terça-feira, 12 de dezembro de 2017

30 ANOS DE UMA REUNIÃO ESPECIAL

Foi num sábado, 12 de dezembro de 1987. Aconteceu na capital paulista a reunião comemorativa dos dois anos do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC). Mas foi mais do que uma reunião. Foi uma verdadeira mini-convenção. A começar por sua duração. Ao contrário das reuniões mensais que aconteciam no período da manhã, a partir das nove horas, esta se estendeu até o fim da tarde, devido às muitas atividades programadas.
Na foto: André Carneiro e Jorge Luiz Calife
Em seus primórdios o CLFC paulista organizava suas reuniões mensais no último sábado de cada mês no mezanino da Livraria Paisagem, situada numa galeria da Avenida São Luís, Centro de São Paulo. O Benedito Máximo era o proprietário da livraria e sócio do clube, e importava todas as coleções portuguesas do gênero na época, como a Argonauta, Europa-América e Caminho, que abasteciam as coleções de FC dos fãs brasileiros, carentes de livros de FC publicados em nosso país. Neste local as reuniões duraram até o início dos anos 1990, quando a crise econômica levou a livraria à falência. Migrou depois para a sede do sindicato dos engenheiros rodoviários, no bairro do Bom Retiro, por iniciativa do sócio Ivan Carlos Regina. E vale lembrar que esta tradição de encontros mensais no fim do mês resiste até hoje. Só que numa pizzaria da família do sócio Humberto Fimiani.
Embora o CLFC já tivesse realizado uma bem sucedida Mostra de FC no prestigiado Sesc Pompéia em 1986, cuja intenção era divulgar o gênero para o público em geral, a reunião de dezembro de 1987 pode ser considerada como a primeira convenção do gênero realizada em São Paulo desde o renascimento da comunidade brasileira de FC no início dos anos 1980.
E não só pela duração do evento, mas principalmente por reunir de forma significativa as comunidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sim, os cariocas vieram em grande número ao evento. É uma estimativa, mas vieram pelo menos umas 20 pessoas. Somadas às 30 de São Paulo, o evento somou cerca de 50 fãs ao longo do dia. Foi certamente o encontro mais importante do CLFC desde sua fundação até então, e dos mais importantes também pelo que aconteceu.
Era um lindo sábado de sol, e antes mesmo das nove da manhã muitos fãs, especialmente os do Rio que haviam viajado de madrugada, se juntavam à porta de entrada da livraria. Foi organizada toda uma programação de atividades que, infelizmente, eu não tenho como narrar já que este evento não recebeu qualquer notícia ou reportagem nos fanzines da época, nem no do próprio clube, o Somnium.
Em todo caso lembro que após os cumprimentos e abertura do evento, houve uma palestra sobre um autor de FC, como era praxe na época. A memória pode estar errada, mas creio que o fã carioca José dos Santos Fernandes falou sobre a obra de Poul Anderson.
Depois, lá pelo fim da manhã houve uma pausa para o almoço, mas antes vários dos fãs paulistas e cariocas percorreram as ruas do Centro à procura de sebos. Foi nesta andança que pude conhecer vários dos fãs do Rio, se não estiver enganado, o Braulio Tavares, Fábio Fernandes, Gerson Lodi-Ribeiro, José dos Santos Fernandes, Miguel Carqueija, Rubenildo Piton de Barros, Sérgio Fonseca de Castro, entre outros. Os de São Paulo eu já conhecia há alguns meses, pois esta era a minha quarta reunião mensal, após me associar em maio, e ir à minha primeira reunião em setembro, onde conheci o Cesar Silva, R.C. Nascimento, Roberto de Sousa Causo, Luis Marcos da Fonseca, Ivo Luiz Heinz, Ivan Carlos Regina, Sérgio Roberto Lins da Costa, Fritz Peter Bendinelli, Caio Luiz Cardoso Sampaio, Maria Angela Calazans Bussolotti, e muitos outros que vieram depois.

