondo ao mundo concreto, sem contudo transformar a realidade e seus problemas.
Pois nesta leve moldura de ficção especulativa, o tema da corrupção adquire uma importância algo desmedida, e talvez o livro fosse melhor em termos temáticos, se apresentasse em suas rapsódias outros problemas brasileiros igualmente graves. Exemplo maior seria a desigualdade social historicamente abjeta, praticamente ausente da obra.
O maior problema do Brasil não é a corrupção, mas a desigualdade social. É ela que, inclusive, reproduz as relações desiguais de poder, com os setores histórica e socialmente dominantes agindo em torno de seus interesses, ao explorar e desrespeitar o povo menos favorecido. Um país mais civilizado é mais justo e igualitário, mesmo num sistema de produção capitalista. Não só por existir um Estado mais republicano e socialmente presente, mas também por responder de forma mais equânime as demandas dos mais diferentes setores. Um Estado mais transparente e universalizado em seus objetivos e interesses. Ora, por consequência, menos corrupto. Uma sociedade desigual e com privilégio para poucos reproduz comportamentos mais autoritários e privatistas, menos comprometidos com o coletivo. Este contexto socioeconômico explica mais a corrupção do que a acusação tão senso comum de que existiria um déficit moral, uma “crise ética”. Sim, crise há, mas da reprodução de um modelo de relação Estado-sociedade de caráter patrimonialista, em que o interesse público serve, em grande medida, para reproduzir os privilégios de uma elite descomprometida com as necessidades da população mais carente e com os interesses nacionais.
Já se disse que quem se importa mais com a corrupção é uma certa corrente da classe média, de perfil ideológico mais conservador. Não enxerga que o problema é menos moral e mais político, no sentido de se praticar políticas públicas realmente inclusivas e democratizantes. A corrupção se transforma numa questão moral porque não há interesse em alterar esta sociedade desigual e cheia de privilégios para poucos. Afinal, quem foi que tomou as ruas do país para clamar por “moralidade pública”? Ora, ajudou sim a afastar a presidente Dilma Rousseff e fragilizar o seu partido –, de vinculação socialmente mais progressista, embora envolvido nos esquemas de corrupção com as empreiteiras –, mas tem se mostrado tolerante com os novos (velhos) políticos que assumiram o governo, tão ou mais envolvidos nos mesmos escândalos. Quem seriam os verdadeiros obtusos, então?
Distrito Federal foi escrito antes da Lava Jato, mas parece que vaticinou o ambiente conturbado e polarizado que estava por vir. Seja como for é um livro pertinente por trazer uma discussão tão polêmica e contemporânea no contexto da FC, e apresentar uma tentativa bem-sucedida do ponto de vista estético e literário. Acho que dificilmente teremos outra experiência de romance em rapsódia na FC brasileira. Algum outro autor se arrisca?

– Marcello Simão Branco

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Hora do Terror (Witchcraft 7: Judgement Hour, EUA, 1995)


Na época do mercado de vídeo VHS no Brasil foram lançadas muitas porcarias em nossas locadoras. Uma delas foi o sétimo filme de uma extensa série de tranqueiras cujo nome nos Estados Unidos é “Witchcraft”. Com o subtítulo original de “Judgement Hour”, aqui recebeu o título de “A Hora do Terror” (1995), um fato que apenas reforça a incrível a falta de criatividade dos responsáveis pela escolha dos nomes para distribuição no Brasil, contribuindo para confundir e dificultar um trabalho de catalogação ou a pesquisa dos colecionadores de filmes de horror. Cuidado para não se enganar com outro filme lançado por aqui com o mesmo nome, “The Midnight Hour” (1985).
Dirigido por Michael Paul Girard, que também fez a parte 9 da série (1997), temos uma história básica sobre vampirismo, totalmente inexpressiva, com clichês cansativos, previsibilidade, piadas idiotas, efeitos toscos e muitas cenas com mulheres peladas, que é a principal característica da imensa série. Poderíamos até interpretar que “Witchcraft” é uma série de filmes eróticos com elementos de horror.
Um obscuro empresário romeno tem a intenção de tomar o controle dos bancos de sangue nos Estados Unidos, enquanto belas mulheres são assassinadas apresentando estranhas marcas no pescoço. As misteriosas mortes despertam a atenção de um advogado, Will Spanner (David Byrnes) e de uma dupla de policiais de Los Angeles, os detetives Lutz (Alisa Christensen) e Garner (John Cragen), que partem para uma investigação, descobrindo as atividades de um antigo vampiro.
Nada se salva nesse filme, que é o exemplo típico de tranqueira descartável que não diverte e somente consegue depreciar ainda mais o gênero. O cinema de horror é tão maltratado com filmes ruins e a série “Witchcraft” contribui significativamente para denegrir essa imagem. O mais importante para uma chance mínima de sucesso num filme é a existência de um bom roteiro. Em “A Hora do Terror”, a história é péssima e os atores são inexpressivos. É apenas um filme com belas mulheres sem roupas. E talvez, citaríamos o vampiro transformado numa criatura tosca no ato final, devido exclusivamente aos efeitos extremamente bagaceiros.
Curiosamente, a série “Witchcraft” tem treze filmes produzidos pela “Vista Street Entertainment” e foi anunciado o lançamento de mais outros três. Alguns deles foram distribuídos pela “Troma”. O personagem Will Spanner aparece em quase todos eles, interpretado por vários atores diferentes. A parte 5 foi lançada em DVD no Brasil com o título “Dançando Com o Mal” (Witchcraft V: Dance With the Devil, 1993), que saiu em 2004 num DVD lançado em bancas de jornais e revistas num mesmo disco, junto com outro filme, “A Lenda da Múmia” (The Legend of the Mummy, 1997).
(Juvenatrix – 26/02/17)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Estranha Ficção Científica de Ursula K. Le Guin