Presenças ilustres
Após o almoço as atividades se intensificaram e contaram com a presença especial de três personagens importantes da FC no país: os escritores André Carneiro e Jorge Luiz Calife, e o editor Gumercindo Rocha Dorea. Lembro que cada um deles proferiu uma breve palestra sobre sua trajetória na FC brasileira. O Gumercindo rememorando sobre suas coleções de livros dos anos 1960 e os autores que revelou, e André e o Calife narrando suas trajetórias e preferências temáticas dentro do gênero – o primeiro com uma FC mais humanista e introspectiva, e o segundo com uma mais tecnológica, com forte apelo à exploração espacial. Um soft e outro hard. Os três receberam grande atenção da audiência que lotou a livraria, respondendo várias perguntas e autografando seus livros.
O fandom paulista já convivia com o André e o Gumercindo desde pouco depois da fundação do clube em dezembro de 1985, mas a vinda do Calife foi uma novidade, ainda mais porque, ele nunca foi de conviver com os fãs. Já para o fandom carioca, alguns conheciam o Calife, mas muitos tiveram o primeiro contato pessoal com duas personalidades históricas da FC brasileira dos anos 1960, o Gumercindo e o André.

Nova Geração
Em setembro de 1987 havia estreado nos EUA a nova série Jornada nas Estrelas: A Nova Geração (Star Trek: The Next Generation), e numa correspondência com o Calife ele me disse que havia recebido de um amigo dos EUA uma cópia VHS do episódio piloto “Encontro em Longínqua” (“Encounter at Fairpoint”). Também ativo no fandom da série, pedi a ele que me trouxesse uma cópia. Contei para os trekkers a novidade, e uma dezena deles apareceu na reunião só para pegar a fita que o Calife havia me passado. No fim das contas fiquei na reunião, e só depois fui ver o episódio que reconstruiu a franquia do seriado.
Foi um dia realmente ímpar para mim e que fortaleceu de forma definitiva meus laços com a FC. Conheci gente interessante e aprendi muito sobre a história do gênero no país. Além disso, levei para casa alguns livros, como o presenteado pelo José dos Santos Fernandes, a coletânea Outros Contos do País de Outubro, do Ray Bradbury – de uma das coleções do GRD –, e comprei dois: a ótima antologia Science Fiction: Autores Selecionados e o romance Irmão Assassino, do Fred Saberhagen, Coleção Argonauta no. 201, que alguém me disse que era “muito bom”. E também adquiri alguns fanzines. Enfim, saí de lá com a cabeça cheia de ideias para projetos, e talvez tenha sido neste dia que nasceu a ideia de editar um fanzine. Pois cerca de um ano depois surgia, em parceria com o amigo Renato Rosatti, o Megalon.
Como disse antes, lamento apenas que um evento tão rico e único como este não tenha recebido qualquer documentação. Mas muitos dos fãs que lá estiveram – hoje na casa dos 50 ou 60 anos – poderão se lembrar de outros detalhes. Um dia de pura ficção científica como poucas vezes vivi depois.
– Marcello Simão Branco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Mundo novo 2: Nova ordem, Chris Weitz

Mundo novo 2: Nova ordem (The new order), Chris Weitz. 266 páginas, tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte. 2015.