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), Ursula K. Le Guin. Editora Aleph, São Paulo, 2014 (segunda edição). Tradução de Susana L. de Alexandria. Capa: Pedro Inoue.
                      
            Utilizei no título o adjetivo “estranha” porque o presente romance parece muito mais uma narrativa moderna de fantasia que de ficção científica. Em outras palavras, parece mais próximo de Tolkien, Lewis (Carrol ou C.S.), Rowling, Zimmer Bradley, que de Asimov, Van Vogt, Clarke ou Heinlein. Toda a logística da história passada no planeta Gethen segue um clima de fantasia, e o elemento FC se define mais pela origem do protagonista Genly Ai, como emissário da federação galática conhecida como Ekumen, da qual a Terra faz parte.
            Gethen é um mundo gelado, sem mamíferos, e os seres humanos que aí vivem, em diversos países, não possuem aparelhos voadores nem tecnologia avançada. Além disso possuem uma condição sexual insólita: na maior parte do tempo são assexuados e no restante podem adquirir um ou outro sexo, como hermafroditas. Esta fase mais curta é chamada de “kemmer”, o que tem alguma semelhança com o cio dos animais. Uma civilização de humanos-caracóis... detalhe que influencia toda a vida. Le Guin porém evita entrar em detalhes grosseiros ou lascivos, tecendo a narrativa com elegância e segurança. Ainda bem, porque o romance em questão não é de leitura facil.
            Realmente, não é fácil construir todo um universo ficcional, dar coerência à sua estrutura. No caso, a autora precisou criar a infra-estrutura de toda uma civilização planetária sem esquecer detalhes climáticos e geológicos, em descrições feitas com grande naturalidade. Nada mais irritante que certos autores de FC que se demoram em longas explicações didáticas dirigidas diretamente aos leitores, quebrando de todo a chamada “suspensão da incredulidade”. Numa boa narrativa de ficção científica e/ou fantasia, as coisas devem ir se explicando por si mesmas, à proporção que a trama se desenrola. E Ursula consegue esse efeito com facilidade.
            Vejamos alguns respigos da narrativa de Le Guin e a maneira como ela introduz os conceitos através do texto:
            “Quando falou, peguei-me acreditando que de fato iríamos chegar a Karhide, cruzando 1.300 quilômetros de montanha, ravina, fenda, vulcão, geleira, lençol de gelo, pântano congelado ou baía congelada, tudo desolado, sem abrigo e sem vida, sob as tempestades de inverno no meio de uma Era Glacial.” (cap. 15)
            Veja-se a habilidade com que ela define em poucas palavras todo o cenário que em sua jornada os dois personagens (Genly Ai e Estraven) têm de atravessar.
            “Durante o mês de Kus, vivi na costa leste, num Clã-Lar chamado Gorinhering, uma casa-cidade-forte-fazenda construída numa colina, acima das brumas eternas do Oceano Hodomin. Cerca de quinhentas pessoas viviam ali. Há quatro mil anos, eu teria encontrado seus ancestrais vivendo no mesmo lugar, no mesmo tipo de casa. Ao longo desses quatro milênios o motor elétrico foi desenvolvido, rádios e teares elétricos, veículos elétricos, maquinaria agrícola e outros equipamentos começaram a ser utilizados, e uma Idade da Máquina foi surgindo aos poucos, sem revolução industrial, sem revolução de espécie alguma.” (cap. 8)
            Este trecho, típico de uma narração feita sem precipitação (outro vício de tantos autores) justifica-se plenamente por se tratar de um relatório na primeira pessoa, e o autor fictício (isto é o protagonista-narrador) dirige-se à sua própria civilização, explicando fatos de uma civilização estranha. Mesmo assim, explica com uma grande naturalidade.
            Tudo o que Genly deseja é que aquele mundo entre para o Ekumen, ou seja a federação de povos galáticos. O Ekumen, porém, tem o critério de enviar um único representante, com a cara e a coragem, para negociar com os povos locais de cada mundo habitado por humanos e ainda exterior à federação. Uma nave fica esperando em órbita, que Genly a chame quando tiver certeza de que o acordo será feito. Mas em meio a intrigas políticas e ciúmes nacionais, Genly verá que a sua missão não é tão simples assim e que ele correrá perigo de vida, pois representa mudanças que trarão consequências imprevisíveis áqueles povos. Para início de conversa ele nem sequer é acreditado, sendo mesmo tido como um farsante. Uma sucessão de dissabores espera por ele, inclusive uma longa jornada por regiões gélidas e hostis à vida, em companhia de Estraven, único personagem a apoiá-lo na situação mais extrema.
            Como eu disse, não é uma leitura fácil, não é um livro linear (o protagonista-narrador inclusive intercala, ao seu próprio depoimento, o de Estraven e algumas lendas locais), ainda que Ursula K. Le Guin seja uma autora de fato categorizada. É livro para ler com paciência e atenção.
— Miguel Carqueija