O odisseia dos adolescentes em um mundo devastado por uma praga continua neste que é o segundo volume da saga iniciada em Mundo novo, publicado em 2014 pela mesma editora Companhia das Letras em seu selo Seguinte, cuja resenha pode ser lida aqui.
Jefferson é um nipoamericano novaiorquino que, depois de testemunhar seu mundo desmoronar e seu irmão mais velho sucumbir à doença, se vê na obrigação de assumir a liderança de seu pequeno mas determinado grupo de sobreviventes. Acompanhado de alguns garotos e garotas bons de briga, além do estranho e cerebral Crânio, partem para a missão de identificar o vírus mortal e encontrar uma cura, sem a qual estão todos condenados. Mas, para isso, têm de atravessar uma Nova York anarquizada, dividida em feudos em guerra, além de monstros antropófagos de quatro e de duas pernas. O primeiro volume se encerra quando, depois de enfrentar o bando de psicopatas liderado pelo último adulto vivo – que foi justamente o criador do vírus – a cura é obtida a partir do sangue de Jeff. Quando uma solução redentora parece próxima, os garotos são surpreendidos por um helicóptero da marinha, repleto de soldados que os capturam e levam para o alto mar. É justamente aqui que se inicia Nova ordem.
Jefferson, Crânio, Donna – que depois de muitos desencontros tinha iniciado um ardente idílio com Jefferson – e os demais sobreviventes já imunizados contra a doença, são aprisionados num porta-aviões fundeado ao largo da costa da cidade. A nave é americana, mas parece estar sendo controlada por oficiais britânicos. Ali, os meninos são submetidos a longos e intermináveis interrogatórios, e logo percebem que o mundo não sofreu com o vírus tanto quanto os Estados Unidos. Ainda há muitos adultos na Europa e em outros continentes, também imunizados contra o vírus, mas a ordem mundial está perturbada e instável. Muitos países desapareceram completamente, mas os que subsistem travam uma espécie de guerra fria, disputando os recursos deixados pelos que se foram. Para facilitar o trabalho, os sobreviventes decidiram abandonar a população dos EUA a própria sorte, esperando até que todos os seus habitantes morram para, depois, tomar seus recursos sem resistência. A cura encontrada por Jefferson é, assim, um grande problema para os planos dos novos senhores do mundo.
Quando os jovens começam a se adaptar a nova realidade de suas vidas, depois que o comandante do porta-aviões relaxa um pouco as suas prisões, os garotos são contatados por um grupo secreto de soldados americanos que querem retomar o controle dos EUA e levar para lá a cura de Jefferson. Depois de um rápido entrevero, os jovens embarcam num helicóptero para voltar para o continente, mas um deles fica para trás: Donna não consegue embarcar e é levada para Londres, onde outra fase de interrogatórios a aguarda. Lá, seus tutores dizem-lhe que todos no helicóptero morreram, e ela terá de superar a tristeza da perda de seus amigos e de seu grande amor. Mas o que Donna não sabe é que tudo o que lhe disseram é mentira.
De volta à Nova York, agora com a ajuda de alguns mariners, Jefferson e seus companheiros iniciam uma campanha de coalizão entre as diversas tribos de sobreviventes, usando a cura como um argumento incontestável. A princípio, as coisa parecem progredir de forma satisfatória, apesar de muitos riscos pelos quais o grupo tem de se sujeitar, mas o que nem Jefferson, nem o inteligentíssimo Crânio imaginam é que eles estão sendo manipulados e que um perigo ainda maior que a doença pode ser liberado no planeta.
Chris Weitz mais uma vez demonstra que sabe muito mais além de dirigir filmes. Seu texto é fluido, de descrições detalhadas e precisas que ajudam a construir as impressionantes imagens de uma Nova York em ruínas. Além disso, usa criativamente diversos recursos estilísticos e gráficos para dar voz individual a cada um dos personagens. Assim como no primeiro volume, o autor narra os acontecimentos através de depoimentos dos personagens, como se estivessem escrevendo um diário pessoal. Cada um deles tem seu próprio estilo narrativo e usa um linguajar diferenciado, com gramática e jargões próprios. Além disso, cada um deles tem sua própria tipologia, que também revela características de suas personalidades. Neste livro, outros além de Jefferson e Donna participam com depoimentos próprios, como o homossexual Peter, valoroso membro da equipe original, a agressiva Kath da tribo de Uptown, que ainda não sabe se ama ou odeia Jefferson, e principalmente o cerebral Crânio, cujo texto sem pontuações e parágrafos reproduz seu confuso fluxo de pensamento. A variedade de tipos e etnias também contribui para fazer a história ser mais que um romance para adolescentes, com muitas discussões sobre ética e intolerância em pauta.
Mundo novo revela ainda que teremos pelo menos mais uma sequência, uma vez que a história não tem uma conclusão, com ganchos poderosos que deixam o leitor ansioso pelo que há de vir. E nestes tempos em que as mídias audiovisuais estão em alta, fazer um leitor ansiar pela publicação de um livro é, sem dúvida, um feito admirável.
Cesar Silva

Feroz simetria, Roberto de Sousa Causo

Feroz simetria, Roberto de Sousa Causo. Nova Coleção Fantástica nº4. Edições Hiperespaço, São Bernardo do Campo, 2004.

FÁBULA E FICÇÃO CIENTÍFICA
por Miguel Carqueija

Um livro mais do que surpreendente, na verdade um conto extenso e publicado originalmente no exterior, em inglês, como narra o autor em seus agradecimentos, e ornado com ilustrações de Jin Gruss (República Checa) e Petri Hiltimen (Finlândia).
O protagonista-narrador é um agente federal brasileiro, amigo de um tigre siberiano falante. Sim, porque nesse mundo de um incerto futuro os animais passaram a falar, tornados inteligentes por obra e graça de misteriosos alienígenas que sequer aparecem na história. Esses assim chamados Novos Bichos, por contrariarem poderosos interesses, são perseguidos em vários países porém protegidos no Brasil, e ajudam a combater o tráfico de animais e outras mazelas da civilização humana.
É preciso lamentar que o livro não tenha sido revisado, pois está repleto de erros de digitação que truncam o texto. A mensagem, porém, é muito válida, inclusive ao apontar a corrupção das autoridades, que abandonam a quem deveriam defender. Causo trabalha com a consciência do dever, mesmo se for à custa da própria vida. O diálogo com a corrupta agente Melinda — envolvida na emboscada contra Nadezhda, o tigre, é esclarecedor:

“Está cometendo um grande erro, amante dos animais. (...) Você não pode ficar no caminho das forças que estão em jogo agora. (...)
— (...) Se cometi um erro nas minhas escolhas foi há muito tempo atrás. Você não entendeu isso, e nem Ribeiro. Este é o seu engano.”

Para os aficcionados de uma ficção científica consciente e engajada é livro que recomendo e aplaudo.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

The Earth Dies Screaming (Inglaterra, 1964)


Um dos sub-gêneros mais divertidos do cinema bagaceiro de ficção científica dos anos 50 e 60 do século passado certamente foi aquele que abordava o tema de invasão alienígena. Existe uma quantidade imensa de filmes desse período com roteiros explorando o drama da humanidade tentando sobreviver ao enfrentar uma invasão de criaturas hostis vindas do espaço sideral com propósitos de conquista. Seja por causa dos valiosos recursos naturais ou simplesmente pelo domínio de uma raça inferior em tecnologia e força militar.
The Earth Dies Screaming” é uma produção inglesa com fotografia em preto e branco que tem um título original sonoro e sensacionalista, típico dos filmes bagaceiros do gênero fantástico daquele período, e que foi dirigida por um especialista na área. Terence Fisher foi o principal cineasta da lendária e cultuada produtora inglesa “Hammer”, sendo o responsável por diversos filmes clássicos que ficaram eternizados na história do gênero como “A Maldição de Frankenstein” (The Curse of Frankenstein, 1957) e “O Vampiro da Noite” (Horror of Dracula, 1958), ambos com os ícones Christopher Lee e Peter Cushing.
Escrito por Harry Spalding (creditado como Henry Cross), o filme é curto com apenas 62 minutos de duração, e mostra um vilarejo no interior da Inglaterra onde os moradores são mortos misteriosamente. Jeff Nolan (Willard Parker) é um piloto de testes americano em exercícios militares na Inglaterra e que ao aterrissar seu avião encontra uma cidade em silêncio e com várias pessoas mortas espalhadas pelo chão. Ao investigar o mistério, ele encontra num hotel outros sobreviventes, Quinn Taggart (Dennis Price) e Peggy Hatton (Virginia Field), além do casal formado por Edgar Otis (Thorley Walters) e a esposa Violet Courtland (Vanda Godsell), que se recuperavam de um acidente com seu carro.
O pequeno grupo de sobreviventes especula sobre o mistério ao redor e acham que a cidade sofreu um ataque de gás venenoso, fato que poderia explicar as mortes repentinas dos habitantes e sem traços aparentes de violência física. E então surge outro casal, dessa mais bem mais jovem, formado por Mel Brenard (David Spenser) e a mulher grávida Lorna (Anna Palk). Enquanto tentam entender a origem do caos, encontram robôs humanoides assustadores caminhando pelas ruas silenciosas com cadáveres espalhados, e são atacados pelos mortos que voltam a andar como zumbis escravos controlados pelos robôs, com seus olhos esbugalhados como bolas cinzas. Restando apenas lutar pela sobrevivência enquanto “A Terra Morre Gritando”...
O filme é uma produção tranqueira de baixíssimo orçamento abordando o tema da invasão alienígena, com uma atmosfera sinistra de mistério e a presença de robôs alienígenas toscos ao extremo, além de mortos caminhando novamente sobre a Terra. A especulação sobre uma guerra com gases venenosos nos remete à paranóia da guerra fria daquele conturbado período tenso que a humanidade vivia após a Segunda Guerra Mundial, com a ameaça de um holocausto nuclear causado pelas potências opostas da época, Estados Unidos e a antiga União Soviética.
O ritmo é arrastado em alguns momentos, mas isso não chega a prejudicar o entretenimento por causa da curta duração com pouco mais de uma hora de filme. Os robôs são bizarros e lentos, criação de uma tecnologia superior de alguma raça de outro planeta, e possuem poderes para matar facilmente os humanos apenas com um toque. Os zumbis são toscos, com seus olhos inertes, seguindo obedientes os comandos das máquinas. “The Earth Dies Screaming” é o cinema fantástico bagaceiro dos anos 60, divertido e indispensável para os apreciadores do gênero.
Curiosamente, algumas cenas do clássico “Aldeia dos Amaldiçoados” (1960) foram inseridas no início do filme antes dos créditos de abertura, a queda de um avião explodindo com o impacto e um carro se chocando contra um muro.
(Juvenatrix – 06/12/17)