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Demônio, O Rei das Trevas (Prime Evil, EUA, 1988)


Tranqueira americana que recebeu o manjado e totalmente sem criatividade título nacional “Demônio, O Rei das Trevas” (Prime Evil, 1988), esse filme obscuro dirigido por Roberta Findlay foi lançado no Brasil em VHS pela “Alvorada”, numa época que nossas locadoras de vídeo eram infestadas de inúmeras bagaceiras descartáveis realizadas por desconhecidos e com elencos inexpressivos.
Durante a peste negra que arrasou a humanidade no século XIV, uma ordem medieval de monges renegados da Igreja Católica, uma vez revoltados contra Deus, criou uma seita satânica que realizava rituais de sacrifícios humanos de parentes de sangue em troca de longevidade e bens materiais. O culto demoníaco se manteve por séculos e as ações se voltam para o tempo presente (final da década de 80, época de produção do filme) na cidade de Nova York, liderado pelo sinistro padre Thomas Seaton (William Beckwith).
Um dos membros da seita é George Parkman (Max Jacobs), que precisa manter seu pacto com o diabo de longevidade e riquezas, além de interesses pessoais no controle do poder no culto. Ele planeja oferecer em sacrifício sua neta Alexandra (Christine Moore), que trabalha num abrigo para jovens delinquentes. Porém, mortes violentas de pessoas próximas dela despertam a atenção da polícia, sob a investigação do detetive Dann Carr (Gary Warner), e também de seu noivo Bill King (Tim Gail), que tenta protegê-la da conspiração demoníaca. Em paralelo, uma jovem freira, Irmã Angela (Mavis Harris), se oferece para ajudar a igreja se infiltrando na seita para tentar destruí-la.
O filme é uma tranqueira produzida diretamente para o limbo dos esquecidos. O roteiro é ruim, com uma história óbvia de seita satânica e sacrifícios humanos, apostando unicamente em velhos clichês do gênero. Como todo filme de horror bagaceiro, temos elementos que merecem citação como a presença de belas mulheres nuas oferecidas ao “rei das trevas” (do patético título nacional), algumas mortes com discretas doses de sangue (numa época sem os efeitos vagabundos de computação gráfica dos tempos modernos), e ainda a aparição rápida do próprio demônio em efeitos extremamente toscos, e por isso garantindo algum divertimento rápido. Tem também aquela atmosfera característica dos saudosos anos 80 que inevitavelmente torna o filme datado. De resto, o excesso de clichês, os atores medíocres e a história desinteressante fazem de “Demônio, O Rei das Trevas” apenas mais um filme descartável, que curiosamente foi lançado por aqui na saudosa época do mercado de home vídeo.
(Juvenatrix – 19/02/17)