sábado, 25 de novembro de 2017

Um Editor Apaixonado

A morte inesperada de Douglas Quinta Reis deixou todos passados, surpresos, e tristes. Havia estado com ele três dias antes na Devir conversando sobre as provas finais da antologia As Melhores Histórias Brasileiras de Horror e ele me recebeu com o bom humor de sempre. Ainda no dia seguinte falei com ele ao telefone para tirar algumas dúvidas sobre a concepção da capa, e ele estava com aquele ar de apressado por tantas tarefas, mas atento para que o trabalho ficasse o melhor possível.
A primeira lembrança que tenho dele é numa reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), acho que em 1988 ou 1989, ainda na Livraria Paisagem, que ficava numa galeria na Avenida São Luís, Centro de São Paulo. Eu estava no clube há pouco mais de um ano, e o Douglas aparecia de vez em quando. Após esta reunião lembro que todos os presentes foram para a livraria BookCentre, que ficava numa travessa da Rua 7 de Abril, onde ficamos extasiados com a grande quantidade de livros importados de FC. O Douglas, naquele dia, tinha ido retirar um exemplar da The Magazine of Fantasy & Science Fiction, como fazia todos os meses.
Embora gostasse de ler livros de ficção científica a maior paixão do Douglas era mesmo os quadrinhos, onde ele esteve à frente, como um dos fundadores da Devir, na publicação de um catálogo enorme e de grande qualidade de obras e artistas do primeiro nível, do Brasil e do exterior, além de abrir espaço para muitos jovens talentos. Na mesma Devir Douglas também publicou livros de role playing games (RPG), um dos pioneiros no Brasil, desta febre de jogos baseados em histórias que cresceu a partir dos anos 1990.
Depois de alguns anos retomei meu contato com o Douglas, através do Roberto de Sousa Causo, que estava à frente da coleção Pulsar de FC na Devir. Causo meu abriu as portas num momento em que eu estava terminando o doutorado e, com a bolsa expirada, vivia de bicos para pagar as contas. Ele e o Douglas me passaram vários pequenos trabalhos, onde pude, além de contar com um dinheirinho útil, aprender mais sobre o processo editorial. Desde revisão e digitação de livros até parecer para obras enviadas, sou grato a ambos por esta oportunidade. Logo depois eu e o Cesar Silva, que publicávamos o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica na Tarja Editorial, procuramos o Douglas para ver se poderíamos passar a publicá-lo na Devir. Foi fácil, pois o Douglas nos apoiou de forma entusiasmada, ciente do seu papel de incentivador, promotor da ficção científica brasileira.
Graças a ele eu e Cesar publicamos cinco edições do Anuário (2009 a 2013), e eu ainda tive a chance única de organizar a antologia Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política, em 2011, dentro do selo Pulsar. Incrível é que o Douglas não fazia restrições quanto ao tamanho do livro. Lembro que quando numa reunião lhe disse, preocupado, que imaginava que o livro inicialmente previsto para 300 páginas, passaria das 400, ele nem pestanejou: “Melhor assim, mais histórias para ler!”.
Devido a tantas atividades que misturavam edições de quadrinhos, RPG e literatura, além da parte administrativa na qual também atuava, o fato é que ele era uma pessoa muito ocupada, mas estava sempre disposto a ouvir novas ideias e acompanhar os projetos em andamento. E mesmo que a FC não fosse o carro-chefe da editora ele foi, provavelmente, o publisher brasileiro que esteve à frente da maior quantidade de coleções de FC&F ao mesmo tempo: Pulsar, para FC; Quimera, para Fantasia; Pentagrama, para o Horror; Enciclopédia Galáctica, para obras de não-ficção, e ainda Asas do Vento, para livrinhos de bolso de FC&F. É verdade que a maioria destas coleções não teve regularidade, devido, principalmente, a alguns problemas de reestruturação financeira pelo qual a editora passou no últimos anos, mas elas, ainda hoje, não foram oficialmente descontinuadas.
No plano pessoal o Douglas era humilde, avesso a badalações e não se envolvia nas polêmicas estéreis e, por vezes, destrutivas, nos círculos do fandom. Tinha mais o que fazer sendo um editor profissional e competente e, acima de tudo, um apaixonado pelos gêneros fantásticos, generoso e parceiro abriu portas e oportunidades para vários talentos que não teriam o mesmo espaço em outras editoras. Pois além de amparar vários projetos, permitiu aos autores participarem ativamente de todo o processo editorial, atuando em parceria com ele e os outros profissionais da Devir. Quem já trabalhou com outras editoras sabe que esta não é a praxe, e isso me fez também aprender mais no que diz respeito ao trabalho editorial.
Com a morte de Douglas Quinta Reis não sei quais rumos a Devir tomará, e espero que seja o melhor possível. Mas é provável que tenhamos fechado um ciclo, pois será difícil encontrar alguém tão dedicado e aberto a novas ideias como ele. Fará falta e o melhor que podemos fazer é prosseguir com a mesma postura com que ele nos abrigou e fez da Devir uma editora respeitada no mercado editorial. Vá em paz, companheiro.
Marcello Simão Branco

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Douglas Quinta Reis (1954-2017)

Se há uma coisa que não gosto de escrever são obituários, que adio o máximo que posso. Fica ainda mais difícil quando se trata de uma pessoa é próxima, como é o caso. Mas não posso me furtar a testemunhar aqui o passamento de Douglas Quinta Reis que, por muitos anos, foi o meu principal editor.
Reis foi um dos fundadores da Devir Livraria que, ao longo dos anos 1980, montou um esquema próprio de distribuição de revistas importadas, para o qual criou o boletim Recado Devir, fanzine que marcou uma geração de leitores. A Devir também ficou conhecida pela publicação de livros de RPG e card games, jogos que se tornaram grandes coqueluches dos anos 1990. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, a Devir também se envolveu com a publicação de quadrinhos de artistas nacionais e estrangeiros – sempre apresentados na forma de álbuns de luxo –, e com a literatura fantástica, para a qual mantinha selos exclusivos para ficção científica, horror e fantasia, de autores brasileiros e estrangeiros, clássicos e modernos. Reis era como um malabarista que mantém muitos pratos girando ao mesmo tempo na ponta de varetas, sem derrubar nenhum e sem perder a classe. O trabalho adiante de todas essas linhas editoriais ao longo dos 30 anos da Devir colaborou decisivamente para estabelecer no Brasil um segmento hoje muito disputado, o da chamada cultura geek.
Conheci Reis em 1995 quando me lancei a tarefa de realizar a primeira de quatro convenções anuais de horror, as HorrorCons. Logo de cara, e com toda boa vontade e gentileza que sempre o caracterizaram, Reis se aproximou do evento, patrocinou cartazes de divulgação e esteve presente em todas elas. Mais tarde, acolheu a publicação do meu Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual publicou cinco edições, sem falar em vários outros projetos dos quais participei direta e indiretamente. Neste momento estávamos envolvidos na preparação de uma antologia de contos de horror, que organizei ao lado de Marcello Simão Branco – que também foi meu parceiro nas HorrorCons e no Anuário –, e estávamos em contato quase diário. Foi um choque receber a notícia de sua morte repentina, vitimado por um ataque cardíaco fulminante na noite de 12 de outubro. Até porque Reis não tinha histórico algum, era jovem e ativo. Divertido, bem informado e sempre pronto para um bom papo - sem falar nas lições sobre edição que passava naturalmente durante as conversas - era um prazer compartilhar sua presença.
Seu corpo foi velado e enterrado no dia 14 de outubro no Cemitério da Quarta Parada, em São Paulo.
A Devir continua e torcemos por seu sucesso, mas por certo que não será a mesma sem a presença de Douglas Quinta Reis. Não há dúvida que testemunhamos aqui o fim de uma era.
Cesar Silva

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Pesadelo, um conto de Miguel Carqueija

PESADELO
Miguel Carqueija
            O Doutor Gumercindo Macieira Dantas chegara cansado e sem disposição sequer para assistir o Rambo que colocara em seu aparelho de vídeo. Só queria dormir. Tomou um banho cuidadoso, eliminando os vestígios de sangue nas unhas, esquentou um lanche rápido e consumiu-o entre bocejos. Uma fatia de empadão de galinha com café bem forte e algumas bolachas com queijo pareceram-lhe suficientes. A cama o esperava.
            Aproximou-se da cama, quase cambaleando. Puxa, como aquela chimpanzé dera trabalho! Sim, às vezes cansava muito. E a luz faltar justamente na hora dos elétrodos... isso é que dava ser pesquisador no Brasil.
            Não se conseguia nem receber animais saudáveis. A chimpanzé morrera depressa demais, em consequência da dor e dos choques elétricos. Dantas precisava que ela aguentasse mais uma semana, para complementar as suas observações. Agora teria de começar a briga para conseguir outro exemplar.
            Gumercindo bocejou longamente, já na cama. As pálpebras pesavam como chumbo. Ainda têm uns idiotas que rezam antes de dormir, pensou ele. E adormeceu completamente.
            Em pouco já roncava.
................................

            As luzes se acenderam de súbito.
            — Que é isso?
            Dantas já não estava em seu quarto. Estava numa estranha sala, cheia de luzes semelhantes às dos estúdios de televisão, direcionadas sobre ele, ofuscando-o. E ele próprio estava sentado numa cadeira de lenha e couro, preso com correias aos braços, às pernas e às costas de mesma. Remexeu-se, tentando se libertar. E então observou, horrorizado, os demais presentes.
            Ali estavam diversos chimpanzés, todos com batas brancas, vários cachorros, gatos, porquinhos da Índia, ratos brancos e coelhos. Os chimpánzés portavam diversos objetos médico-cirúrgicos, moviam-se e confabulavam pelo aposento; os demais animais, agrupados em círculo ao redor da cadeira, fitavam-no com olhos de acusação.
            — Que faço aqui? Quem me prendeu? Socorro!
            Um dos símios olhou bem para Dantas e falou:
            — Hoje, humano, é o dia do seu julgamento. Nós, a quem você torturou e matou, o temos finalmente em nossas mãos.
            Incrédulo, Dantas percebeu que se tratava da fêmea que fôra aparufasa a uma cruz de aço, tivera o ventre aberto e o filhote eletrocutado no útero e recebera ainda uma séire de torturas dantescas antes de morrer, e da qual ele se recordara quando estava para adormecer.
            — Só que não lhe injetaremos curare — prosseguiu a chimpanzé, segurando um escalpelo. — Queremos que se debata e muito.
            — Hein?
            Um cachorro branco, que tivera suas patas serradas em vida (agora elas lá estavam de volta, inteiras), começou a latir para ele, furiosamente.
            — Calma, Rex! — disse um chimpanzé macho, a quem Dantas extraíra os olhos — Hoje ele será castigado.
            Aproximou-se de Dantas, empunhando um alicate.
            — Vamos começar pelos dentes. Naturalmente não lhe daremos anestesia, pois você nunca nos deu. Amor com amor se paga.
            — Como vocês podem falar? O que querem de mim?
            Se aquilo era um pesadelo como é que ele não conseguia acordar, por mais que se agitasse? Debateu-se, gritou, esgoelou: em vão.
            Fizeram-no abrir a boca. O alicate pinçou um dente canino e puxou com força.
            Dantas urrou de dor.
            — Grita, carrasco! — disseram em uníssono as vozes dos antropoides.
            Arrancaram-lhe dente após dente. O sangue jorrava de sua boca. A fêmea aproximou-se então com o escalpelo:
            — Chega de gritos. Perturbam a nossa concentração. Temos de fazer observações cuidadosas.
            Aproximou o escalpelo da boca do médico.
            — Não, a língua não!!! — gritou Dantas, louco de dor e terror.
            — Vemos primeiro abrir a barriga e puxar os intestinos para fora, como ele fez comigo — disse outro macaco. — Deixe-o gritar mais um pouco, Chica.
            — Mas ele não deixou você gritar, Boris. Lembra-se de cono ele mutilou suas cordas vocais?
            — Isso é verdade. Mas assim mesmo... como é bom ouvi-lo gritar!
            — Monstros! — berrou dantas, em desespêro. — Como podem torturar assim um ser humano?
            Boris encarou-o.
            — Ah, é? Então como você pôde torturar tantos animais, sabendo que nem utilidade existe nisso... que a sua Medicina não precisa de torturas? Estrebucha, desgraçado! Que isso ainda é pouco...
            A faca penetrou no ventre de Gumercindo. Incrédulo, perplexo, ele assistiu o seu intestino ser desenrolado para fora como a estopa que um mágico puxasse da cartola.
            Dantas pôs-se a gritar como um possesso, como se nada mais lhe restasse fazer na vida.
            Chica adiantou-se.
            — Pois bem, Dantas: vou amputar sua língua, e depois estaremos prontos para experimentar o LD.50 em você.
            Pela mente atormentada d eDantas passou a imagem do LD-50: a “Dose Letal 50%”, isto é, a administração, por todos os meios possíveis (bucal, nasal, anal, dérmico, intravenoso, subcutâneo e ocular) de remédios, pesticidas e cosméticos... para testar sua toxidade.
            Algo que normalemente se faz com animais.
            — Não! Não, pelo amor de Deus! Não me façam essa infâmia!
            — Falou em Deus, doutor? Para que esse fingimento? Desde a faculdade você perdeu a fé em Deus. Você não acredita n’Ele!
            E aproximou o escalpêlo da boca de Dantas. Este prosseguia:
            — Não! Não! Nããão.....
.............................

            — Acorde, homem!
            — Para que tanto espetáculo?
            — Puxa, deve estar maluco!
            Gumercindo abriu os olhos, em sobressalto. Quase pulou da cama, porém foi contido. Lá estavam vários vizinhos seus, alguns de pijama.
            O Afonsino resumiu tudo:
            — Quase chamamos a polícia. Você estava gritando tanto que parecia possuído por mil diabos. Que foi que houve, homem? Encheu a cara ou o que?
            Rostos, rostos. Todos aborrecidos, incomodados pelo sono perturbado.
            Uma mulher observou:
            — Foi preciso arrombar a sua porta. Nunca vi um pesadelo tão forte! O senhor deve andar muito nervoso...
            — Puxa, desculpem-me... foi de fato horrível...
            — Mas afinal, homem, que foi que você sonhou de tão horrível? No fim você gritava: “Não me façam essa infâmia!”
            Dantas ia responder ao Afonsino mas um pensamento cruzou sua mente: dizer o que? Que no sonho estava sendo torturado pelos animais que normalmente ele torturava? Coisa que ninguém sabia em detalhes fora do laboratório?
            — Eu... eu... sonhei que estava nas mãos de assaltantes. Desses que fazem crueldades. Foi terrível, mas felizmente foi só um sonho!
            Não se atreveu a dizer: “Graças a Deus, foi só um sonho!”
            No dia seguinte, para espanto geral, o Dr. Dantas pediu demissão no hospital e, torturado pelos remorsos, abandonou a Medicina.
            Meses depois, com as ecvonomias que tinha, abriu uma sorveteria.


(27/9 a 20/10/1988)